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Recordações da guerra colonial

 COISAS DO SÉCULO PASSADO EM TEMPO DE GUERRA

Em mais uma visita ao meu “baú da guerra colonial”, considerei interessante
dar a conhecer mais algumas das minhas relíquias. A primeira foto é a imagem
referente ao estado de construção da ponte de Lisboa sobre o Rio Tejo, a 21
de agosto de 1965, data da nossa partida para Angola. A seguinte retrata o
transporte da refeição na Magina, reservado aos soldados, depois de
recebida no “Self Service” junto das panelas de um local chamado de
cozinha, assim foi durante cerca de dezassete meses. A seguinte,
pode contribuir para garantir o contraditório, palavra muito em voga nos
debates que agora por aí se travam. Esta ideia foi ganhando corpo na medida
em que se iam divulgando algumas das condições existentes no transporte das
tropas no Paquete Vera Cruz, algumas dessas condições eram uma autêntica
miragem para as praças que também aí eram levadas para o território
desconhecido, muito diferente daqueles que tinham direito, nomeadamente, a
uma ementa impressa em papel couchet, eu ainda tive a sorte de ser
instalado numa tarimba, com mais cerca de cinquenta camaradas, na sala das
senhoras, outros, muitas centenas foram transportados nos porões.  Contudo,
não foram certas “mordomias” para algumas  classes que impediram que essas
mesmas classes se envolvessem, de forma determinante, desde a primeira
hora, nessa jornada maravilhosa que foi o 25 de Abril de 1974. A última é fotocópia
de um recibo referente ao salário de um soldado, que no caso sou eu,
já com a subvenção, quando em campanha na guerra colonial (menos de quatro
euros da moeda agora em vigor) .

Texto e fotos de: Horácio Marcelino (C.Art. 1405 do B.Art. 1852)

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Recordações do distrito do Zaire (cont.)

O distrito do Zaire continua a ser recordado por militares que ali contribuíram com o seu esforço para o desenvolvimento da região, particularmente as unidades de engenharia que construíram pontes e picadas tornando possível a reocupação do território depois do deflagrar da guerra. O testemunho que nos chega é do ex-combatente José Magalhães que em 1962/63 integrou a C.Eng. 151 que aporta o comentário que se transcreve e as fotos que se seguem:

Caro Horácio Marcelino,

Foi uma grande surpresa ter visto as fotos que publicou, que para nós, Companhia 151, representa um grande contributo para a história, pois nunca imaginaríamos que em 1966 elas ainda existissem. 
As placas são da autoria dum nosso companheiro, Feliciano Carvalho da 151, que teve a feliz ideia de as conceber e colocar, e que perduraram, pelo menos até 1966. Quanto à de São Salvador do Congo era exactamente como quando lá estávamos e tenho grandes recordações do Sr. Salvador Beltrão, onde cheguei a almoçar por diversas vezes em sua casa,  juntamente com esposa e um sobrinho.
Aqui envio também mais umas fotos, não só para o Horácio, mas também para fazerem parte do “espólio” no blog do Mário Mendes.
As fotos, não sei se são de autoria do Feliciano Carvalho, pois não fui eu que as tirei mas que fazem parte do meu arquivo, estas são originais.

Um abraço
Magalhães

Picada na Mamarrosa.

Construção de pontão sobre o rio Lucage.

Alferes Monteiro e Barroso.

Magina, 1962/63.

Pontão sobre o rio M´Matende (Magina).

O autor da obra.

NR: O nosso companheiro Magalhães já tem mais colaboração neste blog, que pode ser vista clicando AQUI.


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Recordações do distrito do Zaire

Têm sido muitos os comentários que nos chegam de ex-combatentes que estiveram em Angola, particularmente no Zaire e que aqui encontram um ponto de encontro para revisitar o passado. O conteúdo deste artigo e as suas imagens serão familiares a muitos de nós, mas desta vez o “aerograma” tem um destinatário específico.

Caro Magalhães,

Creio que se recorda dessas placas que em 1966 ainda se encontravam, embora nesse estado, no aquartelamento da Buela e na estrada para a Pangala, junto ao cruzamento para a Magina, onde teria havido uma povoação e ainda era possível colher umas deliciosas mangas.
Outra imagem é junto ao Rio M’ Matende(?), entre a Magina e a Mamarrosa, próximo do local onde a 151 montou o seu acampamento em 1962, cuja ponte se encontrava em reconstrução e que nessa imagem, obtida por mim, está a ser atravessada pelo primeiro e segundo comandantes do BArt. 1852. A outra, que por acaso pela ordem é a primeira, é na rua principal de São Salvador; do lado esquerdo da imagem, à minha direita, e por ordem as lojas eram as seguintes: Restaurante Flor do Congo, Foto Cinderela (do ex-sargento Abreu), onde essas fotos foram reveladas, Restaurante Kimpala, Drogaria/Bazar do mesmo proprietário do Kimpala e edifício do Salvador Beltrão.

Um abraço,

H.T. Marcelino


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Magina, no espaço e no tempo

MAGINA: O ISOLAMENTO

A CART. 1405 do BART. 1852 esteve na Magina dezoito meses, de Setembro de 1965 a Fevereiro de 1967. Creio que fomos a terceira ou quarta unidade militar a estar naquele polo militar, situado no Norte de Angola, junto à fronteira com a agora Republica Democrática do Congo. Antes, segundo os dados que consegui coligir, estiveram a CART. 102(?), a C.Sap. e Eng.151 e companhias de cavalaria dos Batalhões 595(?) e 631(?).
Além do isolamento devido à distância a que estávamos de outras unidades militares (Mamarrosa, Buela e Pangala distavam a mais quarenta quilómetros) e de São Salvador do Congo (cerca de oitenta por Mamarrosa e a cem por Pangala) que era a única povoação em que também residia população civil, além de militar, as vias rodoviárias estavam em muito mau estado.
As saídas da Magina tornavam-se ainda mais complicadas porque pela Mamarrosa tínhamos a subida ou descida do Luvo, na Mata/Floresta do Dimba, em que com as chuvas ou tempo húmido era um obstáculo quase intransponível e pela alternativa da Pangala e Calambata, além de mais quilómetros, entre a Magina e o cruzamento para a Buela, tínhamos três ou quatro pontes destruídas em que nas suas passagens as viaturas tinham que as atravessar fazendo equilíbrio em troncos de árvore ou contornando os locais por onde o caudal dos rios o permitisse. Algumas vezes tivemos que regressar ao aquartelamento ou ficar na Mamarrosa à espera de melhores condições atmosféricas.
A Magina situava-se no alto de um morro, numa clareira da Mata do Dimba (que diziam ser a segunda maior floresta virgem de Angola), o Rio Luvo situava-se no vale desse morro e era cercada por outros morros que diariamente eram patrulhados na chamada “volta dos tristes”.
Durante a nossa permanência, em termos militares, além de umas ocorrências menores, tivemos um acidente com uma mina que destruiu um Unimog que causou diversos feridos um dos quais, o condutor, que ficou em estado mais grave e sofremos uma emboscada à coluna militar da companhia que estava na Canga, (a CART. 1407) em que se sofreu uma baixa, também o condutor.
Eu era condutor auto, nos primeiros dois meses não tinha viatura distribuída, depois foram vinte e dois meses a “ir a todas”.
Espero que as fotos, parte delas tiradas por mim e pela minha máquina fotográfica, dêem para ajudar a ilustrar o texto e contribuam para que outros camaradas, ex-militares, nos transmitam mais informações da Magina e arredores, em particular o número e as datas que outras unidades lá permaneceram. Até à data só as vi através do Blog do “Barreirense Costa” que tem um pasta com fotos do ex- camarada José Manuel Vasques, da CCAV. 1783 do BCAV. 1930, que lá esteve de Dezembro de 1967 a 1969.

NR: Na sequência do artigo anterior chega-nos à redacção este texto do companheiro Horácio Marcelino que escreve na primeira pessoa do que era a vida no aquartelamento nos anos de 1965/67. Pelo diapositivo que se segue, as dificuldades do dia a dia estão bem patentes. A água para todos os usos, um bem essencial, tinha que ser recolhida em bidons no leito do rio que ali corria e como se pode ver, era uma carga de trabalhos.


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Imaginar a Magina

A C.Caç. 3413 que desde Abril de 1972 a Setembro de 1973 esteve sediada na Mamarrosa, cada vez que saía do aquartelamento topava com esta placa pregada numa árvore e que indicava que o aquartelamento de Magina se situava 42 km a leste no norte de Angola, província do Zaire, perto da fronteira do Congo que nessa época se designava por República do Zaire e hoje é a República Democrática do Congo.

Na verdade, nessa época o aquartelamento da Magina já tinha sido desmantelado, julgo que nos princípios de 1971, pelos relatos de comentários referidos neste blog, mas a placa lá continuou intacta pois que as outras localidades ainda figuravam no mapa, com destaque para São Salvador do Congo, a capital da província, onde íamos frequentemente principalmente em busca de provisões e outros serviços que não vale a pena especificar…

Hoje, o tema vai ser a Magina, porque temos a sorte de ser lidos por muitos ex-combatentes que “gastaram” pelo menos 2 anos da sua juventude em terras africanas e depois dos 60 anos é sempre bom olhar para trás e reviver o passado. As fotos que se seguem são do Horácio Marcelino que esteve na Magina e que aqui se partilham esperando que mais gente que por lá passou também se possa manifestar. Eu, que nunca lá estive, posso imaginar pelas fotos, que se tratava de um pequeno aquartelamento onde não cabia mais que uma companhia, situado num planalto, mas rodeado de floresta e montes altos, um lugar propício a flagelamentos do inimigo.

Nos primeiros anos da guerra em Angola que começou em Março de 1961, foram construídos alguns aquartelamentos estratégicos junto à fronteira norte, mesmo em locais onde não havia populações civis, para tentar estancar a infiltração dos guerrilheiros da UPA, que mais tarde se designaria por FNLA, mas num território tão vasto era difícil travar essa infiltração. Com o passar dos anos, de ambas as partes se interiorizou que esta guerra de guerrilha não se resolveria pelas armas e tacitamente a vida correu sem sobressaltos nestes locais de fronteira em que o principal interesse do inimigo era passar para o interior do território sem fazer grandes alardes.

O exército português, já farto da guerra, limitava-se o cumprir os serviços mínimos defendendo os aquartelamentos, protegendo a logística dos abastecimentos e fazendo alguns patrulhamentos para cumprir calendário. O esforço de guerra em meios humanos e materiais chegava ao limite e era preciso racionalizar esse esforço e assim progressivamente nestas regiões de fronteira foram-se substituindo batalhões por companhias, companhias por grupos de combate que consequentemente levaram ao abandono de alguns aquartelamentos como o da Magina e de pelo menos outros dois nesta zona, de seus nomes Pangala e Coma.

No ano de 1972, a estratégia da FNLA começou a alterar-se, devido também ao cansaço de tantos anos de guerra em condições difíceis, muito mais que as nossas, basta imaginar a logística dos guerrilheiros transportando materiais calcorreando a pé centenas de km. Assim, o epicentro do teatro da guerra era agora junto da fronteira onde tinham grande apoio, pois que o presidente da FNLA, Holden Roberto era cunhado do presidente da República do Zaire, Mobutu Sese Seko.

Minas nas picadas, emboscadas, flagelamentos e ataques a aquartelamentos eram notícias constantes, a táctica do “bate e foge” terminou com um período de acalmia reinante até aí.

Em cada aquartelamento, nunca faltava um campo de futebol.

Dando voz ao companheiro Horácio Marcelino e esperando que mais gente para quem a Magina não é palavra vã, deixe aqui os seus “desabafos”, transcrevo alguns comentários:

Caro Carlos Tiburcio,
Estive na Magina, entre Set. de 1965 e Jan. de 1967,integrado na CART. 1405, do BART. 1852. O guia de que fala (N’assala) também por lá esteve todo esse tempo. Além de guia era uma espécie de ordenança do comandante da companhia (Capitão Moniz) e creio que também de mais alguns oficiais. Chegou a constar que pertencia à ” dinastia dos reis do Congo ou que tinha sido soba de uma sanzala daquela zona. Uma vez foi guia de um pelotão numa operação de que eu fiz parte pela zona de Magina-a-Velha em que nos perdemos na Floresta do Dimba por uma tarde e uma noite, quando o programa era ser-mos recolhidos pelas viaturas a meio da tarde. Alguns camaradas levantaram muitas suspeitas se não teria sido o N’assala a provocar o erro do percurso. Salvou-o a calma e o equilíbrio do alferes que nos comandava. É que desde que nos perdemos até à manhã do outro dia não tínhamos nem água nem comida, uma vez que, cada elemento só tinha levado meia ração. Felizmente tudo acabou em bem.

Um abraço,
H.T. Marcelino

Apenas para fazer algumas clarificações/retificações:
O então Ten. Cor. Spinola comandava o B. de CAV. 345 que também foi operar para a zona.
No Luvo esteve a CART. 1406 e em Canga a CART. 1407.
No último parágrafo o pretendia escrever era que em 23-06-1974 o aquartelamento da Mamarrosa foi atacado pela FNLA (Holden Roberto).
Oportunamente vou tentar anexar umas fotos tiradas no local no decorrer da nossa presença.
Saudações
H.T. Marcelino

Caro Sampaio,
Fiz parte do BART.1852, mais concretamente da CART.1405 que estava destacada na Magina. A CART. 1406 estava na Canga, a 1407 no Luvo, na Mamarrosa estava a CCS. Tenho tentado chegar a algumas conclusões quanto às datas em que alguns destacamentos permaneceram naquela zona, não tem sido nada fácil. Quanto a nós, sei que ali estivemos de 09-09-1965 a 15-02-1967 e que durante este período, além de nós, também por ali “passaram” destacamentos de engenharia, para reconstrução de pontes e de vias rodoviárias (picadas) e os pelotões de morteiros que reforçavam algumas das companhias do batalhão. Pelas muitas leituras também me parece claro que BCAV 631, comandada pelo Cap. Almeida Bruno, permaneceu na Mamarrosa sensivelmente pela mesma altura da CART.102, comandada pelo Ten. Cor. Spinola, isto é de Maio de 1961 a 1962.Também me parece claro que o aquartelamento da Magina foi desmantelado em Janeiro de 1971 pela CCAÇ. 2609 do BCAÇ.2890.
Saudações

Vamos lá, companheiros de armas, revisitar o passado, porque RECORDAR É VIVER!

Mário Mendes