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Cronologia da guerra colonial (Julho/1961)

? – Chegam a Angola os BCaç 132, 158, 159, 184, 185, 186.

– Operações do Exército e Força Aérea na serra da Canda, para reabertura da chamada «estrada do café».

– É inaugurada, por Américo Tomás, uma exposição cujo lema é «Por que nos batemos em África».

3– O ministro da Defesa da África do Sul, J. Fouché, visita Lisboa para conversações com Salazar.

7– Comunicado das Forças Armadas sobre as actividades dos meses de Maio e Junho, no Norte de Angola.

10 – Morrem em combate 2 militares da CCaç 62 e da CCaç 110.

– Início da Operação “Viriato”, em que intervieram os Batalhões de Caçadores 96 e 114 e o Esquadrão de Cavalaria 149, por três eixos de ataque convergentes sobre o objectivo, Nambuangongo, sendo apoiados por meios de artilharia, engenharia e pela Força Aérea.

12 – Termina em Leopoldville, sem qualquer acordo, uma ronda de conversações para a criação de uma Frente Comum de organizações nacionalistas angolanas.

– Inicia-se em Dakar a Conferência das Organizações Nacionalistas da Guiné e Cabo Verde.

14 – Difusão de Novas Directivas Gerais de Censura que exigem atenção especial aos títulos e subtítulos referentes a acontecimentos militares do Ultramar.

– Operação “Raio” (de 14 a 17), no sector compreendido entre a Fazenda Américo e Barraca a sul do rio Bengo (Angola).

15– Morrem em combate 8 militares. Dois da CCaç 103 e seis da CCaç 115 em Quicabo.

18– Início da operação de cerco a Nambuangongo, ocupada pelos rebeldes desde o início da sublevação em Angola.

26 – Início da Operação “Pedra Verde”, que se prolongou até dia 31.

– Reconhecimento armado às matas da Quibaba (Angola), de que resultou a morte de duas praças da CCaç 63.

27– D. L. n.° 43823. Regula a concessão dos abonos a que têm direito os militares e civis militarizados que, nas Províncias Ultramarinas, façam parte de forças com a missão de restabelecer a ordem nas zonas onde a acção terrorista ponha em perigo as condições normais de existência da população.

28– Morrem em combate 3 militares. Dois do RIL (Regimento de Infantaria de Luanda) e um da CCaç 63.

29– Morrem em combate 2 militares. Um do RIL e um da BCaç 1.

31– Durante este mês as baixas das forças portuguesas totalizaram 32 mortos. Em acções de combate morreram 24 militares.

Do livro: “Cronologia da Guerra Colonial”, de José Brandão


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A conquista de Nambuangongo (09/08/1961)


Edição Correio da Manhã

OPERAÇÃO VIRIATO

A conquista de Nambuangongo
Angola 1961

A vila de Nambuangongo, localizada num planalto a cerca de 200 quilómetros de Luanda, está transformada no quartel-general da União dos Povos de Angola (UPA) – o movimento independentista de Holden Roberto que, em 15 de Março, levou ao massacre de colonos e de trabalhadores bailundos por todo o Norte de Angola, A resposta militar é lenta. Apenas em finais de Abril, o pequeno contingente da província, calculado em 1.500 militares, começa a ser reforçado com tropas enviadas da metrópole. A partir de Nambuangongo, a guerrilha domina as povoações mais próximas e ameaça outras mais distantes como Ambriz, Carmona e até mesmo Luanda.

Os colonos que conseguem escapar aos massacres deixam o Norte. A maior parte das fazendas fica ao abandono. A época das chuvas está a terminar. Os meses do cacimbo costumavam anunciar os carregamentos de café para o porto de Luanda – um dos mais prósperos negócios da colónia, para cima de dois milhões de contos por colheita. Este ano, porém, será diferente. É a guerra. O governador da província, Silva Tavares, e o comandante-chefe, general Libório Monteiro, respondem como podem – e, na verdade, podem muito pouco: a reocupação do Norte não é possível com tão escasso contingente militar disponível e ainda por cima mal distribuído. Os guerrilheiros dominam uma vasta região desde as margens do Rio Zaire até ao Sul dos Dembos. Mas os comunicados oficiais publicados pelos jornais de Luanda dizem o contrário: “A situação encontra-se inteiramente sob o domínio das autoridades”.

“Mas que estucha, Botelho!”

O ministro da Defesa, general Júlio Botelho Moniz, tem em marcha um golpe de Estado. Pretende substituir Salazar por Marcelo Caetano para “modernizar” o regime e, sobretudo, encontrar uma solução para as colónias. A conspiração é abafada ainda antes de eclodir, mais por inépcia dos golpistas do que por mérito dos fiéis salazaristas. Botelho Moniz entende que deve dar uma oportunidade ao Presidente da República, almirante Américo Tomás, para demitir Salazar – e assim evitaria todos os incómodos de um golpe. Pede para ser recebido.

Moniz e Tomás eram amigos. Em privado, tratavam-se por ‘tu’, desde que se conheceram jovens cadetes na Escola de Guerra. O ministro da Defesa diz ao Presidente que tem um dia para demitir Salazar – caso contrário, levaria por diante um golpe de Estado de consequências imprevisíveis. Tomás, afundado no maple, escuta-o em pânico. Bate com as mãos nos joelhos – e desabafa alarmado: “Mas que estucha, Botelho!”.

Mal o general abandona o Palácio de Belém, o Presidente da República corre para o telefone e põe Salazar ao corrente. O chefe do Governo não perde tempo: demite Botelho Moniz e assume a pasta da Defesa Nacional. Num discurso transmitido pela rádio e televisão, em 13 de Abril de 1961, Salazar explica as mexidas no Governo. A mudança, diz, justifica-se com uma única palavra – e essa palavra é Angola. Termina com uma exaltação: “Para Angola, rapidamente e em força”.

Abafada a tentativa de golpe militar, conhecida como “Abrilada”, o presidente do Conselho e ministro da Defesa Nacional mobiliza os primeiros grandes contingentes para Angola. As tropas embarcam com pompa e circunstância no cais da Rocha do Conde de Óbidos, em Lisboa. Os primeiros batalhões, transportados no paquete Niassa, chegam a Luanda no dia 1º de Maio, uma segunda-feira.

O governador de Angola, Silva Tavares, e o comandante militar da província, general Monteiro Libório, são demitidos e mandados regressar a Lisboa. Avança para Luanda o general Carlos Silva Freire – militar que nunca saíra dos gabinetes e nunca experimentara os rigores dos trópicos: tinha como credenciais o prestígio de professor nos cursos de Estado-Maior e a cega fidelidade ao regime. Recusara participar na tentativa de golpe de Botelho Moniz a quem, de resto, lhe reconhecia escasso mérito militar: “É o melhor segundo-comandante do mundo, mas eu não lhe dava nem o comando de um pelotão”.


Testa da coluna do Batalhão 96, em Julho de 1961, na zona do Alto Lifune (foto livro)

Ordem de batalha

O general Silva Freire, à beira dos 54 anos, chega a Angola em 6 de Junho, uma terça-feira, na dupla função de governador e comandante-chefe. Mas, no dia 23, sexta-feira, desembarca em Luanda o seu substituto, o general piloto-aviador Venâncio Deslandes. Silva Freire fica encarregado do mais difícil, o comando das operações de reconquista do Norte da província.

Silva Freire recebe ordens de Lisboa para andar depressa – e bem. É criada a Zona de Intervenção Norte (ZIN). A manobra militar tem vários objectivos: interditar a fronteira, atacar a guerrilha, abrir itinerários, dar segurança às populações, restabelecer a administração civil.

O governo de Lisboa exige a vitória em menos de três meses. As instruções enviadas para Luanda são claras: (…) há a necessidade absoluta de restabelecer totalmente a paz em Angola até à reabertura da Assembleia Geral da ONU, em princípios da segunda quinzena de Setembro (…) a não dominação do terrorismo até à próxima época das chuvas representaria uma nítida vantagem em seu favor dada a dificuldade de actuação das nossas forças nessa época (…) O tempo corre a favor do inimigo. A nossa luta é verdadeiramente a contra-relógio. Há que vencer até meados de Setembro (…) o problema militar é sem dúvida de primeira prioridade, mas deve ser acompanhado e seguido da acção política, psicológica e social para recuperação das populações (…) evitar a divisão entre brancos e pretos (…) impor a disciplina e o respeito mútuo nas povoações (…) disciplinar rigidamente, através duma organização e comandos adequados e capazes, as milícias ou formações do corpo de voluntários (…).

Em meados de Maio, três semanas antes da chegada do general Silva Freire, começam as primeiras movimentações das tropas a caminho do Norte. A principal preocupação do comando militar é criar dificuldades à progressão da guerrilha e cortar-lhes as linhas de abastecimento através da fronteira com o Congo ex-Belga.

A manobra é lenta: apenas fica concluída no início de Julho. Os itinerários, na sua maior parte, estão dominados pela guerrilha. A progressão é difícil. Os guerrilheiros atrasam a marcha: derrubam árvores de grande porte sobre as picadas, cavam valas profundas, destroem pontes. As colunas militares movem-se a passo, vencem as distâncias palmo a palmo, caem nas primeiras emboscadas.

Os batalhões de Caçadores 88 e 92, desembarcados no Porto de Luanda, no dia l de Maio, recebem a missão de ocupar de Damba e Sanza Pombo – e, mais junto à fronteira, Maquela do Zombo e Santa Cruz. O Batalhão de Caçadores 156 ocupa São Salvador e Cuimba. Enquanto unidades de fuzileiros, desembarcadas em Ambriz, Ambrizete e Santo António do Zaire, tomam posições em Tomboco, Quinzau e Quelo. O general Silva Freire, que gostava de elogiar as capacidades militares de Montgomery, inicia então a segunda fase das operações, que tem como objectivo reconquistar a zona dos Dembos. O primeiro grande momento desta manobra é a Operação Viriato – para a tomada de Nambuangongo, a vila transformada em quartel-general dos guerrilheiros. Por esta altura, já estão em Angola cerca de 30 mil soldados portugueses

O Batalhão 96

No remanso da Iha de São Miguel, nos Açores, longe dos viperinos corredores dos altos comandos de Lisboa, o tenente-coronel Armando Maçanita, de 44 anos, algarvio teimoso e valente, comanda o Regimento Independente de Infantaria 18. O sossego é quebrado nos primeiros dias de Abril. Chega uma guia de marcha, que o manda apresentar-se no Continente e seguir para Luanda à frente do Batalhão de Caçadores 96. Mal sabia ele os perigos que o esperavam em Angola. Muito menos imaginava que ia ficar na história – como o primeiro a reconquistar Nambuangongo.

O Batalhão 96, constituído por quatro companhias, embarca ao som da fanfarra, no dia 5 de Maio, uma sexta-feira, na Rocha do Conde de Óbidos, em Lisboa. Desfilou pela primeira vez em Luanda em 14 de Maio, domingo, imediatamente após o desembarque. Fica aquartelado no Campo Militar do Grafanil, a cerca de 10 quilómetros da capital da província.

Duas semanas depois, as companhias já estão na zona, de guerra. Primeira missão: garantir a segurança num longo corredor entre Caxito e a Ponte do Dange. Travam aí os primeiros combates. Os guerrilheiros da UPA atacavam em hordas, às centenas: enfrentavam a saraivada de fogo de peito aberto, aos gritos, armados de catanas, paus e canhangulos.

Os guerrilheiros acreditavam na ressurreição: mesmo que fossem mortalmente atingidos voltariam a viver – e isso dava-lhes coragem para enfrentar a tropa. Os comandantes portugueses receberam instruções para decapitar os guerrilheiros mortos e espetar as cabeças em estacas. Os nacionalistas da UPA, a maior parte de etnia bacongo, estavam convencidos de que não ressuscitariam se lhes fosse amputada uma parte importante do corpo. A exibição das cabeças decepadas servia para lhes provar que morriam de cada vez que atacavam os militares portugueses e não podiam ressuscitar.

O tenente-coronel é um homem de acção. Não frequentou o curso de Estado-Maior: sente-se mais talhado para a ‘porrada’ do que para as teorias desenvolvidas nos gabinetes. Tem até uma maneira muito particular de fazer as coisas – o que causa arrepios ao superiores que preferem agir segundo a doutrina dos livros. Os homens do Estado-Maior, em Luanda, remexem-se incomodados a cada relatório do Batalhão de Caçadores 96 em campanha: “Mais uma à Maçanita…”, resmungam. É a unidade que mais munições gasta em operações.

O comandante tem ainda um modo muito próprio de se relacionar com os subordinados. Trata toda a gente por ‘tu’ – dos soldados aos oficiais. “Era muito afectivo com nós todos, mas em operações, quando as coisas não eram executadas como ele queria, chamava-nos os piores nomes e às vezes até ameaçava que, se fosse preciso, dava-nos um tiro” – recorda o coronel médico Carlos Tapadinhas, então alferes da Companhia 103.

Na zona de Caxito, uma companhia do batalhão depara-se com um numeroso grupo calculado em mais de um milhar de guerrilheiros. Maçanita põe a pistola-metralhadora FBP a tiracolo e vai ver. A mole de negros começa a formar um círculo para cercar a companhia. O tenente-coronel avança com o cabo Armindo Grilo ao lado – e os dois ficam a meia dúzia  de metros de um guerrilheiro armado de canhangulo. Parece ser o chefe. É um gigante com quase dois metros de altura. Maçanita é o primeiro a disparar: faz uma rajada e mata-o.

Vem a saber depois que o homem da guerrilha abatido é Maneca Paca – de quem os militares portugueses já tinham ouvido falar com temor.


Batalhão de Caçadores 96 desaloja guerrilheiros numa fazenda da zona de Santa Eulália
(Foto livro)

Apostas no quartel-general

Cumprida a missão entre o Caxito e a Ponte do Dange, o Batalhão de Caçadores 96 recebe novas ordens. O general Silva Freire tinha decidido lançar a Operação Viriato – a primeira acção militar de grande envergadura da Guerra Colonial. Objectivo: conquistar Nambuangongo, a vila localizada a cerca de 200 quilómetros e que desde Março estava ocupada pelos guerrilheiros da UPA.

A operação consistia na progressão de dois batalhões de Caçadores e de um esquadrão de Cavalaria por três eixos de ataque convergentes sobre Nambuangongo. O Esquadrão de Cavalaria, comandando pelo capitão Rui Abrantes, parte de Ambriz, no litoral. O Batalhão de Caçadores 114, do tenente-coronel Oliveira Rodrigues, abala da zona de Caxito – enquanto ao tenente-coronel Maçanita, à frente do Batalhão de Caçadores 96, é confiado o caminho mais longo (ver infografia na pág. 3).

A Operação Viriato, além da conquista de Nambuangongo, tem ainda como objectivo abrir três itinerários fundamentais para apoiar a reocupação militar do Norte. O mês de Julho já vai a meio e o Governo de Lisboa exige aos altos comandados de Luanda a vitória total até meados de Setembro – antes do início da época das chuvas e antes da reabertura da Assembleia Geral da ONU. Não há tempo a perder.

Está em marcha uma verdadeira corrida disputada por três unidades militares que tem como meta a vila ocupada pelos guerrilheiros. Quem chega primeiro a Nambuangongo? No quartel-general em Luanda apostavam singelo contra dobrado no Batalhão de Caçadores 114. Era comandado pelo tenente-coronel Henrique de Oliveira Rodrigues – oficial com o curso de Estado-Maior e que fora um dos alunos dilectos do general Silva Freire no Instituto de Altos Estudos Militares.

Oliveira Rodrigues foi um aluno aplicado. Aprendeu tudo o que os livros ensinam sobre estratégia, táctica e acção de comando. Silva Freire, o comandante máximo da manobra de reocupação do Norte de Angola, tinha orgulho no seu pupilo. Estava convencido que o discípulo seria o primeiro a chegar a Nambuangongo. O general, porém, estava a cometer um erro imperdoável: subestimava a tenacidade e o desembaraço do tenente-coronel Armando Maçanita que, sem os preceitos da doutrina aprendida nos altos estudos, conduzia a operação à sua maneira – “à Maçanita”, como diziam entre dentes os oficiais do estado-maior de Silva Freire.

A caminho de Nambuangongo

Na marcha para Norte, o Batalhão de Caçadores 96 foi reforçado com um pelotão de engenharia comandado pelo alferes miliciano Jardim Gonçalves, o homem que anos depois daria cartas na Banca. Armando Maçanita guardou até à morte, aos 88 anos, grande admiração pelo engenheiro. “Se não fosse o alferes Gonçalves não sei se teria conseguido chegar a Nambuangongo” – ouviam-no repetir, de lágrima traiçoeira ao canto do olho, nos almoços que todos os anos juntava os bravos do batalhão. O pelotão de engenharia, sob as ordens de Jardim Gonçalves, construiu jangadas com que atravessaram rios, removeu árvores de grande porte que impediam a passagem, ergueu pontes através das quais venceram os rios. No fim da operação, o alferes foi condecorado com uma Cruz de Guerra.

Os homens do tenente-coronel Maçanita, ao mesmo tempo que ultrapassavam as armadilhas do terreno, defendiam-se de emboscadas da UPA e rechaçavam assaltos dos guerrilheiros. Entraram várias vezes em combate – como no Rio Luica, na Fazenda Portugal, no Cassungo e no Mucondo. Enquanto o Batalhão de Caçadores 96 progredia a caminho do objectivo – o Batalhão de Caçadores 114, comandado pelo tenente-coronel Henrique Oliveira Rodrigues, não conseguia contornar as dificuldades. Tanto o comandante, Oliveira Rodrigues, como o segundo-comandante, major Balula Cid, passando pelo oficial de operações, capitão Lemos Pires – todos eram oficiais com o curso de Estado-Maior. O batalhão não consegue passar de Quissacala, sensivelmente a meio caminho entre o ponto de partida, na região de Caxito, e a vila de Nambuangongo.


Chegada do Batalhão 96 a Nambuangongo em 9 de Agosto de 1961 (foto livro)

Ordem para parar

Ao princípio da tarde do dia 9 de Agosto de 1961, uma quarta-feira, o Batalhão de Caçadores 96 estava às portas de Nambuangongo. O tenente-coronel Maçanita tinha perdido quatro homens para ali chegar. Recebe pelo rádio uma comunicação do quartel-general de Luanda. Dizem-lhe para não entrar em Nambuangongo, porque iriam lançar pára-quedistas na zona com a missão de ocupar a vila. A resposta do comandante do batalhão deixou gelados os oficiais do Estado-Maior: “Quem entra ali sou eu. E se lançarem pára-quedistas vou toma-los como inimigos, porque não sei se são portugueses” – e desligou o rádio para não receber mais mensagens.

Não queriam em Luanda que fosse o Batalhão 96 o primeiro a entrar em Nambuangongo. Estava previsto que essa honra seria concedida ao Batalhão 114.

Mas esta unidade estava irremediavelmente atrasada. Planearam então o lançamento de uma companhia de pára-quedistas – para evitar que fosse um oficial de Infantaria, sem penacho, a receber os louros da vitória. Mas o tenente-coronel Maçanita, como era próprio do seu feitio, não ligou às ordens. Estava a cerca de seis quilómetros de Nambuangongo. Montou três auto-metralhadoras à frente da coluna, que faziam fogo rasante e ininterrupto, e marchou atrás delas. A primeira companhia a entrar na vila foi a 103, comandada interinamente pelo alferes Casimiro. A honra de içar a bandeira na torre da igreja coube ao pelotão do alferes Santana Pereira. No dia seguinte, cerca das dez da manhã, chegou a Nambuangongo o Esquadrão 149, comandado pelo capitão Rui Abrantes. O Batalhão 114 continuava acantonado na zona de Quissacala onde seria reforçado por um pelotão de Cavalaria comandado pelo então alferes Manuel Monge.

A teimosia do tenente-coronel Maçanita custou-lhe um rol de pesadas acusações. Foi mandado regressar a Luanda e tiraram-lhe o comando do Batalhão 96. Mandaram-no para Lisboa para responder no Tribunal Militar. Acusavam-no de 13 crimes, entre eles, desobediência, ter recebido dinheiro de um fazendeiro e de ter mantido relações sexuais com uma negra chamada Madalena. Já na Metrópole, foi chamado ao Ministério do Exército. Um brigadeiro rasgou o processo e perguntou-lhe onde queria ser colocado. Maçanita disse-lhe que gostava de voltar a comandar o Batalhão 96, em Angola. O brigadeiro, homem previdente, aconselhou-o a escolher outra unidade: “Se quiser, vai. Mas não o aconselho, porque, como deve calcular não deixou muitos amigos em Luanda”. Maçanita pediu então para voltar ao Batalhão Independente de Infantaria 18, em São Miguel, nos Açores.

NR: Este feito ocorreu há 50 anos. O coronel Armando Maçanita faleceu em 17 de Novembro de 2005 na sua terra natal, Portimão, aos 88 anos de idade.


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Reino de Nambuangongo

FRONTEIRA DO “REINO DE NAMBUANGONGO”

A UPA havia-se instalado no chamado “Reino de Nambuangongo”, cuja fronteira Sul era definida pelo Rio Lifune, depois de destruída a ponte sobre o mesmo rio, em Anapasso. O aparecimento nos meios internacionais da notícia da existência do “REINO DE NAMBUANGONGO”, provocou em Luanda e Lisboa grande perturbação ao nível mais alto do poder político. Em consequência o Comando Chefe ordenou a imediata ocupação de Nambuangongo e os estrategas começaram a delinear as tácticas e as manobras operacionais, no sentido de conseguir o desiderato do poder político. Foi assim estabelecido um plano de ocupação de Nambuangongo, (OPERAÇÃO VIRIATO), que seria conseguida do seguinte modo: 3 forças autónomas avançariam sobre Nambuangongo por 3 itinerários convergentes naquela povoação, a saber: a primeira, (BC 114), com base na região de Caxito/Mabubas, avançaria por Anapasso, Quicabo, Balacende, Quissacala, Beira Baixa, Bela Vista, Onzo, Nambuangongo; a segunda, (BC 96), com base em Úcua e contornando a célebre Pedra Verde, avançaria por Pedra Boa, Quibaxe, Quitexe, Mucondo, Muchaluando, Onzo, Nanbuangongo; a terceira, (CC 158+), com base na região de Ambriz, avançaria na direcção nascente por Zala, Onzo, Nambuangongo. No dia quatro de Julho de 1961, o 3º Pelotão da CC 115, estacionada no Caxito, recebe a missão de explorar/abrir o itinerário até ao Rio Lifune, garantindo segurança ao Tenente Varela, Engenheiro Comandante da Companhia de Sapadores, que, em Anapasso, avaliaria do estado e danos sofridos pela ponte ali existente, elaborando o projecto para a sua recuperação, pois era uma obra essencial para o atravessamento do rio Lifune e progressão para norte na direcção de Quicabo-Nambuangongo. O Rio Lifune era mesmo considerado pelos “terroristas”, como então se chamava aos combatentes independentistas da UPA, a fronteira Sul do “REINO DE NAMBUANGONGO“. Depois de um percurso de 15 a 20 Km por uma picada inexplorada, cheia de abatises, felizmente de pequeno porte por a mata naquela zona ser tipo savana, chegados a Anapasso, ali encontrámos a procurada ponte com o tramo central do tabuleiro caído, cortando completamente a possibilidade de passagem de viaturas entre as margens do rio. À entrada da ponte, na margem esquerda, estava colocada uma grande tabuleta em madeira, com os seguintes dizeres: “REINO DE NAMBUANGONGO – DAQUI PARA DIANTE NÃO PASSA PÉ DE BRANCO – TUDO O QUE PASSA MORRE”. Enquanto o Tenente Engenheiro procedia ao estudo da ponte e lhe era garantida a segurança, uma parte da força explorou os arredores, nomeadamente a Fazenda Maria Amélia, em Anapasso, localizada junto à ponte, e que era essencialmente constituída por um imenso pomar de laranjeiras ao longo do Rio Lifune, na margem esquerda.

Wikipédia


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Génesis da guerra em Angola

Muito antes de 15 de Março de 1961, já havia sinais evidentes de que algo estaria para acontecer em Angola, mas que o governo de Salazar menosprezou grosseiramente. Desde logo a independência do Congo Belga em 30 de Junho de 1960. Lá diz o ditado: “quando vires as barbas do teu vizinho a arder, põe as tuas de molho“.

Depois, no final de 1960, os chamados acontecimentos da Baixa do Cassange, uma extensa depressão geográfica que vai da região de Malange às Lundas, com uma superfície de cerca de 80 mil Km quadrados (quase do tamanho de Portugal Continental). Nesta região viviam os bakongos, tribo que tinha raízes comuns no Norte de Angola e no Congo, e que sofria enorme influência daquele país recém-independente, e por isso se reavivavam sentimentos de nacionalismo. Os trabalhadores indígenas eram obrigados a trabalhar  na cultura do algodão para a empresa luso-belga Cotonang, e em Novembro de 1960 começaram a fazer greves porque as suas condições de vida e de trabalho eram degradantes.

angola_1961O tenente-coronel António Lopes Pires Nunes, é autor do livro “Da Baixa do Cassange a Nambuangongo”, onde retrata com precisão a situação vivida naquela zona.

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Um excerto está neste link:  Antecedentes da Sublevação da Baixa do Cassange

Em 4 de Janeiro de 1961, a Força Aérea Portuguesa foi chamada para reprimir as manifestações na Baixa do Cassange  tendo bombardeado a região. Quantos mortos? Ninguém sabe ao certo. Há relatos que dizem que foram mil, outros 10 mil.  Esta data é assinalada na República Popular de Angola como o “Dia dos Mártires da Repressão Colonial”, sendo feriado nacional.

A 4 de Fevereiro de 1961, algumas centenas de  revolucionários assaltam a  Prisão de S. Paulo, a Casa da Reclusão Militar e a Esquadra da Polícia Móvel em Luanda. O resultado destas operações saldou-se pelo bárbaro assassinato  de 7 polícias  à catanada, e cerca de 40 revoltosos mortos. Nos dias a seguir aos funerais dos polícias, alguns civis brancos invadem os musseques (bairros de lata) e matam também centenas de negros.

No dia 15 de Março de 1961, a UPA (União dos Povos de Angola) ataca várias fazendas de colonos brancos no Norte de Angola, chacinando a golpes de catana famílias inteiras incluindo mulheres e crianças, bem como os seus trabalhadores bailundos (povo originário do Huambo). Os relatos apontam cerca de 800 mortos e uma onda enorme de deslocados que procuram refúgio na cidade de Luanda.  Só depois deste acontecimento, Salazar solta a célebre frase: “Para Angola, Depressa e em Força“.

Só a 13 de Abril de 1961 segue para Angola o 1º contingente de tropas (3 companhias = 400 homens) a bordo do navio Niassa. A 19 de Abril embarcam na TAP os 1ºs pelotões de pára-quedistas e outros que estavam em Moçambique deslocam-se para Angola. A 10 de Julho de 1961 no âmbito da “operação Viriato”, sai de Luanda o Batalhão 96, comandado pelo tenente-coronel Armando Maçanita  e depois de grandes dificuldades de progressão com estradas  obstruídas e pontes destruídas, chega a Nambuangongo, onde é hasteada a Bandeira Portuguesa em 9 de Agosto de 1961. A 16 de Setembro desse ano, é tomada a “Pedra Verde” uma zona de morros escarpados e grutas, reduto muito importante dos guerrilheiros,  e que custou vários mortos e feridos à tropa Portuguesa.

Antes do começo da guerra não havia em Angola mais de 5 mil efectivos militares, quase todos do contingente local. No final de 1961 a tropa portuguesa contava com cerca de 33 mil homens,  e em 1973 esse número ascendia já a cerca de 65 mil.

(Mário Mendes)

Este vídeo mostra o que foram aqueles dias de 1961.