4 comentários

GUERRA NO ULTRAMAR PORTUGUÊS 1961 – 1974

De muito interesse para os historiadores e para a MEMÓRIA dos ex-combatentes. pois a generalidade dos que combateram na Guiné, principalmente no fim da guerra, opinava que ESTAVA PERDIDA A GUERRA COLONIAL PORTUGUESA

GUERRA COLONIAL PORTUGUESA 1961 – 1974

Jonathan Llewellyn

Espero que perdoem a um estrangeiro intrometer-se neste grupo, mas é preciso que alguém diga certas verdades.

A insurreição nos territórios ultramarinos portugueses não tinha nada a ver com movimentos nacionalistas. Primeiro, porque não havia (como ainda não há) uma nação angolana, uma nação moçambicana ou uma nação guineense, mas sim diversos povos dentro do mesmo território. E depois, porque os movimentos de guerrilha foram criados e financiados por outros países.

ANGOLA – A UPA, e depois a FNLA, de Holden Roberto foram criadas pelos americanos e financiadas (directamente) pela bem conhecida Fundação Ford e (indirectamente) pela CIA.

O MPLA era um movimento de inspiração soviética, sem implantação tribal, e financiado pela URSS. Agostinho Neto, que começou a ser trabalhado pelos americanos, só depois se virando para a URSS, tinha tais problemas de alcoolismo que já não era de confiança e acabou por morrer num pós-operatório. Foi substituído pelo José Eduardo dos Santos, treinado, financiado e educado pelos soviéticos.

A UNITA começou por ser financiada pela China, mas, como estava mais interessada em lutar contra o MPLA e a FNLA, acabou por ser tolerada e financiada pela África do Sul. Jonas Savimbi era um pragmático que chegou até a um acordo com os portugueses.

MOÇAMBIQUE – A Frelimo foi criada por conta da CIA. O controleiro do Eduardo Mondlane era a própria mulher, Janet, uma americana branca que casou com ele por determinação superior. Mondlane foi assassinado por não dar garantias de fiabilidade, e substituído pelo Samora Machel, que concordou em seguir uma linha marxista semelhante à da vizinha Tanzânia. Quando Portugal abandonou Moçambique, a Frelimo estava em tal estado que só conseguiu aguentar-se com conselheiros do bloco de leste e tropas tanzanianas.

GUINÉ –- O PAIGC formou-se à volta do Amílcar Cabral, um engenheiro agrónomo vagamente comunista que teve logo o apoio do bloco soviético. Era um movimento tão artificial que dependia de quadros maioritariamente cabo-verdianos para se aguentar (e em Cabo Verde não houve guerrilha). Expandiu-se sobretudo devido ao apoio da vizinha Guiné-Konakry e do seu ditador Sékou Touré, cujo sonho era eventualmente absorver a Guiné portuguesa.

Em resumo, territórios portugueses foram atacados por forças de guerrilha treinadas, financiadas e armadas por países estrangeiros. Segundo o Direito Internacional, Portugal estava a conduzir uma guerra legítima. E ter combatido em três frentes simultâneas durante 13 anos, estando próximo da vitória em Angola e Moçambique e com a situação controlada na Guiné, é um feito que, miitarmente falando, é único na História contemporânea.

Então porque é que os portugueses parecem ter vergonha de se orgulharem do que conseguiram?

Publicado a 01 de Junho 2013 por Jonathan Llewellyn em “Publicações recentes de outras pessoas”.

Anúncios


3 comentários

Fronteira do Luvo

 Para aqueles que estiveram no aquartelamento do Luvo, aqui publico com a devida vénia, dois comentários muito interessantes da autoria do ex-alferes miliciano José Castilho, do Batalhão de Caçadores 3849 (1971-1973), sediado em Nóqui, norte de Angola. Este batalhão embarcou no navio Vera Cruz, tal como a C.Caç. 3413, no dia 31 de Julho de 1971, tendo chegado a Luanda a 9 de Agosto de 1971.

 José Castilho, em Março 25, 2011, disse:

A fronteira do Luvo…

Na linha de fronteira norte de Angola, entre Noqui e São Salvador, hoje Mbanza Congo, este posto fronteiriço surgia-nos dotado, com os meios necessários para desempenhar o seu papel. Autoridades civis, militarizadas e o apoio de um destacamento das Compªs da zona – Canga, normalmente. Hoje pelo que se lê aqui e acolá, a fronteira do Luvo continua a desempenhar o seu papel, reflectindo o movimento na mesma, o degelo ou o crispar das relações angolanas com os vizinhos congoleses. O Rio Luvo, sobre o qual se estende uma ponte que liga as duas margens, é testemunha do modo como evoluem as relações entre os dois países. A pág. 200, do seu livro As Brumas do Mato, em 1968/70, o então Alf Milº Capelão Leal Fernandes, do BCaç 1930, descreve a curiosa fronteira… «Durante o dia, de um posto avançado de vigilância, dominavam-se paisagens de Angola e da então Rep. do Zaire . E se aparentemente o Rio Luvo dividia, a passarinhada em manhãs alegres, o sol tudo inundando e o céu, grande e vasto, por cúpula, não consideravam fronteiras nem limites. A ponte de ferro sobre o rio, apesar das minas a espreitar na picada das bandas do Zaire, sugeria um convite permanente a um abraço fraterno e amigo com o exército e a população do Zaire. Da banda de lá, também a uns 300 metros da ponte se levantava um posto fronteiriço zairense. De lá, vinham frequentemente vozes, o toque do içar da bandeira, a passagem rápida de vultos. Embora não havendo relações diplomáticas com o Zaire, devido à intransigência da política colonial do regime de então, a nossa guerra não era com o exército congolês. Com uma fronteira tão extensa na área do Batalhão, delimitada por rios ou mesmo sem uma linha certa e definida, tornava-se quase natural, consciente ou inconscientemente, que surgissem incursões amigáveis ou aventuras juvenis». E prossegue o Alf Milº Leal Fernandes, « o pelotão, já esgotara quase a ração de combate, e então nas lavras das bandas do Congo, grossos cachos de bananas espreitavam por entre o verde da folhagem, numa oferta fácil e tentadora». Mais adiante, continua … «Alguns despimo-nos para atravessar o rio. Eu ia completamente nú», refere um dos militares. E segue, «Estavam já quase a chegar às bananeiras quando depararam com uns homens de cor, sentados, a limpar calmamente as suas armas. Não seriam nacionalistas angolanos, nem tropa zairense, mas possivelmente guardas. Ao avistá-los, seguiu-se logo uma correria cautelosa e tensa de regresso, não fosse ali armar-se alguma escaramuça de tiro e pancadaria ou um insidioso conflito diplomático». As proximidades da fronteira, geravam destas situações. Também na minha primeira saída pelos morros de Noqui, em direcção à fronteira, com um GC misto, com militares dos Morteiros já com a comissão avançada e alguns Sapadores, encontrámos 3 ou 4 mulheres zairenses, que agricultavam umas lavras em frente às antenas da Marconi, e que em francês, lá lhes conseguimos acalmar os receios e as conseguimos encaminhar de retorno à Repª do Zaire. Nem sei se cheguei a mencionar esse facto no relatório do patrulhamento. Às vezes aconteciam factos, em que o bom senso deveria ser a regra. Era o caso. Castilho

 José Castilho, em Maio 18, 2011, disse:

Companheiros de jornada Noqui: confesso que de vez em quando folheio o livro Angola – As Brumas do Mato, do Alf. Milº Capelão do BCaç 1930, Leal Fernandes, onde surgem “estórias” do diabo, só totalmente entendíveis por quem passou por aquelas paragens e viveu aquelas ou outras experiências semelhantes. Para mim uma das mais fascinantes, surge a pág,s 189 seguintes e intitula-se : sou o Pereira de Matadi! Vou tentar resumir, mantendo o colorido do insólito, esta “estória”, que se terá passado no aquartelamento do Luvo, mas poderia ser quase o argumento para um sketch dos Monty Python. O Aquartelamento ficava quase em cima da fronteira com a então Repª do Zaire, e a separação entre os dois países, era feita pelo Rio Luvo, que uma ponte atravessava. A cerca de 300 metros desta ponte, situar-se-iam quer do lado angolano quer do zairense, postos de vigilância. E de ambos os lados, Minas mais ou menos enferrujadas as do lado zairense, que transformariam uma incauta entrada naquele território, sem prestar atenção às mesmas, sobretudo de noite, numa perigosa “roleta russa”! O Luvo, era um posto fronteiriço, com serviços mínimos de Administração, Alfândega e Pide, além de uma unidade militar, naqueles anos, e estamos em finais dos anos 60, ao nível de uma Compª Oper. do BCaç 1930, com sede na Mamarrosa, em regime de rotatividade. Do lado de lá da fronteira, na Repª do Zaire, estariam muitos angolanos para ali fugidos quando da “confusão” de 1961, como os naturais diziam. E alguns deles, quase uma década depois, ansiavam por furtar-se ao controlo que a FNLA sobre eles exercia e ansiavam regressar ao seu espaço, à sua lavra, ao seu lugar de origem. A acção psicológica das autoridades militares, também contribuía para este objectivo. Daí as pontuais apresentações que por vezes se verificavam junto das unidades militares sediadas junto da fronteira. Mais tarde, com o BCaç 3849 sediado em Noqui, sucederia o mesmo. Situemo-nos porém nas palavras de Leal Fernandes e no colorido da sua descrição.(…)« Daquela vez, num domingo, em meados de Julho de 1968, na altura da mudança da Compª 1783 para o Luvo, foi um pacato cidadão. Atravessou a ponte de ferro sobre o Rio, enfiou pelo capim e cerca das 2 horas da manhã, sem que as sentinelas se apercebessem, devido talvez a um estranho manto escuro da noite, momentâneo descuido na vigilância e excessiva cautela do intruso, furou através do arame farpado que envolvia o aquartelamento e entrou. O facto é insólito, pois que a vigilância nocturna ou diurna nas várias companhias do Batalhão, eram apertadas, mas no melhor pano cai a nódoa, diz a sabedoria popular (…)».Retornemos à narrativa de Leal Fernandes, (…)« Lá dentro, na extensa parada solitária e nocturna, para todos os lados que olhasse, a mesma negrura e solidão, ninguém que o atendesse.(…)». E prossegue,(…)« foi bater à casa-posto da PSP, onde residia um subchefe e um soldado da guarda,(…)». E prossegue,(…)« Sem vir à porta, visto a hora não se prestar para divagações inúteis e pensando que se tratasse dalguma sentinela carregada de insónias ou sob o efeito de traumática tensão bélica, o subchefe gritou-lhe lá de dentro, a fim de o despachar: – Não me esteja a chatear. Vá lá para o posto, para o pé dos seus camaradas, que se o capitão sabe, ainda arranja sarilhos (…)». Portanto o suposto apresentado falhava a sua primeira tentativa de apresentação.E segue (…) «Desiludido, parada deserta, portas e janelas fechadas, teria então entrado numa caserna e acende a luz. Incomodada, a tropa portuguesa, de olhos adormecidos, julgando ser algum nativo que vivia no aquartelamento, manda-o sair e apagar a luz. Perante uma demorada indecisão para a saída, palavrões e botas teriam voado pelo ar, numa ameaça agressiva contra o inoportuno (…).» Raio de sorte a minha, que não encontro ninguém a quem apresentar-me, terá pensado o infeliz visitante. Retornemos à descrição de Leal Fernandes, (…) «De novo, desamparado e perdido na mudez e no frio da noite, envolveu-se num lençol, (…) e sentou-se nos degraus da capela, à espera da manhã e de uma palavra acolhedora e amiga (…).» Passa por ele o sargento da ronda, mas aquelas horas desusadas, imaginou que, (…) «fosse o Manuel Afonso ou o seu sobrinho, naturais de São Salvador do Congo e que, há já alguns meses, ganhavam a vida no aquartelamento (…)» e terá atirado uma interrogação, (…)« Ó Manuel Afonso, que estás aí a fazer, e seguiu adiante com um olhar rápido e oblíquo, prosseguindo a sua ronda pelos postos de sentinela restantes(…).» Isto é, falhara a terceira tentativa de apresentação. A noite vai passando e, (…)« Pouco antes das 6 horas da manhã, quase à hora do toque de alvorada, com a vida já a despertar no aquartelamento, o vulto envolvido no lençol, vendo que ninguém lhe ligava, agarrou-se à sineta da capela. Estranhando o lençol branco sobre o corpo – seria um muçulmano? Um feiticeiro? Um fanático de uma exótica seita africana? – e também aquele toque a uma hora não habitual para cerimónias litúrgicas na vida militar do mato, o sargento de ronda, o Fur. Milº(?),naquele seu característico aspecto mexido e grande humor espontâneo, lança-lhe de longe: – Que religião é a tua para estares aí a tocar a uma hora destas? – Sou o Pereira e venho de Matadi (…)» Escapara às passagens da ronda e enrolado num lençol, aguardara pela manhã. Não era definitivamente quem estes supunham. (…)« Era um homem novo e baixo, só ossos, carregado de fome e de pobreza. Entregue à autoridade militar e à Pide, foi interrogado (…).» Em jeito de confissão, (…)« Pertencera à UPA, transformada depois em na FNLA. Combatera em Angola… Participara em ataques e emboscadas à tropa portuguesa, mas – afirmava ele – nunca matara ninguém. Vivia em Matadi, quase em frente de Noqui, na margem esquerda do Rio Zaire e vinha entregar-se.(…)». Eis uma das muitas histórias que torna aliciante a leitura do livro do Alf. Milº Capelão Leal Fernandes, que sintetiza, (…) «O Pereira ,de Matadi, era um pacífico cidadão. Se ele quisesse ter sido guerrilheiro, praticar vandalismo e dezenas de mortos, bastava-lhe ter lançado umas granadas para dentro das casernas e fugir imediatamente…Mas não, a sua intenção não era destruir, nem matar…Farto da guerra e de vida no Zaire, queria regressar e entregar-se. Seria o desejo de cultivar a sua lavra abandonada? Reconhecer o lugar da sua antiga cubata? Saborear a sombra e o fruto das suas mangueiras? Rever familiares e amigos em São Salvador ou em Luanda? Para já, a sua guerra era por um pedaço de pão (…)». Castilho.


2 comentários

Aqui já foi Portugal

Neste lugar longínquo do solo pátrio batizado de Luvo, derivado do rio com o mesmo nome que nascendo em território angolano, ali passa, fazendo fronteira no norte da província do Zaire com a RDCongo, ex-Congo Belga, afluente do grande rio zaire foi muitas vezes hasteada a bandeira nacional, sempre na posição correcta, ao contrário do que aconteceu em Lisboa no passado dia 5 de Outubro, dia da comemoração da república.

Os militares que prestaram serviço em África, mesmo em condições difíceis e discordando das políticas que os governos de então seguiam sempre souberam respeitar os símbolos nacionais como o hino e a bandeira.

Esta foto de 1972 ilustra o arrear da bandeira que ao romper da aurora do dia seguinte subiria de novo ao mastro significando que ali era PORTUGAL. Durante os anos que durou a guerra, de 1961 a 1974, muitos militares cumpriram este ritual e algumas unidades que ali prestaram serviço deixaram memoriais da peugada da sua presença. Neste caso, os monumentos junto do mastro da bandeira foram construídos pela C.Caç. 1636 do B.Caç. 1900, pela C.Cav. 630 e pela C.Art. 1406. Também a C.Caç. 1783 construiu um enorme obelisco a referenciar a sua presença no Luvo.

Faz hoje precisamente 40 anos que este aquartelamento foi fortemente atacado pela FNLA com o intuito de conquistar o local e ali hastear a sua bandeira, mas a bandeira portuguesa continuou a esvoaçar nos céus do Luvo hasteada pela C.Caç. 3413 e posteriormente pela C.Cav.8453. O 25 de Abril em Portugal abriu a porta à independência de Angola e definitivamente a nossa bandeira deixou aquelas paragens.

 Para nos reportar ao dia 22 de Outubro de 1972, clique AQUI.

Mário Mendes


3 comentários

O acordo de Alvor = pedaço de papel

14-01-2005 | Fonte: Lusa (Vera Magarreiro)

O acordo de Alvor, que há 30 anos permitiu a independência de Angola e previa a paz na antiga colónia portuguesa, representa para António Almeida Santos (na foto), um dos signatários, apenas “um pedaço de papel” que “não valeu nada”.

Em entrevista à Agência Lusa, o dirigente do Partido Socialista Português, que a 15 de Janeiro de 1975 era ministro da Coordenação Interterritorial e integrava a delegação portuguesa que assinou com os líderes dos três movimentos de libertação de Angola o acordo de Alvor, no Algarve, refere que, assim que viu o documento, soube que “aquilo não resultaria”.

O acordo “previa a eleição de uma assembleia política disputada por três partidos, que tinham por detrás três exércitos e três países cheios de ambições económicas, materiais”, afirma o deputado, para justificar a sua certeza de que a solução era “inexequível”.

Além das disputas internas, estava em causa o apoio aos movimentos de três potências mundiais, em plena guerra-fria – o MLPA era apoiado pela URSS, a UNITA pela África do Sul e, num plano de fundo a própria China, e a FNLA pelos Estados Unidos, “não apenas politicamente, mas com dinheiro, material e formação”.

“Era um tabuleiro em que as grandes potências jogavam o xadrez ligado ao petróleo e aos diamantes”, afirma Almeida Santos, que na altura propôs ao “amigo” Agostinho Neto, colega dos tempos de Coimbra, uma reunião com os líderes dos três movimentos “à margem” da cimeira de seis dias, que decorreu no Hotel Penina, em Alvor.

O encontro prolongou-se pela madrugada e Almeida Santos transmitiu a sua oposição à solução encontrada: “Com este esquema vocês vão continuar aos tiros”.

“Com um órgão de cúpula em que havia uma representação dos três movimentos, ou seja dos três exércitos, que decisões é que eles iriam conseguir tomar? Como era possível conseguir uma maioria? O que ficasse em minoria desataria aos tiros”, argumenta.
Propôs então uma solução alternativa que previa uma presidência rotativa. Cada um dos líderes assumia rotativamente o cargo de presidente, de primeiro-ministro e de chefe das forças armadas ou presidente do parlamento.

A solução assentava ainda na criação de uma Constituição, que seria referendada e serviria para estruturar o novo Estado. As eleições realizar-se-iam apenas quando o país estivesse estabilizado e não antes da independência como ficou estabelecido no Acordo de Alvor.

Os três aceitaram mas, à saída, Agostinho Neto disse que tinha ainda de consultar o comité central do MPLA sobre a proposta.

“No dia seguinte a resposta foi negativa”, lamenta o deputado socialista, para quem esta solução, de que muito se orgulha, podia ter traçado um rumo diferente dos acontecimentos.

Resignou-se à solução, mas tem pena de ter sido apenas um “escriba” do documento.

“O acordo já vinha pré-estabelecido pelos líderes dos movimentos. Eu e Mário Soares (então ministro dos Negócios Estrangeiros) limitámo-nos a meter o acordo em bom português”, destaca.

“Do acordo de Alvor sou apenas um escriba, não sou mais do que isso”, reforça, lembrando que Portugal não teve outra alternativa, senão assinar por baixo o que os líderes dos movimentos decidiram uma semana antes de Alvor, em Mombaça, no Quénia.

Sobre a reunião de Mombaça, diz que “foi quase um milagre conseguir sentá-los (aos líderes dos movimentos) à mesma mesa, porque a guerra civil já estava no auge, principalmente em Luanda, onde já se estavam a matar uns aos outros”.

Para Almeida Santos, Portugal teve “um atraso mínimo de dez anos e máximo de 20” no processo de descolonização em relação a outros países como a França, a Inglaterra, a Holanda ou a Bélgica e era preciso “encontrar uma solução” urgentemente.

“As nossas tropas estavam saturadas da guerra, o que, de certo modo levou à revolução do 25 de Abril” e originou uma “psicose de pressa”, refere, lembrando que, além disso, as tropas portuguesas estavam “à beira de uma derrota na Guiné-Bissau e em Moçambique a situação estava a deteriorar-se cada vez mais”.

“Era um castelo de cartas. Sabia-se que quando caísse a primeira carta, cairiam todas as outras. Em resultado disso a descolonização foi feita em condições péssimas”, refere.

A descolonização devia ter sido feita progressivamente, porque a própria opinião pública portuguesa “não estava preparada para um salto rápido” que implicava “a perda das colónias” mas isto gerou a desconfiança nos movimentos de libertação, que exigiram a negociação simultânea de um processo de paz.

A guerra colonial prolongou-se por mais alguns meses após o 25 de Abril, o que “agravou a revolta dos militares”. “Não percebiam porque continuava a matar-se a morrer-se”, sublinha o deputado.

“Gerou-se então um clima de indisciplina, já ninguém mandava em ninguém, já não havia respeito por qualquer tipo de ordem”, uma situação “perigosíssima para quem tinha que negociar a descolonização”, agravada pelo facto de ser necessário chegar a acordo “com três e não apenas um movimento de libertação”, analisa.

“Nas circunstâncias, o acordo de Alvor foi o acordo possível, em extremo de causa. É preciso ver que é um acordo entre três beligerantes, entre três exércitos em luta uns contra os outros. É mais um armistício do que um acordo de descolonização”, considera.

No entanto, com este acordo, Portugal ganhou legitimidade para dizer “isto é um problema deles, fizemos o que tínhamos a fazer, agora entendam-se”, destaca Almeida Santos. “De certa forma legitimámos a nossa saída”.

Sem desistir da proposta apresentada em Alvor aos três dirigentes angolanos, Almeida Santos reapareceu com um documento “na mesma base”, em Junho de 1975, aproveitando a ideia de que o acordo devia ser revisto porque não estava a ser cumprido.

“O governo concordou, o Presidente da República também, mas infelizmente o Melo Antunes (na altura ministro sem pasta responsável pelos processos de descolonização) discordou, não sei porquê”, recorda.

O dirigente socialista considera que Melo Antunes estava “agarrado” à esperança de que ainda era possível que os três movimentos chegassem a acordo e recorda uma visita que ambos fizeram posteriormente a Luanda, em que conseguiram “uma trégua de duas ou três semanas”.

Estas tréguas, diz, eram, no entanto, “precárias” dado que “as razões por que eles lutavam eram tanto internas como de fora, porque naquela altura a guerra-fria mobilizava paixões terríveis”.

“Cada um defendia os seus interesses, interesses que cheiravam a petróleo e brilhavam como os diamantes, eram interesses muito fortes”, reforça.

“Fomos ultrapassados pelos acontecimentos e aquele acordo de Alvor é um acordo que não valeu nada”, sublinha Almeida Santos.

O deputado recorda o seu discurso durante a tomada de posse, em Luanda, do governo provisório acordado em Alvor, em que afirmou: “este acordo tanto pode vir a ser um bom acordo para salvar Angola como pode vir a ser apenas um pedaço de papel”.

“Infelizmente, foi apenas um pedaço de papel”, diz, 30 anos depois.

Questionado pela Lusa sobre se Portugal cometeu o mesmo erro com as negociações de paz de Bicesse, em 1991, Almeida Santos responde que não percebe por que não resultou, dado que terminara a guerra- fria, mas avança uma hipótese: “provavelmente era cedo demais, ainda não havia a saturação da guerra”.

Sobre o fim do conflito armado em 2002, possível após a morte de Savimbi, o socialista responde com uma declaração que fez há anos em Angola e que, na altura, “chocou os jornalistas”: “Angola está condenada a que a guerra dure até que um dos contendores vença o outro”.

Sobre se o cenário seria diferente caso a UNITA tivesse assumido o poder em Luanda em vez do MPLA, Almeida Santos defende que diferente seria certamente, mas que não sabe se melhor.

“Tenho as minhas dúvidas. Se ganhasse a FNLA, ficávamos debaixo da pata do Mobutu (ditador do ex-Zaire), que não era flor que se cheirasse, se ganhasse o Savimbi, ficávamos não só debaixo da pata do Savimbi mas também da África do Sul, racista. Das três hipóteses viesse o diabo e escolhesse”.

O acordo de Alvor, composto por 60 artigos, acabou por ser suspenso temporariamente três meses antes da independência de Angola, a 11 de Novembro de 1975, pelo então presidente da República, Francisco da Costa Gomes, que invocou a sua violação constante.

De Alvor, os líderes dos três movimentos de libertação – Agostinho Neto, pelo MPLA, Jonas Savimbi pela UNITA e Holden Roberto pela FNLA – levaram pelo menos a garantia de serem “únicos e legítimos representantes do povo angolano” No seu discurso, após a assinatura do acordo de Alvor, que considerou de “transcendental importância”, o presidente Costa Gomes deixou aos dirigentes dos três movimentos o desafio de encontrarem “soluções angolanas autênticas, baseadas na capacidade de diálogo, no espírito de cooperação e na boa vontade de servir” o país, apesar das “diferenças sociais, filosóficas e políticas”.

Prevaleceram as diferenças e foi abandonado o diálogo. O resultado foi mais 27 anos de guerra, desta vez civil, num país que Costa Gomes qualificou na altura como dos “mais florescentes do continente africano”.


6 comentários

Colónia de férias do Luvo

Quando em Abril de 1972, depois de 8 meses de comissão, sempre com a “casa às costas”, chegámos ao aquartelamento da Mamarrosa, província do Zaire, norte de Angola, ficamos bem agradados com as instalações, mas logo soubemos que ali perto, no Luvo, existia uma “colónia de férias”onde um grupo de combate de cada vez descansava, tendo como única tarefa a ocupação e guarda do espaço.

No entanto a “colónia de férias”, estava ocupada por um grupo de combate da companhia de caçadores 3372 sediada na Canga, um aquartelamento muito mais distante do Luvo do que a Mamarrosa, e sendo assim reivindicamos que quem teria direito a usufruir da dita colónia seria a companhia de caçadores 3413, porque o Luvo estava ali mesmo à “mão de semear” e nós estávamos bem necessitados de férias.

Efectivamente, durante alguns anos os aquartelamentos junto à fronteira não tiveram muitas situações de recontros com o inimigo (FNLA) porque eram zonas de passagem para o interior de Angola, onde o movimento realizava acções de combate, mas onde nunca conseguiu estabelecer bases logísticas.

Longe da fronteira, quando efectuavam acções contra as nossas tropas, logo os comandos ou páras os perseguiam e infringiam grandes perdas.

Em Junho de 1972, as campainhas de alarme tocaram, depois de uma emboscada que um grupo de combate de uma companhia de caçadores sofreu entre a picada de S.Salvador e Buela, provocando 16 vítimas (9 mortos e 7 feridos).

Foi o momento em que ficamos a saber que o inimigo tinha mudado de táctica e passou a atacar os aquartelamentos junto à fronteira da RDCongo e assim para nós a colónia de férias do Luvo durou muito pouco tempo, depressa nos apercebemos que a partir daquela data aquela zona se transformaria num Inferno e por isso, a tempo reforçamos o Luvo com mais um grupo de combate.

A foto que se segue mostra 3 construções situadas do lado direito quando se entrava no aquartelamento. A da esquerda era um telheiro que servia de oficina, a do meio, uma casa comercial onde se vendiam algumas “bugigangas”, a da direita albergava o bar/cantina/aprovisionamento. As montanhas atrás são já território do Congo que ficava a cerca de 300 metros, com o rio Luvo a servir de divisão.


O dia 22 de Outubro de 1972 foi o escolhido por Holden Roberto, para conquistar o Luvo, a táctica foi bem pensada, flagelando também a Mamarrosa para que os nossos companheiros não pudessem prestar socorro, mas o “tiro saiu-lhes pela culatra”.

Veja o relato AQUI.

Mário Mendes


9 comentários

Tentativa da conquista do Luvo

22 de Outubro de 1972 – Faz hoje 38 anos que dois grupos de combate da C.Caç. 3413 (2º e 4º), travaram a tentativa da FNLA de conquistar o posto fronteiriço do Luvo, no norte de Angola, província do Zaire.

Efectivamente aquele movimento de libertação estava a passar por enormes dificuldades e precisava de demonstrar perante os seus apoiantes internacionais, especialmente os Estados Unidos da América, que ainda era uma força viva, para continuar a justificar o apoio que começava a ser cada vez menor pelo facto dos resultados da sua luta serem também pouco significativos.

O ataque foi de todo inesperado e nem a DGS que estava no terreno conseguiu obter informações do mesmo. Holden Roberto estava do outro lado da fronteira, preparando a “festa”, mas o nosso pequeno grupo de 51 elementos conseguiu desbaratar o inimigo com 150 homens que além de espingardas automáticas possuía morteiros e um canhão sem recuo. Valeu que a granada do primeiro disparo do canhão que atravessou uma caserna cheia de militares não rebentou e a nossa resposta foi também muito rápida. Mais pormenores AQUI.

A arma mais eficaz que tínhamos era este morteiro de 81 mm que causou muitos mortos e feridos ao inimigo, mas mesmo assim não lhe retirou a obsessão de querer tomar o Luvo a 26 de Março de 1973. Desta vez já não fomos apanhados de surpresa e novamente a FNLA foi rechaçada para o seu refúgio na República Democrática do Congo, de Mobutu Sese Seku, cunhado de Holden Roberto.

O Luvo tem importância estratégica, por ser uma porta de entrada e saída de e para a RDCongo. Ainda recentemente assistimos a uma enorme onda de refugiados angolanos expulsos daquele país vizinho, que regressou a Angola pela fronteira do Luvo.

Mário Mendes


4 comentários

Guerra Civil Angolana

Na sequência do derrube da ditadura em Portugal (25 de Abril de 1974), abriram-se perspectivas imediatas para a independência de Angola. O novo governo revolucionário português abriu negociações com os três principais movimentos de libertação (MPLA – Movimento Popular de Libertação de Angola, FNLA – Frente Nacional de Libertação de Angola e UNITA – União Nacional para a Independência Total de Angola), o período de transição e o processo de implantação de um regime democrático em Angola (Acordos de Alvor, Janeiro de 1975).

A independência de Angola não foi o início da paz, mas o início de uma nova guerra aberta. Muito antes do Dia da Independência, a 11 de Novembro de 1975, já os três três grupos nacionalistas que tinham combatido o colonialismo português lutavam entre si pelo controlo do país, e em particular da capital, Luanda. Cada um deles era na altura apoiado por potências estrangeiras, dando ao conflito uma dimensão internacional.

A União Soviética e principalmente Cuba apoiavam o MPLA, que controlava a cidade de Luanda e algumas outras regiões da costa, nomeadamente o Lobito e Benguela. Os cubanos não tardaram a desembarcar em Angola (5 de Outubro de 1975). A África do Sul apoiava a UNITA e invadiu Angola (9 de Agosto de 1975). O Zaire, que apoiava a FNLA, invadiu também este país, em Julho de 1975. A FNLA contava também com o apoio da China, mercenários portugueses e ingleses mas também com o apoio da África do Sul.

Os EUA, que apoiaram inicialmente apenas a FNLA, não tardaram a ajudar também a UNITA. Neste caso, o apoio manteve-se até 1993. A sua estratégia foi durante muito tempo dividir Angola.

Em Outubro de 1975, o transporte aéreo de quantidades enormes de armas e soldados cubanos, organizado pelos soviéticos, mudou a situação, favorecendo o MPLA. As tropas sul-africanas e zairenses retiraram-se e o MPLA conseguiu formar um governo socialista uni partidário.

O Brasil rapidamente estabeleceu relações diplomáticas com a nova República que se instalara. Fez isso antes mesmo de qualquer país do bloco comunista. Nenhum país ocidental ou mesmo africano seguiu o seu exemplo. A decisão de reconhecer como legítimo o governo de Agostinho Neto foi tomada pelo então presidente Ernesto Geisel ainda em 6 de Novembro, antes da data oficial de Independência de Angola.

Já em 1976, as Nações Unidas reconheciam o governo do MPLA como o legítimo representante de Angola, o que não foi seguido nem pelos EUA, nem pela África do Sul.

No meio do caos que Angola se havia tornado, cerca de 300 mil portugueses abandonaram este país entre 1974 e 1976, o que agravou de forma dramática a situação económica.

Em Maio de 1977, um grupo do MPLA encabeçado por Nito Alves, desencadeou um golpe de Estado, que foi afogado num banho de sangue. No final deste ano, o MPLA realizou o seu 1º Congresso, onde se proclamou como sendo um partido Marxista-Leninista, adoptando o nome de MPLA-Partido do Trabalho.

A guerra continuava a alastrar por todo o território. A UNITA e a FNLA juntaram-se então contra o MPLA. A UNITA começou por ser expulsa do seu quartel-general no Huambo, sendo as suas forças dispersas e impelidas para o mato. Mais tarde, porém, o partido reagrupou-se, iniciando uma guerra longa e devastadora contra o governo do MPLA. A UNITA apresentava-se como sendo anti-marxista e pró-ocidental, mas tinha também raízes regionais, principalmente na população Ovimbundu do sul e centro de Angola.

Agostinho Neto morreu em Moscovo a 10 de Setembro de 1979, sucedendo-lhe no cargo o ministro da Planificação, o engenheiro José Eduardo dos Santos.

No início da década de 1980, o número de mortos e refugiados não parou de aumentar. As infraestruturas do país eram consecutivamente destruídas. Os ataques da África do Sul não paravam. Em Agosto de 1981, lançaram a operação “Smokeshell” utilizando 15.000 soldados, blindados e aviões, avançando mais de 200 km na província do Cunene (sul de Angola). O governo da África do Sul justificou a sua acção afirmando que na região estavam instaladas bases dos guerrilheiros da SWAPO, o movimento de libertação da Namíbia. Na realidade tratava-se de uma acção de apoio à UNITA, tendo em vista a criação de uma “zona libertada” sob a sua administração. Estes conflitos só terminaram em Dezembro de 1988, quando em Nova Iorque foi assinado um acordo tripartido (Angola, África do Sul e Cuba) que estabelecia a Independência da Namíbia e a retirada dos cubanos de Angola.

A partir de 1989, com a queda do bloco da ex-União Soviética, sucederam-se em Angola os acordos de paz entre a Unita e o MPLA, seguidos do recomeço das hostilidades. Em Junho de 1989, em Gbadolite (Zaire), a UNITA e o MPLA estabeleceram uma nova trégua. A paz apenas durou dois meses.

Em fins de Abril de 1990, o governo de Angola anunciou o reinício das conversações directas com a UNITA, com vista ao estabelecimento do cessar-fogo. No mês seguinte, a UNITA reconhecia oficialmente José Eduardo dos Santos como o Chefe de Estado angolano. O desmoronar da União Soviética acelerou o processo de democratização. No final do ano, o MPLA anunciava a introdução de reformas democráticas no país. A 11 de Maio de 1991, o governo publicou uma lei que autorizava a criação de novos partidos, pondo fim ao monopartidarismo. A 22 de Maio os últimos cubanos saíram de Angola.

Em 31 de maio de 1991, com a mediação de Portugal, EUA, União Soviética e da ONU, celebraram-se os acordos de Bicesse (Estoril), terminando com a guerra civil desde 1975, e marcando as eleições para o ano seguinte.

As eleições de Setembro de 1992, deram a vitória ao MPLA (cerca de 50% dos votos). A UNITA (cerca de 40% dos votos) não reconheceu os resultados eleitorais. Quase de imediato sucedeu-se um banho de sangue, reiniciando-se o conflito armado, primeiro em Luanda, mas alastrando-se rapidamente ao restante território.

A UNITA restabeleceu primeiramente a sua capital no Planalto Central com sede no Huambo (antiga Nova Lisboa), no leste e norte diamantífero.

Em 1993, o Conselho de Segurança das Nações Unidas embargou as transferências de armas e petróleo para a UNITA. Tanto o governo como a UNITA acordaram em parar as novas aquisições de armas, mas tudo não passou de palavras.

Em Novembro de 1994, celebrou-se o Protocolo de Lusaka, na Zâmbia entre a UNITA e o Governo de Angola (MPLA). A paz parecia mais do que nunca estar perto de ser alcançada. A UNITA usou o acordo de paz de Lusaka para impedir mais perdas territoriais e para fortalecer as suas forças militares. Em 1996 e 1997 adquiriu grandes quantidades de armamentos e combustível, enquanto ia cumprindo, sem pressa, vários dos compromissos que assumira através do Protocolo de Lusaka.

Entretanto o Ocidente passara a apoiar o governo do MPLA, o que marcou o declínio militar e político da UNITA, com este movimento a ter cada vez mais dificuldades em financiar as suas compras militares, perante o avanço no terreno das FAA, e dado o embargo internacional e diplomático a que se viu votada.

Em Dezembro de 1998, Angola retornou ao estado de guerra aberta, que só parou em 2002, com a morte de Jonas Savimbi (líder da Unita).

Com a morte do líder histórico da UNITA, este movimento iniciou negociações com o Governo de Angola com vista à deposição das armas, deixando de ser um movimento armado, e assumindo-se como mera força politica.

Fonte: Wikipédia