Independência de Angola

Em 10 de Novembro de 1975, o Alto Comissário e Governador-Geral de Angola, almirante Leonel Cardoso, em nome do Governo Português, proclamou a independência de Angola, transferindo a soberania de Portugal,  não para um determinado movimento político, mas para o “Povo Angolano“, de forma efectiva a partir de 11 de Novembro de 1975.

Assim, no dia 11 de Novembro de 1975, cada um dos três movimentos de libertação proclamava a independência de Angola: Holden Roberto, da FNLA, proclamou a independência no Ambriz, Jonas Savimbi, da UNITA, proclamou a independência no Huambo e Agostinho Neto, presidente do MPLA proclamou em Luanda a independência de Angola, que passa a designar-se por República Popular de Angola, que só viria a ser reconhecida por Portugal em Fevereiro de 1976, sendo o Brasil o primeiro país a reconhecer o governo do MPLA.

Esta cerimónia teve lugar às 23 horas, 1 hora antes de terminar a data agendada para a independência, pois  a situação que se vivia era de grande incerteza. Para uma melhor compreensão do momento, o melhor é transcrever os comentários do coronel de cavalaria, Mendonça Júnior:

O fim da luta armada em Angola ficou consagrado no acordo celebrado em Alvor (Algarve) no final de Janeiro de 1975, Acordo pelo qual se estabeleceu um governo de transição tripartido – Portugal e os três movimentos de libertação angolanos – a quem foi incumbida a tarefa de gerir o país até à data da independência marcada para 11 de Novembro desse mesmo ano.

Durou pouco esse governo. A rivalidade entre as três formações angolanas, a ambição pelo mando absoluto e também a passividade da parte portuguesa conduziram rapidamente à sua falência total. Surgiram e multiplicaram-se, um pouco por todo o lado, casos de violência envolvendo as três partes angolanas, de tal modo que, no final de Agosto desse ano, o MPLA já era senhor absoluto da capital, de onde havia expulsado os representantes da UNITA e da FNLA.

A opinião generalizada que então se formou, nessa altura, tanto em Angola como fora, era de que, assim tendo procedido, o MPLA estava a preparar-se para, em 11 de Novembro, proclamar unilateralmente a independência, na expectativa de que a passividade da opinião pública, tanto interna como a externa, ajudasse a consagrar a ilegalidade.

Esqueceu-se, porém, Agostinho Neto, o então líder do MPLA, que com a descoberta do petróleo, acontecida anos antes, Angola passara a estar sob vigilância cerrada dos que, então como agora, controlam a produção e o comércio do crude à escala mundial. O resultado dessa falha de memória foi que, pouco tempo depois, Angola era, sem mais aquelas, invadida por uma força militar sul-africana procedente da Namíbia. A qual, depois de tomar, sucessivamente, as cidades do Lubango, Benguela e Lobito, avançou em direcção a Luanda. Onde, no entanto, não chegou a entrar, já que ao atingir as margens do rio Quanza (a cerca de 200 quilómetros da capital) foi mandada parar.

Por ordem de quem e porquê? Ocorre naturalmente perguntar?

Segundo fontes diplomáticas sul africanas desse tempo, Washington, que havia sugerido a invasão, fora quem formulara essa espécie de contra-ordem, acompanhada de um novo pedido: que os sul africanos transferissem parte do material bélico que transportavam para um outro grupo armado, que, constituído por guerrilheiros da FNLA, soldados zairenses disponibilizados por Mobutu e alguns voluntários portugueses, e sob o comando do Coronel Santos e Castro, se encontravam, nessa altura, a assediar Luanda pelo Norte, com o objectivo de a tomar, antes da data da proclamação da independência.

Uma vez na posse do material cedido pelos sul-africanos , que incluía três peças G5 – fabricadas na RSA e capazes de atingir objectivos localizados de até 50 Km – (chamados n’gola kiluando) Santos e Castro começou a preparar o ataque e a tomada de Luanda concebido nos seguintes termos: bombardear primeiro, utilizando as peças cedidas, com vista a estabelecer o pânico entre os defensores e a população da capital e, a seguir, realizar o assalto por terra. Plano que, uma vez concebido, foi divulgado via Kinshasa, com vista naturalmente a desmoralizar ainda mais o inimigo.

Sendo assim, no dia 6 de Novembro, depois de ter tomado a vila de Caxito, estabeleceu-se ele com os seus homens no Morro da Cal – uma pequena elevação de terreno situada a cerca de 30 Km de Luanda e dali fez três disparos dos G5 contra a capital. Dos quais um atingiu a pista do aeroporto, outro caiu na baía e o terceiro atingiu a refinaria de petróleo do Alto da Mulemba, provocando um incêndio, que acabou por ser dominado.

A estratégia resultou em pleno: o pânico previsto estabeleceu-se e generalizou-se, e, naturalmente começaram a circular boatos dos mais diversos, um dos quais concebido em termos de suscitar histeria colectiva e pavor. Eles os “fenelas” – assim o vulgo luandense chamava aos homens de Holden Roberto – vão entrar e vão degolar todos: pretos, brancos e mulatos.

Entretanto, as horas e os dias foram passando nessa terrível expectativa que se ia acentuando à medida que, um pouco por todo o lado na cidade, se ia escutando sons de disparos, resultantes do confronto que se ia verificando amiúde entre grupos de soldados que Santos e Castro ia mandando avançar em missões de sondagem do terreno e os militares que o MPLA tinha colocado fora do perímetro urbano da capital com missões de entreter o inimigo para deste modo possibilitar o envio de reforços.

Chegou-se finalmente a 11 de Novembro, dia marcado para a proclamação da independência, sem que no entanto se houvesse realizado o prometido assalto à capital. Mesmo assim, o pânico generalizado imperava e manteve-se sempre desde o nascer ao pôr do Sol desse dia histórico, durante o qual o único facto de registo sucedeu cerca das 16 horas, quando o alto-comissário representante da soberania portuguesa, um militar de alta patente português, General Silva Cardoso, mandou arrear a Bandeira das Quinas que encimava o velho palácio da cidade alta, dobrou-a e, com ela debaixo de um dos braços, tomou o caminho da Ilha de Luanda, onde o aguardava um navio de guerra, para o trazer de regresso definitivo a Portugal.

Deste modo inesperado e ademais ridículo e triste se concretizou o episódio final de quase cinco séculos de Histórial!!!

Entretanto, e porque a crença generalizada era de que os homens de Santos e Castro ainda poderiam atingir Luanda, a cerimónia oficial da proclamação da independência, marcada inicialmente para as 17 horas desse dia, foi sendo sucessivamente protelada e acabou por ter lugar só em plena noite e de uma forma algo improvisada.
Assim e apesar de todas as promessas e ameaças, os homens do coronel falharam: nem entraram na cidade nesse dia nem posteriormente realizaram qualquer tentativa nesse sentido, preferindo antes deixar os arredores da capital e empreender uma retirada em direcção à fronteira com o Zaire.

Porque esse falhanço, porque tudo isso? Importa perguntar?

A resposta ouvimos-la já aqui em Lisboa. Primeiro da boca do Coronel Santos e Castro, poucos meses antes da sua morte; e logo a seguir, por intermédio de alguns portugueses e angolanos, que foram seus companheiros nessa aventura. E tivemos-la confirmada, mais tarde, pelas mesmas fontes diplomáticas sul-africanas atrás referidas. Ei-la, pois, reproduzida de forma sintética mas clara.


Canhão G-5 (foto Net)

Na madrugada do dia 9 de Novembro e cumprindo o plano que estabelecera, o Coronel Santos e Castro dirigiu-se à tenda onde se albergava Holden Roberto, o Presidente da FLNA, para lhe comunicar que ia imediatamente pôr a funcionar os G5 e iniciar o bombardeamento da capital. E foi então informado que estava impossibilitado de o fazer, já que, um pouco antes, os artilheiros sul-africanos haviam desmantelado as culatras dos G5, tornando-os inoperacionais, embarcando a seguir num helicóptero que os transportou para bordo de um navio do seu país que os aguardava ao largo do porto de Ambriz. E isso no cumprimento de uma exigência imposta de Washington a Pretória.

Dito isto, só resta a lógica conclusão final. Não foram pois os homens do MPLA que impossibilitaram a tomada de Luanda pelas forças comandadas pelo Coronel Santos e Castro.

Nada disso. A responsabilidade do insucesso cabe a outro. E quem é ele? Resposta é inequívoca. Esse mesmo que, desde sempre, se notabilizou por promover guerras e fazer delas um negócio altamente lucrativo para si próprio: Os Estados Unidos da América.

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22 pensamentos em “Independência de Angola

  1. Angola, Linda . As tristezas foram muitas, de colegas mortos, feridos episódios que se passaram maus. Mas ao mesmo tempo, Angola Bonita Angola Criadora, com todo o futuro, quase 50 anos se passaram, ainda não a esqueci, Não tenho, mas se tivesse dinheiro, era a viagem que fazia sem hesitar. Luanda, Nabuangongo, Zala, Henrique de Carvalho, Portugalia. Luso, Teixera de Sousa, Cavungo, Camanufafe. Nova Lisboa, Cela.
    64 poderia ter lá ficado, pela profissão, mas já tinha lido algo sobre a Argélia.
    Não sabia que mais cedo ou mais tarde se dava, que foi a debandada.
    Enfim sonho

  2. mesmo com muita coisa aida por se contar na historia de angola esta tudo posto no lugar as coisas estao bem delineadas as coisas estao bem esplicidas
    e eu consegui entender tudo.

  3. gostei a imdependencia é muito importante para um pais por que pode tomar suas dessizões sosinhos sem precisar de outro pais.

  4. Melissa….. você existe mesmo??? Cara, não é “escreve ruim” é escreve mal”…e nem é verdade isso…devia saber que não é de um autor brasileiro… que a linguagem muda completamente…..e devia saber mais, pra alguém que disse que outro alguém “escreve ruim” você tinha a obrigação de saber que “país” tem acento agudo e devia saber também que “decisões” e “sozinhos” está escrito absurdamente errado.

  5. JOMACAPA
    Há erros históricos imperdoáveis na narrativa que acabei de lêr sobre a “indepêndência de angola” e que convinha corrigir. Não foi o “nomeado” General Silva Cardoso que presidiu ao arrear da bandeira nacional na “Fortaleza de Luanda” no dia 11NOV1975. Este General abandonou Angola meses antes e quem recebeu, com toda a dignidade a bandeira verde-rubra portuguesa foi, isso sim, o Almirante Leonel Cardoso então Comandante Naval de Angola e, em acumulação, Alto-Comissário para Angola.
    A retirada do Almirante e da pequena força que o acompanhava para as INIC (Instalações Navais da Ilha do Cabo) onde se encontravam os últimos navios portugueses, foi acompanhada em toda a extenção da ilha, pela população de Luanda, com palmas e com lágrimas, especialmete dos mais velhos que, acenando com lenços, diziam em voz alta: “Adeus portugueses, nunca mais vos voltamos a ver!” (Há 3 filmes em “super 8″ que o comprovam).
    A força de fuzileiros que protegeu este último “acto histórico” foi a Companhia de Fuzileiros Nº 12 comandada pelo seu “Oficial Imediato” o então Segundo-Tenente FZE Carvalho Passeira que, após a passagem do almirante, mandou retrair e embarcar as suas forças nos navios tendo sido o último português a embarcar e consequentemente a deixar Angola.

  6. Mas esta é uma estorieta nunca ouvida…. então os americanos tiveram peninha dos angolanos, ainda por cima comunistas e estragaram os brinquedos!!! Isso não se faz, ora bolas!!!
    Então os piedosos dos americanos arrependeram-se da sua bondade depois, foi? Ou há mais estórias da carochinha para contar?

  7. Faltou nesta história a entrada em cena das forças revolucionarias cubanas com equipamento moderno horas antes do confronto, em especial os BM-21 (orgãos de stalin) que sairam do porto de Luanda para o teatro de operações (Quifangondo) que colocaram em debandada toda a tropa combinada zairenses, “fenelas” e FPL de Santos e Castro.

  8. O ultimo Navio de guerra a deixar a ilha de luanda foi a N.R.P Comandante Hermenegildo Capelo Comandada pelo Capitão de Fragata Filipe Mendes Quinto da qual eu Mar.FZ Gonçalves posso testemunhar era o Marinheiro do Detalhe.a ultima Bandeira Portuguesa foi arriada no Forte Luanda as 17horas.

  9. Angola é um país da África Austral que foi colonisada durante 300 anos pelos portugueses,
    e tornou-se independente em 11 de novembro de 1975.
    e quem proclamou a independecia foi o doutor António Agustinho Neto pelas 00:00 na actual praça do 1º de Maio em luanda.
    portantanto gostaria de compartiliar estas ideas bonitas com os meus compatriotas angolanos

  10. Servi em Angola no Agrupamento de Engenharia de Angola A.E.A / na Companhia de Equipamento Mecânica e Manutenção CEMM, de 1065 a 1968, entretanto voltei para angola até 1975, onde vivi. Hoje sinto saudades dessa terra.
    Gostaria de encontrar camaradas que serviram nessa unidade durante esse tempo, 65/68 no AEA. (Companhias de Engenharia, de Construções, e Companhia de Equipamentos.
    1º Cabo 342/65 Custódio Gomes.

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