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8 de Abril de 1972

Faz hoje 42 anos que partimos de Luanda rumo ao norte de Angola. A companhia estava agora unida depois de alguns meses a deambular em vários locais do Uíge com grupos de combate em Vale do Loge, Quimaria, Tôto, Cleópatra, Cecília. O destino era a Mamarrosa, na província do Zaire, mas para lá chegar era preciso percorrer cerca de 550 km, dois dias de viagem.

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A primeira parte do percurso terminou em Ambrizete depois de passar por Cacuaco, Barra do Dande e Ambriz. Aqui terminou também a estrada alcatroada que deu lugar à picada rumo a Tomboco, São Salvador e finalmente Mamarrosa onde chegamos na tarde do dia 9 de Abril de 1972.

Depois de 8 meses sem sítio certo a Mamarrosa e o Luvo seriam agora as nossas “residências” durante o resto da comissão.

Nas duas fotos que se seguem pode-se apreciar a vista geral do aquartelamento.

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Ficamos bem impressionados com o local e as instalações, fomos muito bem recebidos pela C.Caç. 2676, uma companhia formada nos Açores como a nossa, mas não fomos “praxados” porque já não éramos maçaricos, facto que decepcionou a companhia que fomos render.

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Foto da avenida principal da Mamarrosa vista da zona da entrada para o cimo onde se situava o comando.

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Vista geral a partir do local mais elevado.

Mário Mendes

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Rio Loge/Freitas Morna

O rio Loge nasce na província do Uíge, na zona de Quitexe, norte de Angola e desagua no oceano atlântico a norte de Ambriz, dividindo as províncias do Zaire a norte e do Bengo a sul. A ponte em Freitas Morna era a passagem e paragem obrigatória para quem se dirigia da capital Luanda para todo o distrito do Zaire, levando o abastecimento para todos os aquartelamentos daquela região, movimento esse designado por MVL (Movimento de Viaturas Logístico), um enorme “comboio” de viaturas civis e militares carregadas de todo o tipo de bens e materiais necessários ao regular funcionamento dos aquartelamentos.

Junto dessa ponte em estrutura metálica estava instalado o destacamento de Freitas Morna, para dar protecção à referida ponte, um equipamento estratégico e também para dar apoio às colunas do MVL que por ali passavam. A seguir transcrevo um excerto de quem esteve no local e que encontrei em: http://batalhao2833.blogspot.pt.

Também daqui tenho algo para contar. Este destacamento era reabastecido de 15 em 15 dias, tempo demasiado para comer pão fresco, coisa que todos nós gostávamos mas que passados estes dias ficava cheio de bolor. Embora sabendo que ia ser criticado pois os meus rapazes diziam que nos destacamentos só nós trabalhávamos e os outros gozavam daquilo que tínhamos feito, perguntei se haveria alguém que soubesse fazer fornos. A resposta, sim, foi rápida, dada por alguns dos meus companheiros e após pedir os respectivos materiais e logo que os mesmos nos foram entregues começámos a construção do nosso forno. Deixámos de trazer carcaças e começámos a trazer farinha, depois cozíamos pão quase todos os dias (pois além de um cozinheiro profissional tínhamos também um padeiro, profissões que já tinham antes de irem para a tropa) e ao mesmo tempo servia também para assarmos as nossas peças de caça.

Mais um depoimento de quem esteve em Freitas Morna e que colhi no blog: http://franquelino.blogs.sapo.pt

O meu grupo de combate foi incumbido de fazer uma comissão de duas semanas neste último destacamento, com a finalidade de proteger a ponte.

O destacamento era ponto de paragem das colunas que se deslocavam de Luanda para o norte de Angola, pelo que nos dias de passagem dos MVL’s tínhamos a preocupação de abastecer bem os nossos frigoríficos e nossas arcas com cervejas e refrigerantes para refrescar as gargantas dos nossos camaradas que por ali paravam.


 Quando não havia colunas, os nossos dias eram muito monótonos. Tínhamos o rio, a cerca de 50 metros do destacamento, que podia servir de distracção, mas estava infestado de jacarés. Ainda assim, de vez em quando, ainda arriscávamos uns mergulhos.

A pouco mais de cem metros da ponte havia umas quedas de água espectaculares. O som das águas do rio Loge a precipitarem-se de algumas dezenas de metros de altura ouvia-se a quilómetros de distância. Sei que hoje existe nesse local um hotel. Deve ser um local paradisíaco.

Quase todas as noites éramos visitados por javalis, que iam comer os restos de comida depositados na lixeira do destacamento. Chegamos a fazer esperas de madrugada para tentar caçar um daqueles exemplares mas nessas noites os bichos nunca apareciam.

Depois de quinze longos e monótonos dias regressamos novamente a Ambriz.

As fotos da primeira ilustração pertencem ao ex-combatente, ex-alferes miliciano Humberto Fernandes (C.Art 3447), datam de Janeiro de 1974 e como se pode ver são de rara beleza, um oásis no meio de um terrível isolamento.

Mário Mendes

Nota: A ponte sobre o rio Loge em Freitas Morna foi destruída em 1990 no auge da guerra civil angolana, foi reparada e está actualmente em muito mau estado interdita a carros pesados, mas segundo a imprensa angolana está a ser construída uma nova em betão.


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Cronologia da guerra colonial (Junho/1961)

? – Chegam a Angola os BCaç 96, 109, 114, 137, 141, 155 e 156.

1 – Kennedy e De Gaulle discutem o problema de Angola.

– O governo cria um «imposto de consumo» com a finalidade de financiar o esforço de guerra nas colónias africanas.

2 – Ataques a fazendas em torno de Carmona, Negaje e Ambriz.

– Fuga de Portugal para o estrangeiro de estudantes ultramarinos, muitos dos quais virão a desempenhar papel importante na luta nacionalista.

6 –1º Curso de Enfermeiras Pára-quedistas, das 11 candidatas que iniciaram o curso, 6 conquistam a Boina Verde.

Pela primeira vez na história militar portuguesa as mulheres têm lugar nas fileiras.

8 – Primeiro avião da Força Aérea desaparecido em Angola.

– Morrem quatro militares da Força Aérea. Um tenente e um cabo em acidente; um sargento e um furriel em combate.

9 – Aprovação, pelo Conselho de Segurança do ONU de uma resolução deplorando profundamente os massacres e demais medidas de repressão da população angolana, podendo comprometer a persistência desta situação da paz e segurança internacionais.

11 – Morrem em combate 2 militares. Um da CCaç 67 e um da Força Aérea.

13 – Lucunga, no dia 13 de Junho, foi o primeiro posto administrativo a ser reocupado.

14 – Forças da Marinha, desembarcadas em Ambrizete, ocupam Tomboco e Quinzau.

17 – A Grã-Bretanha anuncia a venda a Portugal de duas fragatas equipadas para a guerra em África.

19 – Ataque dos guerrilheiros da UPA à vila de Ambriz, com utilização de armas automáticas.

– Morrem em combate 2 militares. Um soldado pára-quedista do BCP 21 e um soldado da 5ªCCE/RIL.

– O rio Chitoango, em Cabinda, passa a ser regularmente patrulhado por uma embarcação armada e por botes de borracha da Marinha.

21 – Morrem em combate mais três militares do BCaç 3.

24 – Reocupação de Cuimba, a este de São Salvador do Congo.

26 – Morrem em combate 2 militares da CArt 119 e do CmdAgr 2.

30 – Primeiro comunicado oficial das Forças Armadas, referindo a morte de 50 militares entre 4 de Fevereiro e 30 de Junho em Angola.

– Ainda e segundo a mesma fonte, durante este mês de Junho as baixas das forças portuguesas totalizaram 30 mortos. Em acções de combate morreram neste mesmo mês 17 militares.

Do livro: “Cronologia da Guerra Colonial”, de José Brandão


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Vale do Loge

Para completar o périplo dos lugares onde esteve a nossa companhia, falta falar do Vale do Loge, onde durante algum tempo esteve um grupo da C.Caç. 3413.

Não me refiro a Valley Lodge, local luxuoso que vai ser o quartel-general da nossa selecção, esse fica na África do Sul, pois é preciso dar as melhores condições aos nossos craques para “atacarem” o mundial de futebol.

O nosso Vale do Loge, província de Uíge, Angola, que conheci de passagem no dia 1 de Setembro de 1971 era mais modesto e assim certamente continuará. Relatos do passado na internet são muito poucos e muito menos do presente. Por isso, solicito a quem quiser partilhar relatos e fotos do local que o faça, (companheiros do 3º grupo, vão ao sótão, abram o baú de recordações e partilhem connosco). Desde já, os nossos agradecimentos.

Não sei se na actualidade  o Vale do Loge (Colonato do Vale do Loge) é habitado, mas com aquele nome, colonato … reunia condições para eventualmente ser varrido do mapa.

O que sabemos e vemos, por esta imagem de satélite, é que o rio Loge que lhe dá o nome, lá continua a correr  em direcção ao oceano Atlântico que encontra em Ambriz.

Mário Mendes


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Notícia da C.Caç. 3413

A C.Caç. 3413 referida em livro

O volume 12 da colecção “Os anos da Guerra Colonial”, referente ao ano de 1971, saído na passada quarta-feira juntamente com o jornal “Correio da Manhã”, traz na sua relação das unidades embarcadas para as três guerras de África uma referência à nossa companhia.

A notícia vem incompleta, o que tem vindo a acontecer com outras unidades cuja vida militar conheço, talvez devido a dificuldades do historiador em conseguir mais elementos documentais.

Todavia, salva-se a data do embarque e parte da data de partida, pois apenas traz o mês e o ano, quando deveria ter 02.10.1973. O nome do nosso comandante está correcto (Cap Inf Carlos Augusto da Silva Ribeiro), assim como a unidade de mobilização o BII17.

Quanto à coluna “Localização” esta vem muito incompleta, pois apenas trás o Vale do Loge, Luanda e Mamarrosa, esquecendo-se de mencionar também o Toto, Cleópatra/Cecília, Quimaria e Luvo.

O livro traz também uma referência à companhia irmã, a CCaç.3412, que tem as datas mais completas, apesar de não confirmadas. Se as localidades onde esteve estão certas ficámos a saber que teve mais sorte do que nós, pois esteve estacionada na Fazenda Madureira e na colónia de férias de Ambriz. Pesquisando na Net soube que teve pelo menos morto em combate, o soldado angolano Francisco Jamba.

O livro também menciona a CCaç.3414, igualmente do BII17, que apesar do número embarcou primeiro que nós e foi parar à Guiné, onde passou uma comissão seguramente mais difícil do que a nossa, tendo tido dois mortos em combate, o furriel mil. Fernando Gaspar Ribeiro e o soldado condutor António Toste Parreira (da Terceira), e três mortos por doença, os soldados de milícia Sambadinga Baldé, Fodé Baldé e Sajo Baldé.

(José Rosa Sampaio)

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