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GUERRA NO ULTRAMAR PORTUGUÊS 1961 – 1974

De muito interesse para os historiadores e para a MEMÓRIA dos ex-combatentes. pois a generalidade dos que combateram na Guiné, principalmente no fim da guerra, opinava que ESTAVA PERDIDA A GUERRA COLONIAL PORTUGUESA

GUERRA COLONIAL PORTUGUESA 1961 – 1974

Jonathan Llewellyn

Espero que perdoem a um estrangeiro intrometer-se neste grupo, mas é preciso que alguém diga certas verdades.

A insurreição nos territórios ultramarinos portugueses não tinha nada a ver com movimentos nacionalistas. Primeiro, porque não havia (como ainda não há) uma nação angolana, uma nação moçambicana ou uma nação guineense, mas sim diversos povos dentro do mesmo território. E depois, porque os movimentos de guerrilha foram criados e financiados por outros países.

ANGOLA – A UPA, e depois a FNLA, de Holden Roberto foram criadas pelos americanos e financiadas (directamente) pela bem conhecida Fundação Ford e (indirectamente) pela CIA.

O MPLA era um movimento de inspiração soviética, sem implantação tribal, e financiado pela URSS. Agostinho Neto, que começou a ser trabalhado pelos americanos, só depois se virando para a URSS, tinha tais problemas de alcoolismo que já não era de confiança e acabou por morrer num pós-operatório. Foi substituído pelo José Eduardo dos Santos, treinado, financiado e educado pelos soviéticos.

A UNITA começou por ser financiada pela China, mas, como estava mais interessada em lutar contra o MPLA e a FNLA, acabou por ser tolerada e financiada pela África do Sul. Jonas Savimbi era um pragmático que chegou até a um acordo com os portugueses.

MOÇAMBIQUE – A Frelimo foi criada por conta da CIA. O controleiro do Eduardo Mondlane era a própria mulher, Janet, uma americana branca que casou com ele por determinação superior. Mondlane foi assassinado por não dar garantias de fiabilidade, e substituído pelo Samora Machel, que concordou em seguir uma linha marxista semelhante à da vizinha Tanzânia. Quando Portugal abandonou Moçambique, a Frelimo estava em tal estado que só conseguiu aguentar-se com conselheiros do bloco de leste e tropas tanzanianas.

GUINÉ –- O PAIGC formou-se à volta do Amílcar Cabral, um engenheiro agrónomo vagamente comunista que teve logo o apoio do bloco soviético. Era um movimento tão artificial que dependia de quadros maioritariamente cabo-verdianos para se aguentar (e em Cabo Verde não houve guerrilha). Expandiu-se sobretudo devido ao apoio da vizinha Guiné-Konakry e do seu ditador Sékou Touré, cujo sonho era eventualmente absorver a Guiné portuguesa.

Em resumo, territórios portugueses foram atacados por forças de guerrilha treinadas, financiadas e armadas por países estrangeiros. Segundo o Direito Internacional, Portugal estava a conduzir uma guerra legítima. E ter combatido em três frentes simultâneas durante 13 anos, estando próximo da vitória em Angola e Moçambique e com a situação controlada na Guiné, é um feito que, miitarmente falando, é único na História contemporânea.

Então porque é que os portugueses parecem ter vergonha de se orgulharem do que conseguiram?

Publicado a 01 de Junho 2013 por Jonathan Llewellyn em “Publicações recentes de outras pessoas”.

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Viva a democracia em Angola. Viva!

Finalmente JES, Zé Dú, para os seus apaniguados, depois de 33 anos a exercer as funções de Presidente da República Popular de Angola, foi legitimado por voto popular nas eleições do dia 31 de Agosto de 2012.

Não o foi através de votação universal específica para o cargo, pois que em 2010, o MPLA, no poder em Angola desde a independência em 1975, à sombra da grande maioria (81%) que detinha no parlamento, alterou a constituição e agora há eleições gerais de 5 em 5 anos para eleger os deputados, sendo que o primeiro nome da lista do partido vencedor é automaticamente declarado presidente da república, e por consequência chefe do governo e comandante das forças armadas. Como também nomeia os governadores provinciais, o poder absoluto que detém não é compatível com a democracia, tal como a conhecemos noutros países.

Quanto ao poder judicial, a independência que a constituição lhe outorga, deve ser letra morta, porque um governante carregado com tanto poder, não se esqueceria de não meter também este no saco.

Actualmente, JES, é já o 4º governante com maior longevidade no poder, atrás dos presidentes do Brunei, de Oman e do Yemen. Kadafi também estava no poder há mais tempo, mas já não faz parte desta lista de recordes, teve o fim que conhecemos. Assim JES, é em África o mais duradouro e tem fortes possibilidades de alcançar o primeiro lugar a nível mundial. Nós por cá, também tivemos um 42 anos, também havia eleições, mas tanto a nível interno como externo, as classificações de ditadura e estado novo, foram as que ficaram para a história.

Como o presidente angolano sabe que a nível eleitoral vale menos que o seu partido, colocou-se estrategicamente debaixo da pala do MPLA e como à luz da constituição só os partidos podem apresentar listas, JES, preparou bem a sucessão de si próprio, não fosse aparecer do nada uma individualidade com o carisma de Jonas Savimbi.

Vamos então aos resultados. O MPLA, obteve cerca de 72%, a UNITA, 18% e a terceira força política foi a CASA-CE (Convergência Ampla de Salvação de Angola – Coligação Eleitoral), formada por dissidentes do MPLA e da UNITA, com 6% dos votos. A FNLA, um dos movimentos da luta armada contra o colonialismo obteve apenas 1% dos votos e fica com 2 assentos no Parlamento.

Em Angola, o poder está todo concentrado em Luanda, mesmo o poder local emana da capital, com o PR a designar os 18 governadores provinciais que por sua vez escolhem os administradores locais. Esta política de concentração do poder em Luanda foi sempre um desígnio do MPLA, e foi por isso que não descansou enquanto não empurrou para fora da capital os outros movimentos de libertação. O peso eleitoral da capital bem como os outros que determinam a vida económica e social do país garantem que quem mandar em Luanda é que é o dono. Savimbi, percebeu a estratégia como ninguém e por isso lutou até à morte contra tal desiderato.

Num Parlamento com 220 lugares, apenas 45 são da oposição, mas o principal partido da mesma quase duplicou a votação, tendo o partido vencedor perdido 9% em relação às eleições de 2008. A oposição pouco mais pode fazer no parlamento que simples figura de corpo presente, mas se o partido do galo negro tivesse um líder como Jonas Sabimbi, outro galo cantaria. Mesmo assim, água mole em pedra dura, tanto dá até que fura!

Mas atenção que ainda há milhões de angolanos que não deram apoio explicito ao MPLA e ao seu líder, desde logo os 40% de angolanos eleitores que se abstiveram e 6% de votos brancos e nulos.

Até Setembro de 2017, o status quo em Angola, continuará na mesma como a lesma, e penso que o cenário se manterá durante largos anos, JES está apostado em entrar para o livro do Guinness e depois se o povo um dia se fizer ouvir de modo diferente, será que esta gente habituada a mandar, onde nem sequer no seu seio impera a democracia (veja-se o que aconteceu em 27 de Maio de 1977), respeitará a vontade soberana do voto popular? Esta democracia angolana está para lavar e durar!

Mário Mendes


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O acordo de Alvor = pedaço de papel

14-01-2005 | Fonte: Lusa (Vera Magarreiro)

O acordo de Alvor, que há 30 anos permitiu a independência de Angola e previa a paz na antiga colónia portuguesa, representa para António Almeida Santos (na foto), um dos signatários, apenas “um pedaço de papel” que “não valeu nada”.

Em entrevista à Agência Lusa, o dirigente do Partido Socialista Português, que a 15 de Janeiro de 1975 era ministro da Coordenação Interterritorial e integrava a delegação portuguesa que assinou com os líderes dos três movimentos de libertação de Angola o acordo de Alvor, no Algarve, refere que, assim que viu o documento, soube que “aquilo não resultaria”.

O acordo “previa a eleição de uma assembleia política disputada por três partidos, que tinham por detrás três exércitos e três países cheios de ambições económicas, materiais”, afirma o deputado, para justificar a sua certeza de que a solução era “inexequível”.

Além das disputas internas, estava em causa o apoio aos movimentos de três potências mundiais, em plena guerra-fria – o MLPA era apoiado pela URSS, a UNITA pela África do Sul e, num plano de fundo a própria China, e a FNLA pelos Estados Unidos, “não apenas politicamente, mas com dinheiro, material e formação”.

“Era um tabuleiro em que as grandes potências jogavam o xadrez ligado ao petróleo e aos diamantes”, afirma Almeida Santos, que na altura propôs ao “amigo” Agostinho Neto, colega dos tempos de Coimbra, uma reunião com os líderes dos três movimentos “à margem” da cimeira de seis dias, que decorreu no Hotel Penina, em Alvor.

O encontro prolongou-se pela madrugada e Almeida Santos transmitiu a sua oposição à solução encontrada: “Com este esquema vocês vão continuar aos tiros”.

“Com um órgão de cúpula em que havia uma representação dos três movimentos, ou seja dos três exércitos, que decisões é que eles iriam conseguir tomar? Como era possível conseguir uma maioria? O que ficasse em minoria desataria aos tiros”, argumenta.
Propôs então uma solução alternativa que previa uma presidência rotativa. Cada um dos líderes assumia rotativamente o cargo de presidente, de primeiro-ministro e de chefe das forças armadas ou presidente do parlamento.

A solução assentava ainda na criação de uma Constituição, que seria referendada e serviria para estruturar o novo Estado. As eleições realizar-se-iam apenas quando o país estivesse estabilizado e não antes da independência como ficou estabelecido no Acordo de Alvor.

Os três aceitaram mas, à saída, Agostinho Neto disse que tinha ainda de consultar o comité central do MPLA sobre a proposta.

“No dia seguinte a resposta foi negativa”, lamenta o deputado socialista, para quem esta solução, de que muito se orgulha, podia ter traçado um rumo diferente dos acontecimentos.

Resignou-se à solução, mas tem pena de ter sido apenas um “escriba” do documento.

“O acordo já vinha pré-estabelecido pelos líderes dos movimentos. Eu e Mário Soares (então ministro dos Negócios Estrangeiros) limitámo-nos a meter o acordo em bom português”, destaca.

“Do acordo de Alvor sou apenas um escriba, não sou mais do que isso”, reforça, lembrando que Portugal não teve outra alternativa, senão assinar por baixo o que os líderes dos movimentos decidiram uma semana antes de Alvor, em Mombaça, no Quénia.

Sobre a reunião de Mombaça, diz que “foi quase um milagre conseguir sentá-los (aos líderes dos movimentos) à mesma mesa, porque a guerra civil já estava no auge, principalmente em Luanda, onde já se estavam a matar uns aos outros”.

Para Almeida Santos, Portugal teve “um atraso mínimo de dez anos e máximo de 20” no processo de descolonização em relação a outros países como a França, a Inglaterra, a Holanda ou a Bélgica e era preciso “encontrar uma solução” urgentemente.

“As nossas tropas estavam saturadas da guerra, o que, de certo modo levou à revolução do 25 de Abril” e originou uma “psicose de pressa”, refere, lembrando que, além disso, as tropas portuguesas estavam “à beira de uma derrota na Guiné-Bissau e em Moçambique a situação estava a deteriorar-se cada vez mais”.

“Era um castelo de cartas. Sabia-se que quando caísse a primeira carta, cairiam todas as outras. Em resultado disso a descolonização foi feita em condições péssimas”, refere.

A descolonização devia ter sido feita progressivamente, porque a própria opinião pública portuguesa “não estava preparada para um salto rápido” que implicava “a perda das colónias” mas isto gerou a desconfiança nos movimentos de libertação, que exigiram a negociação simultânea de um processo de paz.

A guerra colonial prolongou-se por mais alguns meses após o 25 de Abril, o que “agravou a revolta dos militares”. “Não percebiam porque continuava a matar-se a morrer-se”, sublinha o deputado.

“Gerou-se então um clima de indisciplina, já ninguém mandava em ninguém, já não havia respeito por qualquer tipo de ordem”, uma situação “perigosíssima para quem tinha que negociar a descolonização”, agravada pelo facto de ser necessário chegar a acordo “com três e não apenas um movimento de libertação”, analisa.

“Nas circunstâncias, o acordo de Alvor foi o acordo possível, em extremo de causa. É preciso ver que é um acordo entre três beligerantes, entre três exércitos em luta uns contra os outros. É mais um armistício do que um acordo de descolonização”, considera.

No entanto, com este acordo, Portugal ganhou legitimidade para dizer “isto é um problema deles, fizemos o que tínhamos a fazer, agora entendam-se”, destaca Almeida Santos. “De certa forma legitimámos a nossa saída”.

Sem desistir da proposta apresentada em Alvor aos três dirigentes angolanos, Almeida Santos reapareceu com um documento “na mesma base”, em Junho de 1975, aproveitando a ideia de que o acordo devia ser revisto porque não estava a ser cumprido.

“O governo concordou, o Presidente da República também, mas infelizmente o Melo Antunes (na altura ministro sem pasta responsável pelos processos de descolonização) discordou, não sei porquê”, recorda.

O dirigente socialista considera que Melo Antunes estava “agarrado” à esperança de que ainda era possível que os três movimentos chegassem a acordo e recorda uma visita que ambos fizeram posteriormente a Luanda, em que conseguiram “uma trégua de duas ou três semanas”.

Estas tréguas, diz, eram, no entanto, “precárias” dado que “as razões por que eles lutavam eram tanto internas como de fora, porque naquela altura a guerra-fria mobilizava paixões terríveis”.

“Cada um defendia os seus interesses, interesses que cheiravam a petróleo e brilhavam como os diamantes, eram interesses muito fortes”, reforça.

“Fomos ultrapassados pelos acontecimentos e aquele acordo de Alvor é um acordo que não valeu nada”, sublinha Almeida Santos.

O deputado recorda o seu discurso durante a tomada de posse, em Luanda, do governo provisório acordado em Alvor, em que afirmou: “este acordo tanto pode vir a ser um bom acordo para salvar Angola como pode vir a ser apenas um pedaço de papel”.

“Infelizmente, foi apenas um pedaço de papel”, diz, 30 anos depois.

Questionado pela Lusa sobre se Portugal cometeu o mesmo erro com as negociações de paz de Bicesse, em 1991, Almeida Santos responde que não percebe por que não resultou, dado que terminara a guerra- fria, mas avança uma hipótese: “provavelmente era cedo demais, ainda não havia a saturação da guerra”.

Sobre o fim do conflito armado em 2002, possível após a morte de Savimbi, o socialista responde com uma declaração que fez há anos em Angola e que, na altura, “chocou os jornalistas”: “Angola está condenada a que a guerra dure até que um dos contendores vença o outro”.

Sobre se o cenário seria diferente caso a UNITA tivesse assumido o poder em Luanda em vez do MPLA, Almeida Santos defende que diferente seria certamente, mas que não sabe se melhor.

“Tenho as minhas dúvidas. Se ganhasse a FNLA, ficávamos debaixo da pata do Mobutu (ditador do ex-Zaire), que não era flor que se cheirasse, se ganhasse o Savimbi, ficávamos não só debaixo da pata do Savimbi mas também da África do Sul, racista. Das três hipóteses viesse o diabo e escolhesse”.

O acordo de Alvor, composto por 60 artigos, acabou por ser suspenso temporariamente três meses antes da independência de Angola, a 11 de Novembro de 1975, pelo então presidente da República, Francisco da Costa Gomes, que invocou a sua violação constante.

De Alvor, os líderes dos três movimentos de libertação – Agostinho Neto, pelo MPLA, Jonas Savimbi pela UNITA e Holden Roberto pela FNLA – levaram pelo menos a garantia de serem “únicos e legítimos representantes do povo angolano” No seu discurso, após a assinatura do acordo de Alvor, que considerou de “transcendental importância”, o presidente Costa Gomes deixou aos dirigentes dos três movimentos o desafio de encontrarem “soluções angolanas autênticas, baseadas na capacidade de diálogo, no espírito de cooperação e na boa vontade de servir” o país, apesar das “diferenças sociais, filosóficas e políticas”.

Prevaleceram as diferenças e foi abandonado o diálogo. O resultado foi mais 27 anos de guerra, desta vez civil, num país que Costa Gomes qualificou na altura como dos “mais florescentes do continente africano”.


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Eleições na UNITA

Samakuva e Veloso ‘esvoaçam’ para o poleiro

Segundo a fonte, José Pedro Katchiungo que era citado por meios electrónicos como candidato à liderança da UNITA, foi aconselhado pelos seus apoiantes, onde sobressaem os nomes de Abel Chivukukuvu, Lukamba Gato, Marcial Dachala e alguns militantes conotados com o fracassado “Grupo de Reflexão” a retirar a sua candidatura, deixando que Samakuva, a quem acusam de ditador, concorra isolado à sua própria sucessão, em protesto à violação dos estatutos que ele (Samakuva) alega serem omissos para conseguir os seus intentos.

” Esta é a única forma que os apoiantes do engenheiro Katchiungo encontraram para isolar o presidente do partido que vai concorrer para um terceiro mandato, o que por si demonstra sinais de ditadura e atropelo aos estatutos do partido”, referiu a fonte, para quem a candidatura de Isaías Samakuva está a ser questionada até por alguns militantes de topo que tinham em Samakuva um líder exemplar em matéria de democracia. Referiu que o facto de os estatutos serem omissos quanto aos mandatos, não implica que ” ele faça o que bem entender, mas deveria antes deixar que outros também concorram” desabafou.

Para a fonte, nesta matéria de liderança, a UNITA que sempre se bateu pela democracia deveria ser o primeiro a cumprir e não fazer o contrário como ” estamos assistindo no presidente Samakuva que não quer largar o cargo, já que deu o que podia dar ao partido durante os oito anos que ficou à frente da nossa organização”, afirmou. Segundo ele, a insistência de Samakuva na liderança do “galo negro” poderá causar outros dissabores, à semelhança do que ocorreu nas eleições de 2008, em que o partido perdeu muitos lugares no Parlamento. ” Deveria sair já para se evitar uma outra humilhação, embora tenha havido fraude eleitoral arquitectada pelo MPLA”, acusou.

Deixar a casa arrumada

Reforçou que “ele tem um peso de consciência em deixar o partido tal como está, porque nos seus mandatos o partido viver graves problemas e não pode deixá-los assim sem solução”, confidenciou a fonte, adiantando que o líder da UNITA não tencionava continuar na liderança, mas tão só cumprir mais um mandato para colocar esta força política no seu “devido lugar e devolver a mística que lhe é característica”.

Tanto em público, quanto em privado, Samakuva sempre se terá manifestado disponível para abandonar a direcção do partido, mas deixando “a casa mais arrumada do que encontrou”. Reconheceu que, com a morte de Savimbi, em 2002, esta maior força política da oposição está a viver os piores momentos da sua vida política, caracterizada por deserções de militantes influentes para o partido no poder, maioritariamente por alegados subornos e pela insubordinação de deputados do anterior mandato saído das eleições de 1992 Conhecedor profundo da vida interna da UNITA, a fonte acrescentou que na eventualidade de não haver mais candidatos com a retirada de José Katchiungo, um quadro de reconhecida competência, os que surgirem poderão não fazer uma luta renhida para destronar o sucessor de Jonas Savimbi da direcção do partido criado há quarenta e cinco anos nas Chanas do Leste, coincidentemente onde tombou o seu fundador, em combate, há nove anos. Reportando ainda as declarações da fonte, a decisão de Samakuva está a colocar em dúvida a seriedade da UNITA que diz ser um partido democrático.

À pergunta sobre um suposto recuo de Samakuva, numa altura em que continuam duras críticas contra ele, vindas quase de todos os quadrantes, incluindo no estrangeiro onde este movimento possui células, na tentativa de salvaguardar o partido no estatuto de” defensor da democracia”, mostrou-se céptico quanto a uma eventual reviravolta, ” porque não há nenhum sinal que indique que ele possa fazer isso, já que ele se assume como candidato na grelha de partida, por isso mesmo mantenho as minhas próprias dúvidas que isso aconteça”.

Dois ” pesos pesados” de  fora

Abel Chivukuvuku e Paulo Lukamba (Gato), dois “pesos pesados” da UNITA que em 2003 e 2007, respectivamente, perderam para Isaías Samakuva na corrida presidencial decidiram em não mais concorrer, conforme avançamos na nossa edição número 157, por motivos já conhecidos publicamente, embora a suposta entrada do primeiro para o Bloco Democrático (BD) tenha sido desmentida pelo seu líder, Justino Pinto de Andrade.

Antigos delfins de Jonas Savimbi e que já ocuparam os cargos de secretários para relações internacionais e secretário-geral durante vários anos, não será desta vez que concretizarão os seus objectivos de dirigir o partido.

A relação de ambos com Samakuva azedou com o surgimento do “Grupo de Reflexão” que pretendia “destituir” o líder, tendo sido apontados como principais mentores do grupo, o que lhes custou uma acção disciplinar, mas que viria a ser levantada.

Lukamba Gato, deputado à Assembleia Nacional e empresário de sucesso, segundo a fonte, manifestou publicamente a sua decisão em não mais concorrer à liderança do partido, enquanto não consolidar a sua veia empresarial, que desenvolve há mais de sete anos, segundo avançamos há duas semanas. Em círculos restritos, Gato tem dito que voltará um dia a candidatar-se outra vez quando a situação interna da UNITA se normalizar, pois alega que o momento não é o ideal para desafios de liderança.

Candidaturas

Informações de última hora chegadas já sobre o fecho desta edição, apontavam como certa a candidatura de Sebastião Veloso, antigo ministro da Saúde no Governo de Unidade e Reconciliação Nacional (GURN).

Segundo a fonte que forneceu este dado, Sebastião Veloso, quadro do “galo negro” desde a década de 70, foi médico pessoal de Jonas Savimbi, o primeiro líder da UNITA. Após deixar o GURN, a sua aparição nas actividades do partido era quase nula, tendo gerado especulações de que teria rumado para Portugal, onde sempre viveu a sua família. Com o suposto “congelamento” da candidatura de Katchiungo, que esta outra fonte não confirma e nem desconfirma, poderão surgir mais concorrentes que deverão apresentar as suas candidaturas a partir de Sexta-feira, 25.

Ireneu Mujoco (Jornal O País)

25 de Novembro de 2011

NR: E assim vai a democracia em Angola. O presidente da república eterniza-se no poder e o presidente do maior partido da oposição não quer ficar atrás.


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Morte de Jonas Savimbi


Por: Pedro Mufuma

O dia 22 de Fevereiro foi, para todos os efeitos, um dia dramático e tétrico; dramático, porque, tal como nos outros dias, o Dr. Jonas Malheiro Savimbi, como era de costume, na sua qualidade de General, se havia preparado para mais um dia de rotina. Logo pela manhã meteu o seu uniforme verde, fez a toilete e, possivelmente, aguardava pelo evoluir da situação. No entanto, a perda, dias atrás, das duas colunas que o guarneciam não augurava nada de bom. Estava praticamente exposto às forças do MPLA, constituídas por milícias, polícias e soldados do exército. E, tal como Che Guevera, na Bolívia, o Dr. Savimbi nem sequer se deu conta que o inimigo estava a poucos passos de si e lhe crivava, segundos depois, o corpo com sete balas.

Foi assim, de uma forma aparentemente fácil, e quase inacreditável – para um homem tão experiente nas andanças da guerra -, que terminava a vida de um líder carismático e de um homem, que fez da guerra o seu cavalo de batalha para um dia vir a ser Presidente do País que o vira nascer. Dizem as pessoas que o conheceram de perto que, em certas ocasiões, lhes perguntava se um dia viria a ser, de facto, Presidente de Angola e condoído pela dúvida vertia algumas lágrimas. Talvez por notar que este desiderato se encontrava cada vez mais distante dele.

Na verdade, Jonas Savimbi nem sequer precisava de vir a ser um dia Presidente da República, pois viveu as glórias, alegrias, honras e os dissabores dos presidentes. Foi assim a vida tão atribulada, quanto plena de contradições do menino irrequieto, que nasceu a 3 de Agosto de 1934, em Munhango, no Bié. A sua passagem por Portugal foi, de igual modo, turbulenta, uma vez que a par dos estudos, contestava abertamente o regime colonial português, o que lhe valeu algumas prisões. Apesar disso, como uma vez havia contado Daniel Chipenda, não se coibia em ostentar os seus conhecimentos, mesmo em domínios não afins à sua formação. Uma vez pretendeu dar uma conferência sobre antropologia numa instituição portuguesa, sendo, de imediato, desaconselhado por Chipenda.

Formado em Ciências Políticas e Jurídicas na Universidade Lousane, Suíça, passou, a partir daí, a dedicar toda a sua vida à política até ao último momento em que morreu em combate. Jonas Savimbi, era o homem dos antípodas. Era anjo e ao mesmo tempo demónio; assemelhava-se ao remoinho de vento, kanyongo, que varre árvores e levanta as casas do chão, mas também tinha dificuldades de se conter e, por vezes, chorava como uma criança. A sua vida tão plena de contradições e de estados de humor surpreendentes levou a que, no processo eleitoral, o MPLA, afirmasse que ele havia feito a sua campanha, mesmo que (o que é estranho) o seu arqui-rival não o tenha conseguido bater na primeira volta. Mas a sua sentença de morte havia sido ditada há muito, ou seja, muito antes da independência. Apenas José Eduardo dos Santos, viria a consumá-la volvidos dezenas de anos, o que aconteceu nesse fatídico dia, na localidade de Lucussi, ao lado de uma grande mulemba.

Quer queiramos quer não temos que aceitar que com a morte do Dr. Jonas Savimbi, abre-se uma nova fase na vida política de Angola, mas contrária aos cenários que se vêm desenhando por aí. Primeiro, porque, para o MPLA, as causas da guerra não radicam em factores de ordem estrutural, mas na ambição de um homem que queria, a todo o custo, tomar o poder. Não tardará a chegar o dia em que o MPLA e os seus correligionários tomarão consciência de que esta morte não trouxe, nada de novo, no processo de consolidação da paz; pelo contrário, notarão, perplexos, que ela veio apenas acirrar ódios velados e em certos casos contidos. Está a vista que a verdadeira paz passa, necessariamente, pela instauração de um regime democrático, de facto, pelo desfasamento das assimetrias regionais (dando a cada região uma relativa liberdade para decidir do seu destino, económico e social). E mais importante ainda é o facto de que a paz também se conquista através da distribuição equitativa das riquezas.

O filho de Lote e Mbundo, teve todos os meios ao seu alcance para evitar este trágico desfecho. Possuidor de uma elevada fortuna, poderia, sem grandes restrições, exilar-se em qualquer país; possuía, até ao último momento, o seu sistema de comunicações com o qual poderia comunicar ao mundo e às Nações Unidas a sua rendição. Mas preferiu, conscientemente, morrer assim, na crença, pensamos nós, de que, ao estilo de Cristo, continuaria vivo durante vários séculos no imaginário daqueles que o seguiram e o apoiaram. Refiro-me ao poder de catalisação das energias de um povo ou etnia, que possuem certos líderes que deixam de existir de uma forma brutal. Trata-se do valor e do poder simbólico de um mártir. Independentemente da evolução do processo político-militar de Angola, a verdade é, que, o MPLA perdeu o seu bode expiatório. O indivíduo a quem era atribuída a miséria, a falta da gestão transparente da coisa pública, a corrupção, o despotismo, e a ausência de democracia.

Fatalmente, acaba de chegar o momento em que o MPLA vai ter, necessariamente, que olhar para si próprio. Neste sentido, está a vista que a morte do Dr. Jonas Savimbi, longe de colocar o MPLA numa posição confortável, coloca-lo-á, isso sim, numa posição mais crítica. Assim, e a partir de agora, o maior inimigo do MPLA será o advento, em Angola, de uma verdadeira democracia. Pois, o Presidente José Eduardo dos Santos ao decretar a sentença de morte a Savimbi, também decretou a sua própria sentença e, pior ainda, quando se põe em questão o magnetismo e o carisma de Savimbi entre os Ovimbundu.

De modo que os Ovimbundu se afastarão, definitivamente, desse Partido político que impõe a paz com cadáveres. E tomando em consideração de que não será a curto prazo que os problemas estruturais da guerra em Angola serão extirpados, fatalmente, a morte de Jonas Savimbi, ganha um valor simbólico tão forte que, inevitavelmente, trará a morte política dos seus adversários. Talvez isso explique porque ele havia escolhido morrer assim. E se assim foi, talvez (quem lá sabe) tenha valido a pena.

NR: O que talvez não fosse necessário foi a exposição pública do seu corpo, como se tratasse de um troféu de caça.



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Guerra Civil Angolana

Na sequência do derrube da ditadura em Portugal (25 de Abril de 1974), abriram-se perspectivas imediatas para a independência de Angola. O novo governo revolucionário português abriu negociações com os três principais movimentos de libertação (MPLA – Movimento Popular de Libertação de Angola, FNLA – Frente Nacional de Libertação de Angola e UNITA – União Nacional para a Independência Total de Angola), o período de transição e o processo de implantação de um regime democrático em Angola (Acordos de Alvor, Janeiro de 1975).

A independência de Angola não foi o início da paz, mas o início de uma nova guerra aberta. Muito antes do Dia da Independência, a 11 de Novembro de 1975, já os três três grupos nacionalistas que tinham combatido o colonialismo português lutavam entre si pelo controlo do país, e em particular da capital, Luanda. Cada um deles era na altura apoiado por potências estrangeiras, dando ao conflito uma dimensão internacional.

A União Soviética e principalmente Cuba apoiavam o MPLA, que controlava a cidade de Luanda e algumas outras regiões da costa, nomeadamente o Lobito e Benguela. Os cubanos não tardaram a desembarcar em Angola (5 de Outubro de 1975). A África do Sul apoiava a UNITA e invadiu Angola (9 de Agosto de 1975). O Zaire, que apoiava a FNLA, invadiu também este país, em Julho de 1975. A FNLA contava também com o apoio da China, mercenários portugueses e ingleses mas também com o apoio da África do Sul.

Os EUA, que apoiaram inicialmente apenas a FNLA, não tardaram a ajudar também a UNITA. Neste caso, o apoio manteve-se até 1993. A sua estratégia foi durante muito tempo dividir Angola.

Em Outubro de 1975, o transporte aéreo de quantidades enormes de armas e soldados cubanos, organizado pelos soviéticos, mudou a situação, favorecendo o MPLA. As tropas sul-africanas e zairenses retiraram-se e o MPLA conseguiu formar um governo socialista uni partidário.

O Brasil rapidamente estabeleceu relações diplomáticas com a nova República que se instalara. Fez isso antes mesmo de qualquer país do bloco comunista. Nenhum país ocidental ou mesmo africano seguiu o seu exemplo. A decisão de reconhecer como legítimo o governo de Agostinho Neto foi tomada pelo então presidente Ernesto Geisel ainda em 6 de Novembro, antes da data oficial de Independência de Angola.

Já em 1976, as Nações Unidas reconheciam o governo do MPLA como o legítimo representante de Angola, o que não foi seguido nem pelos EUA, nem pela África do Sul.

No meio do caos que Angola se havia tornado, cerca de 300 mil portugueses abandonaram este país entre 1974 e 1976, o que agravou de forma dramática a situação económica.

Em Maio de 1977, um grupo do MPLA encabeçado por Nito Alves, desencadeou um golpe de Estado, que foi afogado num banho de sangue. No final deste ano, o MPLA realizou o seu 1º Congresso, onde se proclamou como sendo um partido Marxista-Leninista, adoptando o nome de MPLA-Partido do Trabalho.

A guerra continuava a alastrar por todo o território. A UNITA e a FNLA juntaram-se então contra o MPLA. A UNITA começou por ser expulsa do seu quartel-general no Huambo, sendo as suas forças dispersas e impelidas para o mato. Mais tarde, porém, o partido reagrupou-se, iniciando uma guerra longa e devastadora contra o governo do MPLA. A UNITA apresentava-se como sendo anti-marxista e pró-ocidental, mas tinha também raízes regionais, principalmente na população Ovimbundu do sul e centro de Angola.

Agostinho Neto morreu em Moscovo a 10 de Setembro de 1979, sucedendo-lhe no cargo o ministro da Planificação, o engenheiro José Eduardo dos Santos.

No início da década de 1980, o número de mortos e refugiados não parou de aumentar. As infraestruturas do país eram consecutivamente destruídas. Os ataques da África do Sul não paravam. Em Agosto de 1981, lançaram a operação “Smokeshell” utilizando 15.000 soldados, blindados e aviões, avançando mais de 200 km na província do Cunene (sul de Angola). O governo da África do Sul justificou a sua acção afirmando que na região estavam instaladas bases dos guerrilheiros da SWAPO, o movimento de libertação da Namíbia. Na realidade tratava-se de uma acção de apoio à UNITA, tendo em vista a criação de uma “zona libertada” sob a sua administração. Estes conflitos só terminaram em Dezembro de 1988, quando em Nova Iorque foi assinado um acordo tripartido (Angola, África do Sul e Cuba) que estabelecia a Independência da Namíbia e a retirada dos cubanos de Angola.

A partir de 1989, com a queda do bloco da ex-União Soviética, sucederam-se em Angola os acordos de paz entre a Unita e o MPLA, seguidos do recomeço das hostilidades. Em Junho de 1989, em Gbadolite (Zaire), a UNITA e o MPLA estabeleceram uma nova trégua. A paz apenas durou dois meses.

Em fins de Abril de 1990, o governo de Angola anunciou o reinício das conversações directas com a UNITA, com vista ao estabelecimento do cessar-fogo. No mês seguinte, a UNITA reconhecia oficialmente José Eduardo dos Santos como o Chefe de Estado angolano. O desmoronar da União Soviética acelerou o processo de democratização. No final do ano, o MPLA anunciava a introdução de reformas democráticas no país. A 11 de Maio de 1991, o governo publicou uma lei que autorizava a criação de novos partidos, pondo fim ao monopartidarismo. A 22 de Maio os últimos cubanos saíram de Angola.

Em 31 de maio de 1991, com a mediação de Portugal, EUA, União Soviética e da ONU, celebraram-se os acordos de Bicesse (Estoril), terminando com a guerra civil desde 1975, e marcando as eleições para o ano seguinte.

As eleições de Setembro de 1992, deram a vitória ao MPLA (cerca de 50% dos votos). A UNITA (cerca de 40% dos votos) não reconheceu os resultados eleitorais. Quase de imediato sucedeu-se um banho de sangue, reiniciando-se o conflito armado, primeiro em Luanda, mas alastrando-se rapidamente ao restante território.

A UNITA restabeleceu primeiramente a sua capital no Planalto Central com sede no Huambo (antiga Nova Lisboa), no leste e norte diamantífero.

Em 1993, o Conselho de Segurança das Nações Unidas embargou as transferências de armas e petróleo para a UNITA. Tanto o governo como a UNITA acordaram em parar as novas aquisições de armas, mas tudo não passou de palavras.

Em Novembro de 1994, celebrou-se o Protocolo de Lusaka, na Zâmbia entre a UNITA e o Governo de Angola (MPLA). A paz parecia mais do que nunca estar perto de ser alcançada. A UNITA usou o acordo de paz de Lusaka para impedir mais perdas territoriais e para fortalecer as suas forças militares. Em 1996 e 1997 adquiriu grandes quantidades de armamentos e combustível, enquanto ia cumprindo, sem pressa, vários dos compromissos que assumira através do Protocolo de Lusaka.

Entretanto o Ocidente passara a apoiar o governo do MPLA, o que marcou o declínio militar e político da UNITA, com este movimento a ter cada vez mais dificuldades em financiar as suas compras militares, perante o avanço no terreno das FAA, e dado o embargo internacional e diplomático a que se viu votada.

Em Dezembro de 1998, Angola retornou ao estado de guerra aberta, que só parou em 2002, com a morte de Jonas Savimbi (líder da Unita).

Com a morte do líder histórico da UNITA, este movimento iniciou negociações com o Governo de Angola com vista à deposição das armas, deixando de ser um movimento armado, e assumindo-se como mera força politica.

Fonte: Wikipédia