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Magina, no espaço e no tempo

MAGINA: O ISOLAMENTO

A CART. 1405 do BART. 1852 esteve na Magina dezoito meses, de Setembro de 1965 a Fevereiro de 1967. Creio que fomos a terceira ou quarta unidade militar a estar naquele polo militar, situado no Norte de Angola, junto à fronteira com a agora Republica Democrática do Congo. Antes, segundo os dados que consegui coligir, estiveram a CART. 102(?), a C.Sap. e Eng.151 e companhias de cavalaria dos Batalhões 595(?) e 631(?).
Além do isolamento devido à distância a que estávamos de outras unidades militares (Mamarrosa, Buela e Pangala distavam a mais quarenta quilómetros) e de São Salvador do Congo (cerca de oitenta por Mamarrosa e a cem por Pangala) que era a única povoação em que também residia população civil, além de militar, as vias rodoviárias estavam em muito mau estado.
As saídas da Magina tornavam-se ainda mais complicadas porque pela Mamarrosa tínhamos a subida ou descida do Luvo, na Mata/Floresta do Dimba, em que com as chuvas ou tempo húmido era um obstáculo quase intransponível e pela alternativa da Pangala e Calambata, além de mais quilómetros, entre a Magina e o cruzamento para a Buela, tínhamos três ou quatro pontes destruídas em que nas suas passagens as viaturas tinham que as atravessar fazendo equilíbrio em troncos de árvore ou contornando os locais por onde o caudal dos rios o permitisse. Algumas vezes tivemos que regressar ao aquartelamento ou ficar na Mamarrosa à espera de melhores condições atmosféricas.
A Magina situava-se no alto de um morro, numa clareira da Mata do Dimba (que diziam ser a segunda maior floresta virgem de Angola), o Rio Luvo situava-se no vale desse morro e era cercada por outros morros que diariamente eram patrulhados na chamada “volta dos tristes”.
Durante a nossa permanência, em termos militares, além de umas ocorrências menores, tivemos um acidente com uma mina que destruiu um Unimog que causou diversos feridos um dos quais, o condutor, que ficou em estado mais grave e sofremos uma emboscada à coluna militar da companhia que estava na Canga, (a CART. 1407) em que se sofreu uma baixa, também o condutor.
Eu era condutor auto, nos primeiros dois meses não tinha viatura distribuída, depois foram vinte e dois meses a “ir a todas”.
Espero que as fotos, parte delas tiradas por mim e pela minha máquina fotográfica, dêem para ajudar a ilustrar o texto e contribuam para que outros camaradas, ex-militares, nos transmitam mais informações da Magina e arredores, em particular o número e as datas que outras unidades lá permaneceram. Até à data só as vi através do Blog do “Barreirense Costa” que tem um pasta com fotos do ex- camarada José Manuel Vasques, da CCAV. 1783 do BCAV. 1930, que lá esteve de Dezembro de 1967 a 1969.

NR: Na sequência do artigo anterior chega-nos à redacção este texto do companheiro Horácio Marcelino que escreve na primeira pessoa do que era a vida no aquartelamento nos anos de 1965/67. Pelo diapositivo que se segue, as dificuldades do dia a dia estão bem patentes. A água para todos os usos, um bem essencial, tinha que ser recolhida em bidons no leito do rio que ali corria e como se pode ver, era uma carga de trabalhos.


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Abrir picadas em África

Em finais de Setembro de 1971, já lá vão 41 anos, a C.Caç. 3413 permanecia no planalto do Luaia, província do Uíge, norte de Angola, acampada numa base tática designada por Cleópatra. O panorama é o que se pode nesta foto em que homens e máquinas vão desbravando montes e vales, savana e floresta, em nome do desenvolvimento de um território que os nossos governantes da altura teimavam em considerar solo pátrio, quando já pairava no ar a inevitabilidade das independências africanas.

Foram investimentos de grande monta que por lá ficaram ao abandono, sem qualquer rentabilidade e que bem podiam ser aplicados em Portugal continental que naquela época estava bastante necessitado de infraestruturas rodoviárias. Mas como não há fome que não dê em fartura, hoje temos autoestradas em tudo o que é sítio, não temos dinheiro para as pagar e são pouco utilizadas porque a grande maioria do povo não tem dinheiro para pagar portagens e por isso está a voltar às velhas estradas nacionais e municipais, esburacadas e cheias de perigos vários.

Mário Mendes


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Vamos todos limpar Portugal.

Nos últimos anos no início da primavera vários organismos e associações públicas ou privadas têm juntado esforços para retirar das nossas florestas o lixo que muitos dos portugueses ainda teimam em ali “esconder”, apesar de haver espalhado por esse país fora milhares de recipientes e locais próprios para acolher os trastes velhos que já não se utilizam.

Este movimento de voluntários tem retirado das nossas matas milhares de toneladas de lixo e apesar de as gerações mais novas já terem outro conceito sobre o ambiente, estas felizes iniciativas ainda terão de se manter por largos anos porque este hábito tão português de fazer da floresta uma lixeira ainda não tem os dias contados.

Mas hoje, a limpeza que proponho não é esta, mas sim a dos muitos edifícios que “albergam” os diversos poderes deste país, o legislativo, o executivo, o judicial. Há dias assistiu-se à cerimónia da abertura do ano judicial e os discursos que ouvimos dos diferentes poderes ali presentes e a que já estamos habituados por serem recorrentes onde cada protagonista empurra o mau funcionamento da justiça para o parceiro do lado até já agonia. Mas claro, no fim todos saem “amiguinhos” e a comer da mesma panela.

Temos um parlamento, a casa da democracia, ao que consta dos melhores da Europa a nível de instalações mas ali já se sentaram ou ainda se sentam gente que vai desde falsificadores de documentos, fazendo-se passar por quem não é, especialistas em fugas ao fisco, absentistas que assinam o ponto mas que dão meia-volta e vão à sua vida, os que acumulavam pontos em viagens aéreas para os familiares, os que recebem subsídios de alojamento mas moram em casa própria, os que não cumprem o dever de declarar no TC (Tribunal Constitucional) os seus rendimentos, etc, etc. O último caso foi protagonizado pelo Sr. Lello que questionado sobre o tema disse primeiramente que nada tinha a esconder e depois mais acossado que desconhecia a Lei. Este mesmo deputado foi um dos que requereu ao TC a fiscalização permanente do OE (Orçamento de Estado) e o que o TC lhe deveria ter respondido era que antes de fazer qualquer exigência, cumprisse primeiramente os seus deveres, mas como não há moralidade, vale tudo.

E são estes senhores que fazem as Leis, papagaios que cantam a transparência, mas que apresentam uma opacidade a toda a prova.

Isto está mesmo a precisar de uma limpeza geral. São necessárias grandes vassouras e bons detergentes, pois a porcaria já está muito incrustada. Vamos todos limpar Portugal!

Mário Mendes


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Capinar, é preciso!

O norte de Angola é um mosaico de savanas e florestas, sendo que o capim cresce espontâneamente nas áreas abertas, atingindo uma altura maior que um homem, transformando assim o terreno num bom esconderijo onde o inimigo se podia deslocar, aproximando-se das picadas  e dos aquartelamentos sem ser visto, situação que não era nada favorável às nossas tropas.

No aquartelamento da Mamarrosa, o capim só terminava no arame farpado e quando teimava em invadir as instalações da fazenda do café, o patrão não descurava a capinagem do terreno como podemos ver nesta foto.

Assim, com o terreno limpo, qualquer intruso (homem ou animal) que tentasse “pisar” o risco de segurança era corrido a tiro. A segurança dos trabalhadores da fazenda era feita pelos próprios, mas com certeza que haveria um acordo tácito com os guerrilheiros, pois nunca se deu conta de eles serem atacados, nem no seu aglomerado populacional, nem nos campos de cultivo do café.

Como já aqui referiu o ex-furriel Carlos Santos, da C.Caç. 2676, que nós rendemos, até iam à caça com o capataz, mas na condição de irem vestidos à civil.

Mário Mendes