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Memórias da Mamarrosa (II)

Na sequência do post anterior, aqui estão mais fotos da Mamarrosa cedidas pelo Carlos Santos da C.Caç. 2676 (Abril de 1970 a Abril/1972).

A frota (Unimog e Berliet).

Capela (Nª Senhora da Graça).

Bar (Messe dos sargentos).

Descanso dos guerreiros (esplanada da messe dos sargentos).

Depósitos dos combustíveis e oficina (pessoal da ferrugem).

Mamoeiro.

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Magina, no espaço e no tempo

MAGINA: O ISOLAMENTO

A CART. 1405 do BART. 1852 esteve na Magina dezoito meses, de Setembro de 1965 a Fevereiro de 1967. Creio que fomos a terceira ou quarta unidade militar a estar naquele polo militar, situado no Norte de Angola, junto à fronteira com a agora Republica Democrática do Congo. Antes, segundo os dados que consegui coligir, estiveram a CART. 102(?), a C.Sap. e Eng.151 e companhias de cavalaria dos Batalhões 595(?) e 631(?).
Além do isolamento devido à distância a que estávamos de outras unidades militares (Mamarrosa, Buela e Pangala distavam a mais quarenta quilómetros) e de São Salvador do Congo (cerca de oitenta por Mamarrosa e a cem por Pangala) que era a única povoação em que também residia população civil, além de militar, as vias rodoviárias estavam em muito mau estado.
As saídas da Magina tornavam-se ainda mais complicadas porque pela Mamarrosa tínhamos a subida ou descida do Luvo, na Mata/Floresta do Dimba, em que com as chuvas ou tempo húmido era um obstáculo quase intransponível e pela alternativa da Pangala e Calambata, além de mais quilómetros, entre a Magina e o cruzamento para a Buela, tínhamos três ou quatro pontes destruídas em que nas suas passagens as viaturas tinham que as atravessar fazendo equilíbrio em troncos de árvore ou contornando os locais por onde o caudal dos rios o permitisse. Algumas vezes tivemos que regressar ao aquartelamento ou ficar na Mamarrosa à espera de melhores condições atmosféricas.
A Magina situava-se no alto de um morro, numa clareira da Mata do Dimba (que diziam ser a segunda maior floresta virgem de Angola), o Rio Luvo situava-se no vale desse morro e era cercada por outros morros que diariamente eram patrulhados na chamada “volta dos tristes”.
Durante a nossa permanência, em termos militares, além de umas ocorrências menores, tivemos um acidente com uma mina que destruiu um Unimog que causou diversos feridos um dos quais, o condutor, que ficou em estado mais grave e sofremos uma emboscada à coluna militar da companhia que estava na Canga, (a CART. 1407) em que se sofreu uma baixa, também o condutor.
Eu era condutor auto, nos primeiros dois meses não tinha viatura distribuída, depois foram vinte e dois meses a “ir a todas”.
Espero que as fotos, parte delas tiradas por mim e pela minha máquina fotográfica, dêem para ajudar a ilustrar o texto e contribuam para que outros camaradas, ex-militares, nos transmitam mais informações da Magina e arredores, em particular o número e as datas que outras unidades lá permaneceram. Até à data só as vi através do Blog do “Barreirense Costa” que tem um pasta com fotos do ex- camarada José Manuel Vasques, da CCAV. 1783 do BCAV. 1930, que lá esteve de Dezembro de 1967 a 1969.

NR: Na sequência do artigo anterior chega-nos à redacção este texto do companheiro Horácio Marcelino que escreve na primeira pessoa do que era a vida no aquartelamento nos anos de 1965/67. Pelo diapositivo que se segue, as dificuldades do dia a dia estão bem patentes. A água para todos os usos, um bem essencial, tinha que ser recolhida em bidons no leito do rio que ali corria e como se pode ver, era uma carga de trabalhos.


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5 de Fevereiro de 1973

Este foi um dos dias mais tristes da comissão de 2 anos que passamos em Angola. Depois da primeira baixa que ocorreu a 22 de Dezembro de 1971 que vitimou o companheiro Emanuel Firmino Nunes Aguiar por acidente com arma de fogo, a morte do condutor do Unimog António de Amaral Machado, açoriano da ilha de São Miguel, freguesia de Santo António, vítima do rebentamento de uma mina anti-carro colocada pelo inimigo na picada onde três dias antes outra mina desfez outra viatura, foi um episódio que “minou” também a moral das nossas tropas, porque nestas circunstâncias em que não se vê o inimigo, a luta torna-se muito cobarde e desigual.

39 anos depois deste fatídico dia, recordamos com saudade este nosso companheiro e há dias solicitei por e-mail ao Presidente da Junta de Freguesia de Santo António onde está sepultado, que se lhe fosse possível me enviasse uma foto da campa. Ainda não houve resposta, ficamos a aguardar, mas como temos planeada uma viagem aos Açores para 2013, nessa altura não deixaremos de “in loco” nos curvarmos perante a sua memória e colocar um ramo de flores em homenagem a este herói, que aos 22 anos deu a vida pela Pátria.

Mário Mendes


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HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DA C. CAÇ. 3413 (V)

De vez em quando, deslocávamo-nos em coluna ao Toto para reabastecimento de todo o tipo de coisas, que iam desde produtos alimentares, a bebidas, gasolina e gasóleo, tudo o que nos fazia falta e que o exército nos podia e entendia fornecer. Além do incómodo da distância e do pó que éramos obrigados a comer, todo o caminho éramos violentamente sacudidos em cima das viaturas, graças aos sucessivos buracos da picada, tornando o “passeio” num “agradável” tormento para o corpo. Ainda para mais os bancos eram de madeira, duros e incómodos quanto baste, e o melhor era fincar bem os pés e as costas contra o Unimog para suavizar o embate a cada buraco. Aconselhava a prudência, até por ser zona do célebre”Pedro Afamado”, que o melhor era ficar no aquartelamento. Mas a irreverência, temperada com um pouco de inconsciência própria da juventude, levava a oferecer-me para integrar a coluna, sempre que podia. O mais importante para mim, era sair daquele buraco infecto, nem que fosse por umas horas. Embora poucas, via caras e coisas diferentes, tudo eram novidades, além de me saciar no civil que havia em frente ao quartel. A casa era asquerosa, sem qualquer tipo de condições. Mas era civil! Tinha cerveja fresca, frangos no churrasco e alheiras! Alheiras? Sim, que eu não sabia o que era mas que passei a comer sempre que lá ia. E que bem me sabiam…Dum lado da picada ficava o quartel e do outro era a sanzala onde a rapaziada aproveitava para mudança de “óleo”… Quando chegávamos á aldeia já havia uma fila enorme de malta em cada casa habitada por quem praticava a mais velha profissão do mundo, e onde toda a minha gente ululava de impaciência de chegar a sua vez…Eram umas oito ou nove, (seriam?) para “aviar” todos os quartéis e destacamentos daquela zona. Nunca tive pachorra para aquele espectáculo degradante e preferia deliciar-me no civil. “Daquelas Senhoras” lembro-me bem da “Maria Pacaça”. E digo senhoras com todo o respeito, porque eram elas que iam dando algum ânimo aquela “gaiatada” toda que tinha sido arrancada aos seus e enviada sabe-se bem agora para onde…Voltando á Maria era uma “senhora” alta e bem pesada nos seus mais de cem quilos. Muita simpática, muito alegre e penso, segundo me lembra, ser até a única com gira-discos. Só tinha um ou dois discos mas tocava. E o que ela tentou para dançar comigo…

Por vivermos em condições nada fáceis e com a complacência dos nossos comandantes, éramos o perfeito contraste com a malta do Toto. Eles impecavelmente fardados e nós, nem todos mas muitos, na mais completa anarquia, em que cada um dava asas á sua imaginação e fazia as mais variadas e bizarras modificações aos camuflados. Ou estavam rasgados, descosidos, ou com franjas tipo índio. Calças e mangas eram cortadas de qualquer maneira. Em vez do quico camuflado, chapéus e alguns bem largos tipo “Cow boy”. A barba de vários dias, o cabelo crescido, mais o pó da picada, e aqui nada havia a fazer, aliado a um comportamento inadequado a um militar que se preze, tudo isto se tornou muito “censurável” por parte dos “Chefões” do quartel. E certo dia proibiram mesmo os “SICILIANOS”, como nos tratavam, de entrar no quartel. Deu-se uma “maca” de todo o tamanho, que só não redundou em nada de grave por ter havido alguém da nossa coluna, que exigiu entrar e explicou aos ditos “Senhores” as condições degradantes em que vivíamos, ficando a promessa de futuramente os “Sicilianos” se apresentarem mais compostos. E contra a vontade daquela “chicalhada”, lá se abriram os portões para entrarmos, não todos, só alguns para umas compras mais urgentes, e tendo sempre presentes que éramos um péssimo exemplo para os demais militares! E era entrar e sair rápido.

Este episódio, aliado a duas minas e a um ataque á Cecília, foram o álibi perfeito para nos impedirem de ali nos deslocarmos, passando a partir daí, a sermos abastecidos por via aérea, através das célebres D.O. Mas antes de estas entrarem em acção, não resisto a contar este episódio.

Do alto da Cecília, tínhamos uma visibilidade enorme, daí se vislumbrando uns bons kms de capim, mata e a serpenteante picada. O tempo passava e da coluna que tinha ido ao Toto, nada. Faz-se noite de repente como é costume, e via rádio sabemos que houve atraso e que vão chegar mais tarde. Tudo bem. Jantamos, e passado um bocado vemos as luzes das viaturas lá ao longe, que se vão aproximando lentamente. Mais uma hora e estão cá, calculamos. Já relativamente perto e de repente, um estrondo que não engana ninguém, seguido de tiros e rajadas. As luzes das viaturas apagam-se. Tentamos via rádio saber o ponto da situação. Nada. Ninguém responde. A tensão sobe á medida que o tempo passa. Dos pelotões que ficaram, há um que está de serviço para acudir nestas situações, mas o comandante desse pelotão, que tinha a mulher grávida no Toto, sentiu-se “mal” e lá tivemos que ir nós… viaturas em funcionamento, só luzes de presença acesas, velocidade reduzida, sabendo sermos um alvo mais que perfeito e tendo a noção exacta do perigo que estávamos a correr… Até porque “Eles estavam ali”…Mas tínhamos que ir. Nem sabíamos bem ao quê, mas tínhamos que ir. Os segundos, eram uma eternidade. Mãos crispadas nas armas, todos em posição para saltar ao mais pequeno sinal de alarme. O coração batia desvairadamente, e não havia meio de chegarmos junto da coluna…Mas lá chegámos…Temendo o pior… E o que se tinha passado?

Uma viatura tinha detonado uma mina. Por sorte era uma Berliet, que vinha como todas as outras, carregadíssima. Nesta vinham géneros alimentares, muita cerveja e poucos homens. A carga explosiva que tinha escavacado esta viatura, teria feito estragos humanos inimagináveis, se tivesse sido num Unimog carregado com pessoal. Nela vinha o nosso Capitão Ribeiro. Sacudido pelo rebentamento, meio atordoado e naturalmente dorido, e não sabendo o que se iria passar a seguir á explosão, ordenou-lhe o instinto que se abrigasse debaixo da viatura e aguardasse. Passado um bocado e depois de as coisas acalmarem e instalada a segurança possível, visto ser noite cerrada e nada se ver, ouve-se a voz do Capitão Videira da 1311 a chamar pelo nosso já perto da viatura acidentada.

-“Cap. Ribeiro…”

-“Estou aqui Videira. Estou aqui e devo estar muito ferido. Ora veja”.

O cap. Videira aproximou-se, e o nosso capitão guiou-lhe a mão para a zona do seu estômago. No escuro da noite sentiu uma viscosidade pegajosa e húmida, o que o deixou petrificado e pensou: “Este está arrumado”. Vieram viaturas para iluminar com os faróis e constatou-se que o Capitão Ribeiro estava coberto sim, mas não de sangue como tudo o indicava. Era óleo do cárter da viatura acidentada onde ele se abrigara…que alívio! Estava dorido, meio atordoado, umas esfoladelas, umas nódoas negras e um grande susto…Que sorte…È claro que a viatura não podia ficar ali. E a companhia de Engenharia com as suas máquinas, lá rebocou a viatura encosta acima. Isto tudo se conta em breves minutos, mas efectivamente foram horas e horas.

Como as viaturas eram bem mais “preciosas” que nós, começamos a ser “aviados” pelas já referidas D.O. Improvisou-se uma pista num dos lados e começou o apoio aéreo…No dia e hora combinados via rádio, lá estávamos á espera. Segurança montada em volta da pista e até dentro da mata circundante para não haver surpresas…e surpreendidos fomos nós quando vemos os géneros a serem lançados do ar!

Por mais devagar que a D.O. fosse, por mais baixo que voasse, o impacto com o terreno seria sempre demasiado forte para vários géneros, tais como sacos com farinha ou leite em pó, que, para desconsolo nosso, ficavam espalhados pelo chão. Que raiva…Via rádio começamos por lhes dizer para aterrarem que a segurança estava garantida. Mas qual quê. Tomem lá disto e desenrasquem-se. A partir da segunda vez que fizeram isto, chamávamos-lhe tudo e até se ouviam vozes a querer disparar contra eles, tal a raiva que nos provocavam. Claro que eram desabafos de quem se sentia abandonado e desrespeitado por quem estava lá em cima, mas enfim, valia-nos o correio para aliviar.

Por essa altura, visto não ser necessária, a segurança era só feita em volta da pista, e nem isso justificavam. Era mais para apanharmos o que caía do avião do que outra coisa. Até que certo dia, para espanto e alegria de todos, ouvimos via rádio da D.O. “Sei que têm tido uns problemazitos, mas garantem-me que posso aterrar em segurança?” E foi toda a minha gente fazer segurança, não só perto da improvisada pista, mas também num raio enorme para que não houvesse mesmo nada. Porque o “Homem” justificava e merecia!

O aviador mal aterrou, quis logo conhecer a famosa Cecília. E lá estava um jipe para levá-lo até á “NOSSA MESSE”, onde lhe disponibilizámos “tudo” do pouco que tínhamos. A todos impressionou pela sua simplicidade e simpatia, e a partir desse dia passámos a ser brindados com umas acrobacias espectaculares, que eram a nossa maior e quase única diversão. E mal se ouvia lá ao longe o roncar da D.O., toda a minha gente largava tudo o que estivesse a fazer, para saudar este nosso companheiro com as suas piruetas e o correio que sempre vinha a bordo.

Mas como “não há bem que sempre dure”, certo dia informou-nos que tinha sido transferido para outra zona e esta seria a sua última vez. Com muita pena nossa lá nos despedimos e o que se passou a seguir foi qualquer coisa de grandioso e indescritível. Nem os famosos aviadores das Red Bull Air Race se lhes comparam. Eram descidas a pique sobre as barracas, seguidos de loopings e toda a sorte de maluqueiras, rasando as tendas e obrigando o pessoal a fugir para zonas mais baixas. Tudo tentamos para ele acabar com aquilo, mas quanto mais sinais lhe fazíamos maior e mais complicada era a pirueta seguinte. Foi de loucos. E só terminou quando entendeu que a gasolina já devia só dar até ao aeródromo, e lá partiu, para nossa tranquilidade e alegria de o ver normalizar o aparelho e rumar ao Toto, fazendo balançar o aparelho em sinal de despedida! Até sempre “amico di meu”… Alguém se lembra do nome? Eu também não, mas jamais esquecerei aquele dia de acrobacias inimagináveis e indescritíveis.

Grupo dos furriéis dos 2 grupos de combate da C.Caç. 3413, à porta do seu bar privativo. Falta um, que serviu de fotógrafo. Em vez do tradicional quico, estava na moda o chapéu à “cow-boy”, talvez influência dos filmes do Oeste Americano, tipo Bonanza.

Joaquim Alves



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Morte na Picada

5 de Fevereiro de 1973

Os primeiros dias do mês de Fevereiro de 1973 foram de grande tensão no seio da C.Caç. 3413.

Impotente para tomar os aquartelamentos da Mamarrosa e Luvo na fronteira norte de Angola com a RDCongo, a FNLA começou a minar a picada, tendo colocado uma mina anti-carro em 2 de Fevereiro, uma sexta-feira, que provocou 4 feridos, que seguiam a bordo de um camião Berliet Tramagal.

Três dias depois, uma segunda-feira, mais uma mina anti-carro, desta feita pisada por um Unimog e que provocou a morte do condutor, o nosso companheiro António Amaral Machado, natural da ilha de São Miguel, Açores.

A picada que tantas vezes percorremos, esta que a foto nos mostra, foi palco de sofrimento e dor e o local da tragédia ficou para sempre guardado nas nossas memórias.


Faz hoje precisamente 38 anos e aqui recordamos com saudade o nosso companheiro. A foto que se segue revela de forma brutal este acontecimento, que ceifou a vida a este jovem de 22 anos.

O nosso companheiro José Rosa Sampaio, no seu livro “O Vermelho do Capim: poemas da Guerra Colonial” que publicou em 1986, dedicou um poema ao malogrado António Amaral Machado e que aqui se evoca:

Tinhas uma mosca pousada na tua face vermelha

E os teus lábios entreabertos escondiam uma palavra

que não disseste a ninguém …

roubaram-te até o que não te pertenceu em vida,

pois os elos da morte não perdoam a inocência da alma.

Descansa que talvez aconteça que não estejas morto.

(Mamarrosa, Maio de 1973)


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Os burros do mato

Os burros do mato

Os veículos mais utilizados  na guerra colonial foram os Unimog, sigla derivada da designação alemã UNIversal-MOtor-Gerät, que significa “veículo universal a motor”.

Estes veículos começaram a ser construídos na Alemanha inicialmente pela Boehringer depois da 2ª guerra mundial em 1947,  e depois em 1951 pela Mercedes-Benz (antes desta data, esta empresa estava proibida de produzir veículos todo o terreno, devido a imposição dos Aliados no pós-guerra), e destinavam-se a ser utilizados na agricultura, sendo muito polivalentes porque desempenhavam a função de tractor e também de transporte de produtos, dada a sua velocidade em estrada. A versatilidade que possuía em todos os tipos de terreno, levou a que alguns países o adoptassem para utilização das suas forças armadas, como foi o caso de Portugal.

O Unimog 411 logo foi apelidado pelos militares de “burro do mato” porque as suas características o assemelham àquele animal que antes da “democratização” dos tractores era utilizado no Portugal profundo em todos os trabalhos agrícolas, porque não havia caminho ou vereda que ele não percorresse. Tal como o burro, este Unimog era pachorrento, máximo de 53 Km/hora,  mas não havia lugar a que ele não chegasse, apesar de dotado com um motor a gasóleo de 4 cilindros, 1767 cc, e de apenas 34 cv. raramente lhe faltava a força suficiente para subir as mais íngremes e lamacentas picadas em que nas épocas de chuva se transformavam os itinerários no norte de Angola, devido ao elevado binário nas velocidades mais baixas. O consumo não era nada comedido, pois não se contentava com menos de 12 litros por cada 100 km percorridos.

O outro irmão do 411 era o Unimog 404 com um motor a gasolina de 6 cilindros, 2195 cc, 82 cv. de potência, velocidade máxima de 95 Km/hora e que consumia cerca de 20 litros por cada 100 km percorridos. Este não era um burro, mas uma verdadeira “besta”.

Estes veículos dotados de 4 grandes rodas motrizes, transportavam até 10 homens e permitiam uma boa visibilidade acima do capim que ladeava a picada. Aqui está uma foto do “burro do mato” em operação da C.Caç. 3413.

Unimog411

Mas em Angola havia outros burros, verdadeiros, de carne e osso, muito apreciados pela tropa porque estes alimentavam o corpo, os outros a única coisa que nos davam a comer era pó, muito pó.  O animal não se vê lá muito bem, este tinha mesmo “cor de burro a fugir” mas ele lá está no canto inferior esquerdo!

burrodomato

Proponho ao pessoal da nossa companhia um exercício de memória. Quem está nesta foto? Eu vejo o Penedo, o Valadão, o Quadros, o Araújo. E os outros? Dão-se alvíssaras a quem souber e disser.

O Valadão, (t-shirt branca), e também um loirinho (Dinis?) que me parece ser o que está a assomar no lado esquerdo da foto, já não estão entre nós, notícia que me foi dada por um companheiro açoriano da Terceira, e que em breve revelarei. Descansem em PAZ.

Mário Mendes


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Homenagem a dois combatentes.

Certamente haverá poucas freguesias em Portugal, que não tiveram os  seus mortos, durante a guerra colonial.

Hoje, quero prestar homenagem aos meus dois conterrâneos (freguesia de Benquerenças, concelho e distrito de Castelo Branco), que “deram a vida” neste conflito.

  • João Manuel Mendes Ribeiro, alferes miliciano, que faleceu em 04/10/1971, no Hospital de Bissau, vítima de ferimentos em combate, na zona de Xime, Guiné. Pertencia à C.Art.2715/B.Art.2917. Nesta data eu estava na base táctica de Cecília, zona do Toto, norte de Angola, e um dia à noite ao ouvir a rádio “Voz do MPLA” no final do noticiário era difundido algo como o  seguinte: “Os nossos irmãos do PAIGC abateram na Guiné o alferes miliciano João Manuel Mendes Rideiro”. Ao ouvir este nome fiquei petrificado, tudo condizia com os dados do meu conterrâneo, mas podia ser que se tratasse de outro militar, há nomes iguais. No dia seguinte escrevi um aerograma para a família, aludindo a esta notícia, e comunicando também que naquela semana não tinha recebido o semanário que me costumavam enviar, para saber notícias da minha “santa terrinha”. Será que se tinha extraviado? A resposta veio pronta na volta do correio. Era verdade que o João Manuel tinha morrido, e quanto ao jornal não o tinham enviado nessa semana porque ele noticiava a morte do amigo. Esse semanário que tanta companhia me fez lá em terras distantes ainda hoje se publica:  www.reconquista.pt
  • José Pires Ventura, furriel miliciano, que faleceu em combate a 08/07/1972, em Mueda, Moçambique, e que fazia parte da C.Art.3503/B.Art.3876. A morte deste amigo deu-se em circunstâncias desastrosas, pois foi vítima do rebentamento de um dilagrama que “um dos nossos” utilizou com bala real, depois de terem caído numa emboscada. Para quem não foi à guerra, o dilagrama é um dispositivo que se utiliza para lançar uma granada defensiva a uma distância maior do que permite o lançamento manual. Era introduzida no cano da espingarda e projectada por um cartucho propulsor sem bala. Era uma arma muito eficaz mas muito perigosa, porque se projectada com um cartucho com bala, rebentava no cano da espingarda e atingia com estilhaços todos quantos se encontrassem por perto, e foi isso que aconteceu ao José Ventura. Aqui está um exemplar de dilagrama: dilagrama

Em todas as secções de combate havia pelo menos um elemento com este dispositivo, na minha essa tarefa estava entregue ao soldado angolano Tomás Cachique, um rapaz muito “certinho” e em quem sempre tive muita confiança. No entanto, sempre antes de subir para o Unimog, eu lhe pedia para tirar o carregador da G3, verificar se a primeira bala era a de propulsão (tinha a cabeça vermelha), e puxar a culatra atrás, para verificar se não havia uma bala real na câmara. Muitos acidentes aconteceram com estes dispositivos, porque no carregador podia estar em 1º a bala de propulsão, mas já estava na câmara, uma real.

Mário Mendes

Nota: Fui alertado de que mais 2 militares que nasceram na freguesia de Benquerenças, tombaram também na guerra colonial ao serviço da Pátria, e aos quais presto igualmente a justa homenagem que lhes é devida:

  • Manuel Vilela Caldeira, 2º sargento piloto da Força Aérea, que faleceu em Moçambique a 05/02/1963 por acidente. Pertencia à Base Aérea 10 (PV2-H#4617 Esq.101)
  • João Rodrigues Martins, soldado apontador de metralhadora, que faleceu em 12/08/1961 em combate, em Angola. Pertencia à C.Caç.105/B.Caç.96. Era natural de Taberna Seca, lugar que àquela data pertencia à freguesia de Benquerenças. Foi desanexada e hoje pertence à freguesia de Castelo Branco.