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Recordar o MVL

MVL (Movimento Viaturas Logistico), era este termo que designava um conjunto de viaturas civis e militares que periodicamente saiam de Luanda para levar abastecimentos aos aquartelamentos.

Essas colunas eram escoltadas por militares e tambem a nossa companhia fez protecção ao MVL. O inimigo podia estar presente em cada curva da picada, mas havia também outros inimigos com que tinhamos que contar, a poeira que se levantava com a passagem dos veículos na época seca e que se entranhava no corpo. Na época das chuvas era a lama que tornava dificil a progressão das viaturas especialmente nas íngremes subidas.

Aqui vão duas fotos que o companheiro Ramiro Carreiro me enviou do Canadá que representam a protecção ao MVL. Vamos lá identificar o pessoal das fotos, as caras são-me familiares, mas os nomes foram-se.

 

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Mário Mendes

 


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Rio Loge/Freitas Morna

O rio Loge nasce na província do Uíge, na zona de Quitexe, norte de Angola e desagua no oceano atlântico a norte de Ambriz, dividindo as províncias do Zaire a norte e do Bengo a sul. A ponte em Freitas Morna era a passagem e paragem obrigatória para quem se dirigia da capital Luanda para todo o distrito do Zaire, levando o abastecimento para todos os aquartelamentos daquela região, movimento esse designado por MVL (Movimento de Viaturas Logístico), um enorme “comboio” de viaturas civis e militares carregadas de todo o tipo de bens e materiais necessários ao regular funcionamento dos aquartelamentos.

Junto dessa ponte em estrutura metálica estava instalado o destacamento de Freitas Morna, para dar protecção à referida ponte, um equipamento estratégico e também para dar apoio às colunas do MVL que por ali passavam. A seguir transcrevo um excerto de quem esteve no local e que encontrei em: http://batalhao2833.blogspot.pt.

Também daqui tenho algo para contar. Este destacamento era reabastecido de 15 em 15 dias, tempo demasiado para comer pão fresco, coisa que todos nós gostávamos mas que passados estes dias ficava cheio de bolor. Embora sabendo que ia ser criticado pois os meus rapazes diziam que nos destacamentos só nós trabalhávamos e os outros gozavam daquilo que tínhamos feito, perguntei se haveria alguém que soubesse fazer fornos. A resposta, sim, foi rápida, dada por alguns dos meus companheiros e após pedir os respectivos materiais e logo que os mesmos nos foram entregues começámos a construção do nosso forno. Deixámos de trazer carcaças e começámos a trazer farinha, depois cozíamos pão quase todos os dias (pois além de um cozinheiro profissional tínhamos também um padeiro, profissões que já tinham antes de irem para a tropa) e ao mesmo tempo servia também para assarmos as nossas peças de caça.

Mais um depoimento de quem esteve em Freitas Morna e que colhi no blog: http://franquelino.blogs.sapo.pt

O meu grupo de combate foi incumbido de fazer uma comissão de duas semanas neste último destacamento, com a finalidade de proteger a ponte.

O destacamento era ponto de paragem das colunas que se deslocavam de Luanda para o norte de Angola, pelo que nos dias de passagem dos MVL’s tínhamos a preocupação de abastecer bem os nossos frigoríficos e nossas arcas com cervejas e refrigerantes para refrescar as gargantas dos nossos camaradas que por ali paravam.


 Quando não havia colunas, os nossos dias eram muito monótonos. Tínhamos o rio, a cerca de 50 metros do destacamento, que podia servir de distracção, mas estava infestado de jacarés. Ainda assim, de vez em quando, ainda arriscávamos uns mergulhos.

A pouco mais de cem metros da ponte havia umas quedas de água espectaculares. O som das águas do rio Loge a precipitarem-se de algumas dezenas de metros de altura ouvia-se a quilómetros de distância. Sei que hoje existe nesse local um hotel. Deve ser um local paradisíaco.

Quase todas as noites éramos visitados por javalis, que iam comer os restos de comida depositados na lixeira do destacamento. Chegamos a fazer esperas de madrugada para tentar caçar um daqueles exemplares mas nessas noites os bichos nunca apareciam.

Depois de quinze longos e monótonos dias regressamos novamente a Ambriz.

As fotos da primeira ilustração pertencem ao ex-combatente, ex-alferes miliciano Humberto Fernandes (C.Art 3447), datam de Janeiro de 1974 e como se pode ver são de rara beleza, um oásis no meio de um terrível isolamento.

Mário Mendes

Nota: A ponte sobre o rio Loge em Freitas Morna foi destruída em 1990 no auge da guerra civil angolana, foi reparada e está actualmente em muito mau estado interdita a carros pesados, mas segundo a imprensa angolana está a ser construída uma nova em betão.


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MVL na província do Zaire

A província do Zaire era um dos principais teatros da guerra colonial em Angola e para abastecer tantos aquartelamentos espalhados pela província, a logística não podia falhar e por isso, periodicamente um comboio de viaturas percorria as picadas para levar e recolher mercadorias, tendo esta operação a designação de MVL (Movimento de Viaturas Logístico).

A escolta destas deslocações que incluiam também viaturas civis (MVC) era feita por militares e para recordar estas operações partilhamos alguns documentos disponibilizados pelo ex-alferes miliciano Humberto Gonçalves Fernandes (C.Art. 3447), que comandou algumas destas operações.

O mapa da província do Zaire com alguns percursos e horários do MVL.

Uma folha do registo dos horários das partidas e chegadas de/a diversos aquartelamentos. Pelo registo de 5 de Fevereiro de 1973, podemos verificar que o MVL passou no cruzamento do Lucossa e nesse mesmo dia um nosso Unimog (C.Caç. 3413) rebentou uma mina na picada entre esse mesmo cruzamento e a Mamarrosa, causando a morte do condutor.


Relatório da escolta ao MVL e MVC efectuado no dia 6 de Fevereiro de 1973.


Relatório datado de 29 de Janeiro de 1974, referente a escoltas do MVL e MVC.


Fotos da C.Art. 3447, Luvaca, referentes ao MVL. Na primeira foto vemos uma Berliet a transportar restos de um Unimog destroçado por uma mina. Todos os operacionais que estiveram envolvidos na guerra colonial em África viram imagens de viaturas completamente destruídas pelas minas, que ceifaram muitas vidas e causaram estropiações diversas e por isso era crucial levar para bem longe da vista estas sucatas.

NR: Agradecimentos ao ex-alferes miliciano Humberto Fernandes pela partilha das suas vivências na guerra que foi de todos. Neste espaço que também é de todos, quem quiser entrar, a porta está aberta. Recordar é VIVER!

Mário Mendes


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MVL

No início da guerra em Angola não existia uma estrutura capaz de dar o devido apoio às diversas unidades militares que chegavam a Angola cada vez em maior número e por isso foi necessário concentrar em Luanda uma base logística, a partir da qual eram feitos os reabastecimentos.

De Luanda eram enviados para as unidades os artigos requisitados em viaturas militares e viaturas civis fretadas, sendo este movimento conhecido por MVL (Movimento de Viaturas Logístico).

Pelo menos de 15 em 15 dias uma grande coluna com dezenas e dezenas de camiões partia de Luanda com destino ao Norte de Angola, a chamada ZIN (Zona de Intervenção Norte), escoltada por militares.

Descarregados os camiões nos respectivos aquartelamentos, tinham que esperar o regresso do MVL para nele serem reintegrados e regressar de novo a Luanda. Também algum civil que desejasse viajar na sua viatura para uma zona de guerra, só o podia fazer integrando este movimento.

Mário Mendes