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XX Encontro

O programa do encontro deste ano engloba as Companhias de Caçadores 1311 e 3413, que partilharam no norte de Angola, província do Uíge, as bases tácticas de Cleópatra e Cecília, dando protecção à Companhia de Engenharia 2579. Vamos relembrar episódios que no último trimestre de 1971 e nos primeiros dois meses de 1972 ali vivemos.

As inscrições da 3413 serão acolhidas pelo companheiro Albino Igreja.

Para consultar o evento, clique  AQUI.

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42 anos depois


No dia 31 de Agosto de 1971, depois de 3 semanas de boa vida em Luanda, chegou a hora de marchar para a guerra. O nosso destino foi a ZIN (Zona Intervenção Norte), o itinerário seguido foi a chamada “estrada do café” como era designada a via de Luanda para Carmona, cidade onde pernoitamos, depois de cerca de 350 km percorridos.

No dia seguinte, o alcatrão ficou para trás e rumamos mais para norte até ao Vale do Loge onde ficou o terceiro GC (grupo de combate). Os restantes três depois de algum tempo de descanso e de “emborcar” algumas cervejas para refrescar as goelas secas pelo pó continuaram ainda mais para norte e no próximo entroncamento, nova divisão da companhia, o 4º GC rodou para a esquerda em direcção a Quimaria e os restantes dois rodaram à direita para o Tôto. Aqui ficaram alguns elementos da companhia, sorte a deles, mas para os operacionais dos 1º e 2º GC a viagem só terminaria algumas dezenas de km depois de ultrapassar montes, vales e floresta no planalto do Luaia e finalmente a companhia estava toda instalada.

Como integrante do segundo GC, calhou-me este último destino e depois de ter conhecido de passagem o Vale do Loge e o Tôto, esperava um alojamento ao nível destes dois, o nome “Cleópatra” até indiciava um local paradisíaco, mas quando da picada vislumbramos o sítio que seria o nosso destino, o que vimos foi um amontoado de barracas de lona e a cama que nos esperava, foi o colchão de ar que fazia parte do equipamento individual de campanha.

42 anos depois, o melhor mesmo, é recordar o que deixamos para trás em Luanda, os dias de praia na Ilha, a Portugália, o Marçal, etc., etc.

Foto: Grafanil, Agosto/1971.

Mário Mendes


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Toto (1966/68)

Em Janeiro de 1972, já com 5 meses de comissão, tínhamos alguma experiência das lides da guerra que travávamos no norte de Angola, a base táctica de Cleópatra, onde verdadeiramente nos estreamos já tinha ficado para trás, a base táctica da Cecília já era um pouco melhor, mas as condições em ambas eram tão deprimentes que a nossa próxima etapa só poderia ser melhor que estas e a aproximação dos 6 meses inicialmente programados para esta estadia deixava-nos um pouco mais animados. 

O lugar mais próximo com população civil era o Toto e era aí que de vez em quando nos deslocávamos em busca de aprovisionamentos e outros bens e serviços que faziam daqueles dias um “oásis” no meio do deserto em que estávamos metidos. O pó que na época do cacimbo tínhamos que suportar (o lenço verde a tapar a boca e as narinas que era a nossa imagem de marca, minorava o sufoco), ainda assim valia bem a pena. Pois bem, há dias um nosso leitor, Vítor Saraiva, indicou-nos o link de um blog que contém diversas fotos do Toto, dos anos de 1966 a 1968 e como aquele lugar fez também parte do nosso “curriculum” da guerra, achei por bem divulgá-lo para reavivar a nossa memória.

Clique AQUI.

Mário Mendes


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Companheiros de aventuras

A C.Caç. 3413 chegou a Angola no dia 9 de Agosto de 1971 e 3 semanas depois, mais precisamente no dia 31 de Agosto, deixamos para trás a bonita cidade de Luanda e lá fomos para a guerra, rumo ao Norte. Os 1º e 2º grupos de combate foram juntar-se à C.Eng. 3478 e à C.Caç. 1311, pessoal que durante cerca de 6 meses foram nossos companheiros de aventuras. Neste blog, aparecem diversos comentários de ex-combatentes que estiveram nos locais que aqui se vão referindo e é sempre com enorme satisfação que por vezes nos chegam notícias de alguns que apesar de pertencerem a outras unidades, viveram connosco, nos mesmos locais, as mesmas agruras da guerra. O ex- furriel miliciano Artur Rodrigues, da C.Engª 3478, deixou alguns comentários que a seguir se transcrevem:

Caro Mário Mendes.
Não tendo como recordação o seu rosto, estivemos nos mesmos locais e na mesma altura, em Angola.
A C ª de Engª 3478 a que pertenci, fez esse percurso de Outº de 71 a Dezº de 73, fomos render a Cª de Engª 2579 e tivemos apoio e proteção da C Caç. 3413, a vossa e da C.Caç.1311, para além de outras.
Estivemos no Toto, depois da viagem, Luanda, Carmona (Uíge), Vale do Loge, Toto, e com destacamentos em Quimaria, Cleopatra, Cecília ,etc. Na abertura de picadas tácticas, sendo o percurso para os seus acessos, a perigosidade e cuidados, que transmite nas suas descrições. Depois regressamos a Luanda na época das chuvas e voltamos de novo, desta vez através da estrada Ambriz, Ambrizete, que nos levou até Zala, outro ponto quente. Houve algumas frações da nossa Cª, que depois prestaram serviço e apoio noutros locais, onde era preciso. Claro que estávamos com a construção de estradas e outras vias, pontes e aquedutos, a valorizar aquele País. Não havia razão para sermos flagelados com ataques e com minas! Contámos sempre com o V/ apoio e protecção.
Seria interessante, um destes dias, em data oportuna conseguir-se juntar quem, irmanado nos mesmos propósitos, gastou alguns anos da sua vida, outros a própria vida (paz à sua alma) e as condolências aos que já foram e seus familiares, juntarem-se os intervenientes de todos quantos estivemos lá.
Os m/ Cumprimentos
e um Abraço.
Artur Rodrigues

Angola é potencialmente, um dos países mais ricos de Africa e até do Mundo.
Queiram os angolanos e os seus Governantes e Lideres, seguir o caminho da paz, da justiça e da Concordia, terão certamente, muito onde aplicar as suas energias e os seus conhecimentos, sem descurarem claro está, o seu passado, como Povo e como País. Portugal teve o seu papel, tal como o fez, por onde andou e esteve. Não é qualquer país, tão pequeno como o nosso Portugal, que tendo cerca de três milhões de pessoas no seculo Xlll/XlV e fez o que fez. Cometeu erros é certo, mas deu mostras do que é possível fazer-se com tantas e tantas limitações. Angola tem um potencial de crescimento e desenvolvimento enormes, mas não se podem esquecer as pessoas, os seus habitantes, de qualquer proveniência, credo, raça, etnia, etc. Portugal tem também a sua cota parte de responsabilidade e deve dar também o seu contributo como o fez ao longo de séculos. Toda a costa angolana é duma beleza soberba, tal como o interior.
Luanda é duma beleza impar. Tem espaço para crescer, a Norte/Sul e Nascente e uma ponta de terra “ILHA” e uma Baia, dignas de “Quadro/Pintura”, que devem ser requalificados com competência, com profissionalismo, mas com amor, porque é um pedaço que a todos diz respeito. Quer se avance para a barra do Cuanza, quer de avance para a barra do Dande, quer para o interior, pode fazer-se uma Luanda digna do nome São Paulo de Luanda.

A C.ª de Engª 3478 chegou a Angola de barco em Outº de 1971. Fomos para o Agrupamento de Engª de Angola e tb Grafanil, onde estivemos algum tempo, pouco. Seguidamente fomos para o Toto, Quimaria e Cecília, inicialmente Cleópatra, dando seguimento à construção de picadas tácticas e construção de pontes, viadutos e drifts. Do Toto mudámos para Zala.
Portanto, ao longo desse tempo, partilhamos convosco todas as peripécias porque passaram nesses locais. Daqui fica o desafio para quem lá esteve, contar as suas histórias que só dignificam o empenho com que aplicamos parte da n/ vida numa terra que deve saber ser grata, a quem lutou por ela, dando-lhe a base da pujança que é hoje e que há-de ser no futuro e que sem ressentimentos, se procure um diàlogo que na altura faltou, sem ser necessário a perda de vidas humanas e os sacrifícios, porque tiveram de passar. Que esse esforço sirva para que todos, sem mágoas, analisem de forma isenta o que poderá ser hoje em dia o engrandecimento de um País como Angola, dando aos seus melhores condições de vida, com mais humanismo e receber de braços abertos e com cordialidade, quem deseja e precisa para colaborar, com aquele belo País e hospitaleiro Povo de Angola, que de Cabinda ao Kuando Kubango, sempre souberam dignificar a sua Terra.

Nota. Também concordo com a ideia de um dia tentar reunir o pessoal da C.Eng. 3478 e da C.Caç. 1311, para um convívio com a nossa C.Caç. 3413, para recordar aqueles tempos na Cleópatra e Cecília. O Artur Rodrigues não se importará de fazer a ponte para a C.Eng. 3478. Pode ser que apareça alguém da C.Caç. 1311. Quanto à C.Caç. 3413, penso que a disponibilidade é total. Mãos à obra! Mas enquanto não chega esse dia, vamos recordar os retratos que o nosso amigo ex-furriel Joaquim Alves fez das bases tácticas onde estivemos, com o humor tão característico de um alentejano de gema.

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Mário Mendes


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Aniversário no mato

Estávamos há uma semana no acampamento de tendas de lona, habitado por cerca de quatro centenas de homens, na gíria militar chamava-se base táctica e ao local tinha sido dado o nome de Cleópatra, geograficamente localizado no planalto do Luaia, um rio afluente do Loge, na província do Uíge, norte de Angola. Não sei qual o significado daquele nome em terreno tão no meio do nada, talvez lá do alto do morro algum homem tentasse descortinar por ali alguma sereia que no seu devaneio seria a Cleópatra, acampamento idêntico ao do cabeçalho, Cecília. Pelos vistos o baptizador daqueles locais gostava da letra C.

O 8 de Setembro de 1971, ficou para sempre gravado na minha memória, que sítio mais inóspito me haveria de sair na rifa para festejar o 22º aniversário. Mesmo assim, não faltou o espumante e rodeado dos meus companheiros a festa de arromba.

Muita cerveja, e outras bebidas com mais teor alcoólico contribuíram para um “cocktail molotov” e a explosão foi forte.


No meio dos festejos, descobri que na nossa companhia, outro companheiro de armas era também aniversariante e a repetição de brindes aumentou ainda mais a carga explosiva.


Aqui estão os “donos” da festa desse dia. Quem sabe do Vítor Manuel Ferreira Tomás, de Lisboa, à direita? Caro amigo, parabéns, temos mais 40, é a vida!

Para melhor conhecerem o que eram estas bases tácticas, façam o favor de ler este artigo clicando AQUI.

Mário Mendes

NR: No ano de 1949 houve acontecimentos relevantes tais como:

  • Criação do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).
  • Lançada a primeira sonda espacial norte americana, a Viking que chegou a 80 km da terra.
  • A União Soviética (URSS) testa a sua primeira bomba atómica.
  • Fundação da República Federal da Alemanha e criação da República Democrática Alemã (Divisão da Alemanha depois da 2ª guerra mundial).
  • Criada a República Popular da China por Mao Tse-Tung.


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HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DA C. CAÇ. 3413 (II)

A noite tinha passado quase sem se dar por ela. A excitação, embora disfarçada, era bem sentida por todos. Estava tudo ansioso e sentíamos uma mistura de sentimentos, que iam da ansiedade, da expectativa, à vontade de partir quanto antes à procura do desconhecido e da aventura, tão pródigas nestas idades… Madrugada dentro e há hora combinada, estava já toda a malta montada nas viaturas, novinhas em folha, tal como nós, as armas, os camuflados, tudo…Tudo “maçaricada”. Ainda era noite cerrada quando é dada a ordem há muito esperada, e um frio interior que certamente não seria só frio, nos invade, mas …Há sempre um mas. O que nos espera? Para onde vamos? O que será a nossa vida daqui para a frente? Será que vamos e voltamos? E é dada a ordem de “PARTIDA”! Bala na câmara e lá arrancamos nós rumo ao desconhecido.

Passados os postos de controlo que circundavam Luanda, entramos, ainda de noite, nas estradas angolanas ainda mais para Norte. E passados dois dias de muita ração, muito calor, muitos kms e quilos de pó, chegamos ao Colonato do Vale do Loge! Embora fôssemos pela “auto-estrada”, os nossos “Mercedes” não passavam dos 53 Kms/hora, e não podia ser a subir. Como é normal e fruto da inexperiência, eu, e julgo que os demais graduados, seguíamos” garbosamente”ao lado do condutor, como “chefes de viatura”… Situação que se alterou logo com o início das hostilidades, e o tomar de consciência da situação…Eu seguia ao lado do condutor, o Giesta! Um Açoreano alegre e sempre pronto para a brincadeira, que já era e continuou a ser o meu condutor”privativo”. Por onde andas rapaz…Se leres estes rabiscos, ou não, entra em contacto connosco…

Assim que chegámos ao Loge, das primeiras coisas que fiz, foi dar um corte enorme no cabelo, vulgo “carecada. Tão grande e tão saborosa que ainda hoje a mantenho…Um bom banho, almoço e umas “bejecas”. Ida ao civil comprar umas coisas de última hora, e com o aviso de ser esta a última oportunidade de compras. Daqui para a frente era só mato. Umas camisolas negras, porque mesmo sujas com tanto pó não se notava tanto, e um lenço tipo cow-boy para comer menos pó. O Vale do Loge era uma povoação praticamente só com uma rua, pelo menos é do que me lembro, e tinha dum lado e doutro umas casas bem engraçadas, tipo colonial, e bem espaçadas entre si. Tinha população nativa e civis brancos, além do pessoal militar. Resumindo, era bom. Um luxo. Aqui ia ficar um pelotão, o 3º, mais o pessoal da secretaria e demais “aramistas”. Outro, o 4º, iria para Quimaria. Os outros dois iam para “Cleópatra”! Vocês já viram bem o nome? “C L E Ó P A T R A”. Como hierarquicamente tínhamos direito a escolher, 1º e 2º pelotão, “cientes” e atrás da magnitude do nome…lá fomos nós. E logo a seguir fomos em coluna até ao “TOTO”, onde nos esperavam alguns companheiros da C. Caç. 1311, com quem estivemos juntos na Cleópatra e na Cecília, até voltarmos a Luanda. Daqui seguimos finalmente para a Cleópatra onde iríamos ficar uns tempos!

E a nossa chegada foi apoteótica! Para a rapaziada que já lá se encontrava, além da 1311 estava também a C. Eng. 2579, foi dia de festa. Era dia de chegar maçaricada, caras novas, novidades, o que pouco tempo depois confirmámos que fosse o que quer que fosse que quebrasse o quotidiano, era sempre motivo de celebração… Para nós era o” início do princípio do fim”…e o 1º contacto com o “Mato” e com o vasto sertão Angolano. E confesso que fiquei agradavelmente surpreendido! A paisagem era de sonho, e a cidade “fantástica”! Só que em vez de Faraós e belas Egípcias, de todo o lado apareciam barbudos e guedelhudos, meio vestidos com um simples calção a tapar as partes ou uma mistura de civil com fardas. Uns de botas, outros de sapatilhas, outros de chinelos…“Uma impecável bandalhice”.

O nosso exército, sempre zeloso por nós e pelo nosso conforto, atribuiu-nos um dos muitos “Palácios” que ali foi montado. Este ficava bem localizado e desfrutávamos duma vista magnífica sobre os arredores. Era composto por uma só divisão mas soberba, até na sua assimetria, e certamente que qualquer “Sultão” não desdenharia…Sabedores do nosso desconhecimento de tudo aquilo que nos rodeava, e prevendo qualquer fobia ou medo de estarmos sós, precavidamente colocaram-nos, todos, os 2 Alferes mais os 6 Furriéis no dito “Palácio”, que militarmente era conhecido por “8P” (tenda cónica para oito pessoas). Como se vê as contas eram pensadas ao milímetro. Nós é que nem um milímetro para qualquer dos lados podíamos pender, sem correr o risco de cair em cima do que estivesse ao lado. Como o terreno não era plano, os que se encontravam lateralmente deitados, passavam a noite a pender para o lado…E as camas! “Puro chão africano”, amaciado com um colchão tipo praia do mais confortável que se possa imaginar! Ortopédico puro e Ideal para endireitar a espinha.

O nosso trabalho consistia em fazer protecção à C. de Eng., e todos os dias lá marchávamos ao som dos motores dos burros do mato, no meio duma nuvem de pó. Mas pó mesmo do bom! No princípio era uma zona de alguma mata e muito capim, mais alto que qualquer de nós. E para nossa protecção e mais fácil detecção do I.N., à medida que íamos avançando, íamos-lhe deitando fogo. E aí estavam as célebres queimadas no seu esplendor! Kms e Kms de capim a arder…só visto!

Calhava á vez um Grupo de combate ficar na frente durante a noite para defender as máquinas. Estas ficavam no alto dum morro e garanto-lhes que não era nada agradável…Duma dessas vezes, com o meu Pelotão, o 1º, foi, por castigo, um rapaz conhecido por Bombeiro da 11. Chegada a noite, que era a parte pior, dividimo-nos em pequenos grupos e cada um colocou-se no melhor sítio para passar a noite e no caso de chatice, defender-se o melhor possível. O capim já tinha ardido, mas á mais pequena brisa, lá se reacendiam pequenos focos, que vistos ao longe pareciam lanternas que alguém acendia para ver o caminho. Víamos turras por todo o lado. E nós á rasca. Ainda para apimentar mais a coisa, logo no sopé dum dos lados do morro começava uma mata fechada atravessada por um riacho. Era desse lado que estava o grupo do Bombeiro. E sempre que lhe calhava estar de sentinela e sozinho, era fogachada que fervia. Lá íamos a rastejar ter com ele que garantia ouvir e até ver movimentos estranhos e daí abrir fogo. Foi um desassossego toda a noite! E a conclusão a que chegamos, já madrugada alta e depois de uma noite de pesadelo, que, do que o nosso homem precisava era de companhia. Bem, até os valentes também têm os seus dias, e é como vulgarmente aparece escrito nas casas de banho: “Aqui todo o cobarde faz força e todo o valente se caga”…

Joaquim Alves


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A Jibóia

A Jibóia

Aqui falamos muito de Cleópatra e Cecília. Certamente alguns leitores alheios à C.Caç. 3413, mais curiosos, já pesquisaram em mapas antigos do norte de Angola, para saberem onde ficam esses lugares. Pois é, caros amigos, não vêm no mapa!

Como companhia independente, era “pau para toda a obra” e nos primeiros quatro meses de comissão, dois grupos de combate foram mobilizados para a zona do Toto para fazerem protecção a uma Companhia de Engenharia que abria uma picada, desbravando matas naquela área. À medida que a picada avançava a logística acompanhava esse avanço, e foi assim que nos instalamos em dois morros que transformamos em acampamento, os quais foram baptizados de Cleópatra e Cecília, nomes bem escolhidos, só os nomes eram “lindos” de propósito, para contrastar com o isolamento do local e a dureza das condições de vida. As construções eram de lona, o colchão de ar, o wc latrina, o banho de bidon de água do rio, etc… Eis a foto da Cecília!

ceciliaUm dia, ao regressar da protecção das obras, e percorrendo a poeirenta picada no Unimog, o angolano Nené enxerga uma jibóia no tronco de uma pequena árvore e avisa-me do facto. Faço sinal ao condutor para parar e com a G3 acerto um tiro junto da cabeça do bicho, que cai no chão. Mais dois tiros na cabeça para certificar que está bem morta e lá vai ela para cima do Unimog. À chegada foi um alarido com toda a tropa a admirar o exemplar com cerca de 3 metros, algumas fotos registadas, como por exemplo esta.

A tarefa a seguir foi arranjar alguém que a esfolasse, e eis que no meio da multidão se chega à frente um militar de cor, que era perito no assunto e a primeira coisa que fez foi comer cru o coração da dita. jiboia

Depois de retirada toda a gordura possível da pele foi posta ao sol para secar. Após vários dias de seca, ainda mantém um cheiro algo desagradável, mas lá a meti numa mala para a mandar curtir quando chegasse a Luanda. Ouvi muitas reprimendas dos meus companheiros da “suite”, pois quando abria a mala o “pivete” ainda dava sinal, mas fui amenizando a situação lançando de vez em quando na pele umas borrifadelas de after shave.

Chegado a Luanda, lá me informei de um profissional na arte do curtimento, e como podem ver a obra ficou muito bem-feita, cor natural.

Nos anos 80 estas peles eram muito utilizadas em cintos, malas e sapatos de senhora, e um dia por curiosidade contactei um fabricante destes acessórios, que me ofereceu sete escudos por cm2, o que daria por volta de 40 contos, mas continua ainda comigo, à espera de melhores dias…

(Mário Mendes)

cobra