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Encontro/2015

Companheiros e amigos

Espero que já tenham tudo a postos para a grande operação cujo ponto de encontro se situa em Santa Maria da Feira. Botas engraxadas, armas limpas e oleadas e toca a andar que se faz tarde. Quantos são, quantos são?

Este ano serão certamente mais que nos anos anteriores, pois devido à grande complexidade da operação houve a necessidade de pedir reforços e assim a C.Caç. 1311 vai também associar-se ao evento e lá estaremos tal como em 1971/1972.

O teatro de operações é o que se apresenta nestas fotos.

btcpicada_ceciliavaledamorte

A ração de combate será distribuída pelas 12,30 do dia 16 de Maio, no local cujas coordenadas GPS são:

40˚, 57ˊ,27ʺ N / 8˚, 32ˊ, 08ʺ W

Um abraço

Mário Mendes


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Companheiros de aventuras

A C.Caç. 3413 chegou a Angola no dia 9 de Agosto de 1971 e 3 semanas depois, mais precisamente no dia 31 de Agosto, deixamos para trás a bonita cidade de Luanda e lá fomos para a guerra, rumo ao Norte. Os 1º e 2º grupos de combate foram juntar-se à C.Eng. 3478 e à C.Caç. 1311, pessoal que durante cerca de 6 meses foram nossos companheiros de aventuras. Neste blog, aparecem diversos comentários de ex-combatentes que estiveram nos locais que aqui se vão referindo e é sempre com enorme satisfação que por vezes nos chegam notícias de alguns que apesar de pertencerem a outras unidades, viveram connosco, nos mesmos locais, as mesmas agruras da guerra. O ex- furriel miliciano Artur Rodrigues, da C.Engª 3478, deixou alguns comentários que a seguir se transcrevem:

Caro Mário Mendes.
Não tendo como recordação o seu rosto, estivemos nos mesmos locais e na mesma altura, em Angola.
A C ª de Engª 3478 a que pertenci, fez esse percurso de Outº de 71 a Dezº de 73, fomos render a Cª de Engª 2579 e tivemos apoio e proteção da C Caç. 3413, a vossa e da C.Caç.1311, para além de outras.
Estivemos no Toto, depois da viagem, Luanda, Carmona (Uíge), Vale do Loge, Toto, e com destacamentos em Quimaria, Cleopatra, Cecília ,etc. Na abertura de picadas tácticas, sendo o percurso para os seus acessos, a perigosidade e cuidados, que transmite nas suas descrições. Depois regressamos a Luanda na época das chuvas e voltamos de novo, desta vez através da estrada Ambriz, Ambrizete, que nos levou até Zala, outro ponto quente. Houve algumas frações da nossa Cª, que depois prestaram serviço e apoio noutros locais, onde era preciso. Claro que estávamos com a construção de estradas e outras vias, pontes e aquedutos, a valorizar aquele País. Não havia razão para sermos flagelados com ataques e com minas! Contámos sempre com o V/ apoio e protecção.
Seria interessante, um destes dias, em data oportuna conseguir-se juntar quem, irmanado nos mesmos propósitos, gastou alguns anos da sua vida, outros a própria vida (paz à sua alma) e as condolências aos que já foram e seus familiares, juntarem-se os intervenientes de todos quantos estivemos lá.
Os m/ Cumprimentos
e um Abraço.
Artur Rodrigues

Angola é potencialmente, um dos países mais ricos de Africa e até do Mundo.
Queiram os angolanos e os seus Governantes e Lideres, seguir o caminho da paz, da justiça e da Concordia, terão certamente, muito onde aplicar as suas energias e os seus conhecimentos, sem descurarem claro está, o seu passado, como Povo e como País. Portugal teve o seu papel, tal como o fez, por onde andou e esteve. Não é qualquer país, tão pequeno como o nosso Portugal, que tendo cerca de três milhões de pessoas no seculo Xlll/XlV e fez o que fez. Cometeu erros é certo, mas deu mostras do que é possível fazer-se com tantas e tantas limitações. Angola tem um potencial de crescimento e desenvolvimento enormes, mas não se podem esquecer as pessoas, os seus habitantes, de qualquer proveniência, credo, raça, etnia, etc. Portugal tem também a sua cota parte de responsabilidade e deve dar também o seu contributo como o fez ao longo de séculos. Toda a costa angolana é duma beleza soberba, tal como o interior.
Luanda é duma beleza impar. Tem espaço para crescer, a Norte/Sul e Nascente e uma ponta de terra “ILHA” e uma Baia, dignas de “Quadro/Pintura”, que devem ser requalificados com competência, com profissionalismo, mas com amor, porque é um pedaço que a todos diz respeito. Quer se avance para a barra do Cuanza, quer de avance para a barra do Dande, quer para o interior, pode fazer-se uma Luanda digna do nome São Paulo de Luanda.

A C.ª de Engª 3478 chegou a Angola de barco em Outº de 1971. Fomos para o Agrupamento de Engª de Angola e tb Grafanil, onde estivemos algum tempo, pouco. Seguidamente fomos para o Toto, Quimaria e Cecília, inicialmente Cleópatra, dando seguimento à construção de picadas tácticas e construção de pontes, viadutos e drifts. Do Toto mudámos para Zala.
Portanto, ao longo desse tempo, partilhamos convosco todas as peripécias porque passaram nesses locais. Daqui fica o desafio para quem lá esteve, contar as suas histórias que só dignificam o empenho com que aplicamos parte da n/ vida numa terra que deve saber ser grata, a quem lutou por ela, dando-lhe a base da pujança que é hoje e que há-de ser no futuro e que sem ressentimentos, se procure um diàlogo que na altura faltou, sem ser necessário a perda de vidas humanas e os sacrifícios, porque tiveram de passar. Que esse esforço sirva para que todos, sem mágoas, analisem de forma isenta o que poderá ser hoje em dia o engrandecimento de um País como Angola, dando aos seus melhores condições de vida, com mais humanismo e receber de braços abertos e com cordialidade, quem deseja e precisa para colaborar, com aquele belo País e hospitaleiro Povo de Angola, que de Cabinda ao Kuando Kubango, sempre souberam dignificar a sua Terra.

Nota. Também concordo com a ideia de um dia tentar reunir o pessoal da C.Eng. 3478 e da C.Caç. 1311, para um convívio com a nossa C.Caç. 3413, para recordar aqueles tempos na Cleópatra e Cecília. O Artur Rodrigues não se importará de fazer a ponte para a C.Eng. 3478. Pode ser que apareça alguém da C.Caç. 1311. Quanto à C.Caç. 3413, penso que a disponibilidade é total. Mãos à obra! Mas enquanto não chega esse dia, vamos recordar os retratos que o nosso amigo ex-furriel Joaquim Alves fez das bases tácticas onde estivemos, com o humor tão característico de um alentejano de gema.

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Mário Mendes


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Setembro de 1971


20 dias depois de instalados neste “SPA” o tempo corria devagar, devagarinho, era uma seca mas a esperança de um dia termos melhores instalações não se esvanecia e o sonho do regresso a Luanda lá nos ia confortando.

Se nas picadas já bem batidas de Angola o pó era mais que muito na época seca, era mesmo às carradas aquele que tivemos que “comer” nesta picada nova que a engenharia militar rasgava nestes montes e vales.

A cada saída do acampamento correspondia um banho no regresso, porque era impossível “conviver” com tanto pó, e por vezes havia duas , três ou mais saídas, ou para a protecção dos homens e máquinas, ou para a recolha de lenha e também para a recolha da muita água que era necessária para lavar os “empoeirados” e por isso eram muitos os bidons que se enchiam no ribeiro das proximidades, não sei qual o nome dele mas para nós era o ribeiro dos macacos, porque os havia em “barda” naquele local.

Lavados por fora, era preciso também lavar a goela que a cerveja embora quente se encarregava de fazer. Destilava-se muito por ali e alguma gordura acumulada nas três semanas em Luanda antes de virmos para aqui depressa fora consumida. Quando agora ouvimos dizer por aí que é preciso cortar gordura, pois nós já há 40 anos o fazíamos, tínhamos já uma visão futurista, enfim estávamos já muito á frente no tempo…

Como a necessidade aguça o engenho, ora vejam lá este bengaleiro estrategicamente colocado à porta da barraca, com um design de fazer inveja a alguns estilistas de hoje. Este pessoal da C.Caç. 3413 foi sempre muito aprumado, não deitava a roupa para o chão de qualquer maneira, tudo sempre arrumadinho, tal como dizia o Raúl Solnado: “não íamos encher a guerra de moscas, né?”

Mário Mendes

NR: Local situado na província do Uíge, norte de Angola. Em 1971, a localidade mais próxima era o Toto. Para visitar o local as coordenadas GPS são: 7º 18′ 45 S; 14º 12′ 14 E


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Baptismo de fogo

7 de Outubro de 1971 – Faz hoje 39 anos que a C.Caç. 3413 teve o seu baptismo de fogo, no planalto do Luaia, Uíge, norte de Angola, na base táctica de Cecília, um aglomerado de tendas de lona, umas cónicas, outras rectangulares, que se vê no cabeçalho desta página e que albergava dois grupos de combate da nossa Companhia e outros militares da C.Caç. 1311, proveniente do recrutamento local (RI20, de Luanda) e também da C.Eng. 3478 que abria uma picada no local.

Pela primeira vez ouvimos o som característico das Kalashnikov, espingarda automática de fabrico russo que era a predominante nos movimentos de libertação, nesta flagelação a que fomos sujeitos, à mistura também com algumas morteiradas.

Não fosse talvez a sorte ou a pouca perícia do inimigo, que nos tinha bem visíveis  no cimo do morro e sem qualquer protecção, o saldo não teria sido apenas o de diversos estragos materiais e alguns feridos ligeiros por estilhaços. Mas ainda houve evacuação, porque veio um helicóptero para transportar ferido(s) a precisar de cuidados de saúde, que os enfermeiros ali não puderam prestar.

Nestas ocasiões aparecem sempre alguns “mirones” e tentando refrescar a minha memória, vejo por detrás do companheiro de cor, o 1º cabo António Domingos Araújo Grilo e o de chapéu tenho a convicção que seja o  soldado Augusto Carvalho Santos Coroa. Quanto a este último fiquei a hesitar à primeira vista, pois poderia ser o malogrado Emanuel Firmino Nunes Aguiar, um madeirense, radicado em Angola e pertencente ao recrutamento local da nossa companhia, que viria a falecer por acidente com arma de fogo no dia 22 de Dezembro de 1971. No entanto, são necessárias confirmações para estes dois companheiros e os outros que não sei identificar e por isso apelo à nossa gente que faça este exercício de memória.

Quanto aos militares das outras companhias que nos acompanharam nesta aventura, recordo-me do furriel miliciano Luís Livramento, um algarvio radicado em Luanda, da C.Caç. 1311, por ser figura de destaque, pois era locutor da Rádio Clube de Angola.

Ele, juntamente com muitos milhares que fizeram de Angola a sua terra, deram o melhor de si para o seu enriquecimento, tiveram que a abandonar para salvar a pele, pelo simples facto de terem a tez branca. Os desmandos que aconteceram com esta descolonização ainda estão por explicar, os responsáveis políticos e militares de então, uns já mortos e outros ainda vivos, sempre se “fecharam em copas”.

O Luís Livramento, regressou ao seu Algarve e ainda o ouvi muitas vezes aos microfones da Delegação Regional de Faro da Emissora Nacional, relatando os jogos de futebol do estádio de São Luís, quando o Farense militava na primeira divisão nacional.

A todos estes companheiros que connosco coabitaram naquele morro, que foi a nossa aldeia por alguns meses, lanço o repto de sacar das “brumas da memória” as suas experiências ali vividas para serem partilhadas, pois esta porta está escancarada.

A Bem da Nação

(“In Illo Tempore” era a frase acima, obrigatória, que terminava os ofícios e outros escritos afins que circulavam na Administração Pública Portuguesa)

Mário Mendes


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Aldeia de Lona

O Grafanil em Luanda já tinha ficado para trás e no dia 31 de Agosto de 1971 todos estávamos curiosos em saber como seria o aquartelamento que nos tinha calhado em sorte. Chegámos a 1 de Setembro ao Toto, um aquartelamento com boas condições, mas o destino do 1º e 2º grupos da C.Caç. 3413, ainda estava longe e uma picada nova e poeirenta levou-nos à aldeia de lona, pomposamente designada por base táctica da Cleópatra,  um morro com barracas cónicas e rectangulares,  onde nos juntámos à C.Caç. 1311, angolana proveniente do RI 20, Luanda,  e à C.Eng. 2579 que estava já no fim da comissão tendo sido algum tempo depois substituída pela C.Eng. 3478. À engenharia competia a construção da picada e aos caçadores dar a devida protecção na realização dos trabalhos.

Durante o dia o calor era abrasador e alguma sombra era proporcionada por coberturas de pano enfiadas em paus que serviam de cabana onde se jogava às cartas e bebiam umas cervejas.  A água que tínhamos à disposição era a que se recolhia do rio e se transportava para o acampamento. Se durante o dia o corpo sofria as agruras daquelas condições de vida tão deprimentes, a noite não se augurava melhor, porque na tenda nos esperava um colchão de ar. Aqui está o “quarto” dos alferes e furriéis.

tenda_cleopatraComo se pode verificar os “hóspedes” até estão com boa cara, mas estas condições de vida eram realmente muito difíceis de suportar.

Cerca de um mês depois, e acompanhando a picada que avançava, mudámos de “armas e bagagens” para outro morro baptizado de Cecília. Igual à Cleópatra, mas aqui a tenda foi melhorada com beliches e colchões de espuma. A 7 e Outubro tivemos o nosso baptismo de fogo. Ao romper do dia uma saraivada de tiros e algumas granadas flagelaram a aldeia, e as nossas armas vomitaram também muita metralha durante cerca de meia hora. No rescaldo os estragos apurados foram pequenos ferimentos por estilhaços, a destruição da cozinha e alguns danos numa viatura. Houve também a necessidade de refrear alguns que desesperadamente queriam sair do acampamento para perseguir o inimigo. Já com boa visibilidade foi efectuada uma busca nos morros circundantes, não tendo sido encontrados sinais do inimigo, que utiliza a táctica do “bate e foge”.

picada_ceciliaApesar da nossa missão aqui ser a construção de infra-estruturas para valorizar aquelas terras do fim do mundo, nunca compreendi porque razão nos atacavam, mas o que é facto é que éramos ali “persona non grata” porque logo no dia seguinte, a 8 de Outubro de 1971 colocaram uma mina na picada entre o rio e a nossa base, e no dia 19 desse mês colocaram outra mais lá para os lados do Toto, que provocaram apenas danos materiais, tendo esta última rebentado numa berliet carregada de cerveja.

Foram 6 meses nestas paragens, muito pó engolido, e o regresso ao Grafanil representou o fim do “cabo das tormentas”.

Mário Mendes