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O acordo de Alvor = pedaço de papel

14-01-2005 | Fonte: Lusa (Vera Magarreiro)

O acordo de Alvor, que há 30 anos permitiu a independência de Angola e previa a paz na antiga colónia portuguesa, representa para António Almeida Santos (na foto), um dos signatários, apenas “um pedaço de papel” que “não valeu nada”.

Em entrevista à Agência Lusa, o dirigente do Partido Socialista Português, que a 15 de Janeiro de 1975 era ministro da Coordenação Interterritorial e integrava a delegação portuguesa que assinou com os líderes dos três movimentos de libertação de Angola o acordo de Alvor, no Algarve, refere que, assim que viu o documento, soube que “aquilo não resultaria”.

O acordo “previa a eleição de uma assembleia política disputada por três partidos, que tinham por detrás três exércitos e três países cheios de ambições económicas, materiais”, afirma o deputado, para justificar a sua certeza de que a solução era “inexequível”.

Além das disputas internas, estava em causa o apoio aos movimentos de três potências mundiais, em plena guerra-fria – o MLPA era apoiado pela URSS, a UNITA pela África do Sul e, num plano de fundo a própria China, e a FNLA pelos Estados Unidos, “não apenas politicamente, mas com dinheiro, material e formação”.

“Era um tabuleiro em que as grandes potências jogavam o xadrez ligado ao petróleo e aos diamantes”, afirma Almeida Santos, que na altura propôs ao “amigo” Agostinho Neto, colega dos tempos de Coimbra, uma reunião com os líderes dos três movimentos “à margem” da cimeira de seis dias, que decorreu no Hotel Penina, em Alvor.

O encontro prolongou-se pela madrugada e Almeida Santos transmitiu a sua oposição à solução encontrada: “Com este esquema vocês vão continuar aos tiros”.

“Com um órgão de cúpula em que havia uma representação dos três movimentos, ou seja dos três exércitos, que decisões é que eles iriam conseguir tomar? Como era possível conseguir uma maioria? O que ficasse em minoria desataria aos tiros”, argumenta.
Propôs então uma solução alternativa que previa uma presidência rotativa. Cada um dos líderes assumia rotativamente o cargo de presidente, de primeiro-ministro e de chefe das forças armadas ou presidente do parlamento.

A solução assentava ainda na criação de uma Constituição, que seria referendada e serviria para estruturar o novo Estado. As eleições realizar-se-iam apenas quando o país estivesse estabilizado e não antes da independência como ficou estabelecido no Acordo de Alvor.

Os três aceitaram mas, à saída, Agostinho Neto disse que tinha ainda de consultar o comité central do MPLA sobre a proposta.

“No dia seguinte a resposta foi negativa”, lamenta o deputado socialista, para quem esta solução, de que muito se orgulha, podia ter traçado um rumo diferente dos acontecimentos.

Resignou-se à solução, mas tem pena de ter sido apenas um “escriba” do documento.

“O acordo já vinha pré-estabelecido pelos líderes dos movimentos. Eu e Mário Soares (então ministro dos Negócios Estrangeiros) limitámo-nos a meter o acordo em bom português”, destaca.

“Do acordo de Alvor sou apenas um escriba, não sou mais do que isso”, reforça, lembrando que Portugal não teve outra alternativa, senão assinar por baixo o que os líderes dos movimentos decidiram uma semana antes de Alvor, em Mombaça, no Quénia.

Sobre a reunião de Mombaça, diz que “foi quase um milagre conseguir sentá-los (aos líderes dos movimentos) à mesma mesa, porque a guerra civil já estava no auge, principalmente em Luanda, onde já se estavam a matar uns aos outros”.

Para Almeida Santos, Portugal teve “um atraso mínimo de dez anos e máximo de 20” no processo de descolonização em relação a outros países como a França, a Inglaterra, a Holanda ou a Bélgica e era preciso “encontrar uma solução” urgentemente.

“As nossas tropas estavam saturadas da guerra, o que, de certo modo levou à revolução do 25 de Abril” e originou uma “psicose de pressa”, refere, lembrando que, além disso, as tropas portuguesas estavam “à beira de uma derrota na Guiné-Bissau e em Moçambique a situação estava a deteriorar-se cada vez mais”.

“Era um castelo de cartas. Sabia-se que quando caísse a primeira carta, cairiam todas as outras. Em resultado disso a descolonização foi feita em condições péssimas”, refere.

A descolonização devia ter sido feita progressivamente, porque a própria opinião pública portuguesa “não estava preparada para um salto rápido” que implicava “a perda das colónias” mas isto gerou a desconfiança nos movimentos de libertação, que exigiram a negociação simultânea de um processo de paz.

A guerra colonial prolongou-se por mais alguns meses após o 25 de Abril, o que “agravou a revolta dos militares”. “Não percebiam porque continuava a matar-se a morrer-se”, sublinha o deputado.

“Gerou-se então um clima de indisciplina, já ninguém mandava em ninguém, já não havia respeito por qualquer tipo de ordem”, uma situação “perigosíssima para quem tinha que negociar a descolonização”, agravada pelo facto de ser necessário chegar a acordo “com três e não apenas um movimento de libertação”, analisa.

“Nas circunstâncias, o acordo de Alvor foi o acordo possível, em extremo de causa. É preciso ver que é um acordo entre três beligerantes, entre três exércitos em luta uns contra os outros. É mais um armistício do que um acordo de descolonização”, considera.

No entanto, com este acordo, Portugal ganhou legitimidade para dizer “isto é um problema deles, fizemos o que tínhamos a fazer, agora entendam-se”, destaca Almeida Santos. “De certa forma legitimámos a nossa saída”.

Sem desistir da proposta apresentada em Alvor aos três dirigentes angolanos, Almeida Santos reapareceu com um documento “na mesma base”, em Junho de 1975, aproveitando a ideia de que o acordo devia ser revisto porque não estava a ser cumprido.

“O governo concordou, o Presidente da República também, mas infelizmente o Melo Antunes (na altura ministro sem pasta responsável pelos processos de descolonização) discordou, não sei porquê”, recorda.

O dirigente socialista considera que Melo Antunes estava “agarrado” à esperança de que ainda era possível que os três movimentos chegassem a acordo e recorda uma visita que ambos fizeram posteriormente a Luanda, em que conseguiram “uma trégua de duas ou três semanas”.

Estas tréguas, diz, eram, no entanto, “precárias” dado que “as razões por que eles lutavam eram tanto internas como de fora, porque naquela altura a guerra-fria mobilizava paixões terríveis”.

“Cada um defendia os seus interesses, interesses que cheiravam a petróleo e brilhavam como os diamantes, eram interesses muito fortes”, reforça.

“Fomos ultrapassados pelos acontecimentos e aquele acordo de Alvor é um acordo que não valeu nada”, sublinha Almeida Santos.

O deputado recorda o seu discurso durante a tomada de posse, em Luanda, do governo provisório acordado em Alvor, em que afirmou: “este acordo tanto pode vir a ser um bom acordo para salvar Angola como pode vir a ser apenas um pedaço de papel”.

“Infelizmente, foi apenas um pedaço de papel”, diz, 30 anos depois.

Questionado pela Lusa sobre se Portugal cometeu o mesmo erro com as negociações de paz de Bicesse, em 1991, Almeida Santos responde que não percebe por que não resultou, dado que terminara a guerra- fria, mas avança uma hipótese: “provavelmente era cedo demais, ainda não havia a saturação da guerra”.

Sobre o fim do conflito armado em 2002, possível após a morte de Savimbi, o socialista responde com uma declaração que fez há anos em Angola e que, na altura, “chocou os jornalistas”: “Angola está condenada a que a guerra dure até que um dos contendores vença o outro”.

Sobre se o cenário seria diferente caso a UNITA tivesse assumido o poder em Luanda em vez do MPLA, Almeida Santos defende que diferente seria certamente, mas que não sabe se melhor.

“Tenho as minhas dúvidas. Se ganhasse a FNLA, ficávamos debaixo da pata do Mobutu (ditador do ex-Zaire), que não era flor que se cheirasse, se ganhasse o Savimbi, ficávamos não só debaixo da pata do Savimbi mas também da África do Sul, racista. Das três hipóteses viesse o diabo e escolhesse”.

O acordo de Alvor, composto por 60 artigos, acabou por ser suspenso temporariamente três meses antes da independência de Angola, a 11 de Novembro de 1975, pelo então presidente da República, Francisco da Costa Gomes, que invocou a sua violação constante.

De Alvor, os líderes dos três movimentos de libertação – Agostinho Neto, pelo MPLA, Jonas Savimbi pela UNITA e Holden Roberto pela FNLA – levaram pelo menos a garantia de serem “únicos e legítimos representantes do povo angolano” No seu discurso, após a assinatura do acordo de Alvor, que considerou de “transcendental importância”, o presidente Costa Gomes deixou aos dirigentes dos três movimentos o desafio de encontrarem “soluções angolanas autênticas, baseadas na capacidade de diálogo, no espírito de cooperação e na boa vontade de servir” o país, apesar das “diferenças sociais, filosóficas e políticas”.

Prevaleceram as diferenças e foi abandonado o diálogo. O resultado foi mais 27 anos de guerra, desta vez civil, num país que Costa Gomes qualificou na altura como dos “mais florescentes do continente africano”.

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Tentativa da conquista do Luvo

22 de Outubro de 1972 – Faz hoje 38 anos que dois grupos de combate da C.Caç. 3413 (2º e 4º), travaram a tentativa da FNLA de conquistar o posto fronteiriço do Luvo, no norte de Angola, província do Zaire.

Efectivamente aquele movimento de libertação estava a passar por enormes dificuldades e precisava de demonstrar perante os seus apoiantes internacionais, especialmente os Estados Unidos da América, que ainda era uma força viva, para continuar a justificar o apoio que começava a ser cada vez menor pelo facto dos resultados da sua luta serem também pouco significativos.

O ataque foi de todo inesperado e nem a DGS que estava no terreno conseguiu obter informações do mesmo. Holden Roberto estava do outro lado da fronteira, preparando a “festa”, mas o nosso pequeno grupo de 51 elementos conseguiu desbaratar o inimigo com 150 homens que além de espingardas automáticas possuía morteiros e um canhão sem recuo. Valeu que a granada do primeiro disparo do canhão que atravessou uma caserna cheia de militares não rebentou e a nossa resposta foi também muito rápida. Mais pormenores AQUI.

A arma mais eficaz que tínhamos era este morteiro de 81 mm que causou muitos mortos e feridos ao inimigo, mas mesmo assim não lhe retirou a obsessão de querer tomar o Luvo a 26 de Março de 1973. Desta vez já não fomos apanhados de surpresa e novamente a FNLA foi rechaçada para o seu refúgio na República Democrática do Congo, de Mobutu Sese Seku, cunhado de Holden Roberto.

O Luvo tem importância estratégica, por ser uma porta de entrada e saída de e para a RDCongo. Ainda recentemente assistimos a uma enorme onda de refugiados angolanos expulsos daquele país vizinho, que regressou a Angola pela fronteira do Luvo.

Mário Mendes


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Dembos e Demos

Para aqueles que se interessam pela história do que foi a guerra colonial em Angola, aqui está um artigo muito interessante, datado de 2007, da autoria de Eurico Mendes, que se transcreve:

Dembos são povos indígenas do Norte de Angola, demos são génios que tanto podem ser do bem como do mal e vêm a propósito de um dembo que foi demo: Holden Roberto, nascido a 12 de Janeiro de 1923 em Mbanza Kongo e falecido a 2 de Agosto em Luanda, com 84 anos. Foi o homem que, nos anos 60, desencadeou a luta armada contra o poder colonial português em África e parecia destinado a tornar-se o primeiro presidente de Angola independente graças ao apoio dos Estados Unidos.

Os nossos destinos cruzaram-se em 1961 nas matas de Angola. Cruzaram-se é como quem diz. Eu era sargento da C.C. 319 e andava pelas matas dos Dembos, onde até os mosquitos e a chuva eram nossos inimigos, Holden circulava por Washington em carro americano de luxo.
Desembarquei em Luanda dias depois da maka dos pára-quedistas, que resolveram lançar uma granada de mão da varanda da pastelaria Versalhes, mataram um polícia, cortaram a perna de um furriel e feriram outro.
Criados pelo general Kaulza de Arriaga, os pára-quedistas estavam na moda, como mais tarde estiveram os fuzileiros e depois os comandos, mas no fundo eram todos a mesma tropa mal paga, só que com boinas diferentes. Por falar em boinas, recorde-se que o Congresso dos Estados Unidos proibiu o fornecimento de equipamento militar a Portugal, mas o uniforme de campanha dos pára-quedistas era americano denominado modelo PQ/9, assim como a  arma individual, o AR-10 Armalite de 7,62mm, em vez da G-3 distribuída no Exército. Em 22 de Novembro de 1963, quando John Kennedy foi assassinado, Kaulza teve este desabafo: “Devia ter sido quatro anos antes para se ter evitado o massacre de 15 de Março de 1961”.
Kennedy deu luz verde para a guerra em Angola, mas antes convém lembrar que Holden era bakongo, a tribo do legendário Reino do Congo, cuja capital era Mbanza Congo, rebaptizada São Salvador do Congo pelos portugueses, que ali chegaram em 1482.

Em 1878, começaram a aparecer missionários protestantes ingleses e americanos, que conquistaram os angolanos com quinino e ideais revolucionários. Uma das revoluções foi a do Tulante Bula, (1913-1915), apoiada pelo pastor J. Bowskill, da Sociedade Baptista Missionária e um dos conspiradores foi Miguel Nekaka, um dos primeiros evangelizadores angolanos, tradutor de passagens da Bíblia do inglês para bakongo e avô materno de Holden Roberto.
Um filho de Miguel, Manuel Sidney Barros Nekaka, foi enfermeiro na Missão Congregacional Americana do Dondi, no Huambo e, em 1942, fixou-se em Leopoldville e, com apoio do pastor James Russel, organizou a União dos Povos do Norte de Angola (UPNA), surgida em 1954 e dois anos depois convertida na União dos Povos de Angola (UPA), para lhe retirar o carácter tribal, que nunca perdeu. A trajectória política do clã Nekaka foi sempre acompanhada pelos americanos.
Holden foi criado em Leopoldville, onde foi baptizado pela Igreja Baptista e, em homenagem ao missionário americano que o apadrinhou, adoptou o nome de Holden Carson Graham. Usou ainda outros nomes como Joy Gilmore em cartas que enviou a Salazar, o que, segundo o anedotário angolano, levou o ditador a comentar: “Eles usam vários nomes para parecerem muitos”. Durante oito anos, Holden foi funcionário na administração colonial belga, mais interessado em futebol do que em política, mas, não podendo ser Matateu, aderiu ao movimento do tio em 1956. A sede da UPA no porto de Matadi, Congo-Brazaville, era frequentada por marinheiros negros americanos que introduziam material de propaganda para Angola e um desses marítimos, George Barnett, fundou no Lobito a primeira célula do movimento em Angola.
Mais tarde, as missões protestantes americanas em Angola tornaram-se também células clandestinas da UPA e, graças aos missionários, Holden estabeleceu ligações com o American Committee on Africa, presidido por Eleanor Roosevelt, viúva do presidente Franklin Roosevelt e activistas dos direitos cívicos como o bispo Homer Jack, da Igreja Unida América e Canadá, que o apresentou ao então senador John Kennedy em Setembro de 1959. “Estive duas horas a explicar a Kennedy o sentido da nossa luta em Angola. Ele disse-me que os Estados Unidos tinham uma tradição anticolonial e não podiam continuar a apoiar o regime de escravatura em Angola. Concordámos que era preciso fazer alguma coisa para evitar que os comunistas tomassem conta do movimento de libertação de Angola”, escreveu mais tarde Holden.
As chatices de Salazar começaram a 20 de Janeiro de 1961, quando Kennedy entrou na Casa Branca e dois dias depois o capitão Henrique Galvão se apoderou do paquete Santa Maria e ameaçou rumar a Luanda.
Kennedy estava convencido de que o nacionalismo era a melhor alternativa ao comunismo para os povos do Terceiro Mundo e, além do apoio técnico, incluindo envio de agentes americanos para as bases da UPA, Holden Roberto foi incluído na folha de pagamentos da CIA em 1961 recebendo $6.000 anuais, o que foi posteriormente aumentado para $10.000 e depois para $25.000/ano.
Marcello Mathias, ministro dos Negócios Estrangeiros, escreveu ao seu homólogo americano afirmando “ter razões para considerar os contactos da embaixada americana em Leopoldville com Holden Roberto como suspeitos e inamistosos para Portugal”.
A 4 de Março de 1961, o embaixador dos Estados Unidos em Lisboa, C. Burke Elbrick, informou o ministro da Defesa, general Botelho Moniz, da decisão da UPA de desencadear ataques em Angola, o Governo português menosprezou a informação.
Na madrugada de 15 de Março, milhares de bakongos pegaram nas catanas e massacraram mais de 1.000 brancos e 8.000 trabalhadores no Norte de Angola. Os brancos improvisaram milícias, que responderam também com violências gratuitas e começou uma guerra que se prolongou por 13 anos, com responsabilidade moral de quem a decidiu ou provocou.
Holden Roberto, que no dia 15 de Março estava nas Nações Unidas, em New York, viu dias depois imagens da matança numa televisão local e escreveu: “Vi homens esquartejados, crianças retalhadas e mulheres violadas. Estava no meio de brancos e não tive coragem de reivindicar a acção.”
Em Luanda, os brancos atiraram o carro do cônsul americano à baia, enquanto em Lisboa, em 21 de Março, houve manifestações frente à embaixada. Apesar dos protestos, o secretário de Estado Dean Rusk visitou Lisboa em 27 de Março com uma proposta de Kennedy, a independência das colónias sob a forma de autodeterminação.
O livro “Engaging Africa: Washington and the Fall of Portugal’s Colonial Empire” (Envolvimento em África: Washington e a Queda do Império Colonial de Portugal), de Witney Schneider, vice-secretário de Estado adjunto para os Assuntos Africanos durante a administração Clinton, revela que Paul Sakwa, assistente do vice-director de planeamento dos serviços de espionagem CIA elaborou um plano, o “Commonwealth Plan”, que visava convencer Portugal a conceder a auto-determinação a Angola e Moçambique, após um período de transição de oito anos, durante o qual seria realizado um referendo nas duas colónias para se determinar que tipo de relacionamento seria mantido entre os dois territórios e Portugal após a independência. Durante esse período, Holden Roberto e Eduardo Mondlane, líder da Frelimo surgida em Moçambique, seriam preparados para serem os líderes dos novos países.
“Para ajudar Salazar a engolir a pílula amarga da descolonização, Sakwa propôs que a NATO oferecesse a Portugal 500 milhões de dólares para modernizar a sua economia”, escreve Schneider.
Um ano depois a proposta foi ampliada pelo diplomata Chester Bowles, mais 500 milhões de dólares de ajuda a Portugal durante um período de cinco anos, ou seja um total de mil milhões de dólares durante o período de transição. O plano dos EUA, apresentado em Agosto de 1963 pelo vice-secretário de Estado George Ball, esbarrou na inflexibilidade da resposta de Salazar: “Portugal não está à venda”.
Em 1962, a CIA previa a derrota militar portuguesa em África, mas enganou-se.
Em 1970, um estudo do National Security Council sobre a África Austral excluía peremptoriamente a “possibilidade de um colapso português em África”. Com efeito, em 1974, o Exército português controlava todo o território, as operações tinham cessado em 1972, a livre circulação era um facto e os movimentos estavam minados por divisões internas. Agostinho Neto mandara fuzilar vários comandantes do MPLA e o movimento estava recuado na Zâmbia. Na FNLA, Holden também ordenara o fuzilamento de dezenas de oficiais e sucumbira à influência do cunhado, o (então) presidente do Zaire, ao ponto de Mobutu Sese Seko ter proposto que permitisse a independência de Angola, aceitando que Portugal escolhesse o nome de quem desejasse colocar no lugar de Holden Roberto, como o embaixador Luiz Gonzaga Ferreira revelou no livro “Quadros de Viagem de um Diplomata: África-Congo/Zaire-Angola”.
Quanto à UNITA, de Jonas Savimbi, que nas administrações Reagan e Bush pai se tornara o principal aliado de Washington em Angola, encontrava-se abaixo da linha do caminho-de-ferro de Benguela sem actividade militar conhecida e mais ou menos feita com a tropa portuguesa.
Em Janeiro de 1975, Holden, Neto e Savimbi assinaram com o Estado português oAcordo do Alvor, que marcava a independência de Angola para 11 de Novembro desse ano. Na véspera, a bandeira portuguesa desceu pela última vez no palácio do Governo, 492 depois das naus portugueses ali terem largados ferros.

Proclamada a independência, Holden Roberto borrifou-se no Acordo do Alvor, reuniu um exército com o que restava da FNLA, mercenários portugueses e ingleses, tropas da África do Sul do apartheid e avançou sobre Luanda.
Foi travado pelo MPLA e, sobretudo, pelos cubanos às portas de Luanda. Ainda se juntou a Savimbi para proclamar a efémera República Democrática de Angola, com sede no Huambo, mas que se desfez com a retirada sul-africana e não obteve apoio de nenhum país. Nessa altura, a FNLA  e o seu líder eram já uma sombra do passado. Holden exilou-se em Paris e só voltou a Luanda em 1991. O apagamento progressivo do velho líder bakongo foi consumado em 1992, nas primeiras legislativas democráticas, a FNLA obteve apenas 2,4% dos votos e cinco assentos no Parlamento. Crises internas levaram ao afastamento de Holden da presidência do partido, passando a mero presidente honorário.
Em 1974, os americanos já previam a queda de Holden e passaram a apoiar Savimbi para tentar impedir uma vitória soviética e (ainda por cima) cubana em Angola. Mas garantida a posse de Luanda, o Governo do MPLA conseguiu o reconhecimento da OUA e de Portugal em Fevereiro de 1976 e seguiram-se outros países. Os EUA, embora a Gulf continuasse a exploração do petróleo de Cabinda, só em 1993, durante o governo Clinton e 18 anos após a independência, reconheceram a República Popular de Angola.
Que me perdoem os meus amigos bakongos, mas memória que guardo do Holden Roberto é a de um líder racista e tribalista e prende-se com o Cólua, uma das pequenas localidades dos Dembos cuja população branca foi massacrada.

No dia 2 de Abril de 1961, o capitão Castelo da Silva, comandante da 7a CCE, que estava em Aldeia Viçosa, mandou um pelotão para o Cólua, com uma viatura de reparação de pontes, a fim de recolher os 30 cadáveres de homens, mulheres e crianças chacinadas. Dois dias depois, o pelotão ainda não voltara e o próprio capitão foi num jipe à sua procura, acompanhado pelo tenente Jofre dos Prazeres, dois soldados e um cipaio. O capitão cruzou-se com o pelotão que  vinha de regresso, mas preferiu avançar até ao Cólua reforçado com alguns homens do pelotão. Mas no dia seguinte, o capitão ainda não tinha voltado e o pelotão foi à sua procura e encontrou, nas proximidades do Cólua, os corpos esquartejados dos cinco militares.

O jipe, as armas e os corpos de seis militares tinham desaparecido. Mais tarde, um avião da Força Aérea avistou e socorreu dois dos desaparecidos, que tinham conseguido fugir e contaram que tinham caído numa emboscada. Um ano depois, a companhia de Aldeia Viçosa recebeu instruções para reabrir a picada do Cólua e o trabalho decorreu normalmente vários dias, mas uma manhã o pelotão foi emboscado.
O primeiro tiro furou a blindagem do unimog e o capacete de um soldado, que teve morte imediata. A tropa reagiu ao ataque, mas decidiu regressar a Aldeia Viçosa em busca de reforços abandonando o morto no capim. Quando voltaram, mais tarde, não encontraram o corpo do militar morto. Dias mais tarde, a C.C. 319 recebeu ordens para ocupar o que restava do Cólua.
O Cólua era num morro, onde meia dúzia de brancos tinham construído as suas lojas, que viviam  da compra do café aos pretos das sanzalas vizinhas do Quingenga e Cauanga e da venda das mercadorias que iam buscar a Carmona.

Das casas só restavam algumas paredes e a sanzala tinha desaparecido. A 319, nessa altura já cacimbada, tratou de instalar-se o melhor possível e ergueu uma cerca de arame farpado. Uma manhã, estávamos ocupados a carpinteirar, quando vimos sair da mata um grupo de 30 negros ou mais, com túnicas brancas e um pano branco num pau.
Pensámos que vinham em paz e ninguém foi buscar a arma. Paz uma gaita. Já dentro do acampamento, ouviu-se um apito, surgiram as catanas escondidas debaixo das túnicas e uma pistola-metralhadora começou a matraquear.

Dos nossos, três sofreram catanadas nos braços e nas costas. Valeu-nos o capitão lançar uma granada de mão que neutralizou o tipo da metralhadora (que mesmo ferido fugiu sem largar a arma) e uma sentinela que abateu dois a tiro.

Mas o grande herói foi médico, um tenente miliciano gay, que era de Viana do Castelo. No meio da confusão, dois bailundos que trabalhavam para a companhia como carregadores, procuraram refúgio no posto clínico, o tenente tomou-os por turras, empunhou a parabelum e matou os pobres.
Noutro país daria lugar a julgamento em tribunal militar, mas no Portugal de Salazar os bailundos foram convertidos em turras e deu direito a medalha entregue em solene cerimónia no dia 10 de Junho, no Terreiro do Paço, em Lisboa.

Quanto às túnicas brancas, vim a saber mais tarde que eram tocoistas, seguidores da seita evangélica Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo em África, de Simão Gonçalves Toco e apoiada pela Watch Tower, seita fundada em 1872 na Pensilvânia e cuja sede é em Brooklyn, New York.
Para os tocoistas, Simão Toco é o profeta nacionalismo angolano. Esteve preso no campo de S. Nicolau, espécie de Dachau portuguesa, mas foi exilado em 1963 para a ilha de S. Miguel, onde esteve 11 anos como faroleiro nos Ginetes.

Dias depois do inesperado assalto, um pelotão capturou nas matas o bailundo Severino José, que dizia ser obrigado a acompanhar os turras desde o 15 de Março e revelou com pormenores horrorosos a sorte dos desaparecidos homens do capitão Castelo e Silva e do soldado da 321ª CC.
Segundo o Severino, o Bomboco e Simão Lucas, chefes da sanzala do Cólua fugida nas matas, tinham obrigado os bailundos a cozinhar os quatro soldados agarrados no Cólua, depois de lhes terem cortado os dedos e as “matubas” (testículos) pendurando-os nuns paus para secarem.
Um sargento que fugira do Cólua foi capturado pelo pessoal da sanzala Quinguenga e também cozinhado e comido num festim em que, segundo a testemunha, participaram bakongos e bailundos, “pois os que se negavam a isso eram mortos e igualmente comidos, tendo o declarante assistido à morte de pelo menos 25 bailundos e que o declarante teve igualmente de comparticipar.”

O nosso soldado morto na emboscada também acabou no espeto. O canibalismo existiu no passado em todo o continente africano e em certas tribos do mais recôndito da selva africana a prática arrepiante ainda parece perdurar. Há anos, um grupo de aviadores italianos enviados pela ONU  para a República Democrática do Congo caiu nas mãos de uma dessas etnias antropófagas e deles só sobraram os esqueletos. Mas os povos do Cólua não são propriamente primitivos, há mais de 400 anos que estão em contacto com os brancos, o que levanta o problema de saber em que consistiu afinal a missão civilizadora dos europeus em África, neste caso portugueses. Mas acontece que a antropofagia não existe apenas nas sociedades primitivas. Tal como hoje, nos Estados Unidos 2007 de George W. Bush e a embrulhada do Iraque, também no Portugal 1961 de Salazar e Angola, havia muito político a tentar comer os outros. Por parvos.

Eurico Mendes – Portuguese Times

Copyright © 1997/2001 The Portuguese Times.

Autorizada a reprodução de artigos publicados nesta página desde que mencionada a origem.


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Ataque ao Luvo

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O aquartelamento do Luvo fica situado na fronteira norte de Angola, a escassos 300 metros da fronteira da República Democrática do Congo (ex-Congo belga). Sobre o rio Luvo que lhe dá o nome, a travessia para o outro lado era feita por um velha ponte metálica com tabuleiro em madeira.ponte

A povoação de Mamarrosa, onde existia uma roça de café e serração de madeiras, pertencente ao empresário Salvador Beltrão, sede da nossa Companhia, foi em tempos defendida por um Batalhão, que assegurava a defesa do Posto do Luvo com uma Companhia. Em 1969 ainda estava instalado neste local um batalhão que guarnecia os aquartelamentos de Luvo, Canga e M´Pozo com uma companhia em cada. Era zona da FNLA, e durante muito tempo vivemos uma paz tranquila e tácita, pois com 50 homens pouco mais podíamos fazer do que guardar o aquartelamento e ao inimigo também não interessava a estratégia do “bate e foge” característica da luta de guerrilha nas fronteiras, porque precisava de se infiltrar no interior do território, e foi talvez por isso que as chefias militares entenderam reduzir o pessoal nesta zona (uma companhia para a Mamarrosa, e 2 grupos de combate para o Luvo). Este local, apesar de não ter população civil, possuía um governador territorial, guarda-fiscal e DGS (eufemismo da ex-PIDE), símbolos importantes da administração, pelo que não se entende a razão de tão fraca guarnição militar. A foto aérea do local prova o evidente.

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A FNLA, de Holden Roberto, não conseguia grandes proezas no interior do território, e cada vez mais pressionada pelos seus apoiantes internacionais para “apresentar serviço” decide então mudar de táctica, aquela que nós temíamos, e começa a atacar as zonas de fronteira, refugiando-se de seguida no Congo. Ora o Luvo estava mesmo ali à mão. A noite estava estrelada naquele 22 de Outubro de 1972. Um grupo de camaradas jogava as cartas na cantina, e por volta da meia-noite dirigem-se às casernas para dormir. Os cães ladram insistentemente, facto que foi comentado, mas sem lhe dar mais importância cada um lá foi para o “vale de lençóis”.

Naquela manhã estava combinado que um grupo comandado pelo furriel Maia iria à caça (grande caçador este Maia, um dia matou uma perdiz em voo com uma espingarda mauser), para uma lagoa onde bebiam pacassas, gazelas, burros do mato e outros animais que nos serviam para o “rancho melhorado” de alguns dias, e por volta das 5 horas já estão preparados para partir. Eis que ouvem um silvo enorme acompanhado de tiros vindos de um morro ali próximo. Num ápice aquele grupo vai para um abrigo e juntamente com as sentinelas responde imediatamente com fogo de G3 e metralhadora Madsen. O som estridente das kalashnikov do inimigo juntamente com o som grosso de armas pesadas (canhão e morteiro) abafam por completo o som do fogo de meia dúzia dos nossos, mas esta resposta tão rápida certamente que os deixa confusos, pensando que estávamos à sua espera… (os cães bem nos tinham avisado!)

À medida que os nossos se vão incorporando nas trincheiras, o som das nossas armas já se equipara ao do in., e depois da entrada em acção do nosso morteiro 81 mm, que estrategicamente sempre estava apontado para aquele morro, e também com a clarear da madrugada começa a retirada com tiros esporádicos, diluídos no forte troar das nossas morteiradas, que se vão ajustando à medida que se retiram.

No rescaldo da operação que durou cerca de uma hora, verificamos que uma granada de canhão furou uma caserna junto ao tecto, com paredes de madeira, sem no entanto rebentar, o que foi uma grande sorte para nós, pois caso contrário a nossa pequena guarnição teria sofrido algumas baixas, o que provocaria grande pânico entre as nossas tropas. Também algumas granadas de morteiro caíram na parada mas a única coisa que provocaram foi a caída de muitas mangas da árvore … como se verifica na foto, e alguns vidros partidos. Também lançaram algumas granadas que não rebentaram. No morro de onde nos atacaram deixaram uma arma, alguns carregadores, muitos invólucros e muito sangue. Da nossa parte, felizmente não sofremos qualquer baixa, apenas um ferido ligeiro, que partiu um pé ao saltar de um posto de sentinela.

luvo_estragos

Segundo informações da DGS, o in. era composto por cerca de 150 homens armados, sendo a nossa guarnição de 51.Sofreu muitas baixas entre mortos e feridos, tendo o hospital mais próximo no Congo (Songololo) ficado repleto de feridos.

Soubemos também que o próprio Holden Roberto presenciou através de binóculo infravermelho a operação, tal o empenho posto na mesma pela FNLA, que pretendia ocupar o Luvo e fazer prisioneiros, de modo a justificar perante a comunidade internacional que ainda estava “viva”.

Felizmente, naquele dia a sorte esteve connosco, e também fazendo jus ao nosso lema “valor e garra” vencemos!

(Mário Mendes)