2 comentários

Mamarrosa, 1968/1969.

Do ex-combatente António Marta, do batalhão de caçadores 1930 recebi esta meia dúzia de fotos que nos transporta aos anos de 1967/68/69 no local que também conhecemos 5 anos mais tarde, que dava pelo nome “Mamarrosa” ou “Fazenda Mamarrosa”, que tinha como principal actividades a cultura do café e a exploração de madeiras, situada na província do Zaire, norte de Angola a cerca de 10 quilómetros da fronteira com a RDCongo, onde também se situava o aquartelamento “Luvo”, nome do rio que dividia os dois países.

Foram alguns milhares os militares que ao longo de 13 anos estiveram nestes locais e é sempre com alguma nostalgia que revisitamos os mesmos através de fotos que aqui partilhamos. Agradeço ao António Marta a disponibilização destes documentos do seu espólio e reafirmo que serão aqui bem-vindos todos os que quiserem testemunhar o passado que muitos milhares de jovens portugueses têm no seu “curriculum” no capítulo da guerra em África.

Transportando madeira para arranjo/conservação da ponte sobre o rio Lucossa.

A mesma ponte a ser reparada.

Salto para o tanque que ficava à entrada do aquartelamento, por detrás da secção de mecânica.

Companheiros posando para a foto, junto da caserna.

Momento de convívio.

Um jogo de futebol no campo da Mamarrosa (em 1972 designa-se por estádio Nª Senhora da Graça).

Mário Mendes


Deixe um comentário

2 de Fevereiro de 1973

Faz hoje 39 anos, que um camião Berliet que encabeçava uma coluna militar da nossa Companhia de Caçadores 3413 que regressava de S. Salvador do Congo ao aquartelamento da Mamarrosa rebentou uma potente mina anti-carro.

Ao chegar ao entroncamento denominado Lucossa, nome do rio ali existente, a picada apresentava um ramal que seguia para Mamarrosa e Luvo, seguindo o outro para Canga, M’Pozo, M’Pala e Nóqui e ali deparamos com a placa de madeira indicadora destes locais e respectivas distâncias já em cinzas ainda a fumegar.

Depois de averiguações no local foi decidido retomar a viagem com alguns militares de cada lado da picada encabeçando em marcha lenta a pé a coluna procurando outros vestígios da presença do inimigo. Não se tendo encontrado mais nada fora do normal, foi decidido passado algum tempo que todos retomassem os lugares nas viaturas e de armas em riste foi-se avançando lentamente, até que um grande estrondo e uma nuvem de pó nos impele como que uma mola a saltar das viaturas. A Berliet, com alguns sacos de areia colocados estrategicamente para precaver ferimentos graves nos seus ocupantes, muito danificada, cumpriu a sua missão, deixando 4 feridos com alguma gravidade mas que depois de baixa hospitalar foram todos reintegrados sem outras sequelas.

No dia seguinte um grupo com alguns especialistas em minas e armadilhas voltou ao local, pois era costume colocar também minas anti-pessoal para provocar mais danos pessoais e na realidade elas lá estavam, 4 no total, que felizmente não foram accionadas, sendo levantadas e desmontadas em segurança.

Mário Mendes


5 comentários

Morte na Picada

5 de Fevereiro de 1973

Os primeiros dias do mês de Fevereiro de 1973 foram de grande tensão no seio da C.Caç. 3413.

Impotente para tomar os aquartelamentos da Mamarrosa e Luvo na fronteira norte de Angola com a RDCongo, a FNLA começou a minar a picada, tendo colocado uma mina anti-carro em 2 de Fevereiro, uma sexta-feira, que provocou 4 feridos, que seguiam a bordo de um camião Berliet Tramagal.

Três dias depois, uma segunda-feira, mais uma mina anti-carro, desta feita pisada por um Unimog e que provocou a morte do condutor, o nosso companheiro António Amaral Machado, natural da ilha de São Miguel, Açores.

A picada que tantas vezes percorremos, esta que a foto nos mostra, foi palco de sofrimento e dor e o local da tragédia ficou para sempre guardado nas nossas memórias.


Faz hoje precisamente 38 anos e aqui recordamos com saudade o nosso companheiro. A foto que se segue revela de forma brutal este acontecimento, que ceifou a vida a este jovem de 22 anos.

O nosso companheiro José Rosa Sampaio, no seu livro “O Vermelho do Capim: poemas da Guerra Colonial” que publicou em 1986, dedicou um poema ao malogrado António Amaral Machado e que aqui se evoca:

Tinhas uma mosca pousada na tua face vermelha

E os teus lábios entreabertos escondiam uma palavra

que não disseste a ninguém …

roubaram-te até o que não te pertenceu em vida,

pois os elos da morte não perdoam a inocência da alma.

Descansa que talvez aconteça que não estejas morto.

(Mamarrosa, Maio de 1973)


23 comentários

Berliet Tramagal

Este camião era um dos veículos utilizados pelo exército português nos anos 60 e 70 principalmente na guerra do Ultramar.

Nos anos 50/60 os camiões militares utilizados eram os GMC fabricados pela americana General Motor Corporation, mas a francesa Berliet  Gazelle desenvolveu um camião que daria melhor resposta de operacionalidade e fiabilidade em terrenos e climas mais extremos, porque alguns países europeus estavam envolvidos em conflitos nas suas colónias africanas, além de Portugal, a Bélgica no Congo e a própria França, na Argélia.

Em 1964, Portugal que já era o único país a suportar a guerra em África, conseguiu autorização da Berliet para a montagem da viatura na Metalúrgica Duarte Ferreira (MDF), no Tramagal, tendo produzido cerca de 3.300 unidades sob o nome Berliet Tramagal, como esta da C.Caç. 3413 que ficou entalada após partir uma travessa  nesta ponte de madeira sob o rio Lucossa.

Esta viatura pesava 8 toneladas e podia transportar 5 toneladas. O motor de 5 cilindros e 7.900 cc, de 125 cv.  proporcionava uma velocidade máxima de 80 Km/hora. O consumo, como é óbvio, não era nada comedido, pois o tanque de 95 litros dava para uma autonomia máxima de cerca de 560 km. É caso para dizer, que com os preços actuais dos combustíveis, valia mais “governar um burro a pão de ló”.

Tinha guincho mecânico com saída para a frente e para trás, o que lhe permitia resolver as situações mais complicadas e outra característica muito importante era que devido à estanquecidade do motor e do depósito de combustível permitia-lhe a submersão podendo atravessar facilmente um curso de água com cerca de 1,5 metros de altura.

Mário Mendes


10 comentários

Mina anti-carro

No dia 02/02/1973, uma coluna da C. Caç.3413 no regresso de S. Salvador do Congo, depois de atravessar a ponte sobre o rio Lucossa, encontrou uma fogueira ainda activa no cruzamento das picadas Canga/M´Pozo/M´Pala com Mamarrosa/Luvo, em que foi queimada  a placa indicativa de madeira destes aquartelamentos. Logo aí se apearam os militares da coluna e percorreram a picada durante algum tempo.

Como não se avistou qualquer outro sinal do inimigo, o pessoal subiu para as viaturas e continuou a viagem, até que passados alguns km, se ouve um  grande estrondo, a viatura pesada Berliet  tinha pisado uma mina que provocou 4 feridos.  Não sei quem tirou as fotos, parabéns ao fotógrafo, o certo é que as tenho no meu “álbum da guerra”, e já não me lembro como as obtive.  Com as  fotos deste episódio, realizei o pequeno filme que se segue:

Três feridos foram evacuados para Luanda e felizmente todos recuperaram e voltaram ao convívio da Companhia.

Mário Mendes