2 comentários

A guerra – cenas do quotidiano

Do nosso companheiro Ramiro Carreiro, recebi estas duas fotos que retratam tarefas que diarimente faziam parte da nossa vida na guerra em Angola.

image image

O içar e o arriar da bandeira nacional, cerimónias cumpridas diariamente, a primeira por volta das 9 horas, a segunda ao por do sol. O Carreiro está a operar a bandeira e os outros elementos que ele identifica são o furriel Leitão e os cabos Moniz, Araujo e Pereira. O corneteiro não consegue identificar. O aquartelamento, digo eu, é no Luvo.

A segunda foto é deveras singular e representa uma actividade que nos primeiros meses da comissão tinhamos que desempenhar, recolha de água para abastecimento, que prova as condições precárias que tivemos que enfrentar nas bases tácticas do planalto do Luaia. Aqui a colheita da água era levada a cabo no leito de um riacho atraves de uma lata para dentro do autotanque. Reconheço-me nesta foto e pensava que esta tarefa da recolha fosse feita por motor de água, mas era mais artesanal. Quanto à qualidade da mesma é fácil adivinhar, talvez por isso é que a bebida predilecta fosse a cerveja (cuca ou nocal).

Um abraço para todos.

Mário Mendes

 

Anúncios


3 comentários

HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DA C. CAÇ. 3413 (VII)

Num cenário de guerra, onde armas são presença constante e se lida diariamente com elas, por mais cuidado que se tenha, a hipótese de um acidente está sempre presente a todo o momento. Para contrariar isso, ao princípio e como medida de precaução, sempre que vínhamos da frente os graduados de cada grupo, antes do pessoal descer das viaturas, encarregavam-se de toda a minha gente tirar a bala da câmara. Com o passar do tempo, os nossos soldados acharam que esta rotina se tornara desnecessária, e este ritual até desprestigiante para alguns, perante as outras companhias. E deixou de se fazer. Mandavam as regras de segurança os seguintes movimentos:

1- Tirar o carregador – 2- manobrador atrás com extracção da bala que estava na câmara – 3 -pancada no manobrador para levar a culatra á frente já sem bala – 4 – arma apontada para cima – 5- pressão no gatilho para levar o percutor a bater em seco visto a bala já ter sido extraída.

Ora a sequência correcta seria: 1 – 2 – 3 – 4 – 5

Mas havia de vez em quando alguém que trocava os movimentos e em vez da sequência correcta, fazia 2 – 3 – 1 – 4 – 5

E de quando em vez lá se ouvia o estrondo dum disparo e o consequente silvar da bala em movimento. Até que um dia, tinha que se dar, um soldado de seu nome Geraldo (?) fez o segundo movimento, só que em vez de levantar a arma para cima, apoiou-a no chão e encostou o cano ao ombro. O resultado, foi uma evacuação aérea e uns dias de férias forçadas no hospital de Luanda. Coisas…

    Já passado uns tempos de estarmos na Cecília, fomos reforçados com o 3º Grupo e alguns especialistas que estavam no Toto, reagrupando-se em certa medida a Companhia na sua quase totalidade, uma vez que o 4º Grupo continuava em Quimaria, para onde o 3º passado pouco tempo acabou por ir. Por sua vez, o 1º Sarg. Ramalho continuava a “tratar de assuntos de interesse da Companhia, em Luanda”…Pois! Nesta onda veio também o Fur. enfermeiro José do Sacramento Correia. Foi-lhe montada uma tenda novinha, a “Enfermaria”. Por fora era verde, mas por dentro era duma brancura imaculada. Toda vaporosa, com muito tecido esvoaçante, tipo tule, em nada se assemelhando às demais. Toda branquinha. Um enlevo. Claro que tudo isto era o perfeito contraste com as nossas, que já não eram verdes mas sim castanho-escuro de tanto pó que já acumulado, quanto mais branquinhas.

    Mas não era só com armas que se davam acidentes. Aos domingos ninguém saía para a frente em trabalhos na picada, fazendo-se só os serviços mínimos e de manutenção, com excepção dum Grupo que tinha que ficar na frente a guardar as máquinas. O resto da rapaziada aproveitava como muito bem lhe aprouvesse. Jogos de futebol e “brutovólei” eram bastante disputados e muito renhidos. Com a temperatura que estava mais o esforço despendido, originava uma sede tremenda. Certo dia, um dos jogadores, açoriano e da nossa Companhia, no fim do jogo subia a rampa de acesso á sua tenda, e o que vê ele. Á porta da enfermaria um garrafãozinho de água mesmo ali á mão. E zás. Empinou-o á boca, e…uma aflição que ninguém entendia a razão. Mas o Correia deu logo por ela. É que o garrafão não tinha água, mas sim “FORMOL”…e o nosso homem lá teve que ser evacuado, visto no nosso “hospital” pouco mais se poder fazer que uns pensos, dar uns comprimidos “LM” e dar umas injecções. E sobre as injecções posso garantir-vos que ninguém tinha a mestria do Correia. Começava com “ameaças” e por entre umas gargalhadas de terror batia na nádega tanto e com tanta força, que sem nos apercebermos a agulha já lá estava. Resultado, o que doía eram as nalgadas, até porque ele era exímio a dar injecções.

    Ainda sobre a tenda enfermaria, não sei como, mas o nosso Zé Correia, arranjou um Camaleão que se pavoneava por entre as cordas e espias da tenda, tornando-se numa das grandes atracções da Cecília. Toda a minha gente ia apreciar um bicho nunca antes visto, eu incluído. Quem não lhe achava grande graça, era o enfermeiro Machado da 1311.Dizia ele que se estivéssemos a comer perto do bicho, ele lá de cima cuspia no prato e era morte certa. Acreditando ou não o bicharoco lá se foi passeando pela tenda, limpando-a de todo o tipo de insectos que ele devorava para alívio e alegria do Correia.

 


Fotos e texto de: Joaquim Alves

Na primeira foto com elementos da C.Eng. 3478, na esplanada do “Resort do Luaia”, na segunda em plena mata virgem do planalto do Luaia, que os “engenheiros” iam desflorando e na terceira pode-se ver a frente de trabalho junto ao morro do Tomba.


1 Comentário

Abrir picadas em África

Em finais de Setembro de 1971, já lá vão 41 anos, a C.Caç. 3413 permanecia no planalto do Luaia, província do Uíge, norte de Angola, acampada numa base tática designada por Cleópatra. O panorama é o que se pode nesta foto em que homens e máquinas vão desbravando montes e vales, savana e floresta, em nome do desenvolvimento de um território que os nossos governantes da altura teimavam em considerar solo pátrio, quando já pairava no ar a inevitabilidade das independências africanas.

Foram investimentos de grande monta que por lá ficaram ao abandono, sem qualquer rentabilidade e que bem podiam ser aplicados em Portugal continental que naquela época estava bastante necessitado de infraestruturas rodoviárias. Mas como não há fome que não dê em fartura, hoje temos autoestradas em tudo o que é sítio, não temos dinheiro para as pagar e são pouco utilizadas porque a grande maioria do povo não tem dinheiro para pagar portagens e por isso está a voltar às velhas estradas nacionais e municipais, esburacadas e cheias de perigos vários.

Mário Mendes


1 Comentário

Na frente, tudo na mesma, como a lesma!

Na Cecília, os “sicilianos” vão fazendo pela vida, as saudades apertam cada vez mais, os dias passam lentamente, a picada avança não sabemos para onde, é preciso rasgar montes, florestas e vales.

Ainda hoje não sei a finalidade da abertura daquela picada que do Toto penetrava para o planalto do rio Luaia e não me parece que a mesma servisse para ligar a algum lugar mais remoto do interior da província do Uíge, mas isso também não era da nossa conta, a nossa missão era tão-somente proteger os homens e as máquinas da engenharia militar que tal como nós ali sofriam as agruras daquele lugar ermo.

Esta imagem do Google revela que por ali não existe vivalma, o aglomerado do canto superior esquerdo da imagem representa o Toto e parece que a picada que se construiu ainda se pode ver para sul, será um caminho sem saída, ou uma obra inacabada porque entretanto o 25 de Abril em Portugal acabou com a guerra colonial.

Aqui vão mais 2 fotos com 40 anos de existência, onde se verifica que apesar de tamanho isolamento os jornais nacionais também ali chegavam, certamente com muitos dias de atraso, mas para quem estava ávido por notícias pouco importava tal facto.

A segurança não podia ser descurada e lá do alto do planalto os olhos iam perscrutando a paisagem, porque o IN andava por ali.

Mário Mendes


2 comentários

Partida de Luanda – Vamos pra guerra

Tal como escrevi no penúltimo artigo, foram 3 semanas em Luanda depois do desembarque que passaram muito depressa, mas mesmo assim foi bem melhor que as nossas primeiras expectativas.
Tinha chegado a hora da verdade, Luanda e a boa vida já tinham ficado para trás e agora a coisa ia fiar mais fino. Faz hoje 40 anos que avançamos para o interior de Angola, para a ZIN (Zona de Intervenção Norte) e todos os nossos sentidos iam bem despertos para a nova realidade que nos esperava.
Saímos logo de madrugada do Grafanil e passamos no Cacuaco, na Fazenda Tentativa, onde me lembro de ver uma enorme plantação de bananeiras e chegamos ao Caxito onde fizemos uma pequena pausa. Nesta estrada circulavam livremente carros civis e nada fazia lembrar a guerra e para que não tivéssemos ilusões quanto ao resto da viagem ali fomos avisados que dali para a frente íamos atravessar zonas onde o inimigo estava muito activo e todos os cuidados eram poucos. A região dos Dembos estava ali e o perigo espreitava a cada curva.
O percurso lá continuava lentamente, Ucua, Piri, Vista Alegre, Aldeia Viçosa, Quitexe e finalmente Carmona, a capital da província do Uige, onde pernoitamos depois de uma longa viagem felizmente sem qualquer percalço. Foi assim o nosso 31 de agosto de 1971, já lá vão 40 anos.
No dia 1 de setembro, voltamos a fazer-nos a estrada, digo estrada porque a via merecia essa designação por ser alcatroada, mas depois da povoação do Songo, a estrada virou picada com todas as consequências resultantes, sendo o pó o mais incomodo.
Passamos em Nova Caipemba e depois no Colonato do Vale do Loge onde ficou o nosso terceiro pelotão. Depois de umas cervejas frescas para regalo das gargantas já atacadas pelo pó, a próxima paragem foi o Toto, onde ficou sediada a CCS.
O quarto pelotão seguiu para Quimaria e os outros dois foram parar ao planalto do Luaia, uma base táctica com barracas de lona.
E foi assim que começamos a guerra, a companhia desfeita em dois dias. Este relato muito simples fica a aguardar contributos de outros companheiros que certamente ainda se recordarão desta viagem que nos introduziu na guerra, o móbil da nossa presença em Angola. Aquelas três semanas em Luanda foi para adoçar a boca!
Mario Mendes


3 comentários

Toto

O aquartelamento do Toto, na província do Uíge, em Angola, também fez parte da história da C.Caç.3413, pois era ali que nos deslocávamos para fazer reabastecimentos quando estivemos acampados em barracas no planalto do Luaia, (Cleópatra e Cecília), fazendo protecção à engenharia militar que desbravava terrenos inóspitos naquelas terras do fim do mundo.

O Toto ficava numa encruzilhada de picadas, uma que vinha de Sudeste, de Nova Caipemba e Vale do Loge, outra que seguia para Nordeste, para Bembe e Lucunga, outra para Este, para Quimaria e Bessa Monteiro e outra ainda que em finais de 1971 se estava a construir para Noroeste, para os lados dos rios Luaia e MBridge.

Do que me lembro do Toto, era que possuía uma boa pista de aviação, tinha uma sanzala e ali perto existia uma lagoa  rodeada de palmeiras. Também se produzia café sendo propriedade do fazendeiro Cid Adão Gonçalves.

Para recordar, aqui fica uma foto do aquartelamento.

Mário Mendes


2 comentários

O Jornal de Parede

btcecilia

O Jornal de Parede

No início da comissão estivemos no sector do Toto, entre o início de Set.71 e 23 Jan.72, espalhados por localidades como Vale do Loge, Toto, Quimaria, Cleópatra e Cecília.

A mim coube-me ter ficado no Colonato do Vale Loge, com o 3.º grupo de combate, de onde passado mês e meio fui para a Cecília reagrupar.

No mês seguinte fui enviado para Quimaria, onde estive até aos primeiros dias de Janeiro de 72, altura em que regressei de novo à Cecília.

A Cecília era a base táctica de apoio à Engenharia, que abria uma picada através da floresta milenar. Na altura tinha acabado de mudar de outro local, a que chamámos de Cleópatra.

Situada no alto de um morro, em pleno maciço do Luaia era constituída por um acampamento de tendas e barracas, que albergavam o pessoal de três companhias: a nossa (CCaç.3413), a CCaç.1311 (angolana do RI20 de Luanda) e a CEng. 3478 (que tinha rendido na Cleópatra a CEng. 2579).

Das alturas da Cecília, que da vertente sul estava cortada por uma depressão de mais de mil metros, víamos a floresta luxuriante de cores e vida, com os rios Luaia e Mbridge a serpentear. Era aqui o observatório do nosso mundo restrito.

Do seu cimo assisti uma vez ao bombardeamento da floresta com napalm, pelos Fiats, que passavam rente a nós e mergulhavam no abismo ribombando e esfumando. As labaredas de um amarelo vivo levantavam-se quase até ao céu, o que dava para imaginar o estado dos seres que tinham sido apanhados por tal inferno.

Do morro presenciei também o ataque nocturno à coluna que vinha do Toto, e que subitamente deflagrou uma mina A/C debaixo da Berliet carregada de cerveja. A este evento dedicarei proximamente um texto.

Quando não estávamos em saídas operacionais ao longo do Mbridge, na picada, ou em serviço do posto de transmissões era a leitura e a escrita que ocupavam o tempo daqueles que não gostavam de jogos de cartas e de dados.

Foi assim que alguns de nós se lembraram de criar um jornal de parece, “A Voz do Luaia” (talvez fosse este o nome), constituído por recortes colados, onde não faltavam as beldades do cinema, as futeboladas do Eusébio e as notícias do Puto. A estes juntávamos escritos da nossa lavra caseira, como crónicas, histórias e poemas, tudo manuscrito.

À redacção, se a memória não me falha pertenciam o Amorim, o Caldeira, o Pedro Pereira, e outros com ideias e gosto pela escrita.

Uma ocasião fiz um poema, que mereceu a aprovação do conselho dos três capitães, que me chamaram à sua tenda cónica de índios bondosos, não para me ditarem uma mensagem a expedir, mas para me incentivaram a continuar a escrever, pois como diziam «era bom para a moral e ajudava a passar a comissão».

Sem este jornal e este empurrão não teria espalhado, certamente, até hoje a minha escrita por um número de publicações superior à minha idade.

(José Rosa Sampaio)