Batalha de Kifangondo

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General Xavier comanda a Academia Militar das Forças Armadas Angolanas

Fotografia: Mota Ambrósio

A voz pausada e firme de Neto envolveu a multidão no largo que viria a chamar-se 1º de Maio, quase sem precisar do sistema de amplificação sonora instalado no local. O recurso ao registo sonoro deste momento solene da História de Angola, repetido num “spot” institucional na Televisão Pública de Angola (TPA), permite ouvir pequenos estalidos irregulares e secos, entrecortando o discurso do fundador da Nação.
Fica a impressão que são falhas no som, normalíssimas num registo feito por um aparelho sem os recursos tecnológicos disponíveis actualmente. Mas Manuel André, que assistiu à cerimónia corrige: “não são falhas do som, eram tiros…”.
Antes um mero espectador da proclamação da independência, hoje funcionário sénior da TPA, Manuel André explica que os estalidos ao fundo, na gravação, eram explosões que se ouviam de muito longe. “Quando o Presidente Agostinho Neto proclamou a independência, os combatentes das FAPLA travavam uma dura batalha, em Kifangondo, contra tropas inimigas e as explosões de armas pesadas eram ouvidas também no Largo 1º de Maio”.
A versão apresentada por Manuel André é verdadeira, mas não completamente correcta. Os estalidos que se ouvem ao fundo no registo sonoro do discurso da proclamação da Independência nacional correspondem a disparos da batalha de Kifangondo, mas, naquele momento já não havia combates, na verdadeira acepção da palavra, muito menos bombardeamentos do inimigo.
O general Carlos Alberto da Silva e Mello Xavier, actual responsável da Academia Militar das Forças Armadas Angolanas, que acedeu ao nosso convite para uma visita guiada ao palco da batalha de Kifangondo conta que na madrugada do dia 11, quando foi proclamada a Independência Nacional, o inimigo já tocava em retirada havia algum tempo. “Éramos só nós a bombardear as posições do inimigo que estava em fuga desordenada”.
À época oficial de artilharia, o comandante Xavier revela que os disparos que se ouviam em Luanda, na proclamação da independência, “correspondem aos bombardeamentos feitos pelas nossas tropas numa fase em que o inimigo já recuava. Nós bombardeámos no dia 10 e prosseguimos nos dias 11 e 12. Na fuga, eles tentavam ainda recuperar as suas técnicas deixadas no terreno”.
Xavier fez parte de uma estrutura de comando encabeçada por David Moisés “Ndozi”, que integrava, entre outros,  os hoje generais António dos Santos França “Ndalu”, então chefe do Estado-Maior da IX Brigada, Roberto Leal Monteiro “Ngongo” (chefe da secção de artilharia), Rui de Matos “Maio” (chefe das operações) ou Salviano Sequeira “Kianda”, todos combatentes com provas dadas na luta armada de libertação nacional.


No encalço da história

Na véspera da proclamação da independência, a pacata Kifangondo, terra de gente camponesa, conhecia a maior concentração militar de que há memória em número de tropas e equipamento e tecnologia militar. Naquele momento, Kifangondo era palco de um conflito internacional.
“As FAPLA ocupavam estrategicamente a área do morro de Kifangondo, e, desta forma, podíamos controlar duas direcções que convergem para a cidade de Luanda, que era a estrada que de um lado vem do Ambrizete/Ambriz/Caxito e do outro lado vem do Uíje/Kibaxi/Piri/Caxito”, conta.
O general Xavier falou à nossa reportagem precisamente no local onde acompanhou a movimentação das tropas inimiga há 34 anos. “Além da possibilidade de controlar esse ponto de convergência do acesso à cidade de Luanda, era também possível manter o controlo das estradas de Catete/Kifangondo/Luanda, além de dominar toda a planície e toda a lagoa do Panguila que tanto de um lado como do outro são terrenos pantanosos, o que obrigava o inimigo a concentrar-se nos limites para a sua tentativa de ataque final”, relata.
Após consolidadas as posições, as tropas permaneceram em silêncio por ordem do comandante Ndozi. “Eles bombardearam-nos intensamente no dia 9, utilizando todas as baterias de artilharia, à espera que a nossa artilharia respondesse ao fogo para permitir a localização”, refere o general, sublinhando que, na altura, os sul-africanos utilizavam um sistema de captação de tiro por onda sonora.
O dia 10 de Novembro era decisivo para ambos os lados, porque se aquela linha de defesa da cidade de Luanda fosse transposta nesse dia, impedia a proclamação da independência. “Com a tentativa de ocuparem o morro de Kifangondo, a companhia de mercenários portugueses nos canhões AML e o pelotão de artilharia com soldados regulares sul-africanos que manobravam canhões 140mm, reforçaram o seu contingente com forças zairenses”.
Do outro lado estava uma companhia de tropas da FNLA, três batalhões de tropas especiais zairenses, uma companhia de mercenários portugueses do ELP, duas companhias de blindados AML 90 e 60, uma bateria de morteiros 105mm e um pelotão anti-aéreo.
Do lado de cá, as FAPLA recebem o reforço de um grupo de internacionalistas cubanos, ajudando a consolidar as suas posições com armas pesadas. O general Xavier pormenoriza: “considerando que a batalha tinha grande importância estratégica e política preponderantes as FAPLA foram reforçadas com uma companhia de tropas especiais, os Corvos ao Imbondeiro, e um batalhão de BRDM na ala esquerda do rio Bengo e na conduta de água que abastece Luanda a partir de Kifangondo”.
As FAPLA dispunham de três batalhões de infantaria (escola de Ndalatando), uma companhia de destacamento feminino, uma bateria GRD-1P, uma bateria de BM 21, duas baterias de morteiro 82mm em Unimogs, uma companhia de comandos da IX Brigada e 58 internacionalistas cubanos.

A batalha de Kifangondo

Após intenso bombardeamento no dia anterior, as FAPLA estavam à espera de uma investida maior no dia 10 de Novembro de 1975. O relógio indicava 05H00, quando dois aviões se fizeram aos céus flagelando as posições das FAPLA, no Morro de Kifangondo.
“A primeira impressão é que fomos bombardeados pela aviação, mas não. Eram voos de reconhecimento que iam verificar os acessos, principalmente o estado das pontes, mas que a dado passo começaram a disparar com peças de artilharia”, esclarece.
O comandante Xavier conta que esse movimento da aviação (eram avionetas de reconhecimento, que partiam da pista do Ambriz ou de pequenas pistas em fazendas como a Martins de Almeida), obrigou a mudança de posições dos BM 21 para a elevação Este no Morro de Kifangondo.
“Ao amanhecer a artilharia inimiga concentrou o seu fogo nas posições defensivas do morro de Kifangondo, mas, sobrestimando o efeito das suas armas, transfere o bombardeamento para o Cacuaco e retaguarda do morro, originando assim o avanço da sua infantaria em camiões, precedidos por companhia de blindados”, relata.
O avanço da infantaria foi acompanhado em silêncio pelas posições das FAPLA, que aguardavam até que estivessem ao alcance da artilharia, conforme ordens do comandante Ndozi. “A infantaria inimiga salta dos camiões e inicia a sua progressão apeada e protegida pelo Esquadrão Ouso, que era constituído por carros blindados AML de 60 e 90, acompanhados a partir do cimo do Morro da Cal pela coluna do segundo escalão (retaguarda) da ofensiva que ia explorar os resultados obtidos pelos do primeiro escalão”.
Até então, disse o general Xavier, só havia movimentação de tropas do lado do inimigo. “As posições das FAPLA estavam mudas”, diz.

O primeiro tiro

Quando um dos três blindados AML 90 se aproximava da última curva antes de chegar à ponte destruída, conseguiu detectar a posição de um dos canhões 76 mm das FAPLA. Abriu fogo quase no mesmo instante, mas sem atingir o alvo.
Junto à peça de artilharia das FAPLA estava o general Xavier. Do seu lado direito tinha um oficial de reconhecimento, que é hoje o vice-ministro do Interior, o general Dinho Martins, e do esquerdo estava o canhão 76 mm, com um jovem soldado cubano.
“Foi tudo muito rápido. O cubano que estava ao meu lado precipita-se e dispara o canhão de 76 mm e não atinge o blindado inimigo, que parou. O Dinho Martins ainda comentou: “estamos lixados!”. O comandante recorda a sorte que tiveram quando um novo disparo feito a partir do blindado AML 90 foi explodir precisamente no local em que hoje funciona a administração do memorial à batalha de Kifangondo.
“O disparo caiu lá atrás e bateu num posto onde está essa casa amarela e os estilhaços atingiram a cabeça de um camarada nosso. Mas a malta não ripostou”, diz o general.
A situação mudou de figura quando outros dois blindados entraram em cena e começaram a movimentar-se na mesma direcção que o primeiro. Os dois começaram a lançar os morteiros de 120 mm, levando a que o comandante Xavier tomasse uma decisão: ” Quando vi aquilo tomei o lugar do jovem cubano, agarrei o tubo e elevei até aonde caiu a primeira munição e depois, com o aparelho de pontaria, vi e apontei para o blindado”, conta o comandante que, assim, inscrevia o seu nome na batalha de Kifangondo como o autor da primeira baixa de vulto nas hostes inimigas.
O disparo acertou em cheio no blindado que saiu da estrada. A partir do local em que o general Xavier recorda a cena, é possível identificar a curva fatal para o oficial do ELP, tenente Pais, unidade comandada pelo coronel Santos e Castro. “O AML 90 ficou com a base da torre do blindado destruída, tendo levado consigo, inclusive, metade do corpo do mercenário que chefiava o blindado”.
O general Xavier acrescenta que quando, ainda no dia 10, terminou o combate, com vários soldados inimigos mortos e material abandonado no terreno, o general Ndalu pediu voluntários para ir verificar. “Se o meu comandante queria ir, claro, tive que ir com ele, mais um jovem bazuqueiro com um pioneiro. Atravessámos, com uma canoa, e fomos até ao blindado que tínhamos atingido e demos com parte do corpo do comandante que dirigia o AML. Ao lado estava uma arma daquelas caçadeiras a que chamamos lançador de ovos de Páscoa, que eu ofereci ao Museu das Forças Armadas Angolanas na inauguração deste monumento”.
Para o general Xavier, aquela arma é uma prova do envolvimento das tropas mercenárias portuguesas. “Por isso é que eu digo, se alguém um dia pensar que é mentira, pelo número da arma, vão ver quem comprou e a quem foi entregue, porque normalmente as armas quando são ilegais, eles raspam o registo, mas aquela não, e então trouxemos”.

O esquadrão feminino

Da batalha de Kifangondo pouco ou nada se diz sobre o papel da mulher. Mas o general Xavier ressalta que havia um esquadrão feminino, que “teve um papel fundamental nos combates”.
“Tínhamos aqui mesmo na frente de combate mulheres muito corajosas. Uma delas é aquela comandante da polícia, a Bety, outra é a esposa do general Rangel, que depois daqui ainda avançou num blindado até ao Sul onde acabou ferida. Eram mais de 100, com idades entre os 18 e os 25 anos”, realça.
Distribuídas pelos diferentes postos de comando, nunca em número acima das três, as jovens voluntárias eram por norma operadoras das comunicações. “Elas tinham uma capacidade maior de observação, eram mais precisas que os homens a passar as informações, e também nos blindados. Elas em combate eram corajosas.”
Em Novembro de 2005, aquando da comemoração dos 30 anos de independência e da batalha de Kifangondo, uma equipa de reportagem de cubanos perguntou ao general Xavier se tinha conhecimento da pessoa que havia aberto fogo contra o blindado AML 90.
“Quando comemorámos os 30 anos da batalha de Kifangondo, uma equipa de reportagem cubana entrevistou-me e durante a entrevista perguntaram se não tinha ocorrido algo no início dos combates que me interessasse comentar. Eles afinal tinham entrevistado o jovem cubano que lhes contou a história. Eu confirmei que afinal o começo dos combates em Kifangondo se deveu a um erro do então jovem soldado”.

Perfil

Casado e pai de quatro filhos, o general Carlos Alberto da Silva e Mello Xavier nasceu a 4 de Março de 1948, em Ndalatando, província do Kwanza-Norte, numa família originária do Seles, Kwanza-Sul.
Filho de uma doméstica e um electricista,ultimamente, ligado à Câmara Municipal de Luanda, fez a tropa no exército português de 1969 a 1972. Depois de cumprir o serviço militar trabalhou na Petrangol, na perfuração de petróleo. Com tudo preparado para viajar para França, onde iria frequentar um curso de engenharia de petróleos, viu o seu sonho frustrado pela polícía política PIDE-DGS. Foi julgado e condenado a dois anos de prisão, acusado de terrorista.

Jornal de Angola – kumuênho da Rosa| – 11 de Novembro, 2009

3 thoughts on “Batalha de Kifangondo

  1. Olá camaradas, eu e os nossos companheiros do Batalhão de Caçadores Especiais 357, com cinco Companhia de caçadores Especiais, CCS,304,305, 306 e 307 foram as primeiras tropa a ocupar essa zona fronteiriça em 1961.
    A 306/ estava em Pangala, a 305 em Buela, a CCS em Cuimba e a 307 em Coma fica entre Cuimba e Maquela do Zombo, Em luvaca estava a 304 Chegado a Maquela do Zombo.
    Em Julho de 1962, iniciou se deslocamento para o norte de Angola, região largamente utilizada pelos guerrilheiros, como zona de passagem, através da qual mantinham a sua corrente de abastecimentos.
    A zona era desconhecida e não havia possibilidade de obter informação sobre o inimigo.
    O sector de São Salvador, junto à fronteira do Congo, até Maquela do Zombo era a mais perigosa zona de guerra. Nós sabíamos que enfrentávamos um inimigo difícil . .
    O Batalhão de Caçadores Especiais 357, não se deixa impressionar, por estas dificuldades, e logo se lança com afinco e firme determinação ao comprimento da missão, que lhe fora confiada de destruir os bandos de guerrilheiros existentes naquela zona, bloquear e aniquilar as infiltrações.
    Durante 26 meses de intensa actividade operacional, capturou ao inimigo, em combate, diverso material de guerra.
    Sofreu durante a sua permanência, em Angola, as seguintes baixas:

    7 Mortos em combate
    24 Feridos

    Louvores
    Do Comando da R.M.A.
    Do Comando do Batalhäo
    Condecorações
    Medalha de Cobre de Valor Militar com Palma
    Cruz de Guerra de 3° Classe
    Cruz de Guerra de 4° Classe
    Medalha de Serviços Distintos
    Morre pela Pátria e Viver sem Razão
    Os meus cordiais comprimentos

  2. Combatentes, sempre presentes

    Nossa pele se engelha,
    o cabelo branqueia, os dias convertem-se em anos…
    Fomos soldados de Portugal e não,
    Soldados colonialistas
    Como chama-nos alguns iluminados políticos
    As nossas forças e fé não têm idade.
    Atrás de cada conquista, vem um novo desafio.
    Enquanto estivermos vivos
    Continuamos a lutar
    Se sentes saudades do passado,
    Volta e reencontrar-te com os companheiros
    Não vivas de fotografias e nem nos traumas…
    Continua e não desistas.
    Não deixes que os ossos se oxidam.
    Faz que te tenham respeito
    Quando não conseguires junta-te a nós!
    Junta-te aos teus velhos camaradas do exército ou da Marinha.
    Manuel e Carlos Santos Fuzileiro

  3. Da que ficou conhecida por Batalha de Kifangondo, nada melhor do que ouvir os contributos dos vários intervenientes, que em campos opostos de defrontaram.
    Assim sendo, aqui deixo um pouco do que pude ler, de diversos,
    – de Pedro Marangoni: «A bem da historia militar sera um mapa incomum, feito em conjunto pelos dois lados opostos envolvidos». Entrevista do ex-combatente da Batalha do Quifangondo ao lado da FNLA Pedro Marangoni, cedida ao Secretario da imprensa da Uniao Russa dos Veteranos de Angola Serguei Kolomnin – http://www.veteranangola.ru/main/other_side/p_marangoni_port_eng
    (ou aqui:)
    http://mbondochape.blogspot.pt/2010/11/um-contributo-valioso-historia-de.html
    – a ler também “A Batalha de Luanda? – Uma história mal contada” de Mendonça Júnior (Coronel de Cavalaria)
    http://petrinus.com.sapo.pt/batalha.htm
    – “A Derradeira Tentativa” de José Victor Brito Nogueira e Carvalho – http://petrinus.com.sapo.pt/tentativa.htm

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