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Um quarto de milhão de visitas a este blog foi atingido ontem. Lançado em Abril de 2009 tem vindo paulatinamente a merecer a atenção de muitos ex-combatentes e também de gente mais jovem principalmente de angolanos que não viveram a guerra colonial mas querem conhecer a história do seu país.

Aos companheiros da C.Caç. 3413, lanço mais uma vez o desafio de aqui colocarem os seus comentários, artigos, opiniões, lembranças do tempo da guerra que vivemos. Felizmente, temos tido também a colaboração de outras unidades e com muita satisfação constatamos que este sítio tem também proporcionado encontros de companheiros que querem recordar o tempo da juventude que em consequência da guerra nos levou para África.

BEM HAJAM, todos os que fazem deste sítio um local de encontro e de convívio.

Mário Mendes

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Adeus, até ao meu regresso!

Nesta quadra festiva, a frase deste cabeçalho era proferida por quase todos os militares que combateram em África, depois de desejarem um Feliz Natal e Próspero Ano Novo aos seus familiares e amigos, quer através da rádio ou da televisão. A C.Caç. 3413, talvez por ter estado sempre em locais remotos, nunca foi visitada pela comunicação social para mandar mensagens para a família e por isso não tivemos oportunidade de registar para a posteridade aquela que foi a frase mais emblemática da guerra do ultramar.

Este momento era um elo de ligação entre os militares e os seus entes queridos que os podiam ver e/ou ouvir, matar saudades esperando ansiosamente pelo seu regresso.

No entanto, muitos foram os que não regressaram, nem vivos nem sequer os seus restos mortais que ainda hoje por lá estão ao abandono, como se pode verificar no vídeo que se segue e nos deixa a todos (ex-combatentes) muito indignados.

Hoje, 22 de Dezembro, faz também 39 anos que a nossa companhia sofreu a primeira baixa,  o companheiro Emanuel Firmino Nunes Aguiar que está sepultado em solo angolano. Natural da Madeira, vivia em Angola e repousa no cemitério de Folgares, Freixiel, Huíla, local onde morava com os seus pais.

Boas Festas

Mário Mendes



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Recordações (I)

Na C.Caç. 3413 todos reconhecemos o profissionalismo e dedicação que o nosso companheiro Correia, furriel miliciano enfermeiro, mais conhecido por Max,o Terrível, nos dedicou durante a estadia em África, com a sua amizade e boa disposição. Ele foi também um grande apaixonado pela fotografia e agora resolveu ir ao seu baú de recordações e partilhar connosco algumas “chapas” que transmitem uma grande beleza africana, como o “pôr-do-sol”.

Na primeira foto, cá está o homem de quem se fala, desta feita na missão de ajudar a recolher lenha, necessária para cozer o pão nosso de cada dia.


Esta tarefa tão básica obrigava-nos a penetrar dentro das matas e assim oferecer ao inimigo boas condições para ataques que felizmente nestas circunstâncias nunca ocorreram, talvez por falta de atrevimento ou pelo facto de o nosso poder de fogo ser também desmotivador.

Vamos então contemplar a beleza das fotos que se seguem:


Aquartelamento da Mamarrosa. Na primeira, o arrear da bandeira do mastro lá bem alto para mostrar que ali mandava-mos nós. Na segunda, as palmeiras que ali representavam um “oásis” naquela terra do fim do mundo.


As imagens são espectaculares e revelam os dotes fotográficos do autor que nos oferece estes autênticos postais ilustrados que, quer queiramos quer não, nos deixam alguma nostalgia.

BOAS FESTAS.

Mário Mendes


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O Princípio do fim da sua vida

O PRINCÍPIO DO FIM DA SUA VIDA

Por Pedro Manuel Pereira

. Existem duas grandes etapas na vida de um ex-combatente: antes da guerra e depois da guerra.

. Antes da guerra, era a vida suspensa, o adiar de projectos de vida, de trabalho, académicos, de família. A angustia dentro do peito que se ia avolumando até que fosse mobilizado para Angola, Moçambique ou Guiné onde, segundo os governantes: «De vez em quando existem escaramuças provocadas por bandoleiros. Por agentes ao serviço de Moscovo. Por terroristas». Depois, era o «adeus até ao meu regresso».

. Do cais da partida ao cais da chegada, em África, o militar carregava dentro de si o peso da pena de um castigo que só podia entender por ser português.

. De novo, como durante séculos havia acontecido a tantos e tantos compatriotas seus, também ele sentia que ia cumprir as penas de um degredo e lembrava-se das palavras do poeta António Nobre: «Amigos, que desgraça nascer em Portugal».

. Na escada de embarque para o navio, no portaló, as senhoras do Movimento Nacional Feminino davam-lhe medalhinhas de lata da Nª. Sr.ª de Fátima e murmuravam-lhe com ar compungido, palavras que lhe pareciam de condolências. Os gritos e choros lancinantes, dos familiares dos militares que ficavam no cais a acenar com lenços molhados de lágrimas, de mãos esticadas para o navio, até que este não fosse mais que um minúsculo ponto na linha do horizonte, haveriam de ficar gravados a ferro e fogo no fundo da sua memória, até ao fim dos seus dias.

. Ao arribar, tudo lhe era hostil. O clima, a água, as doenças, a maior parte dos naturais desses territórios, incluindo muitos brancos, como no caso de Angola…

. Disseram-lhe ir defender o Portugal uno, o tal do Minho a Timor. Mas se o território onde havia atracado era precisamente o oposto da sua terra natal, da mãe Pátria! Mergulhava noutro mundo. Nada voltaria a ser como antes. A princípio não se apercebia porque nada era imediato, visível, antes insidioso, mentalmente subversivo.

. A fome, o calor, o cansaço físico e psicológico. Estar lá, a pensar nos lugares em que dentro de si habitavam os seus entes queridos. Naqueles que amava e que pensava terem ficado irremediavelmente apartados de si noutra dimensão. Estar lá, no teatro de operações e sentir o irreal dos sentidos. Ter por quotidiano o absurdo, a sobrevivência como instinto natural, o irracional como dogma, a morte como lei.

. Depois, foram dias, foram meses, foram anos, de noites e noites de vigília sem dormir, os sentidos em alerta, os nervos em frangalhos, as queimadas, o napalm, os mosquitos, o calor opressivo, o suor sem limite, as minas na picada, as emboscadas, os ataques, o napalm, a fome e a sede, as emboscadas e as tripas de um camarada esventrado por uma mina ou uma rajada, que ali ficaram à beira da picada sob o pino do sol e o zumbido das moscas. Os feridos e os mortos e ainda os mortos-vivos.

. A rotina dos dias e das noites sem fim. A sua vida penhorada sabe Deus a quem e porquê, a irmandade forjada entre homens, temperada a ferro e fogo, fruto de uma orfandade que não se explicava nem se apalpava. Sentia-se nas entranhas, lia-se nos olhares que se entrecruzam numa angústia que o levava ao fim dos tempos, numa dolorosa sensação de participar numa guerra absurda, anacrónica, que não era dele. Até que matar, ganhava um significado maior. Assumia-se como que uma imolação aos deuses, exorcizando fantasmas.

. Aplacava as chamas do inferno que o consumia por dentro disparando a arma que se havia tornado como que um prolongamento dos seus braços. Os sentidos apuram-se, os sentimentos misturam-se numa mescla indefinida e indescritível que ficava a vogar num nó que se formava entre o estômago e a garganta. Os pés transportavam-no por mar de sargaços. No lodo dormia.

. Mas foram também as doenças; o paludismo, a hepatite, a bilharziose, a desinteria amibiana, os ossos fracturados com facilidade e… a grande doença portuguesa: as saudades, muitas, tanto que fazia doer até quase enlouquecer. Os seus, os que o amavam, lá longe, roídos de saudades, cansados de chorar.

. Na hora do regresso, faltavam camaradas à chamada. Que a terra lhes seja leve. Outros haviam ficado um quarto de homens, meio homens, que as pernas e os braços tinham ficado com os estilhaços de uma granada algures numa picada. Outros ainda regressavam… «cacimbados».

. Nada se lhe afigurava como antes. As pessoas, as ruas que pisava, o ar que respirava. Com o passar dos dias, começava a sentir-se de novo abandonado, estranhamente, como quando havia arribado a África.

. E as interrogações instalavam-se dentro de si; como seria recebido pela família, pelos entes queridos, pelos amigos, pelos outros, ao desembarcar na metrópole? Será que iria conseguir adaptar-se facilmente à vida civil?

. Entregava as fardas, os haveres militares e recebia uma licença por trinta dias. Se até lá não fosse chamado, não valia a pena apresentar-se. A canga continuava a pender sobre o seu pescoço. Passados mais de trinta anos, de quando em vez ainda sonha com essa licença, por via da qual poderia ter-se – hipoteticamente – apresentado no quartel, mas também com a guerra, com os vivos e com os mortos que tombaram naquelas terras quentes, com os seus camaradas, com os inimigos…

. Ao ser desmobilizado em Portugal, saía a Porta de Armas e tudo se lhe aparentava irreal. Respirava-se um ar tão fininho… Só se viam brancos, muito branquinho, tudo tão lento, tão limpinho e aparentemente organizado… Estranhamente sentia-se como que um órfão, abandonado. Mas se finalmente estava junto da família, dos amigos, por quem tanto havia ansiado?…. Sentia que já não pertencia cá, em África tinha deixado a maior parte de si; os sonhos e a inocência.

. Nos dias seguintes, iria começar a sentir a falta dos seus camaradas, daqueles com quem durante mais de dois anos havia partilhado os bons e os maus momentos, a fome e a sede, a angústia do dia-a-dia, das operações, das emboscadas…

. Habitava a sua vida como que um compasso de espera no tempo e no espaço. Não se sentia cá nem lá. Abatia-se sobre ele uma terrível sensação de insegurança. De forma estranha, começa a acometê-lo o desejo do regresso ao mato, onde poderia de novo unir-se aos seus camaradas: os vivos e os mortos que haviam ficado pelo caminho, porém, onde já não houvesse guerra, nem mortos, nem estropiados.

. As pessoas quando sabiam que havia regressado da guerra em África interpelavam-no: «Quantos morreram por desastres de viaturas e bebedeiras na tua Companhia?». A raiva crescia dentro de si, reagia furioso, mas só verbalmente, porque já não andava armado. Se ainda tivesse consigo a sua menina… a G3! Uma pia senhora sua tia abraçava-o comovida e comentava perguntando: «Ai filho…estás tão magrinho! Olha lá: – os pretinhos sabem rezar?».

. Nos dias seguintes comprava os jornais para ver se traziam notícias da guerra de África, notícias das emboscadas, dos combates, dos mortos e feridos em combate…

. Espantado, constatava que de África só vinham notícias de inaugurações de obras do regime e de uma ou outra morte de soldados vítimas de doenças ou de desastres de viação, no estilo: «Ao princípio da tarde de ontem, um veículo conduzido por um jovem de 21 anos, despistou-se perto da Praia da Corimba. Quer o condutor, quer os restantes três ocupantes, tiveram morte imediata. O acidente ficou a dever-se a excesso de velocidade. Os quatro jovens eram militares em gozo de licença.» Também encontrava variantes menos secas deste tipo de notícias, em que o despiste era comentado como tendo ficado a dever-se ao facto do «condutor se encontrar ébrio».

. Quase em estado de choque, constatava que na metrópole existia um olímpico desconhecimento do que se passava no Ultramar, um enorme desconhecimento de África. Sentia que a paz que se vivia em Portugal era uma paz podre, uma paz fictícia, do «faz de conta».

. Na Rádio, na Televisão, programas de fados, faduchos de manhã à noite e outra música a que em surdina chamavam de nacional-cançonetismo; o António Calvário, a Simone, a Madalena Iglésias e alguma música estrangeira. Alguns programas de futebol aos Domingos, mas… tudo tão parado no tempo, como havia deixado quando da partida, pouco mais de dois anos antes. O tempo não passava por Portugal. Este era, «um paraíso claro e triste», como disse Antoine de Saint-Exupéry, de passagem por Lisboa em 1940 quando da Exposição do Mundo Português.

Depois… começava o resto da sua vida.


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O 25 de Abril

O 25 de Abril

Já lá vão 35 anos de revolução dos cravos …

Para quem tinha acabado de regressar de África depois da prestação de serviço militar em defesa da Pátria como nos fizeram crer, aquela data representava uma certeza de que mais nenhum militar iria para a guerra, porque agora a guerra era outra, a do desenvolvimento do país que esteve “orgulhosamente só” durante décadas, e o grande objectivo era acabar com as desigualdades sociais e a pobreza que grassava, de modo a colocar o país na senda do progresso que invejávamos da Europa.

Nesse tempo vivemos um sentimento de esperança no futuro e tentámos esquecer aquele período passado em África onde deixamos sangue, suor e lágrimas, esforço que agora era desbaratado como já se previra há muito tempo.

Hoje, verificamos que estes objectivos estão bem longe de serem cumpridos, continuamos neste cantinho à beira-mar plantado, mas bem na cauda da Europa. Talvez sejam necessários mais 35 anos ou não! Outra revolução, talvez!

O agradecimento que tivemos, foi que alguns receberam louvores, condecorações e medalhas pelos feitos praticados, mas para quem tem esses “títulos” de que lhes têm servido? Eu também tenho uma certidão que comprova que “estive lá” como certamente todos os outros. Ao menos este documento poderia servir-me para ter desconto na compra do bacalhau, sim que o “bacalhau a pataco” era de outro tempo, agora está pela hora da morte…

Mas não, serviu-me apenas para a contagem de tempo, que tive de pagar com língua de palmo (desde Abril de 1988 paguei em prestações de 60 meses, 64.375$00). Portanto nada nos foi dado, nenhum governo se lembrou de nós, e quando se começou a falar de stress pós-traumático ainda julguei que  possibilitassem aos ex-combatentes a reforma aos 55 anos (tem lógica, porque 2 anos em teatro de guerra equivalem a 10 anos em situação normal, assim o dizem os entendidos).

O que recebi até hoje foi uma “esmola” de 150€, nada de confusões,  é anual,  benefício previsto na Lei nº 3/2009, de 13 de Janeiro, mas atenção que esta só é atribuída quando o ex-combatente já estiver reformado/aposentado, como é o meu caso. Não deixei de trabalhar  por gosto, porque fui penalizado em dois anos (9%), mas como a única coisa que  o governo se entreteve a fazer na primeira metade da legislatura foi produzir uma diarreia de decretos a “malhar” no funcionalismo público, não tive outro remédio, sim porque as costas já sofrem o suficiente, e não precisam de mais “malhação”.

Ora, aqui está o meu certificado de presença na guerra. Também nunca me serviu para nada, nem para ser promovido, mas agora com as “Novas Oportunidades” talvez tenha o seu valor. Afinal um curso  intensivo de 2 anos que valem 4, é uma licenciatura!

(Mário Mendes)

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