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HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DA C. CAÇ. 3413 (IX)

    Depois de uma noite de loucura total, em que vinho e cerveja escorreram livremente pelas gargantas, foi um ver se te avias para desmontar o acampamento. As tendas eram desfeitas num ápice, assim como os “PUBS” e as demais estruturas de apoio. Tudo o que era aproveitável era de imediato carregado nas muitas viaturas apropriadas para o efeito, sendo o resto amontoado numa enorme pilha, constituída na sua maioria por madeira. Valas e buracos tapados, inclusive a celebérrima “PISCINA”, e por fim, momentos antes de partirmos, tudo bem regado com gasolina e gasóleo e incendiado, para NÃO deixar NADA QUE SE APROVEITASSE. Levantou-se uma enorme fogueira em que as chamas se confundiam com o fumo e consumiam tudo o que amontoáramos. Acto contínuo foi dada a ordem de “PARTIDA”! …

Já depois de andados uns kms, um último olhar de despedida a um sítio que estávamos desejando de ver pelas costas, e ninguém imaginava que embora inóspito, a todos deixasse imagens inesquecíveis e que o passar dos anos traria saudades aos que passaram estas merecidas “férias” … Tinham sido meses duros em condições de vida sub-humanas, temperadas para todos por momentos únicos e marcantes. De longe ainda se vislumbravam os sinais da enorme fogueira e como na vida, ficou tudo em pó, cinza, nada

Partíamos para outra, com todas as interrogações possíveis. Melhor? Pior? Mas uma coisa era certa: esta etapa estava terminada. Mas arranjar companheiros como estes de quem nos íamos separar, iria ser difícil encontrar! As futeboladas e os jogos de bruto-vólei aos domingos iam ficar irremediavelmente para trás, e principalmente os dérbis entre companhias que eram vividos com tal intensidade que fariam corar de inveja os “dérbis” actuais. Os reagrupamentos no Tôto com parte da nossa companhia, vividos, celebrados e regados com bastante cerveja a acompanhar frangos e alheiras, tinham chegado ao fim!

    Após muita poeira e muitos kms eis-nos finalmente em Luanda… foi um alvoroço e uma alegria indescritíveis! Enfim, a civilização. Tudo o que esta cidade tinha para nos oferecer, e que nós já antecipadamente saboreávamos, comida boa, cervejas fresquinhas, marisco, praias, e mulheres …o simples facto de podermos passear livremente nas suas ruas e avenidas e em segurança, ver roupas civis, trânsito, confusão…como foi festejado este regresso…

    Devidamente instalados no Grafanil, ficamos incumbidos de fazer segurança à cidade, e enquanto uns estavam de serviço o resto da rapaziada marchava para Luanda. A nossa C.Caç. nunca primou pelo aprumo militar de que o nosso exército tanto zelava, e com estes meses todos onde nada destas coisas eram exigidas, abandalhou, e dava origem a que todas as noites a PM (Polícia Militar) detivesse vários soldados nossos e há noite lá os tínhamos que ir resgatar á PM, estes iam fardados para terem transporte grátis e quando havia “maca” a PM identificava-os facilmente e arrecadava-os.

Mas não foram só soldados. O Fausto Maia que era um dos furriéis do 2º grupo, foi para a cidade como era habitual, e surpresa das surpresas, também ele acabou detido…quando chegou ao Grafanil, vinha pior que estragado, e jurou vingança para com o furriel PM que o detivera “injustamente”…e tinha razão, senão vejamos!

– Como não achou a boina de saída, levava na cabeça o quico camuflado.

– Uma perna das calças, só uma, tinha ardido e, só na ponta, apresentava um buraco que até tinha vantagens. Devido ao calor permitia circulação de ar e refrescava…

– As meias, duma alvura imaculada, reluziam á distância através do dito buraco, e como é fácil constatar o nosso Maia ia devidamente “ataviado”, e só a má vontade do PM é que originou este caso…todos nos divertimos com este episódio, menos ele, e quando numa dessas noites lhe calhou ir resgatar soldados á PM deu de caras com o outro furriel. Logo ali lhe manifestou a sua indignação, mas agora ambos em situação de igualdade e armados…deu discussão e… o caso acabou aqui.

A 3413 já era conhecida pelo seu aprumo militar mas uma célebre noite foi demais. Envolveu-se tudo á batatada e como prémio recebemos ordem de marcha para uma operação com o batalhão do na altura coronel Duarte Silva “os sus a eles”. No caminho para a base táctica, junto a umas palmeiras um unimog onde seguiam vários militares capotou, e destes lembro-me que o Valdez teve que ir para o hospital militar em luanda (baldas quê do meu rádio?). Devidamente instalados nas tendas que montamos dormimos toda a noite que nem uns justos embalados pelos saltos que os unimogs deram todo o caminho de picada por muitos quilómetros. Manhãzinha bem cedo uns alarves começaram a tocar um cornetim que acordou toda a minha gente. Com franqueza…tão cedo e tanto barulho… Com calma e toda a tranquilidade lá fomos acordando e saindo das tendas. Cada um com o seu pucarinho de alumínio para nos dirigirmos ao sítio onde iria ser distribuído o pequeno-almoço…mas com o que nos deparámos foi com o pessoal do batalhão impecavelmente formado e nós…na mais completa anarquia. Formámos o mais rápido que foi possível, mas não conseguimos esconder o que era por demais evidente, o que nos valeu a todos uma reprimenda para não lhe chamar outra coisa do coronel que do alto do seu tamanhão e com um vozeirão do caraças a todos “elogiou”…o pior ainda foi para o nosso capitão que coitado foi quem mais ouviu. Militarices!

(Joaquim Alves)


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ANGOLA – MUSEU NACIONAL DE HISTÓRIA MILITAR – Luanda

Abriu ao público no passado mês de Abril de 2013 o Museu Nacional de História Militar de Angola, instalado na antiga Fortaleza de São Miguel de Luanda.

Um local a visitar por quem passe pela capital angolana, direccionado que está não só para estrangeiros interessados na História de Angola como para os nacionais que ali vêm exaltados os seus heróis nacionais, cumprindo assim uma função educativa.

http://www.operacional.pt/museu-nacional-de-historia-militar-angola/


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As “louras” africanas, anos 70.

Há 41 anos, nos finais de Agosto, ainda estávamos acantonados no campo militar do Grafanil em Luanda, onde as condições habitacionais das casernas eram deprimentes, mas durante o dia a vida corria de melhor feição, porque havia sempre umas “louras” (Cuca e Nocal) a assediar os militares. No mês de Agosto de 1971, a nossa C. Caç. 3413 foi convidada a visitar a fábrica da cerveja Nocal, situada no bairro da Maianga.

O que sucedeu nessa visita não foi muito diferente da situação referida por José Castilho, do B.Caç. 3849 que tal como nós chegou a Luanda na mesma viagem no Vera Cruz e cumpriu a missão em Nóqui. Segue-se a transcrição:

Companheiros de jornada Noqui : a estadia dos militares em Angola, na Guerra Colonial, colocava-os face a um clima adverso, perante uma nova realidade – a sedução do consumo de Cerveja. Refiro-me às Cervejas Cuca, Nocal, já implantadas no mercado e já talvez em 1972 / 73, a outra marca com o nome de EKA, a que o marketing de então associou um conceito novo, “loura tropical”. Nos anos 70, os Batalhões que chegavam a Luanda, alojados no Grafanil, em Luanda, eram seduzidos por visitas de estudo às Fábricas onde a Cuca e a Nocal se produziam, disponibilizando autocarros que transportavam os militares, numa acção de charme das respectivas marcas. E se alguns dos graduados viam nestas visitas uma oportunidade de aprenderem algo sobre uma bebida que apreciavam, na generalidade aos praças, seduzia-os a oportunidade de beberem umas cervejas à discrição. Ora Cerveja à discrição acompanhada de leves aperitivos, nem sempre se conjugavam num bom resultado. E os regressos ao Grafanil, distante uns Km das unidades industriais, eram penosas. O percurso dos autocarros, atravessando a malha urbana de Luanda, não se compadeciam das necessidades fisiológicas de tão imprudentes consumidores, já que não podiam parar para que os aflitos, se pudessem “aliviar”. Porém logo que a densidade do casario luandense diminuía, os autocarros lá paravam, para que os “apertados” visitantes se aliviassem. Enfim, uma experiência que vivi uma vez. Aprendi algo sobre a produção de Cerveja, com os atenciosos técnicos da Nocal, confesso, mas muito mais sobre os efeitos do seu consumo imoderado. Porém no isolamento das Compªs, face às duras realidades com que muitas vezes se confrontavam, a Cerveja terá sido muitas vezes a companhia amiga dos militares, nas horas que passavam lentamente… Era portanto um produto que não poderia faltar nos serviços de aprovisionamento dos militares, já que a sua carência afectaria a moral das tropas.


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Aniversário da chegada a Luanda

Faz hoje 41 anos que o navio Vera Cruz aportou em Luanda, depois de 9 dias a marear desde Lisboa, cheio de jovens militares para participarem na guerra colonial que em 1961 rebentou em Angola.

Após o desembarque não tivemos muito tempo para apreciar a paisagem circundante, porque logo ali estava um comboio para nos transportar, como sardinha em lata, para o Grafanil, um campo militar onde muitos milhares de tropas se concentravam, uns acabados de chegar, outros já prontos a partir para Portugal depois de uma comissão de dois anos.

A cor dos camuflados indicava bem quem eram uns e outros e também a fisionomia não enganava, os “maçaricos” com um rosto fechado e desconfiado à espera do desconhecido, os “velhinhos” de sorriso aberto e foliões aguardando o tempo de fazer o percurso inverso ao nosso.

Para recordar esse tempo, aqui vão fotos que colhi da net. Felizmente também tivemos tempo de conhecer a bela cidade de Luanda para esquecer as amarguras da guerra.

Mário Mendes


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Zonas verdes de Luanda ao abandono

À medida que avançamos pela Zona Verde do Alvalade é visível o abandono a que está voltada. As árvores que antes coloriam o local de verde têm as folhas amarelecidas. Em meio ao lixo e cães vadios, crianças e jovens passeavam pelo local. Restos de troncos queimados denotavam o abate de árvores, que, segundo uma moradora de rua que estava na zona, são usadas para fazer lenha.
Suzana Mendes Adilson, 24 anos, que estava no local a fazer exercícios físicos, lamentou o estado em que se encontra o espaço. “Temos poucas zonas verdes em Luanda, é triste que esteja tudo assim, completamente abandonado, sem ninguém para proteger”, reclamou.
Receoso, Adilson contou-nos que mudou a sua rotina. Passou a frequentar o local apenas à tarde, porque de noite, devido à escuridão, teme pela sua segurança. “A maior parte dos postes de iluminação estão destruídos, tenho ouvido relatos de assaltos, então, tenho receio”, afirmou, acrescentando que o Governo precisa fazer algo, urgentemente, para “salvar a zona verde”.
Quem também está preocupado com a segurança no local é um dos moradores de uma das casas cujas janelas dão para a zona verde.
Segundo o mesmo, que preferiu o anonimato com receio de represálias, durante a noite, meliantes circulam livremente pelo espaço e, inclusive, atacam os transeuntes.
“Como não há guardas e está tudo escuro, eles aproveitam-se”, reclamou, acrescentando que deveria haver um policiamento regular em todo o espaço.
O morador diz-se ainda decepcionado porque ao adquirir o imóvel fê-lo na expectativa de morar numa zona rodeado de árvores e com um ambiente saudável, o que não acontece neste momento. “Para mim, este espaço já não é digno de ter o nome que tem, basta olhar para o estado das árvores e o lixo espalhado pelo chão”, frisou.

Para além da questão da segurança, o facto de uma ampla zona verde estar em risco preocupa quem visita o local, como o estudante Joel Ndele, 32 anos. Ele alerta que um espaço com árvores é importante para manter a qualidade do ar e que também é benéfico para as pessoas poderem passar momentos de lazer. “Temos poucos espaços, em Luanda, onde podemos descansar um pouco com a família, por isso, esta zona deveria ser preservada. A situação não pode continuar como está”, referiu.
Diante da situação, os populares pedem a intervenção urgente do Governo, no sentido de inverter o quadro e devolver a beleza e segurança a área.Já na Zona Verde do Miramar a situação se repete. Lixo, folhas amarelecidas espalhadas pelo chão e moradores de rua tomaram conta do local. “Durante o dia há, inclusive, jovens que ficam aqui a drogar-se e há casos em que fazem assaltos e fogem para aqui”, explicou uma senhora que frequenta o local para fazer exercícios físicos.
“Esta é uma área muito grande, poderia ser reabilitada para podermos passear com as nossas famílias, fazer exercícios físicos, mas, de momento está subaproveitada”, lamentou a mesma fonte.
O abandono a que está voltada a Zona Verde do Miramar levou a que moradores de rua ocupassem espaços, cobertos com panos verdes, onde dormem. “Um amigo meu veio para aqui e, como também não tenho família e nem casa, decidi ficar aqui”, explicou um dos jovens que encontramos no local.
Contacto o Gabinete de Estudos e Planeamamento (GEP), do Governo Provincial de Luanda, uma Fonte da referida instituição informou-nos que foi feito, no ano passado, um estudo da situação da Zona Verde do Alvalade e que foi remetida uma proposta, ao Executivo, para a sua total remodelação. “Continuamos a espera que seja aprovada, para a sua execução”, realçou.

Sem avançar valores, a referida fonte avançou apenas que serão necessários milhões de dólares para reabilitar as zonas verdes da área urbana de Luanda, mas fez questão de realçar que esta é uma prioridade dada a importância dos espaços para a qualidade de vida dos citadinos.

Juventude Ecológica preocupada com a situação

O estado em que se encontra a Zona Verde do Alvalade e outros espaços do género em Luanda preocupa a Juventude Ecológica de Angola (JEA), que, segundo o seu porta-voz, tem acompanhado a situação. “É preciso um projecto de manutenção das zonas verdes, porque são importantes espaços, que ajudam na manutenção da qualidade do ambiente e servem a população como espaços de lazer”, realçou a fonte citada.
Há cerca de dois anos, segundo o ecologista, começaram obras na Zona Verde do Alvalade, o que fez crescer a esperança de que seria reabilitada, contudo, os trabalhos pararam e a degradação é cada vez maior. “Não temos informação sobre os planos para a área e seria importante que fossem tornados públicos”, realçou.
Quanto ao futuro das amplas áreas verdes de Luanda, José Silva realça que deverão ser totalmente reabilitadas, com a criação de espaços para plantação de novas árvores, e que as entradas nos locais controlados em toda a extensão por fiscais, para facilitar a sua conservação. “Em caso de intervenção deve se evitar criar muitos espaços comerciais, porque podem descaracterizar a área”, alertou.
A educação ambiental deverá também ser levada em conta, com a contribuição de educadores ambientais, para combater comportamentos errados por parte de visitantes como deitar lixo no chão ou destruir a relva. “Temos um problema de inconsciência e cultura de impunidade, que deve ser combatida”, frisou ainda José Silva. O ambientalista chamou atenção para o impacto das zonas verdes para a qualidade do ambiente das cidades, tendo em conta que as árvores absorvem o dióxido de carbono do ar e libertam oxigénio. “Pelo seu importante papel, estes espaços devem ser conservados”, acrescentou.
Para ajudar no processo, José Silva realça que seria importante que as empresas que estão a erguer estruturas a volta das zonas verdes apoiassem na sua preservação, como forma de compensar a sociedade pelos danos causados tendo em conta o impacte ambiental dos projectos que estão a ser implementados.

O País/Suzana Mendes

NR: Os bairros aqui mencionados, Alvalade e Miramar já foram antes da independência, ex-libris da cidade de Luanda, Alvalade com a sua piscina olímpica, Miramar com a sua sala de cinema ao ar livre. Quem quiser ter segurança no bairro de Alvalade tem que pagar por isso, como se pode constatar nesta foto.


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