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Cronologia da guerra colonial (Abril/1961)

?– Chegada a Angola da 2ª Companhia de Caçadores Pára-quedistas.

– Chegam a Angola a 8ª e a 10ª CCE.

– Os ataques a fazendas e povoações continuam durante o mês de Abril e os reduzidos meios militares movimentam-se sem descanso, tentando salvar as populações mais ameaçadas.

– Os fazendeiros do Norte de Angola, atacados pela  UPA, são ajudados por um grupo de civis de Luanda, proprietários de pequenos aviões – que formaram a Esquadrilha de Voluntários do Ar (EVA). Descolavam da capital e levavam aos colonos sitiados mantimentos, medicamentos e armas. Regressavam a Luanda com refugiados. A Esquadrilha de Voluntários do Ar (EVA) foi fundada, em Angola, por Rui de Freitas, Carlos Monteiro, Afonso Vicente Raposo, Carlos Mendes, Jaime Lopes, Rui Manaças, Mário Dias e Pereira Caldas. Cada um fez centenas de horas de voo – em socorro dos colonos do Norte. Voavam muitas vezes em condições difíceis e aterravam nas picadas lamacentas.

1- Decreto da organização da Defesa Civil do Território, com criação nas colónias de uma comissão de coordenação de defesa civil.

2- Emboscada em Cólua, a uma coluna militar da 7ª CCE, sendo mortos 9 militares, dos quais dois oficiais: capitão Abílio Castelo da Silva e tenente Jofre Prazeres.

5– São emboscadas, nos Dembos, em Angola, duas patrulhas militares.

– Os guerrilheiros da UPA emboscavam as tropas e, por vezes, atacavam em hordas, às centenas: enfrentavam as balas de peito aberto, armados de catanas, paus e canhangulos, alguns aos gritos de “bala não mata”. Os militares estavam mal armados: dispunham de poucas armas automáticas, apenas de velhas espingardas Mauser de repetição.

8- Primeira referência pública de Salazar à questão de Angola durante uma recepção aos agricultores do Baixo Mondego.

9- Falha o pronunciamento militar do general Botelho Moniz para depor Salazar.

10- Ataque à povoação de Úcua na estrada Luanda-Carmona, com o massacre de 13 brancos.

11- Ataque a uma patrulha portuguesa próximo de Tando Zinge, Cabinda.

12- Ataque à povoação de Lucunga, com massacre da maior parte dos seus habitantes brancos.

13 – Ataque de guerrilheiros provenientes do Congo-Brazzaville a Bucanzau, em Cabinda.

– Um furriel do BCaç 1 e dois soldados da CCaç 60 e CCaç 67 morrem em combate.

– Perante a evidente gravidade da situação e a necessidade de medidas militares de maior amplitude, o Presidente do Conselho de Ministros, Oliveira Salazar, que passara também a ocupar a pasta da Defesa Nacional, após a tentativa de golpe de estado que pretendia afastá-lo, ordenou o envio rápido e em força de expedições militares para Angola.

14- Declaração de Salazar: «A explicação é Angola, andar rapidamente e em força é o objectivo…».

15- Imposto o recolher obrigatório nos bairros suburbanos de Luanda.

17- Primeiro ataque da UPA à Vila de Damba, em Angola.

18- Fundação, em Casablanca, da CONCP (Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas).

20– Aprovação, pela Assembleia-Geral da ONU, da Resolução 1603 (XV), incitando o Governo português a promover urgentes reformas para cumprimento da Declaração Anticolonialista, tendo em devida conta os direitos humanos e as liberdades fundamentais.

– Morrem em combate 3 militares da 3ª Bat/GACL.

21- As primeiras tropas expedicionárias portuguesas partem para Luanda, via marítima.

23 – Partida de uma companhia de legionários para Angola.

– Parte de Lisboa o primeiro transporte de material de guerra no navio Benguela.

24- Tropas pára-quedistas são enviadas com a finalidade de suster a sublevação, proteger as populações ameaçadas, limpar itinerários mais importantes e libertar as pequenas povoações e fazendas ainda cercadas pelos guerrilheiros da UPA. Procedeu-se à recuperação de Ambrizete-Lufico, Mamarrosa, 31 de Janeiro, Bungo, Úcua, Pango, S.Salvador, Quipedro, Nambuangongo, Maria Tereza, Mucaba, Quicabo, Canda, Dange, Sacandica, Quitexe, Bembe-Songo, Tendele, Aldeia Viçosa e tantas outras povoações e postos administrativos.

26– A Força Aérea Portuguesa baseada no Engage, em Angola, multiplica as acções na Serra de Mucaba e nas áreas limítrofes de Damba, 31 de Janeiro e Bungo.

– Pela primeira vez aterra em Mucaba um avião Dornier, pilotado pelo tenente-aviador Durão. Trinta civis, um furriel e um chefe de posto, barricados na igreja de Mucaba, protagonizaram uma épica resistência aos ataques de centenas de sublevados.

28- Criação do Movimento Nacional Feminino.

30– O Conselho Nacional de Segurança norte-americano é secretamente autorizado a financiar a UPA de Holden Roberto.

– As baixas militares são já significativas neste mês de Abril. (18 mortos em combate).

Do livro: “Cronologia da Guerra Colonial”, de José Brandão

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Cronologia da guerra colonial (Março/1961)

?- Início dos planos “Centauro Grande”” e “Marfim Negro”, com vista à remodelação do dispositivo de forças portuguesas em Angola, com a companhia como unidade-base da contra-guerrilha.

4- Portaria declara fretado para o transporte de tropas e material de guerra o navio Niassa da Companhia Nacional de Navegação.

– A Fragata Nuno Tristão é alvejada por tiros de metralhadora e de obuses a partir da margem congolesa do rio Zaire, perto de Boma.

– Informação dos Estados Unidos ao Ministério da Defesa sobre a decisão da UPA – União das Populações de Angola, em provocar incidentes.

6- Encontro entre o ministro da Defesa, general Botelho Moniz, e o embaixador americano, Elbrick, que, segundo instruções do seu Governo, pressiona a alteração da política portuguesa em África, posição que o embaixador transmitiu a Salazar no dia seguinte.

7- Elbrick transmite a Salazar o documento enviado por Rusk, a mando de Kennedy. Os Estados Unidos prevêem convulsões graves em Angola, do tipo das do Congo ou piores, e vão votar contra Portugal em 15 de Março.

10- O Conselho de Segurança da ONU inicia o debate sobre a situação em Angola.

11- Uma nota oficiosa da Agência Geral do Ultramar torna pública uma declaração do representante da Confederação dos Trabalhadores do Quénia, em que era confessado ter a sua organização desenvolvido esforços no sentido de introduzir clandestinamente agitadores em Angola e Moçambique.

14- O posto da PIDE em São Salvador difunde uma informação em que se afirma que, no dia seguinte, se verificará um ataque da UPA.

15- Ataques dos elementos sublevados do Norte de Angola a algumas povoações, como Carmona, Aldeia Viçosa e Bessa Monteiro. A partir da fronteira e da região dos Dembos, membros da tribo Bakongo empreendem uma insurreição que alastra pelos distritos de Luanda, Cuanza-Norte, Malange, Uíge e Zaire. São chacinados dezenas de europeus, homens, mulheres e crianças, para além da destruição de bens. Estes acontecimentos, relatados detalhadamente na Imprensa nacional e internacional, causam um impacto emocional profundo na opinião pública portuguesa. A responsabilidade destas acções pertence à UPA, de Holden Roberto, movimento rival do MPLA, que distribuíra panfletos, dias antes dos acontecimentos, onde era anunciado “o início das festas para 15 de Março”. A nível operacional a Direcção da UPA elaborou uma senha que se tornou famosa: “A FILHA DO SENHOR NOGUEIRA CASA-SE NO DIA 15 DE MARÇO DE 1961”.

– O 15 de Março foi escolhido porque sendo uma época de chuvas torrenciais, seria muito difícil ao exército colonial português movimentar a sua tropa motorizada, o que daria largas vantagens aos guerrilheiros capazes de movimentarem-se nas densas matas e a pé, infligindo assim pesadas baixas ao inimigo.

– Partida de Lisboa de duas Companhias de Caçadores Especiais, (7ª e 9ª) para reforço da guarnição de Angola.

16- Das unidades aquarteladas em Luanda e Carmona partem pequenas colunas militares para a zona afectada a fim de socorrer e recolher núcleos de populações isoladas. Portugal, apenas dispunha, em toda a Província, de cerca de cinco mil soldados africanos e mil e quinhentos europeus, dos quais só uma reduzida parte estava disponível para as operações de socorro, que se tornaram extremamente difíceis, em especial nos Dembos.

– Telegrama das associações económicas de Angola ao Governo central a pedir providências.

– Chegada a Luanda da 1ª Companhia de Caçadores Pára-quedistas.

– Morre mais um militar em combate.

17- Na manhã de 17 de Março, as rádios do mundo inteiro anunciaram com grande destaque os acontecimentos ocorridos em Angola. Todos afirmaram que os mesmos tinham sacudido Angola de Cabinda ao Cunene.

– Primeiro comunicado oficial sobre os acontecimentos do Norte de Angola.

18- Início da actuação da Força Aérea no Norte de Angola.

19- Em Angola, são evacuadas para Luanda, via Engage, as mulheres e crianças de Mucaba.

20- Concentração de tropas no Norte de Angola.

– A Força Aérea bombardeia povoações nos distritos do Congo, Cuanza Norte e Malange.

– O ministro do Ultramar, almirante Lopes Alves, parte para Angola.

– Em Luanda, cerca de quatrocentos brancos cercam e isolam o consulado americano e atiram às águas da baía o carro do cônsul William Gibson. A inspiração americana da revolta da UPA é indisfarçável. Henry Kissinger, secretário de Estado, confirmou mais tarde o apoio a Holden Roberto.

21-A Imprensa informa que “No Congo português caminha-se para a completa normalidade”, e que pára-quedistas chegaram a Carmona, tendo sido “carinhosamente recebidos pela população”.

22- A Imprensa refere que o número de refugiados em Luanda ronda os 3.500, após os acontecimentos dos últimos dias.

24- O ministro do Ultramar, Lopes Alves, chega a Luanda, com competência legislativa. A estadia prolongar-se-á até dia 3 de Abril.

– Os estudantes de Lisboa festejam o Dia do Estudante, apesar da vigilância policial, sendo a última vez que a sua comemoração não será proibida.

25- Carta do general Botelho Moniz a Salazar, em que manifesta preocupação pela condução da política ultramarina.

27– A UPA e o PDA fundam a FNLA – Frente Nacional de Libertação de Angola.

30– Decreto que dá aos governadores-gerais o encargo da política de defesa de cada colónia.

31 – Criação do corpo de voluntários civis, para actuação no Norte de Angola.
– É preso em Luanda o reverendo Mendes das Neves, vigário-geral da diocese de Luanda, acusado de “ser o chefe da organização responsável pelos actos de terrorismo ocorridos em Angola”.

– Prisão e deportação para Portugal de nove padres católicos angolanos, acusados de ligações com os movimentos nacionalistas.

Do livro: “Cronologia da Guerra Colonial”, de José Brandão


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Dembos e Demos

Para aqueles que se interessam pela história do que foi a guerra colonial em Angola, aqui está um artigo muito interessante, datado de 2007, da autoria de Eurico Mendes, que se transcreve:

Dembos são povos indígenas do Norte de Angola, demos são génios que tanto podem ser do bem como do mal e vêm a propósito de um dembo que foi demo: Holden Roberto, nascido a 12 de Janeiro de 1923 em Mbanza Kongo e falecido a 2 de Agosto em Luanda, com 84 anos. Foi o homem que, nos anos 60, desencadeou a luta armada contra o poder colonial português em África e parecia destinado a tornar-se o primeiro presidente de Angola independente graças ao apoio dos Estados Unidos.

Os nossos destinos cruzaram-se em 1961 nas matas de Angola. Cruzaram-se é como quem diz. Eu era sargento da C.C. 319 e andava pelas matas dos Dembos, onde até os mosquitos e a chuva eram nossos inimigos, Holden circulava por Washington em carro americano de luxo.
Desembarquei em Luanda dias depois da maka dos pára-quedistas, que resolveram lançar uma granada de mão da varanda da pastelaria Versalhes, mataram um polícia, cortaram a perna de um furriel e feriram outro.
Criados pelo general Kaulza de Arriaga, os pára-quedistas estavam na moda, como mais tarde estiveram os fuzileiros e depois os comandos, mas no fundo eram todos a mesma tropa mal paga, só que com boinas diferentes. Por falar em boinas, recorde-se que o Congresso dos Estados Unidos proibiu o fornecimento de equipamento militar a Portugal, mas o uniforme de campanha dos pára-quedistas era americano denominado modelo PQ/9, assim como a  arma individual, o AR-10 Armalite de 7,62mm, em vez da G-3 distribuída no Exército. Em 22 de Novembro de 1963, quando John Kennedy foi assassinado, Kaulza teve este desabafo: “Devia ter sido quatro anos antes para se ter evitado o massacre de 15 de Março de 1961”.
Kennedy deu luz verde para a guerra em Angola, mas antes convém lembrar que Holden era bakongo, a tribo do legendário Reino do Congo, cuja capital era Mbanza Congo, rebaptizada São Salvador do Congo pelos portugueses, que ali chegaram em 1482.

Em 1878, começaram a aparecer missionários protestantes ingleses e americanos, que conquistaram os angolanos com quinino e ideais revolucionários. Uma das revoluções foi a do Tulante Bula, (1913-1915), apoiada pelo pastor J. Bowskill, da Sociedade Baptista Missionária e um dos conspiradores foi Miguel Nekaka, um dos primeiros evangelizadores angolanos, tradutor de passagens da Bíblia do inglês para bakongo e avô materno de Holden Roberto.
Um filho de Miguel, Manuel Sidney Barros Nekaka, foi enfermeiro na Missão Congregacional Americana do Dondi, no Huambo e, em 1942, fixou-se em Leopoldville e, com apoio do pastor James Russel, organizou a União dos Povos do Norte de Angola (UPNA), surgida em 1954 e dois anos depois convertida na União dos Povos de Angola (UPA), para lhe retirar o carácter tribal, que nunca perdeu. A trajectória política do clã Nekaka foi sempre acompanhada pelos americanos.
Holden foi criado em Leopoldville, onde foi baptizado pela Igreja Baptista e, em homenagem ao missionário americano que o apadrinhou, adoptou o nome de Holden Carson Graham. Usou ainda outros nomes como Joy Gilmore em cartas que enviou a Salazar, o que, segundo o anedotário angolano, levou o ditador a comentar: “Eles usam vários nomes para parecerem muitos”. Durante oito anos, Holden foi funcionário na administração colonial belga, mais interessado em futebol do que em política, mas, não podendo ser Matateu, aderiu ao movimento do tio em 1956. A sede da UPA no porto de Matadi, Congo-Brazaville, era frequentada por marinheiros negros americanos que introduziam material de propaganda para Angola e um desses marítimos, George Barnett, fundou no Lobito a primeira célula do movimento em Angola.
Mais tarde, as missões protestantes americanas em Angola tornaram-se também células clandestinas da UPA e, graças aos missionários, Holden estabeleceu ligações com o American Committee on Africa, presidido por Eleanor Roosevelt, viúva do presidente Franklin Roosevelt e activistas dos direitos cívicos como o bispo Homer Jack, da Igreja Unida América e Canadá, que o apresentou ao então senador John Kennedy em Setembro de 1959. “Estive duas horas a explicar a Kennedy o sentido da nossa luta em Angola. Ele disse-me que os Estados Unidos tinham uma tradição anticolonial e não podiam continuar a apoiar o regime de escravatura em Angola. Concordámos que era preciso fazer alguma coisa para evitar que os comunistas tomassem conta do movimento de libertação de Angola”, escreveu mais tarde Holden.
As chatices de Salazar começaram a 20 de Janeiro de 1961, quando Kennedy entrou na Casa Branca e dois dias depois o capitão Henrique Galvão se apoderou do paquete Santa Maria e ameaçou rumar a Luanda.
Kennedy estava convencido de que o nacionalismo era a melhor alternativa ao comunismo para os povos do Terceiro Mundo e, além do apoio técnico, incluindo envio de agentes americanos para as bases da UPA, Holden Roberto foi incluído na folha de pagamentos da CIA em 1961 recebendo $6.000 anuais, o que foi posteriormente aumentado para $10.000 e depois para $25.000/ano.
Marcello Mathias, ministro dos Negócios Estrangeiros, escreveu ao seu homólogo americano afirmando “ter razões para considerar os contactos da embaixada americana em Leopoldville com Holden Roberto como suspeitos e inamistosos para Portugal”.
A 4 de Março de 1961, o embaixador dos Estados Unidos em Lisboa, C. Burke Elbrick, informou o ministro da Defesa, general Botelho Moniz, da decisão da UPA de desencadear ataques em Angola, o Governo português menosprezou a informação.
Na madrugada de 15 de Março, milhares de bakongos pegaram nas catanas e massacraram mais de 1.000 brancos e 8.000 trabalhadores no Norte de Angola. Os brancos improvisaram milícias, que responderam também com violências gratuitas e começou uma guerra que se prolongou por 13 anos, com responsabilidade moral de quem a decidiu ou provocou.
Holden Roberto, que no dia 15 de Março estava nas Nações Unidas, em New York, viu dias depois imagens da matança numa televisão local e escreveu: “Vi homens esquartejados, crianças retalhadas e mulheres violadas. Estava no meio de brancos e não tive coragem de reivindicar a acção.”
Em Luanda, os brancos atiraram o carro do cônsul americano à baia, enquanto em Lisboa, em 21 de Março, houve manifestações frente à embaixada. Apesar dos protestos, o secretário de Estado Dean Rusk visitou Lisboa em 27 de Março com uma proposta de Kennedy, a independência das colónias sob a forma de autodeterminação.
O livro “Engaging Africa: Washington and the Fall of Portugal’s Colonial Empire” (Envolvimento em África: Washington e a Queda do Império Colonial de Portugal), de Witney Schneider, vice-secretário de Estado adjunto para os Assuntos Africanos durante a administração Clinton, revela que Paul Sakwa, assistente do vice-director de planeamento dos serviços de espionagem CIA elaborou um plano, o “Commonwealth Plan”, que visava convencer Portugal a conceder a auto-determinação a Angola e Moçambique, após um período de transição de oito anos, durante o qual seria realizado um referendo nas duas colónias para se determinar que tipo de relacionamento seria mantido entre os dois territórios e Portugal após a independência. Durante esse período, Holden Roberto e Eduardo Mondlane, líder da Frelimo surgida em Moçambique, seriam preparados para serem os líderes dos novos países.
“Para ajudar Salazar a engolir a pílula amarga da descolonização, Sakwa propôs que a NATO oferecesse a Portugal 500 milhões de dólares para modernizar a sua economia”, escreve Schneider.
Um ano depois a proposta foi ampliada pelo diplomata Chester Bowles, mais 500 milhões de dólares de ajuda a Portugal durante um período de cinco anos, ou seja um total de mil milhões de dólares durante o período de transição. O plano dos EUA, apresentado em Agosto de 1963 pelo vice-secretário de Estado George Ball, esbarrou na inflexibilidade da resposta de Salazar: “Portugal não está à venda”.
Em 1962, a CIA previa a derrota militar portuguesa em África, mas enganou-se.
Em 1970, um estudo do National Security Council sobre a África Austral excluía peremptoriamente a “possibilidade de um colapso português em África”. Com efeito, em 1974, o Exército português controlava todo o território, as operações tinham cessado em 1972, a livre circulação era um facto e os movimentos estavam minados por divisões internas. Agostinho Neto mandara fuzilar vários comandantes do MPLA e o movimento estava recuado na Zâmbia. Na FNLA, Holden também ordenara o fuzilamento de dezenas de oficiais e sucumbira à influência do cunhado, o (então) presidente do Zaire, ao ponto de Mobutu Sese Seko ter proposto que permitisse a independência de Angola, aceitando que Portugal escolhesse o nome de quem desejasse colocar no lugar de Holden Roberto, como o embaixador Luiz Gonzaga Ferreira revelou no livro “Quadros de Viagem de um Diplomata: África-Congo/Zaire-Angola”.
Quanto à UNITA, de Jonas Savimbi, que nas administrações Reagan e Bush pai se tornara o principal aliado de Washington em Angola, encontrava-se abaixo da linha do caminho-de-ferro de Benguela sem actividade militar conhecida e mais ou menos feita com a tropa portuguesa.
Em Janeiro de 1975, Holden, Neto e Savimbi assinaram com o Estado português oAcordo do Alvor, que marcava a independência de Angola para 11 de Novembro desse ano. Na véspera, a bandeira portuguesa desceu pela última vez no palácio do Governo, 492 depois das naus portugueses ali terem largados ferros.

Proclamada a independência, Holden Roberto borrifou-se no Acordo do Alvor, reuniu um exército com o que restava da FNLA, mercenários portugueses e ingleses, tropas da África do Sul do apartheid e avançou sobre Luanda.
Foi travado pelo MPLA e, sobretudo, pelos cubanos às portas de Luanda. Ainda se juntou a Savimbi para proclamar a efémera República Democrática de Angola, com sede no Huambo, mas que se desfez com a retirada sul-africana e não obteve apoio de nenhum país. Nessa altura, a FNLA  e o seu líder eram já uma sombra do passado. Holden exilou-se em Paris e só voltou a Luanda em 1991. O apagamento progressivo do velho líder bakongo foi consumado em 1992, nas primeiras legislativas democráticas, a FNLA obteve apenas 2,4% dos votos e cinco assentos no Parlamento. Crises internas levaram ao afastamento de Holden da presidência do partido, passando a mero presidente honorário.
Em 1974, os americanos já previam a queda de Holden e passaram a apoiar Savimbi para tentar impedir uma vitória soviética e (ainda por cima) cubana em Angola. Mas garantida a posse de Luanda, o Governo do MPLA conseguiu o reconhecimento da OUA e de Portugal em Fevereiro de 1976 e seguiram-se outros países. Os EUA, embora a Gulf continuasse a exploração do petróleo de Cabinda, só em 1993, durante o governo Clinton e 18 anos após a independência, reconheceram a República Popular de Angola.
Que me perdoem os meus amigos bakongos, mas memória que guardo do Holden Roberto é a de um líder racista e tribalista e prende-se com o Cólua, uma das pequenas localidades dos Dembos cuja população branca foi massacrada.

No dia 2 de Abril de 1961, o capitão Castelo da Silva, comandante da 7a CCE, que estava em Aldeia Viçosa, mandou um pelotão para o Cólua, com uma viatura de reparação de pontes, a fim de recolher os 30 cadáveres de homens, mulheres e crianças chacinadas. Dois dias depois, o pelotão ainda não voltara e o próprio capitão foi num jipe à sua procura, acompanhado pelo tenente Jofre dos Prazeres, dois soldados e um cipaio. O capitão cruzou-se com o pelotão que  vinha de regresso, mas preferiu avançar até ao Cólua reforçado com alguns homens do pelotão. Mas no dia seguinte, o capitão ainda não tinha voltado e o pelotão foi à sua procura e encontrou, nas proximidades do Cólua, os corpos esquartejados dos cinco militares.

O jipe, as armas e os corpos de seis militares tinham desaparecido. Mais tarde, um avião da Força Aérea avistou e socorreu dois dos desaparecidos, que tinham conseguido fugir e contaram que tinham caído numa emboscada. Um ano depois, a companhia de Aldeia Viçosa recebeu instruções para reabrir a picada do Cólua e o trabalho decorreu normalmente vários dias, mas uma manhã o pelotão foi emboscado.
O primeiro tiro furou a blindagem do unimog e o capacete de um soldado, que teve morte imediata. A tropa reagiu ao ataque, mas decidiu regressar a Aldeia Viçosa em busca de reforços abandonando o morto no capim. Quando voltaram, mais tarde, não encontraram o corpo do militar morto. Dias mais tarde, a C.C. 319 recebeu ordens para ocupar o que restava do Cólua.
O Cólua era num morro, onde meia dúzia de brancos tinham construído as suas lojas, que viviam  da compra do café aos pretos das sanzalas vizinhas do Quingenga e Cauanga e da venda das mercadorias que iam buscar a Carmona.

Das casas só restavam algumas paredes e a sanzala tinha desaparecido. A 319, nessa altura já cacimbada, tratou de instalar-se o melhor possível e ergueu uma cerca de arame farpado. Uma manhã, estávamos ocupados a carpinteirar, quando vimos sair da mata um grupo de 30 negros ou mais, com túnicas brancas e um pano branco num pau.
Pensámos que vinham em paz e ninguém foi buscar a arma. Paz uma gaita. Já dentro do acampamento, ouviu-se um apito, surgiram as catanas escondidas debaixo das túnicas e uma pistola-metralhadora começou a matraquear.

Dos nossos, três sofreram catanadas nos braços e nas costas. Valeu-nos o capitão lançar uma granada de mão que neutralizou o tipo da metralhadora (que mesmo ferido fugiu sem largar a arma) e uma sentinela que abateu dois a tiro.

Mas o grande herói foi médico, um tenente miliciano gay, que era de Viana do Castelo. No meio da confusão, dois bailundos que trabalhavam para a companhia como carregadores, procuraram refúgio no posto clínico, o tenente tomou-os por turras, empunhou a parabelum e matou os pobres.
Noutro país daria lugar a julgamento em tribunal militar, mas no Portugal de Salazar os bailundos foram convertidos em turras e deu direito a medalha entregue em solene cerimónia no dia 10 de Junho, no Terreiro do Paço, em Lisboa.

Quanto às túnicas brancas, vim a saber mais tarde que eram tocoistas, seguidores da seita evangélica Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo em África, de Simão Gonçalves Toco e apoiada pela Watch Tower, seita fundada em 1872 na Pensilvânia e cuja sede é em Brooklyn, New York.
Para os tocoistas, Simão Toco é o profeta nacionalismo angolano. Esteve preso no campo de S. Nicolau, espécie de Dachau portuguesa, mas foi exilado em 1963 para a ilha de S. Miguel, onde esteve 11 anos como faroleiro nos Ginetes.

Dias depois do inesperado assalto, um pelotão capturou nas matas o bailundo Severino José, que dizia ser obrigado a acompanhar os turras desde o 15 de Março e revelou com pormenores horrorosos a sorte dos desaparecidos homens do capitão Castelo e Silva e do soldado da 321ª CC.
Segundo o Severino, o Bomboco e Simão Lucas, chefes da sanzala do Cólua fugida nas matas, tinham obrigado os bailundos a cozinhar os quatro soldados agarrados no Cólua, depois de lhes terem cortado os dedos e as “matubas” (testículos) pendurando-os nuns paus para secarem.
Um sargento que fugira do Cólua foi capturado pelo pessoal da sanzala Quinguenga e também cozinhado e comido num festim em que, segundo a testemunha, participaram bakongos e bailundos, “pois os que se negavam a isso eram mortos e igualmente comidos, tendo o declarante assistido à morte de pelo menos 25 bailundos e que o declarante teve igualmente de comparticipar.”

O nosso soldado morto na emboscada também acabou no espeto. O canibalismo existiu no passado em todo o continente africano e em certas tribos do mais recôndito da selva africana a prática arrepiante ainda parece perdurar. Há anos, um grupo de aviadores italianos enviados pela ONU  para a República Democrática do Congo caiu nas mãos de uma dessas etnias antropófagas e deles só sobraram os esqueletos. Mas os povos do Cólua não são propriamente primitivos, há mais de 400 anos que estão em contacto com os brancos, o que levanta o problema de saber em que consistiu afinal a missão civilizadora dos europeus em África, neste caso portugueses. Mas acontece que a antropofagia não existe apenas nas sociedades primitivas. Tal como hoje, nos Estados Unidos 2007 de George W. Bush e a embrulhada do Iraque, também no Portugal 1961 de Salazar e Angola, havia muito político a tentar comer os outros. Por parvos.

Eurico Mendes – Portuguese Times

Copyright © 1997/2001 The Portuguese Times.

Autorizada a reprodução de artigos publicados nesta página desde que mencionada a origem.


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O mata-alferes

Todos os militares que participaram na guerra em Angola ouviram falar dele. De seu nome António Fernandes, desertou das fileiras do exército português e alistou-se na guerrilha.

A partir de 1962 foi o terror dos Dembos, uma região situada cerca de 100 km a nordeste de Luanda, caracterizada por densas florestas de difíceis acessos, onde as nossas tropas sofreram muitas baixas.

Há relatos que dão conta que pelo menos 15 alferes foram mortos com um só tiro, por este atirador exímio que escolhia aquela patente militar talvez para decapitar as colunas militares que por norma eram comandadas por alferes, ou talvez por vingança devido ao facto de nunca ter passado de furriel no exército português.

Foi a partir destes acontecimentos que os alferes e outros graduados deixaram de usar divisas na picada e deixaram de viajar no jeep que normalmente usavam, para se integrarem disfarçados noutro lugar das colunas.

Dois itinerários principais atravessavam os Dembos. A partir do Caxito, que era a porta de entrada da guerra a Norte, pois a partir dali só se podia viajar com escolta militar, um partia em direcção a Quicabo e Balacende, onde havia entre estes dois aquartelamentos um local muito perigoso,  denominado “sete curvas”, picada que ia para os lados de Nambuangongo e a famosa “Pedra Verde”.  O outro itinerário era a “estrada do café”, para Úcua, Piri, Quibaxe, Quitexe e Carmona (Uíge).

Na fronteira norte do Zaire, onde a nossa Companhia actuou, o comandante das forças da FNLA de que se ouvia falar era o Pedro Afamado. Não sei se foi ele quem comandou os diversos ataques que em 1972/74 aquele movimento desencadeou contra os aquartelamentos daquela região fronteiriça, mas se foi, não ficou com fama ou proveito, dado o fracasso dos mesmos. Quanto às minas na picada, essa guerra sem rosto que nos era imposta e que não podíamos vencer, há a lamentar a perda de muitas vidas. A nós tocou-nos chorar a perda do companheiro António Amaral Machado, a cuja memória aqui nos curvamos.

Mário Mendes


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15 de Março de 1961

A manhã de 15 de Março de 1961 surgiu clara na região dos Dembos, distrito angolano do Cuanza-Norte, mas no horizonte divisavam-se já as nuvens que, da parte da tarde, encharcariam as espessas matas de cafezais.
As estradas e as picadas ficaram lamacentas e quase intransitáveis, porque, embora o Governo tivesse gasto milhares de contos na via que liga Luanda a Carmona, nenhuma delas tinha o piso alcatroado. Que importa, se em meados de Maio começa a época do «cacimbo», que secará os lamaçais e alisará os trilhos por onde o precioso ouro correrá em quantidades sempre maiores para o sôfrego porto de Luanda, deixando nos cofres da província perto de dois milhões de contos?
A ninguém pareceu estranho que, logo às sete da manhã, grupos de negros estacionassem às portas das «cantinas» da povoação de Quitexe. Todos eram «contratados», fregueses conhecidos e obrigatórios que pagavam com café as dívidas que faziam. Os comerciantes sempre tinham confiado na sua própria acção e nas autoridades para que assim fosse. O Posto Administrativo estava agora instalado num edifício moderno, alinhado pela estrada nova, pois Quitexe progredia de ano para ano.
Nessa manhã, cerca das seis horas, o gerente da fazenda Zalala fez o chefe do Posto levantar-se, para lhe comunicar que, na véspera, haviam fugido mais de cem homens da sua propriedade e ele notava agitação invulgar entre os que ficaram em Nova Caipemba. O gerente regressou à sua fazenda e o chefe decidiu percorrer algumas roças da região.Tudo parecia em ordem e lembrou-se da pequena demarcação que um colono fizera recentemente nas terras que viriam a produzir mais café. Era a última da área.
O funcionário do Governo não queria acreditar no que via: o colono, um empregado e a mulher deste jaziam num charco de sangue, cortados à catanada. Voltou apressadamente ao posto, alertando de passagem as outras fazendas, mas, ao cruzar-se com uns brancos que vinham do Quitexe, estes avisaram-no que não fosse ao Posto, pois não ficara lá ninguém vivo.
E a sua mulher? E os seus filhos?
Ninguém sabia.
A surpresa foi completa para os fazendeiros e para os funcionários administrativos que viviam na região.
De catana em riste, os atacantes perseguiram os que não tinham caído logo e que corriam a buscar uma espingarda.
No Posto de Quitexe, o aspirante administrativo que auxiliava o chefe do Posto fora assassinado na casa de banho e um auxiliar morreu agarrado ao emissor de rádio. A mulher e os filhos do chefe foram salvos por um criado negro, mas noutros locais criados negros, alguns com anos de casa, tinham eles próprios degolado os seus patrões.
O Quitexe não foi a única vítima dos acontecimentos de Março de 1961.
Nambuangongo, outra povoação dos Dembos, sofreu assalto idêntico e, porque fica mais isolada, foi eleita como quartel-general dos assaltantes. Igual má sorte tiveram os habitantes de Quicabo, Zalala e Quimbunde, e depois Aldeia Viçosa, Vista Alegre!
Ao regressar a Zalala, depois de ter ido a Carmona pedir auxílio, o gerente da fazenda deparou com um quadro de horror: corpos jazem sem vida, aqui e além, retalhados à catanada, corpos de homens, de mulheres e de bebés, brancos e negros.
O sistema foi sempre o mesmo e seria repetido nas fazendas dos Dembos e do Uíje. Os atacantes agem de surpresa, apossam-se de todas as armas que encontram, arrancam as canalizações para com elas fazer canos para os canhangulos e retiram rapidamente para as matas.
Também na região mais a norte, na fronteira com o Congo ex-Belga, entre o Posto de Buela e o Posto Fiscal de Luvaca, ocorrem assaltos idênticos.
São destruídas pontes na estrada São Salvador – Maquela; o administrador de Luvaca, Orestes Fontes e a sua mulher são assassinados; no Posto de Madimba, o chefe foi trucidado com mais quatro mulheres e cinco crianças.
Nas grandes plantações do M’Bridge, propriedade da CUF, a sul de Cuimba, o engenheiro-chefe da fazenda é salvo pela chegada de um avião da Força Aérea Portuguesa.
No concelho do Ambrizete ocorreu, na noite do dia 15, tentativa de assalto ao Posto de Bessa Monteiro.
O comunicado oficial do início destes acontecimentos foi tornado público nos jornais de Angola, em 17 de Março, pelo seguinte comunicado oficial:
«Verificaram-se na zona fronteiriça do Norte de Angola alguns incidentes a que deve atribuir-se gravidade por demonstrarem a veracidade de um plano destinado a promover actos de terrorismo que assegurem, a países bem conhecidos, um pretexto para continuarem a atacar Portugal perante a opinião pÚblica internacional. ( … ).
Chegaram a Luanda alguns feridos que foram carinhosamente recebidos, e toda a população de Angola demonstra a mais clara determinação em colaborar com as autoridades. ( … ).»
Em Luanda, foram apressadamente organizados serviços de socorro e de evacuação. Centenas de mulheres e crianças vieram das regiões atingidas e ameaçadas. Dos Dembos, porém, a evacuação era mais difícil devido à falta de pistas de aterragem, ou mesmo de vias de comunicação; por isso poucos foram os colonos desta região que receberam aviso a tempo de se salvarem.
Em meia dúzia de dias, o Norte de Angola transformou-se num mar revolto de sangue.
Os habitantes de Luanda vivem as horas mais dramáticas da sua história contemporânea, como dizia o escritor afecto ao regime Amândio César, no seu livro Angola 1961:
«Cerca de 200 000 negros cercam 50 000 brancos!. .. A polícia é mais do que exígua, os efectivos militares mais do que escassos, como ainda o poderia justificar um passado de sossego, mas já não um presente de anteriores e verificadas efervescências, que o caos em que entrara o Congo Belga só era susceptível de atear, como ateou. »
Um mau começo com piores consequências A preparação deste ataque, que semeou o terror indiscriminado e quase não teve resistência, ocorreu no Congo, durante os primeiros meses de 1961, sob a orientação do UPA (União das Populações de Angola), movimento influente entre os Bacongos, dirigido por Holden Roberto, com o apoio de militares do exército congolês. Apesar do aparente sucesso inicial, esta foi uma acção de pesadas consequências. A sua actividade caracterizou-se por assaltos, levados a efeito por pequenos grupos, e pelo massacre de populações. Usavam a arma branca, as catanas e algumas espingardas, os canhangulos, e procuravam apoderar-se das armas das fazendas e dos postos administrativos. Não visaram nunca consolidar o domínio territorial, conseguido nos primeiros dias, nem apresentaram qualquer programa politico. Mas as imagens dessa violência cega e desmedida, praticada nesses dias, constituem uma mancha que marcará para sempre os seus autores e mentores e terá efeitos perversos na luta pela independência de Angola, que se prolongarão muito para além do fim da guerra contra a potência colonial.
Em Angola, os efectivos militares resumiam-se, no início de 1961, a cerca de 5000 militares africanos e 1500 metropolitanos, organizados em dois regimentos de infantaria (cada um com dois batalhões de instrução e um batalhão de atiradores) e um grupo de cavalaria. Dos dois regimentos, um encontrava-se em Luanda, a capital, e o outro em Nova Lisboa, sobre a linha dos Caminhos de Ferro de Benguela, enquanto o grupo de cavalaria tinha a sede em Silva Porto e parte dos efectivos se encontrava em Luanda. A densidade média era de um soldado para 30 km2, estando imediatamente disponíveis para acorrer à zona afectada apenas mil soldados europeus e 1200 africanos! Nos Dembos não estava aquartelada qualquer unidade militar nem fora construída qualquer pista de aviação.

Adaptado de: Guerra Colonial, Aniceto Afonso e Carlos Gomes, Editorial Notícias

O que aconteceu há 49 anos pode ser visto no vídeo que se segue:


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A Pedra Verde

A Pedra Verde

pverdeConquistada Nambuangongo pelas forças armadas portuguesas, os guerrilheiros da UPA encontram refúgio numa cordilheira de morros escarpados com cerca de 700 metros de altitude, uma zona de muito difícil acesso, situada poucos Km a Nordeste de Úcua e na entrada dos Dembos, onde predomina um morro com grutas naturais e túneis escavados pelo homem denominado Camucugonlo mas conhecido por “pedra verde”.

Esta região acidentada e coberta por floresta densa, domina o itinerário mais directo de Luanda para Carmona (Uíge) e é conhecido por “estrada do café”, pois serve ao longo dos Dembos inúmeras fazendas e povoações ligadas aquela cultura.

Considerado um baluarte do inimigo onde teriam afluído elementos fugidos de Nambuangongo, a “Pedra Verde” constituía uma ameaça pela sua proximidade em relação a Luanda e também pelas frequentes emboscadas realizadas pelos guerrilheiros às nossas tropas e pelos assaltos que levavam a cabo nas fazendas da região.

A 10 de Setembro de 1961 iniciou-se uma operação de grande envergadura e mesmo com apoio da artilharia e meios aéreos, as tropas tiveram de vencer imensas dificuldades num terreno sem picadas e muito difícil e só a 16 de Setembro foi conquistada a “Pedra Verde”, último refúgio da UPA.

Esta região foi sempre das mais problemáticas da guerra em Angola, onde houve muitas baixas da nossa parte, qualquer militar mobilizado para aquela zona já sabia do perigo que o esperava, mas para amenizar a situação, os mais velhos costumavam brincar com os maçaricos: Que sorte a tua, vais ver a Gina Lolobrigida!

QUESSO

Nesta foto podemos apreciar os seios da bela italiana, vendo-se ao fundo a “Pedra Verde”.

Mário Mendes


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O Príncipe dos Dembos

principe_dos_dembosO príncipe dos Dembos, província do Bengo, António Salvador, terminou sábado a visita de dois dias a Mbanza Congo, capital da província do Zaire, no quadro da troca de experiências entre as autoridades tradicionais das duas regiões.
Para o director provincial da Cultura no Zaire, Biluka Nsakala Nsenga, a deslocação de um dos netos de Nekongo, designação do antigo rei do Congo, vai contribuir para o renascimento dos hábitos e costumes que existiam nas duas regiões.
À chegada a Mbanza Congo, o príncipe dos Dembos e a sua comitiva, foram recebidos pelo vice-governador para Organização e Serviços Técnicos, Rogério Eduardo Zabila, no Lumbu, Museu dos Reis do Congo, onde são tratadas as querelas e assuntos da comunidade.
No Lumbu, as duas regiões faziam rituais que retratavam a vivência cultural dos antepassados de ambas as partes. A deslocação a Mbanza Congo do príncipe visou fundamentalmente retomar as visitas periódicas que os seus ancestrais efectuavam à antiga capital do Reino do Congo, onde prestavam tributo ao rei, disse o príncipe dos Dembos.
“Os Dembos dependiam do Reino do Congo e isto obrigava os príncipes a visitarem periodicamente o Ntótela, ou seja o Rei, um hábito interrompido desde 1952, devido ao despoletar da guerra contra o regime colonial português”, disse.
António Salvador acrescentou que, terminada a guerra no país, chegou o momento de “vir à terra do pai (Rei do Congo), onde os nossos velhos vinham sempre de modo a manter vivos os nossos costumes”.
O “Jornal de Angola” apurou que o Rei do Congo era chamado de Ntótela, quando exercia as suas funções fora do território angolano em missão de serviço, ao passo que a designação de Nekongo vigorava no desempenho das suas actividades dentro do país.
O príncipe, que visitou os locais e sítios históricos da região, frisou que tudo o que os seus pais faziam por eles deve ser feito hoje, para que sirva de exemplo para os seus filhos.
Justificou que, devido à perda do acervo durante o conflito armado no país e outros utensílios do reinado dos seus ancestrais, nomeadamente as indumentárias típicas que usavam, bem como o Ngongue, instrumento de comunicação, entre outros bens, surgiu a necessidade de visitar Mbanza Congo, onde os seus pais adquiriam conhecimentos importantes, para a salvaguarda dos costumes tradicionais dos ancestrais.

Jornal de Angola (09/11/2009)