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Luvo, última fronteira


Quem em 1973, do lado da República do Zaire, agora denominada República Democrática do Congo entrasse em Angola através da ponte sobre o rio Luvo que dividia os dois países, deparava-se com esta barreira onde o escudo com as 5 quinas de Portugal significava para os forasteiros que estavam em território nacional e por isso era necessário proceder às burocracias alfandegárias e de segurança e para os trâmites apropriados, a Guarda Fiscal e a DGS (Direcção Geral de Segurança) que até 1969 se chamou PIDE (Policia Internacional de Defesa do Estado) estavam presentes no Luvo.

Ali, Portugal já fez fronteira com a Bélgica entre 1908 e 1960, período de tempo em que administrou este território africano e depois com a República do Congo, nome adoptado quando da independência em 30 de Junho de 1960, nome a que em 1964 se acrescentou o adjectivo “Democrática”. Em 1971, sob o comando de Mobutu Sese Seko o país passou a designar-se por República do Zaire e à capital foi mudado o nome de Leopoldville para Kinshasa. Nos últimos dois anos têm sido muitos milhares os angolanos refugiados na RDCongo que passaram neste local expulsos daquele país.

A C.Caç. 3413 que em 1972 e 1973 esteve nestas paragens, que na época era um local isolado do mundo, onde não havia nem entradas nem saídas nesta fronteira, temos hoje consciência da importância que este local já teve e tem na actualidade.

Hoje, já não temos que defender fronteiras a milhares de quilómetros de distância, estamos confinados a um pequeno território, como nos tempos da fundação da nacionalidade, mas esta “pequenez” não nos inibiu de sermos respeitados e admirados no mundo.

Agora, estamos outra vez na boca do mundo, mas por razões que não nos orgulham, estamos de mão estendida à caridade, não somos capazes de tomar conta do nosso futuro, os capitais estrangeiros “invadem” a nossa economia, vendemos os anéis que ainda nos restam e ironia do destino, estamos a tornar-nos “colónia” de um país africano que já foi “nosso”. Voltou-se o feitiço contra o feiticeiro!

Mário Mendes

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Viagens na nossa terra (II)

De Castelo Branco a Cáceres, são cerca de 140 km, um percurso transfronteiriço muito utilizado quer pelos beirões dos concelhos raianos do distrito de Castelo Branco quer pelos espanhóis do norte da província da Extremadura que fazem desta fronteira a porta principal de entrada em Portugal.

Actualmente as incursões para os dois lados da fronteira são já em muito menor número que em outros tempos porque a actual crise afecta ambos os países. Ainda assim, os portugueses continuam a procurar em Espanha alguns produtos alimentares e de limpeza que do outro lado são mais baratos devido ao IVA que do lado de lá tem um tecto máximo de 18% contra os 23% de cá. Esta realidade vai alterar-se a breve prazo, pois as notícias que nos chegam é que o governo de Espanha se prepara também para aumentar fortemente os impostos. A gasolina com cerca de menos 20 cêntimos por litro é carga “obrigatória” dos carros portugueses e também as garrafas de gás butano que lá custam menos 40% que em território nacional. Quanto aos espanhóis vêm à procura dos nossos linhos, bordados e atoalhados preferencialmente.

Bons tempos em que na década de 70 um escudo dava para comprar duas pesetas e os portugueses faziam autênticas “romarias” às terras próximas da fronteira e esvaziavam o comércio local. Depois paulatinamente o nosso escudo perdeu força face à peseta, chegando ao câmbio de 1,50 escudos/1 peseta. Depois em 2002 veio o famigerado euro que está a ser um pesadelo para os dois países.

Apesar da crise, é fundamental não nos fecharmos em casa e fazer de vez em quando a chamada “volta dos tristes” porque a vida continua e melhores dias virão.

Antes de chegarmos ao Ladoeiro, freguesia do concelho de Idanha-a-Nova atravessamos o rio Ponsul, afluente do Tejo sobre esta ponte romana. O Ladoeiro está no coração da chamada campina de Idanha, uma extensa área de apetência agrícola proporcionada pelo regadio da barragem da Idanha, construída no tempo do Estado Novo, inaugurada em 1946 e que leva o nome de Marechal Carmona. Aqui a cultura do tomate já foi “raínha” e fechado esse ciclo, veio a cultura do tabaco que também já desapareceu. Espera-se um novo ciclo, fala-se no sorgo, mas na verdade muitas terras tão férteis estão há espera de projectos que as rentabilizem. Resta a melancia do Ladoeiro, um ícone que ainda vai resistindo, porque a sua qualidade é muito superior à que nos impingem nas grandes superfícies.

Esta ponte, também romana, sobre o rio Erges, outro afluente do Tejo é meio portuguesa e meio espanhola porque a divisão administrativa entre os dois países está assinalada a meio da mesma. Do lado de Portugal, a aldeia de Segura alcandorada num monte vigiando o rio e a ponte, em Espanha, percorrendo 8 km encontramos a primeira aldeia, Piedras Albas.

Mais 10 km e encontramos o monumento mais emblemático da nossa viagem. A ponte romana de Alcântara sobre o rio Tejo. Construída entre os anos de 104 e 106 para ligar a estrada romana que ligava Norba (Cáceres) a Conimbriga (Condeixa-a-Velha).

Obra do engenheiro Cayo Julio Lacer foi construída para durar enquanto durar o mundo, conforme inscrição acima. Destruídos alguns arcos das margens por episódios de guerras foi sempre reconstruida, mantendo a estrutura principal. É a mais alta que foi construída pelo império romano. Tem 71 metros de altura e 194 de extensão. A sua largura de 8 metros permite cruzarem-se um carro e um camião sem qualquer problema. 600 metros a montante da ponte está a barragem (embalse) de Alcântara, a maior construída no rio Tejo.

Cáceres é uma cidade monumental, património da humanidade desde 1986, considerado o terceiro conjunto monumental da Europa graças ao seu magnífico estado de conservação.

BOA VIAGEM!

Fotos: Net

Mário Mendes


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O Luvo em 2011

Deambulando pela net encontrei há dias um blog de um motard português que percorreu o continente africano e que na sua passagem de Angola para a RDC pernoitou no posto fronteiriço do Luvo, onde estivemos em 1972/73.

 A transcrição do relato do autor:
Trajecto Mbanza Congo – fronteira do Luvo

Não foi difícil arranjar um espaço seguro onde passar a noite: depois de falar com o responsável da migração, já com o carimbo de saída de Angola no passaporte, este arranjou-me um espaço para colocar a tenda, junto da sua residência.

Optei por passar a noite em solo angolano, em vez de atravessar para a RDC, pois ainda me restava uns kwanzas no bolso e seria sempre mais agradável que passar a noite na migração do “outro lado”.
Previa que no dia seguinte as coisas fossem bastante demoradas, no mínimo, e queria começar as formalidade da entrada assim que os portões abrissem.
Assim, às 8:30 da manhã, com tempo de sobra para arrumar tudo e comer alguma coisa, saí finalmente de Angola e entrei na estrada que dá acesso, passando o Rio Luvo, à RDC.
Com algumas fotos que colhi do blog aqui vai um pequeno vídeo com fotos do Luvo:
Muito diferente do Luvo que conhecemos, eu bem tentei em cada foto vislumbrar alguma construção daquele tempo, mas parece-me que só na última foto, do lado esquerdo, o edifício será a traseira do que foi a messe dos oficiais e sargentos.
Precisam-se olhos de lince para encontrar algo que nos seja familiar, o desafio está lançado aos ex-combatentes que estiveram naquele local e queiram comentar estas fotos.
Agradeço ao autor das mesmas, Gonçalo B. que pode conhecer clicando AQUI.
Mário Mendes


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Tentativa da conquista do Luvo

22 de Outubro de 1972 – Faz hoje 38 anos que dois grupos de combate da C.Caç. 3413 (2º e 4º), travaram a tentativa da FNLA de conquistar o posto fronteiriço do Luvo, no norte de Angola, província do Zaire.

Efectivamente aquele movimento de libertação estava a passar por enormes dificuldades e precisava de demonstrar perante os seus apoiantes internacionais, especialmente os Estados Unidos da América, que ainda era uma força viva, para continuar a justificar o apoio que começava a ser cada vez menor pelo facto dos resultados da sua luta serem também pouco significativos.

O ataque foi de todo inesperado e nem a DGS que estava no terreno conseguiu obter informações do mesmo. Holden Roberto estava do outro lado da fronteira, preparando a “festa”, mas o nosso pequeno grupo de 51 elementos conseguiu desbaratar o inimigo com 150 homens que além de espingardas automáticas possuía morteiros e um canhão sem recuo. Valeu que a granada do primeiro disparo do canhão que atravessou uma caserna cheia de militares não rebentou e a nossa resposta foi também muito rápida. Mais pormenores AQUI.

A arma mais eficaz que tínhamos era este morteiro de 81 mm que causou muitos mortos e feridos ao inimigo, mas mesmo assim não lhe retirou a obsessão de querer tomar o Luvo a 26 de Março de 1973. Desta vez já não fomos apanhados de surpresa e novamente a FNLA foi rechaçada para o seu refúgio na República Democrática do Congo, de Mobutu Sese Seku, cunhado de Holden Roberto.

O Luvo tem importância estratégica, por ser uma porta de entrada e saída de e para a RDCongo. Ainda recentemente assistimos a uma enorme onda de refugiados angolanos expulsos daquele país vizinho, que regressou a Angola pela fronteira do Luvo.

Mário Mendes