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S.Salvador do Congo (1965/66)

Capital da província do Zaire, norte de Angola, esta cidade, antiga capital do reino do Congo, agora designada M´Banza Congo, foi conhecida por muitos militares que nesta província passaram parcial ou totalmente as suas comissões de 2 anos de guerra, que se iniciou em Angola a 15 de Março de 1961, precisamente nas províncias do norte, Zaire e Uíge.

Assim, há muita gente que ali esteve nos anos 60 e que ainda guarda recordações, boas e más, desta cidade, como é o caso do amigo Frias Gonçalves, um apaixonado pelas guitarras de Coimbra, sua terra natal.

É pois com imenso prazer que aqui se partilham algumas fotos da sua colecção para recordar tempos tão distantes que marcaram a vida de muitos militares portugueses.

Eram os tempos dos “The Beatles”, dos “The Bee Gees”, dos “The Rolling Stones” e talvez por essas influências foi formado o grupo de “Os cacimbados”, a que pertenceu o dono das fotos, melhor dizendo “The Kacymbados”, porque cacimbados havia muitos, produto da guerra a que fomos sujeitos.

A actuação dos “The Kacymbados” ocorreu em S.Salvador do Congo, numa festa/baile, organizada pelo M.N.F. (Movimento Nacional Feminino) cujos elementos aqui posam para a foto, podendo ver-se ao meio (a mais alta), a fundadora do MNF, Cecília Supico Pinto, que faleceu em 25 de Maio de 2011 com 89 anos de idade. O MNF foi muito importante para levar apoio e moralização às tropas que combatiam em África e festas como a que aqui se retrata ocorriam por diferentes ocasiões sendo o Natal uma delas. Ao MNF devem-se também outras iniciativas como a criação dos aerogramas, uma forma de comunicação grátis dos militares para as suas famílias e amigos e também a institucionalização das “madrinhas de guerra” que mesmo sem conhecer os destinatários escreviam cartas de apoio e houve também alguns namoros que deram em casamento com este “esquema”.

Claro que não há festa sem comes e bebes e aqui está o pessoal alegre e bem-disposto. Para os que tivessem alguma inibição a “Cuca” encarregava-se de resolver o problema.

Na sanzala de S.Salvador do Congo, o nosso amigo com duas crianças.

Uma das principais actividades das mulheres na sanzala é a utilização do pilão para transformar a mandioca em farinha, base da alimentação indígena. Com força de homem a farinha fica mais fina. O nosso amigo, dando uma mãozinha.

As cubatas de uma rua da sanzala, local que todos os militares conhecem, por ser de visita obrigatória. O que tem que ser tem muita força!

Agradecendo ao amigo Frias Gonçalves, para todos aqueles que gostam de guitarradas de Coimbra, como é o meu caso, pode visitar este site: “Guitarradas de Coimbra

Mário Mendes


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A logística da FNLA

turra

A FNLA durante os anos da guerra colonial tinha a sua sede na República Democrática do Congo, e era a partir desse país que os seus guerrilheiros se infiltravam para desencadear acções no Norte de Angola.

Os aquartelamentos de  Mamarrosa e  Luvo situados junto à fronteira eram zonas onde essas infiltrações tinham lugar, e onde a C.Caç. 3413 esteve desde 09/04/1972 a 08/09/1973.

Um dia, ao percorrer a picada entre Luvo e Mamarrosa, encontramos este “turista”, que era um carregador que tinha ficado para trás do grupo onde ia integrado.  Recolhido e transportado ao aquartelamento foi batida esta “chapa”, já tratado da ferida no pé e com dois  nacos de pão na mão porque a fome era “negra”.

A casaca era feita de serapilheira, e trazia às costas um saco com mandioca e uma galinha viva.

Era homem de poucas falas, tipo “bicho do mato” e foi entregue ao comando da região em S. Salvador do Congo. Com certeza que aí “falou” porque alguns dias depois soube-se que os “páras” tinham cercado uma mata, matando alguns guerrilheiros, certamente melhor fardados e alimentados do que este “pé descalço”.

Pode-se imaginar o que era a logística da FNLA, a escravidão e as condições de vida a que sujeitava certamente muitos colaboradores “forçados”.

A foto seguinte mostra a “transformação” operada e o pouco à vontade que demonstra com esta nova roupagem, sintoma do que era a sua vida na selva.turra1

Depois deste acontecimento, a vida da  C.Caç. 3413 tornou-se mais difícil. Até Outubro de 1972, a situação manteve-se calma, mas com as dificuldades que a FNLA começou a sentir no interior, e com os seus apoiantes internacionais a exigirem “serviço”, a táctica passou a ser a realização de ataques aos aquartelamentos junto da fronteira.

O primeiro aconteceu em 22/10/1973, situação que está descrita no post “Ataque ao Luvo” publicado no dia 13/04/2009, em que o inimigo sofreu uma grande derrota.

Só voltou à carga em 02/02/1973 colocando uma mina anti-carro que foi accionada por uma Berliet, provocando 4 feridos. Três dias depois (05/02/73), outra mina pisada por um Unimog provocou um morto e dois feridos. Esta foi a semana mais “negra” da Companhia.

O Luvo sofreu outro ataque de grande envergadura no dia 26/03/1973, que não deixou baixas do nosso lado. Desiludidos por mais um fracasso, deixaram-nos em paz até ao fim da nossa permanência na zona, em 08/09/1973.

(Mário Mendes)


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Mamarrosa, no espaço e no tempo.

Mamarrosa, no espaço e no tempo.

Algumas terras em Angola no tempo da colonização eram baptizadas com nomes de terras da Metrópole, nomes de origem dos fazendeiros que ali assentaram “arraiais”. Este nome é assim derivado da freguesia de Mamarrosa, concelho de Oliveira do Bairro, distrito de Aveiro, donde era natural o patrão da fazenda de café e de outros negócios em S.Salvador, de nome Salvador Beltrão. Nesta cidade, agora chamada de M´Banza Congo, existe ainda um prédio que era conhecido por “Prédio Salvador Beltrão”, onde havia um restaurante e uma drogaria. Certamente não haverá militar que não tenha entrado lá das muitas vezes que ia à capital para reabastecimento ou nas colunas do MVL. Aqui está a foto.

salvadorbeltrao

Mamarrosa fica situada 58 Km a norte de S.Salvador do Congo, 6 km a sul do Luvo (fronteira com a República Democrática do Congo), a Oeste temos Canga a 23 Km e Magina fica a 42 Km para Este. Esta placa à saída do aquartelamento indicava estes percursos.

placa_mamarrosa

As instalações militares da Mamarrosa ficavam numa colina onde no ponto mais alto estava situada a messe dos oficiais (edifício com o nome “MAMARROSA” gravado no telhado). Esta era a vista do local, vendo-se à direita o comando e a secretaria e à esquerda o posto médico e a enfermaria. A população civil (trabalhadores da fazenda do café) situava-se no lado oposto, na parte mais baixa da colina.

Mamarrosa_ar

Outros açorianos recrutados no BII 17 em Angra do Heroísmo por aqui passaram, pois este monumento que lá deixaram prova isso mesmo. “Antes morrer livres que em Paz sujeitos” era o lema daquele batalhão da ilha Terceira. Nesta foto, vê-se ao fundo o edifício da messe dos oficiais.

emblema_bii17

Foi aqui que chegámos em 9/4/1972, depois de percorrer cerca de 550 Km desde Luanda. A primeira etapa terminou em Ambrizete onde pernoitámos, tendo passado por Ambriz e Mussera. No segundo dia passámos em Tomboco, Xamindele, Cumbi, Luanica, S.Salvador. A 8 de Setembro de 1973 fizemos o mesmo caminho de regresso para Luanda, onde estivemos até ao dia 2/10/1973. Estas 3 semanas foram as melhores da comissão, praia na ilha, cucas na Portugália, e o “Puto” ali ao virar da esquina, a 9 horas de distância!

(Mário Mendes)