C.CAÇ. 3413 – Memórias (II)

Do nosso “correspondente” no Canadá, Ramiro Carreiro, recebemos mais estas duas fotos para rebobinar o filme das nossas vidas, mais concretamente os episódios vividos lá longe das terras onde nascemos, quando na flor da juventude a guerra nos atirou para Angola. Aqui, maioritariamente estão presentes companheiros do 4º grupo de combate e que o Ramiro identifica assim:

Na primeira fila, de joelhos e da esquerda para a direita: Almeida (transmissões), alferes Moniz (estagiário), Bernardo, Lepson, Cantiflas, Raimundo Quissombo.

Na outra fila de pé e no mesmo sentido: Araújo, Dinis, João Pereira, furriel Leitão, Chico, Ramiro Carreiro, Carlos Pimentel, capitão Ribeiro, José Pavão, Henrique Câmara, Lopes, Manuel Teixeira, Manuel Dechiluange, João, Machado, Loque.

Mário Mendes

Para Angola, rapidamente e em força!

Esta célebre frase foi proferida por Salazar em 13 de Abril de 1961, quando se apercebeu que os acontecimentos de 15 de Março desse ano, que marcaram o começo da guerra colonial em Angola, não era apenas uma guerra de catanas, mas um movimento organizado apoiado por potências internacionais que se propunha conquistar a independência do território.

Passados 50 anos, este slogan está novamente na ribalta, porque as políticas que nos últimos anos se têm seguido por cá estão a “empurrar” muita gente, principalmente os jovens para fora do seu país e Angola está a ser a par do Brasil um dos principais destinos desta “avalanche” que tomou conta de Portugal.

Foram muitos milhares os que nos anos 60 e 70 responderam afirmativamente ao chamamento de Salazar para África, para defender a integridade do Portugal de aquém e dalém mar, mas os ex-combatentes que viram chegar o 25 de Abril de 1974 e a esperança de um país melhor não imaginariam que agora os seus filhos sejam “obrigados” a procurar naquelas terras distantes o trabalho que aqui lhes falta para construírem o seu futuro.

Angola, que suportou durante 41 anos uma guerra colonial seguida de uma civil, está em grande desenvolvimento, precisa de muitas infra-estruturas, mas já tem também muitos emigrantes de outros países, principalmente chineses que tomam conta da grande maioria das empreitadas e por isso se os portugueses não querem perder o comboio desta transformação que está a ocorrer em solo angolano, aquele slogan está hoje bem actual.

Desta vez não vão à procura da árvore das patacas, os tempos são outros, a economia é global e os capitais angolanos também já têm uma boa posição na nossa economia, pelo que será do interesse de ambos os países a cooperação e o respeito mútuo.

Os portugueses assistem atónitos à austeridade que está a sufocá-los, mas e os responsáveis destes desmandos, que é feito deles? Uns estão “foragidos”, outros andam por aí disfarçados de pobres. O jornalista António Azenha publicou há dias um livro com o título “Como os políticos enriquecem em Portugal” e no pacote meteu o ex-ministro Mira Amaral. O homem ficou tão “abespinhado” que resolveu escrever uma carta ao jornalista e que pode ler AQUI.

Mário Mendes


NR: Portugueses que trabalham e recebem o salário mínimo, pensionistas que têm que esticar 300 euros até ao final do mês, que hão-de pensar de reformas de 11 mil euros mensais? Façamos um pequeno exercício: um trabalhador que recebe 777 euros (salário médio nacional), desconta para a segurança social 11%, o que dá 85,47 euros; para pagar a reforma do “remediado” Mira Amaral são necessários os descontos de 128 trabalhadores, ou seja, falando em termos militares, quase uma companhia. Quando se sabe que por cada reformado existem 2,6 trabalhadores activos é só fazer as contas. Porque se está à espera de pôr um teto nas reformas, para acabar com esta vergonha nacional? São precisos Passos Seguros nesse sentido. Não se admirem pois que a onda dos indignados cresça a olhos vistos.

100 mil visitas

Atingimos a meta das 100 mil visitas, o que prova que este espaço continua a suscitar o interesse de muitos leitores. Para nós todos são importantes, mas gostaríamos que mais gente da C.Caç. 3413 desse “sinal de vida”.

Além do nosso país, o Brasil e Angola são os maiores “consumidores” destas notícias. Os artigos que mais despertaram a atenção e curiosidade dos leitores são os que se indicam por ordem de preferência:

  1. Luanda de ontem e de hoje
  2. Angola, o gigante africano
  3. O imbondeiro
  4. Morte de Jonas Savimbi
  5. Artesanato angolano
  6. Combatentes portugueses de Angola
  7. Mamarrosa, no espaço e no tempo
  8. Atenção ex-combatentes, mês da esmola
  9. Independência de Angola
  10. Zaire – Angola

Mário Mendes

O “Vera Cruz” que nos levou para Angola


Faz hoje 40 anos (31/07/1971) que partimos a bordo deste navio rumo à guerra que já durava há 10 anos em Angola, tendo chegado a Luanda no dia 9 de Agosto.

Navio-almirante da marinha mercante portuguesa e da frota da Companhia Colonial de Navegação, o Vera Cruz foi entregue à CCN a 23 de fevereiro de 1952, no porto de Antuérpia (Bélgica), depois de concluir com êxito as provas de mar.

Além de ser o maior navio português, o Vera Cruz era também a maior unidade até então construída na Bélgica, tendo assistido à cerimónia de entrega do paquete as individualidades mais importantes daquele país.

Comandado por Hilário Filipe Marques, o Vera Cruz deixou Antuérpia a 28 de fevereiro, chegando a Lisboa a 2 de março de 1952.

Durante a estadia no Tejo, o Vera Cruz foi visitado pelas grandes figuras do regime, com destaque para o presidente da República, general Craveiro Lopes, presidente do Conselho de Ministros, António de Oliveira Salazar.

Com 21.765 toneladas de arqueação bruta, o Vera Cruz tinha 185,75 metros de comprimento fora-a-fora, 23 metros de boca (largura) e 15,80 metros de pontal.

O navio estava equipado com dois grupos de turbinas Parsons, desenvolvendo a potência de 25.500 cavalos-vapor e atingindo a velocidade máxima de 23 nós (42,6 quilómetros horários). A velocidade de cruzeiro era de 20 nós.

Cada um dos dois hélices de três pás do paquete pesava 16 toneladas e o Vera Cruz consumia 140 toneladas de fuel oil (óleo combustível) e 200 toneladas de água por cada dia de navegação.

Foram instalados a bordo os mais modernos aparelhos de ajuda à navegação, nomeadamente agulha giroscópica, piloto automático, odómetro eléctrico, radar com alcance de 30 milhas (55,5 quilómetros), radiogoniómetro, sonda e radiotelefone.

O Vera Cruz dispunha de alojamento para 1.242 passageiros instalados em 289 camarotes, distribuídos em três classes: 148 passageiros em primeira classe, 250 em segunda, 844 na terceira classe.

Os interiores deste paquete eram considerados luxuosos para a época, incluindo numerosos salões, bares, cinemas, jardim de inverno, duas piscinas e amplos tombadilhos e solários, hospital com cinco enfermarias, salas para crianças e todas as facilidades consideradas necessárias para um grande transatlântico, incluindo ar condicionado.

Realizou a viagem inaugural partindo de Lisboa em 20 de março de 1952 e fez a primeira escala no porto do Rio de Janeiro em 29 de março.

O Vera Cruz tinha 350 tripulantes, dentre os quais 38 oficiais.

Muitos estão lembrados, ou já ouviram falar, da grandiosa despedida do Vera Cruz ao deixar Lisboa em viagem inaugural, rumo ao Brasil. Mas, poucos sabem como foi a recepção do outro lado do Oceano Atlântico.

A primeira escala do Vera Cruz ao Brasil deu-se no sábado, dia 29 de março de 1952, no Rio de Janeiro. Como a Imprensa havia noticiado com antecedência a chegada do famoso transatlântico, a cidade despertou cedo, milhares de pessoas aglomeraram-se na Praça Mauá e nas proximidades do porto.

Devido a forte nevoeiro, houve um atraso e somente após as 12 horas foi feita a atracação do tão esperado paquete português.

Brasileiros e portugueses, sob sol ardente, esbanjavam alegria, sem conter seu entusiasmo. Nunca um navio de qualquer nacionalidade foi tão bem recebido.

Com o deflagrar dos conflitos de libertação colonial em Angola e Moçambique, a partir de 1960, o Estado português viu-se na obrigação de reforçar militarmente as suas colónias na tentativa de conter e eliminar os focos de resistência à ordem estabelecida.

Assim, no decorrer de 1961, várias unidades da marinha mercante de Portugal foram requisitadas pelo governo para servirem como transporte de tropas ou como navios de carga de material bélico.

O Vera Cruz não escapou à nova realidade e, ao retornar a Lisboa de sua viagem, a que seria na verdade a última, na Rota de Ouro e Prata (efectuada em março e abril daquele ano), o transatlântico foi rapidamente adaptado para as funções de navio-transporte e posto sobre o controle operacional da Marinha de Guerra, sempre, porém, com as cores da CCN.

Seguiu-se a partir de então um longo período onde alternaram-se viagens sob o comando naval e viagens puramente comerciais, a maioria destas realizadas entre Lisboa e Lobito/Luanda (Angola).

Esta fase durou até 1971. Em janeiro do ano seguinte, o transatlântico, após realizar uma viagem como transporte de tropas, foi ancorado no Rio Tejo, aguardando-se a decisão sobre o futuro.

Tal decisão só foi tomada um ano mais tarde e ela marcaria o fim do transatlântico. Transcorridos apenas 20 anos de sua entrada em serviço, sendo portanto relativamente novo e ainda em condições de serviço, o Vera Cruz foi vendido para desmonte e sucata a uma empresa especializada de Taiwan.

Em 4 de março de 1973 largou pela última vez as amararas do cais de Lisboa com destino a Formosa, desaparecendo assim dos oceanos, mas não de nossa memória, que lhe guarda recordação perene.

Fonte: Jornalista José Carlos Silvares, do jornal A Tribuna, Santos, Brasil.

Protestar não é crime; é um direito

Felizarda Mayomona

Educar um povo a não reclamar pelos seus direitos, é na minha opinião, um crime, da mesma maneira que considero que educar alguém que está a ser atacado a não defender-se, é crime.

Educar um povo a não reclamar pelos seus direitos, é na minha opinião, um crime, da mesma maneira que considero que educar alguém que está a ser atacado a não defender-se, é crime. Sou da opinião sincera que o direito de protesto, de manifestação ou de reclamação (que no fundo dá no mesmo) deve ser um exercício legal a ser exercido por qualquer cidadão que sinta que os seus direitos cívicos ou constitucionais estão a ser usurpados, ou pelo menos, não estejam a ser garantidos.

O que faz diferença é a maneira de se protestar. Existem protestos violentos, e protestos pacíficos. Dependendo da capacidade, habilidade ou disposição de um determinado regime dialogar ou não com a parte protestante, as manifestações podem terminar em ações violentas e descontroladas, ou prosseguir pacificamente.

Estou ainda a recordar-me da manifestação levada a cabo pelos nossos compatriotas angolanos no dia 4 de janeiro de 1961, na baixa de Cassanje em Malange. O móbil da manifestação (também podemos lhe chamar de protesto porque dá tudo no mesmo), era a proibição do cultivo da mandioca (um alimento tipicamente africano) e a obrigatoriedade do cultivo do algodão e o aumento dos impostos deste, pela companhia belga colonial, a Cotonang. A reacção das autoridades coloniais portuguesas foi imediata e muito violenta: usando aviões que descarregavam bombas napalm sobre uma população indefesa, causaram a morte de milhares de pessoas. Este acontecimento hediondo causou tanta revolta entre os angolanos que serviu de ignição para o inicio da luta armada iniciada um mês depois, a 4 de fevereiro de 1961.

Actualmente comemoramos em Angola todo o dia 4 de Janeiro como um feriado oficial nacional, em memória das vítimas. Nunca antes na história de Angola se verificou uma manifestação daquela magnitude, que era, no considerar dos colonos portugueses da altura, uma acçao impossível ou impensável da parte dos autóctones angolanos. Com a independência nacional entramos numa outra era, em que os angolanos autóctones finalmente controlariam os seus próprios destinos, e um dos motivos que guiou a luta anti-colonial era luta contra a exploração dos angolanos por outros povos, nesse caso os portugueses. A exploração, a usurpação das riquezas da terra, a usurpação da nossa identidade africana e o resgate da nossa dignidade, dos nossos valores, da nossa cultura e línguas africanas, e principalmente, da nossa liberdade e da nossa terra seriam os frutos da nossa independência. Pelo menos era assim que os angolanos que lutaram de verdade contra o colonialismo pensaram.

Passados 35 anos e olhando para trás, verificamos que os ganhos da nossa independência ainda são uma miragem para a maioria dos angolanos, especialmente dos angolanos autóctones que agora ficaram constitucionalmente sem terra (passou a ser propriedade do estado). Verificamos que as imensas riquezas do nosso país, ainda não servem a maioria dos angolanos, mas também é propriedade privada só de alguns. Com um governo super centralizado como o nosso, as riquezas do país e o seu dividendo se concentram sempre nas mesmas pessoas, num ciclo vicioso que deu lugar a uma corrupção que praticamente já se tornou institucional. A polícia angolana reprime tanto ou pior que a PIDE-DGS, ao em vez de ser uma entidade protectora dos cidadãos, torna-se cada vez mais uma entidade apenas ao serviço de uma pequena elite.

A maioria dos angolanos sente-se estrangeiro neste país que cada dia que passa enterra a africanidade e desenha uma angolanidade também atípica, tal como a nossa constituição, em que nela o angolano autóctone se revê como estrangeiro dentro da sua própria terra. Nem as nossas línguas nativas foram oficializadas nesta nova constituição, mas apenas o português, que é uma língua imposta pelo colonialismo.

Nos encontramos debaixo de uma governação que administra os recursos de um país mas sem prestar contas aos seus verdadeiros donos: o povo. A maioria dos nossos líderes se tornou arrogante e insensível demais perante o sofrimento dos angolanos, vivem num mundo só deles enquanto pregam em órgãos como o Jornal de Angola e outros que Angola está a mudar, estamos a crescer, somos os maiores, somos os melhores, etc. De certeza que a analise dos nossos dirigentes é feita de um prisma totalmente egocêntrico, esquecendo-se que o maior indicador do crescimento de um país é a qualidade de vida do povo, o acesso aos serviços de saúde, de educação, do emprego. E vivendo num país riquíssimo como Angola, em 35 anos de independência e 9 anos de paz, já era altura de começarmos a falar também de subsídio de desemprego, entre outros benefícios de uma cidadania plena.

Vemos o contrário disso. O acesso aos recursos e benefícios do país para além de serem limitados só para alguns (baseado nos nomes e classe social, e em alguns casos até na cor da pele), em muitos casos, para ter acesso a um benefício como uma bolsa do Inabe te pedem Cartão de Militante de um partido angolano. Este partido chama-se MPLA. Isto é só para mencionar um exemplo em que, para se ter o benefício de algumas coisas em Angola o cartão de Militante do MPLA se torna numa obrigatoriedade, mas há mais. E ninguém pode negar esta realidade. Diante desta situação, me questiono como é com aqueles que são militantes assumidos de outros partidos e estão lá mesmo por uma razão ideológica. Será que estes têm de adquirir o cartão da angolanidade plena (Cartão do MPLA) para usufruir de alguns benefícios enquanto militam também clandestina ou abertamente nos seus partidos ou renunciam a actividade política nos seus partidos? Curiosidade.

Estas situações todas e muitas outras, considero muito injustas e justificariam um protesto massivo da população nas ruas da capital angolana e não só. Um protesto contra leis injustas e medidas anti-sociais. E dizer isto não é crime nenhum, porque se fosse crime, a nossa constituição não plasmaria este direito no seu artigo 47 (atenção, estou a defender o direito de se manifestar pacificamente). Infelizmente, principalmente nos governos africanos, as manifestações pacíficas quase nunca geram frutos nenhuns, já que os dirigentes se mantêm insensíveis, e chegam até a ser reprimidas, muitas vezes com tanta brutalidade que nos traz á memoria a repressão brutal dos regimes coloniais. Os manifestantes passam a ser tidos como inimigos da pátria, anti-patriotas, vândalos, agentes de forças externas, etc. Este facto é que leva, muitas vezes, às manifestações violentas como meio de se alcançar um objectivo. No caso de Moçambique a “revolta dos pobres” expôs o fracasso das políticas económicas e sociais do governo. Felizmente o Presidente Armando Guebuza teve o bom senso de recuar nas decisões iniciais do governo que deram inicio à revolta dos moçambicanos. É caso para se dizer “quem não chora, não mama”.

Me pergunto: como seria se tivesse sido em Angola? Como teriam reagido as autoridades? Teriam reagido com a mesma brutalidade (ou pior) que a policia moçambicana? Como teriam reagido os nossos irmãos que se auto-proclamaram a “vanguarda do povo angolano”, o MPLA? Nos defenderiam? Estariam ao lado do povo ou os teriam considerado como inimigos? Porque seria um contra-senso um partido que diz ser representante do povo (o povo é o mpla e o mpla é o povo) considerar o mesmo povo como inimigo apenas porque exteriorizou o seu desagrado perante a governação do país através de um protesto.

Temos de interiorizar que protestar não é um crime, é um direito. Angola é de todos os angolanos e todos merecemos, temos o direito, de usufruir dos benefícios da nossa cidadania. Todos temos direito de viver bem na nossa terra, e de termos as mesmas oportunidades. Até mesmo o direito de escolher os nossos dirigentes deve ser um direito sagrado e não um crime lesa pátria. E nós, os angolanos “comuns”, não adianta pensar que este governo que está aí, já a 35 anos, vai satisfazer os nossos anseios apenas pelos nossos lindos olhos.

A historia tem demonstrado que quanto mais tempo um partido permanece no poder, mais ele se acomoda, porque criam-se vícios que depois são difíceis de combater. Tem de ser nós mesmos, a pressionar e a exigir que os nossos direitos sejam satisfeitos e garantidos, como demonstrou mal ou bem, o povo moçambicano.

Um B.I. “sui generis”

Julgo que será mesmo único no mundo este novo BI que têm agora os cidadãos de Angola, pelo facto de terem bem no centro as “caras” dos presidentes do país depois da independência, Agostinho Neto e José Eduardo dos Santos (JES).

É muito comum as notas terem as figuras de presidentes ou outras personalidades de destaque, mas no BI, o documento nacional de identificação, parece-me ser de muito mau gosto este culto da personalidade, mas enfim, são os angolanos que têm de se pronunciar sobre o tema.

Sinceramente, este governo tem ido longe de mais. A independência infelizmente, de tudo um pouco nos trouxe. Mas quem são eles para terem seus rostos estampados num B.I. nacional? O que simbolizam essas figuras? Se não; a morte e a corrupção?

Ao longo da história da humanidade surgem personalidades que se tornam emblemáticas, ícones, quase míticas, pela defesa de um ideal, uma bandeira, uma causa social, sendo seus nomes vinculados a essas causas, algumas vezes até nos derramando lágrimas dos olhos pelo respeito e admiração que sua coragem, perseverança e fidelidade aos seus princípios nos despertam.

Podemos citar, entre tantos: Ana de Sousa — conhecida (Ngola Nzinga) Mulher que como Rainha de 1582 -1663 se destacaram como grande astuta diplomata e se sobressaiu bem, como líder militar, quando os escravizadores Portugueses atacaram o exército do reino de seu irmão Nzingha. Enviada para negociar a paz, com habilidade e surpreendente tacto político se impôs. E outros tantos Reis e Rainhas como por exemplo, Mandume Ndemufayo, sobre o qual o povo kuanhama é unânime em relação ao porte de Mandume como homem.

Outros tantos Reis e Rainhas que deveriam ter suas caras estampadas em alguns documentos nacionais e não, o rosto de pessoas que simbolizam, triste memória como; “a morte e corrupção” na história do nosso país.  Então quem nunca soube se defender das centenas de acusações, em ter desviado dinheiro público para bancos estrangeiros deixando seu povo lançado á sorte do lixo, das doenças, fome e miséria total, também já merece ter seu rosto num documento de identidade pessoal?

Creio que esse tipo de desafio à Nação angolana, só pode ser feito, por quem confia em demasia na forca da sua musculatura, da sua política arrogante, prostituta e corrupta.  Sinceramente, creio que é ir longe demais. Ou será que perderam todo o respeito para com o povo? Com tanta gente que tivemos de importância histórica,
como os Reis: Otchietekela,Shaula,Luhuma, ou as Rainhas; Hanhanga,Kalinaso dos séculos XVI ,XVII,XVIII e XX só tinha mesmo que ser logo a cara deles?

Creio que neste momento, até o Diabo deve estar, a rir-se da nossa passividade perante esse número sem fim, de abusos de poder. No contexto internacional pessoas como; Martin Luther King, Gandhi, Nelson Mandela, Amílcar Cabral, Viriato da Cruz, etc. são outras figuras que nos merecem muito respeito e admiração, porque nenhuma delas perdeu tempo em sujar suas mãos, com sangue, roubando ou humilhando seus povos.

Em Angola pessoas que deviriam merecer respeito e admiração, por tudo quanto fizeram, e deram pelo país, nem se quer são recordados, porque a Nação é asfixiada pela imagem de duas únicas figuras, (Agostinho Neto & Eduardo dos Santos). Como provam os negócios da China praticados diariamente, aberta ou secretamente, por uma boa parte dos actuais governantes em especial as queridas filhas do presidente da república. Todos porreirinhos da vida, calados e iludidos pelas novas palavras de ordem, “Sempre a subir ou Tas bem” Pois, bajular é que dá promoção de poder e dinheiro.

Agostinho Neto foi sim, numa dada altura, até o momento em que chegou à Presidência, uma das personalidades, figura emblemática da luta por justiça social, igualdade, dignidade aos trabalhadores e ética política. Depois se tornou naquilo que todos nós sabemos:

No símbolo do maior massacre ocorrido em Angola apôs os acontecimentos do 27 de Maio e mesmo assim, continua sendo venerado por alguns apaixonados vermelhos. J.E.S ao continuar com sua política musculada, demagogo, corrupta, prostituta e ditatorial em nome de uma suposta “governabilidade”, contradiz aquilo que a história nos fala sobre os nossos verdadeiros heróis, agride os ideais daquilo que dizem ser do MPLA e manipula a própria constituição, como se de um bandido desesperado se tratasse.

Como se não bastassem os dinheiros depositados, roubados e os negócios escandalosos praticados pelos seus filhos, Dos Santos, não hesito em mais uma vez desafiar-nos com as famigeradas fotos no B.I. julgo ser tempo para que os angolanos façam uma reflexão séria, porque depois disto, até pode vir o pior. Quem sabe, outros documentos com as caras de Roberto Mugabe ou de Fidel Castro, se considerarmos a simpatia que o regime nutre por essas figuras.

Em Angola, tudo realmente é possível. Onde a cotação e credibilidade dos governantes baixaram escandalosamente para zero. Um sistema completamente corrompido, que jurou se perpetuar no poder como provam os contratos estabelecidos com especialistas, com o objectivo de ensinar técnicas de repressão e tortura aos militares e polícias angolanos, especialmente os enquadrados nos serviços secretos.

Conhecidos como tropas de elite, que se tornaram famosas pela violência,
que se assemelham aos mais criminosos serviços secretos, Venezuelanos, Cubanos, Iranianos, Zimbabweanos, Chineses, Líbios, Russos, etc. Aproveitando-se da falta de transparência seriedade e humanismo do sistema, essas forcas vão fazendo das suas, ceifando vidas de angolanos clandestina ou abertamente, num país onde nem é permitida uma autópsia, para se determinar as causas de várias mortes escondidas e duvidosas.

Quando convidados por entidades como a UNO em Genebra, para responderem sobre os desrespeitos dos Direitos Humanos, lá vão eles, armados em sabichões, com relatórios falsos para iludirem um mundo que tudo sabe, mais prefere fechar os olhos e a boca. Tanta demagogia e mentiras para fazerem vingar os seus propósitos com a feitura da nova constituição, e outros planos próprios de bandidos, tentando convencer pessoas pouco esclarecidas.

Temos que ficar atentos e impedirmos, com que os mesmos que estão no poder, façam leis para preservar cargos e privilégios, como é intenção deste famigerado governo. Urge finalmente elaborar uma constituição, redigida não por políticos que perderam credibilidade, mas pelas forcas vivas da Nação angolana, que faca realmente vigorar o princípio da justiça social e da igualdade de todos perante a lei. Por que, continuarmos a acreditar em ídolos e lideres aldrabões, gatunos, se nos podemos deixar guiar pela verdade histórica, pelas descobertas cientificas, pelo raciocino lógico e pelo bom senso? Basta, de vermos o quase sempre envolvimento de militares de alta patente nos mais variados esquemas hoje institucionalizado no país, como perseguições, prisões, tráficos e principalmente as roubalheiras aos cofres públicos.

Diante desses terríveis acontecimentos e principalmente pelo desaparecimento de tanta gente de bem, desta terra, a comunidade internacional, tarde ou cedo exigirá que sejam realizadas investigações claras e transparente, que permitam apontar a verdade dos fatos, e que os responsáveis por tais crimes, sejam afastados das forcas de segurança, e respondam, num tribunal internacional, uma vez que o sistema judiciário angolano é considerado dos mais fantoches da história. Os nomes dos desaparecidos existem, o que já é bom, porque facilitará em parte o processo. Irmãos não se cansem em fazerem chegar os vossos relatos junto das mais variadas instituições de defesa dos Direitos Humanos espalhados por esse mundo fora. Essa é uma das grandes causas da nossa luta.

Chega de empreguismo, nepotismo, superfaturamento, desperdício do dinheiro público, tolerância ou cooperação com os criminosos que nos governam. Com o nosso voto, tarde ou cedo, podemos fazer justiça de todos os corruptos que estão sendo poupados pelo corporativismo político. Não adianta trocar apenas o presidente, quando todo governo não passa de uma grande farsa. Urge fazer uma limpeza geral, provocando uma verdadeira revolução pelo nosso voto consciente.

Não importa quem seja o próximo presidente, logo que não seja o actual demagogo e corrupto, que não nos merece confiança. Pois, fundamental é, dar ao próximo presidente as condições necessárias para pôr em pratica um plano de governo que faca deste país uma verdadeira nação e deixe de ser,” uma feira da ladra”.Não podemos ficar calados, porque o silêncio de gente honesta faz crescer e fortalecer a ganância dos corruptos que governam Angola.

É preciso estar atentos porque este governo, mais uma vez, não vai se importar gastar biliões nas vésperas das eleições, em assistensialismo, para comprar votos da grande massa necessitada, e para cooptar políticos de vários partidos, visando o apoio para o candidato que o Mpla apresentar. Tácticas criminosas não lhe faltam, e não admiro que venham a distribuir alimentos aos pobres, para obrigá-los a pensar com o estômago, e não com a cabeça. Pois é difícil compreender, a passividade do povo que quase tudo aceita, cruza os braços, fecha a boca e os olhos, mesmo quando estamos diante de um grande dilema, como este em termos que conviver e actuar durante tantos anos um governo claramente fantoche, falsário e que perde tanto tempo elaborando planos criminosos contra o seu próprio povo . Onde é que já se viu?

Criminosos julgando criminosos, fabricando motivos apenas para credibilizarem as farsas nacionais que se acumulam, e distraírem a opinião pública nacional e internacional. Repito; num sistema sob gestão de pessoas sensatas e com o mínimo de educação, 70% das pessoas que compõem este regime, teriam seguramente um bom lugar nas cadeias. Quantas crianças morrem por falta disto e daquilo, enquanto as roubalheiras caminham galantemente rumo ao abismo? Então isso não é crime? E qual é o lugar para os criminosos? Na cadeia ou no governo?

Fernando Vumby

Efectivos militares em Angola

Quando em Março de 1961 a guerra rebentou em Angola, o número de efectivos era de apenas cerca de 5 mil. Houve da parte do governo de Portugal um erro crasso na avaliação da situação militar no território. A recém independência do ex-Congo Belga em 30 de Junho de 1960, a revolta na Baixa de Cassange em Janeiro de 1961 e a revolta em Luanda em 4 de Fevereiro desse mesmo ano, parece que não foram alertas suficientes para o governo de Salazar tomar as devidas precauções para aquilo que já há muito se previa e foi preciso esperar pelo massacre de 15 de Março de 1961 para que Salazar proferisse em Abril, o célebre slogan: “Para Angola, rápido e em força“.

Esta negligência teve como consequência a morte de muitas centenas de portugueses e angolanos, barbaramente assassinados pela UPA, que “passeava” na zona devido à inexistência das nossas tropas e até se deu ao luxo de estabelecer um quartel-general em Nambuangongo, a que pomposamente chamaram de “Reino de Nambuangongo” e de onde só em Agosto de 1961, 5 meses depois do eclodir da guerra foram desalojados.

Socorrendo-me de um estudo elaborado pelo ex-furriel José da Silva Marcelino Martins sobre recenseamento, inspecção e distribuição de pessoal, elaborei o mapa que se segue, que pretende por em foco a percentagem do recrutamento local durante a evolução do conflito em Angola:

Ano Total Metrópole Rec. Local % Rec. Local
1961 33.477 28.477 5.000 14,94
1962 44.925 33.760 11.165 24,85
1963 47.400 34.530 12.870 27,15
1964 52.493 37.418 15.075 28,72
1965 57.073 41.625 15.448 27,07
1966 55.816 38.519 17.297 30,99
1967 57.420 43.051 14.369 25,02
1968 58.230 37.547 20.683 35,52
1969 55.574 36.911 18.663 33,58
1970 55.233 36.174 19.059 34,51
1971 62.060 36.127 25.933 41,79
1972 60.317 34.856 25.461 42,21
1973 65.592 37.773 27.819 42,41

É sabido que nunca se ganha uma luta de guerrilha sem o apoio maioritário da população e esta incorporação de militares africanos nas forças armadas portuguesas reflecte bem este propósito, sendo que esse número foi em crescendo, chegando a atingir cerca de 42% do efectivo total no final do conflito.

Efectivamente ao nível militar parece que a guerra não tinha fim à vista, o inimigo à excepção dos primeiros cinco meses, nunca dominou qualquer parcela do território e da nossa parte o cansaço de 13 longos anos começava a fazer-se sentir porque cada vez mais, os milicianos que eram os operacionais da guerra se aperceberam que aquilo nunca mais acabava e ali só estavam a perder dois anos da sua vida, limitando-se a defender a sua posição nos aquartelamentos.

Da parte dos efectivos dos quadros permanentes, talvez houvesse outra interpretação, porque na realidade a guerra dava-lhes dinheiro, quantas mais comissões melhor, geralmente bem protegidos pelo arame farpado, convém referir que à época quem tinha “divisas” era muito bem pago, tal como agora, pois os militares de carreira foram sempre privilegiados.

Não tendo solução militar, a solução política apareceu depois do 25 de Abril em Portugal, só foi pena que mesmo depois dessa data ainda tivessem morrido tantos militares e civis em Angola, porque sabemos como foi feita a transição para a independência.

A guerra em Angola custou a vida a 3.258 militares (2.434 da metrópole e ilhas, 824 do recrutamento local).

Mário Mendes

V=42n

Ficou célebre esta fórmula (V=42N) pois serviu em meados da década de 60, para que o governo de Salazar pudesse avaliar o impacto que o custo da guerra em África tinha nas contas do país.

Tomando como exemplo Angola, constatou-se que o custo de cada soldado era de 115 escudos diários, o que daria aproximadamente o valor de 42 contos por ano. Assim era mais fácil saber o custo total da guerra, pois bastava multiplicar 42 pelo número de militares no teatro de operações.

Para um país pobre e atrasado,  este era um valor astronómico, mas agora à distância podemos melhor avaliar o esforço exigido aos portugueses para custear a guerra no Ultramar, porque nessa altura não havia empréstimos externos e todos estes custos foram suportados pela riqueza criada pelo trabalho dos portugueses.

Hoje, que vivemos de empréstimos externos, temos que olhar com olhos de ver para as contas da nossa economia, porque as contas são como o algodão, não enganam e até já tivemos um ministro das finanças, o falecido Sousa Franco, que dizia que “as boas contas, fazem os bons amigos”.

Com muitos dos nossos políticos a não querer ver o “buraco” onde estamos metidos, a realidade aparece agora, clara como água, pois tanto governo como o maior partido da oposição já se puseram de acordo com as medidas que tornarão a grande maioria dos portugueses mais pobres, agora quando um diz “mata-se” o outro diz “esfola-se”.  Com o povo entretido com o Benfica campeão e a visita do Papa, o tempo de pedir sacrifícios parece bem apropriado. “Quo vadis” Portugal?

A dívida externa do país, segundo as últimas contas aponta para um valor de cerca de 18.300 € por cada português. Utilizando uma fórmula do género da anterior e convertendo euros para contos, teríamos: V=3660N.

Vamos continuar com o cinto cada vez mais apertado, o nosso nível de vida vai regredir, o pior é que ninguém gosta de “andar de cavalo para burro”,  mas este é um facto inexorável.

Mário Mendes

Constituição da C.Caç.3413

O companheiro José Rosa Sampaio, conseguiu reunir dados importantes da constituição da C.Caç. 3413. Não foi fácil, porque era uma companhia heterogénea, com elementos da Metrópole, dos Açores e do contingente local (Angola). Os oficiais, sargentos e especialistas vários, eram de Portugal Continental e é com a presença de alguns destes que temos dinamizado os nossos encontros anuais. No entanto muitos continuam “desaparecidos”, alguns por vontade própria, outros porque ainda não foram achados …

No que diz respeito aos companheiros açoreanos, é mais difícil a sua localização. Já houve algumas tentativas da nossa  gente que foi aos Açores e procurou saber de alguns, mas a resposta era quase sempre a mesma: “Emigrou, está no Canadá, ou nos EUA”. Com a publicação desta lista, pode ser que alguém nos traga notícias de alguns deste corajosos combatentes.

Ao nosso amigo Sampaio, quero agradecer o seu empenho neste trabalho, talvez o mais capacitado para esta missão, dada a sua formação académica na área da história. (Mário Mendes)

Clique neste link:  cc3413