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A guerra – cenas do quotidiano

Do nosso companheiro Ramiro Carreiro, recebi estas duas fotos que retratam tarefas que diarimente faziam parte da nossa vida na guerra em Angola.

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O içar e o arriar da bandeira nacional, cerimónias cumpridas diariamente, a primeira por volta das 9 horas, a segunda ao por do sol. O Carreiro está a operar a bandeira e os outros elementos que ele identifica são o furriel Leitão e os cabos Moniz, Araujo e Pereira. O corneteiro não consegue identificar. O aquartelamento, digo eu, é no Luvo.

A segunda foto é deveras singular e representa uma actividade que nos primeiros meses da comissão tinhamos que desempenhar, recolha de água para abastecimento, que prova as condições precárias que tivemos que enfrentar nas bases tácticas do planalto do Luaia. Aqui a colheita da água era levada a cabo no leito de um riacho atraves de uma lata para dentro do autotanque. Reconheço-me nesta foto e pensava que esta tarefa da recolha fosse feita por motor de água, mas era mais artesanal. Quanto à qualidade da mesma é fácil adivinhar, talvez por isso é que a bebida predilecta fosse a cerveja (cuca ou nocal).

Um abraço para todos.

Mário Mendes

 


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Luvo em 1966

Carta aberta aos  companheiros da C.Caç. 3413

Este blog teve como principal intenção evocar e recordar o tempo que passamos em Angola no âmbito da guerra colonial que enfrentamos nos anos de 1971 a 1973. Como principal dinamizador desta publicação tenho contribuído para trazer à nossa memória coletiva aqueles tempos difíceis que serviram para cimentar amizades que ainda hoje perduram.

O blog tem estado com muito pouca movimentação, não por os assuntos se terem esgotado da minha parte, embora como é óbvio se tornem mais escassos, mas porque sempre disse que eu não era o “dono” desta humilde publicação e por isso esperava os contributos de quem quisesse aportar recordações e histórias de episódios que o tempo não apaga.

Assim, faço mais uma vez um apelo a todos os que queiram dinamizar este espaço, porque recordar é viver!

Neste âmbito, foi com agrado que recebi o mail que abaixo se transcreve:

Caro Mário Mendes,
Votos de boa saúde.
Talvez mais que eu, o Mário Mendes, deve sentir a ausência de novas contribuições nas páginas do Blogue da cc 3413, talvez, admito eu, tal se possa dever a uma  falta de assuntos, dos leitores/colaboradores do Blogue da C.C. 3413,  para nos trazer à memória ocorrências que passámos no decorrer das nossas comissões militares, em particular nas zonas que foram partilhadas, em anos diferentes pela CCaç. 3413 e pelo Bart., 1852, coloco à sua consideração a publicação duma ocorrência que eu e um grupo de veteranos do 1852, que se encontra  com alguma regularidade, pela hora do almoço com esse fim e o de recordar coisas daqueles tempos. No convívio do passado dia 17 do corrente mês, com a presença de oito antigos  “ocupantes” da Mamarrosa, da Magina e do Luvo, foi tema da conversa a “história do crocodilo do Luvo”, que passo transcrever:
 

Naquele tempo, a Companhia 1406 que estava no Luvo, abastecia-se da água para o aquartelamento no Rio Luvo, um pouco abaixo da ponte que separava/marcava as fronteiras dos territórios. Em determinado dia, os camaradas com essa tarefa, aperceberam-se  do mergulho de um crocodilo, cujos vestígios do seu “habitat” eram evidentes nas margens daquele rio, no seguimento dessa constatação e da repetição da fuga do animal quase sempre que os camaradas ali se dirigiam, o pessoal especializado na matéria, armadilhou a zona para garantir  alguma segurança no decorrer das suas tarefas. Passados alguns dias, o trabalho deu os seus frutos; quando se ouviu o rebentamento do engenho montado já se imaginava o que poderia ter sucedido. Isso veio a ser confirmado no local, lá estava, de patas para o ar, com alguns estilhaços e sem uma das patas dianteiras, o animal que consta da imagem e que media entre quatro e cinco metros. 

A história foi recordado pelo veterano Amadeu Alves, que figura na outra imagem, junto do memorial da 1406, companhia que estava no Luvo e à qual pertencia, a foto com o crocodilo também foi obtida pelo mesmo camarada.
Aquele abraço e…
Saudações,
Horácio Marcelino
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Boas Festas

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Mais um ano chega ao fim, é vê-los passar, mas o que importa é que a saúde não nos falte para podermos celebrar mais alguns. Recordando o ano de 1972, aqui está um postal que um nosso companheiro africano da C.Caç. 3413 me dedicou.

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Nesta quadra festiva lembramo-nos também dos elementos da nossa companhia que já partiram, alguns são já do nosso conhecimento, mas há dias soube por intermédio de um primo que o Eduardo Mota Teixeira, açoriano da ilha de São Miguel também já tinha deixado este mundo. No Luvo ele exerceu as funções de padeiro e portanto todos comemos do pão que ele amassou. Descansa em paz amigo. Morava no Nordeste, onde está também outro companheiro, o Carlos Cabral Pimentel que aparece nesta foto (1º de pé a contar da esquerda).

futebol_mamarrosaJá passaram muitos anos, é-me difícil identificar os restantes, mas entre todos certamente vamos conseguir saber quem são.

O dia 22 de Dezembro de 1971, foi também muito triste porque faleceu o Emanuel Firmino Nunes Aguiar, o “Maria”, um madeirense residente em Angola que integrou o contingente local da nossa companhia. Aqui vai uma foto para recordar. É o que está com chapéu.

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A todos um Bom Natal e um próspero  Ano Novo.

Mário Mendes


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Recordar é Viver!

Estas duas fotos foram-me enviadas pelo nosso companheiro de armas Ramiro Carreiro, um açoriano radicado no Canadá, que nos fazem reviver o nosso passado militar em terras africanas, integrantes da C.Caç. 3413 (Angola, 1971-1973).

Metralhadora ligeira HK21, uma adaptação da espingarda automática G3 mas com cano reforçado e alimentada por cinta de munições. Se a G3 já era pesada, os que tinham esta como “namorada” como o caso do Carreiro, tinham que possuir um bom porte atlético.

Nesta foto a identificação a começar da esquerda que o Carreiro faz é a seguinte: 1-? 2-Moreira, 3-Quadros, 4-Carreiro, 5-?(transmissões), 6-Pimentel, 7?(padeiro do Luvo), 8?(cozinheiro), 9-?(mecânico).

Esta foto ao que parece foi tirada na porta do bar do aquartelamento do Luvo, numa rodada de cervejas Nocal. Quem paga a próxima? Quanto às outras ? vou dar o meu contributo, esperando que outros completem o puzzle: 1-Grilo, 5-Vítor Tomás (transmissões).

Boa Páscoa para todos

Mário Mendes


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8 de Abril de 1972

Faz hoje 42 anos que partimos de Luanda rumo ao norte de Angola. A companhia estava agora unida depois de alguns meses a deambular em vários locais do Uíge com grupos de combate em Vale do Loge, Quimaria, Tôto, Cleópatra, Cecília. O destino era a Mamarrosa, na província do Zaire, mas para lá chegar era preciso percorrer cerca de 550 km, dois dias de viagem.

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A primeira parte do percurso terminou em Ambrizete depois de passar por Cacuaco, Barra do Dande e Ambriz. Aqui terminou também a estrada alcatroada que deu lugar à picada rumo a Tomboco, São Salvador e finalmente Mamarrosa onde chegamos na tarde do dia 9 de Abril de 1972.

Depois de 8 meses sem sítio certo a Mamarrosa e o Luvo seriam agora as nossas “residências” durante o resto da comissão.

Nas duas fotos que se seguem pode-se apreciar a vista geral do aquartelamento.

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Ficamos bem impressionados com o local e as instalações, fomos muito bem recebidos pela C.Caç. 2676, uma companhia formada nos Açores como a nossa, mas não fomos “praxados” porque já não éramos maçaricos, facto que decepcionou a companhia que fomos render.

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Foto da avenida principal da Mamarrosa vista da zona da entrada para o cimo onde se situava o comando.

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Vista geral a partir do local mais elevado.

Mário Mendes


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Memórias da Mamarrosa (I)

A cerca de 6 km a Sul do Luvo, na fronteira do norte de Angola com a RD Congo situa-se a fazenda Mamarrosa onde se explorava o cultivo do café e foi nestes locais que assentamos arraiais desde Abril de 1972 a Setembro de 1973. A nossa companhia C.Caç. 3413 foi render a C.Caç. 2676 que ali chegou em 1970, curiosamente ambas formadas no BII 17, Angra do Heroísmo, ilha Terceira, Açores.

Fomos muito bem recebidos pela C.Caç. 2676, mas houve uma certa decepção porque julgavam que iam receber uns “maçaricos” acabadinhos de chegar da metrópole e verificaram que já tínhamos baptismo de fogo, 8 meses de comissão que as cores dos camuflados bem refletiam. É que nestas rendições havia sempre umas praxes determinadas pelo contraste de sentimentos entre a alegria dos que partiam com o dever cumprido e a timidez dos que chegavam e enfrentavam um destino desconhecido.

Para recordar esses tempos da década de 70, aqui se mostram umas fotos da Mamarrosa de então:

              Instalação do gerador de corrente eléctrica (1º plano)

Cozinha

Messe dos Sargentos (em remodelação). Era de madeira e foi graças à C.Caç. 2676 que os sargentos que lhes sucederam puderam usufruir de melhores condições de vida. Em nome da C.Caç. 3413, bem HAJAM.

Refeitório das praças. Já não o conhecemos assim, a madeira deu lugar ao tijolo e cimento. Outra obra da C.Caç. 2676 que melhorou a qualidade de vida de quem veio a seguir. Mais um OBRIGADO.

Uma caserna. Também aqui houve melhoramentos que saltam à vista.

Instalação onde se guardavam os géneros alimentícios.

Nota: Fotos de Carlos Santos (ex-furriel C.Caç. 2676). Há mais fotos a mostrar nos próximos capítulos.

Mário Mendes


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Deitar a “luva” ao LUVO

Faz hoje 41 anos que a FNLA (Frente Nacional para a Libertação de Angola) comandada por Holden Roberto tentou conquistar este aquartelamento situado junto da fronteira norte de Angola com a R.D.Congo, designado por Luvo, o mesmo nome do rio que divide os dois países, afluente do rio Zaire e que corre a 300 metros deste local.

Já escrevi um post sobre este acontecimento que pode ser lido clicando no link que indico no final, e dos comentários recolhidos destaco o do nosso companheiro, ex-alferes Pinto e também a minha resposta. Aguardamos mais desenvolvimentos sobre este acto que foi o primeiro grande embate que tivemos com o inimigo.

Analisando a esta distância de tempo aquele ataque, convém destacar alguns aspectos relevantes: Estando em permanência no local uma brigada da DGS (ex-PIDE) não se compreende que a preparação duma acção tão importante lhe passasse completamente ao lado, o que revela que não fizeram o trabalho de casa. O relaxamento que toma conta de nós quando muito tempo passa sem nada acontecer pode ser uma explicação mas a DGS era uma força especial de segurança que de nada nos serviu.

Melhor que a DGS foram os cães que tínhamos no aquartelamento, que ladraram toda a noite, toda a gente os ouviu, alguns comentaram o sinal que também não chegou para alertar as diversas entidades presentes no local que tinham maior experiência do que os jovens militares milicianos que guardavam a guarnição (Administrador de Posto, Guarda Fiscal e DGS).

O objectivo de Holden Roberto era mesmo conquistar o Luvo, mas o facto principal que determinou o rumo da batalha a nosso favor foi o primeiro tiro do canhão não ter rebentado a caserna onde embateu. Outro factor não menos importante foi o pequeno grupo que naquele momento se preparava para sair do aquartelamento para uma caçada ter agido de imediato. Talvez se possa inferir que uma boa dose de sorte da nossa parte e alguma aselhice da FNLA tenham contribuído para o desfecho final. Esta é a minha visão, quem viveu aquele romper da manhã do dia 22 de Outubro de 1972 que se pronuncie.

É claro que à boa maneira portuguesa, depois de casa roubada, trancas à porta. Uma semana a dormir em abrigos subterrâneos, arame farpado armadilhado (a primeira vitima foi a cadela Banza do Administrador de Posto), aquartelamentos da zona dotados de artilharia pesada.

Benjamim Amorim Pinto
Benjacota@hotmail.com
Submetido em 2013/08/05 a 7:30 pm
Sou o ex-alferes Pinto. Era comandante dos dois pelotões que estavam no Luvo no primeiro ataque. Vivi, na primeiríssima pessoa o acontecimento do princípio ao fim. Para além de algumas incorreções na descrição do acontecimento, julgo displicente não referir os meus dois soldados condecorados com a medalha de Cruz de Guerra pela forma como se portaram…
Poderei, querendo, prestar um relato muito detalhado dessa batalha (e de outras ligadas à minha comissão)
cc3413
mmendes49@gmail.com
82.155.139.225
Submetido em 2013/08/05 a 8:43 pm | Em resposta a Benjamim Amorim Pinto.
Olá Benjamim Pinto. É um prazer a tua presença aqui. Esperamos-te no próximo encontro em 2014, em Cantanhede, organização a cargo do Maia. Certamente que nos relatos que aqui se debitam haverá muitas omissões e incorreções. Quantos mais formos a “puxar” das memórias, mais possibilidades há de nos aproximarmos da realidade. Por isso, escreve e relata o que quiseres. Um abraço. Mário Mendes.

O link do post com outros detalhes deste ataque que publiquei em Abril de 2009 pode ser lido clicando AQUI.

Mário Mendes