O “Vera Cruz” que nos levou para Angola

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Faz hoje 40 anos (31/07/1971) que partimos a bordo deste navio rumo à guerra que já durava há 10 anos em Angola, tendo chegado a Luanda no dia 9 de Agosto.

Navio-almirante da marinha mercante portuguesa e da frota da Companhia Colonial de Navegação, o Vera Cruz foi entregue à CCN a 23 de fevereiro de 1952, no porto de Antuérpia (Bélgica), depois de concluir com êxito as provas de mar.

Além de ser o maior navio português, o Vera Cruz era também a maior unidade até então construída na Bélgica, tendo assistido à cerimónia de entrega do paquete as individualidades mais importantes daquele país.

Comandado por Hilário Filipe Marques, o Vera Cruz deixou Antuérpia a 28 de fevereiro, chegando a Lisboa a 2 de março de 1952.

Durante a estadia no Tejo, o Vera Cruz foi visitado pelas grandes figuras do regime, com destaque para o presidente da República, general Craveiro Lopes, presidente do Conselho de Ministros, António de Oliveira Salazar.

Com 21.765 toneladas de arqueação bruta, o Vera Cruz tinha 185,75 metros de comprimento fora-a-fora, 23 metros de boca (largura) e 15,80 metros de pontal.

O navio estava equipado com dois grupos de turbinas Parsons, desenvolvendo a potência de 25.500 cavalos-vapor e atingindo a velocidade máxima de 23 nós (42,6 quilómetros horários). A velocidade de cruzeiro era de 20 nós.

Cada um dos dois hélices de três pás do paquete pesava 16 toneladas e o Vera Cruz consumia 140 toneladas de fuel oil (óleo combustível) e 200 toneladas de água por cada dia de navegação.

Foram instalados a bordo os mais modernos aparelhos de ajuda à navegação, nomeadamente agulha giroscópica, piloto automático, odómetro eléctrico, radar com alcance de 30 milhas (55,5 quilómetros), radiogoniómetro, sonda e radiotelefone.

O Vera Cruz dispunha de alojamento para 1.242 passageiros instalados em 289 camarotes, distribuídos em três classes: 148 passageiros em primeira classe, 250 em segunda, 844 na terceira classe.

Os interiores deste paquete eram considerados luxuosos para a época, incluindo numerosos salões, bares, cinemas, jardim de inverno, duas piscinas e amplos tombadilhos e solários, hospital com cinco enfermarias, salas para crianças e todas as facilidades consideradas necessárias para um grande transatlântico, incluindo ar condicionado.

Realizou a viagem inaugural partindo de Lisboa em 20 de março de 1952 e fez a primeira escala no porto do Rio de Janeiro em 29 de março.

O Vera Cruz tinha 350 tripulantes, dentre os quais 38 oficiais.

Muitos estão lembrados, ou já ouviram falar, da grandiosa despedida do Vera Cruz ao deixar Lisboa em viagem inaugural, rumo ao Brasil. Mas, poucos sabem como foi a recepção do outro lado do Oceano Atlântico.

A primeira escala do Vera Cruz ao Brasil deu-se no sábado, dia 29 de março de 1952, no Rio de Janeiro. Como a Imprensa havia noticiado com antecedência a chegada do famoso transatlântico, a cidade despertou cedo, milhares de pessoas aglomeraram-se na Praça Mauá e nas proximidades do porto.

Devido a forte nevoeiro, houve um atraso e somente após as 12 horas foi feita a atracação do tão esperado paquete português.

Brasileiros e portugueses, sob sol ardente, esbanjavam alegria, sem conter seu entusiasmo. Nunca um navio de qualquer nacionalidade foi tão bem recebido.

Com o deflagrar dos conflitos de libertação colonial em Angola e Moçambique, a partir de 1960, o Estado português viu-se na obrigação de reforçar militarmente as suas colónias na tentativa de conter e eliminar os focos de resistência à ordem estabelecida.

Assim, no decorrer de 1961, várias unidades da marinha mercante de Portugal foram requisitadas pelo governo para servirem como transporte de tropas ou como navios de carga de material bélico.

O Vera Cruz não escapou à nova realidade e, ao retornar a Lisboa de sua viagem, a que seria na verdade a última, na Rota de Ouro e Prata (efectuada em março e abril daquele ano), o transatlântico foi rapidamente adaptado para as funções de navio-transporte e posto sobre o controle operacional da Marinha de Guerra, sempre, porém, com as cores da CCN.

Seguiu-se a partir de então um longo período onde alternaram-se viagens sob o comando naval e viagens puramente comerciais, a maioria destas realizadas entre Lisboa e Lobito/Luanda (Angola).

Esta fase durou até 1971. Em janeiro do ano seguinte, o transatlântico, após realizar uma viagem como transporte de tropas, foi ancorado no Rio Tejo, aguardando-se a decisão sobre o futuro.

Tal decisão só foi tomada um ano mais tarde e ela marcaria o fim do transatlântico. Transcorridos apenas 20 anos de sua entrada em serviço, sendo portanto relativamente novo e ainda em condições de serviço, o Vera Cruz foi vendido para desmonte e sucata a uma empresa especializada de Taiwan.

Em 4 de março de 1973 largou pela última vez as amararas do cais de Lisboa com destino a Formosa, desaparecendo assim dos oceanos, mas não de nossa memória, que lhe guarda recordação perene.

Fonte: Jornalista José Carlos Silvares, do jornal A Tribuna, Santos, Brasil.

One thought on “O “Vera Cruz” que nos levou para Angola

  1. tambem ia nessa infeliz viagem com destino a angola mais concretamente a zona de sao salvador do congo hoje me parece que tem outro nome onde fomos instalados a meio do mes de agosto em mpozo saimos de la em 19 de agosto de 73 onde embarcamos de aviao dia 21 de agosto de 73 com a comissao terminada um abraco a todos os camaradas.

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