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42 anos depois


No dia 31 de Agosto de 1971, depois de 3 semanas de boa vida em Luanda, chegou a hora de marchar para a guerra. O nosso destino foi a ZIN (Zona Intervenção Norte), o itinerário seguido foi a chamada “estrada do café” como era designada a via de Luanda para Carmona, cidade onde pernoitamos, depois de cerca de 350 km percorridos.

No dia seguinte, o alcatrão ficou para trás e rumamos mais para norte até ao Vale do Loge onde ficou o terceiro GC (grupo de combate). Os restantes três depois de algum tempo de descanso e de “emborcar” algumas cervejas para refrescar as goelas secas pelo pó continuaram ainda mais para norte e no próximo entroncamento, nova divisão da companhia, o 4º GC rodou para a esquerda em direcção a Quimaria e os restantes dois rodaram à direita para o Tôto. Aqui ficaram alguns elementos da companhia, sorte a deles, mas para os operacionais dos 1º e 2º GC a viagem só terminaria algumas dezenas de km depois de ultrapassar montes, vales e floresta no planalto do Luaia e finalmente a companhia estava toda instalada.

Como integrante do segundo GC, calhou-me este último destino e depois de ter conhecido de passagem o Vale do Loge e o Tôto, esperava um alojamento ao nível destes dois, o nome “Cleópatra” até indiciava um local paradisíaco, mas quando da picada vislumbramos o sítio que seria o nosso destino, o que vimos foi um amontoado de barracas de lona e a cama que nos esperava, foi o colchão de ar que fazia parte do equipamento individual de campanha.

42 anos depois, o melhor mesmo, é recordar o que deixamos para trás em Luanda, os dias de praia na Ilha, a Portugália, o Marçal, etc., etc.

Foto: Grafanil, Agosto/1971.

Mário Mendes


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Cronologia da guerra colonial (Maio/1961)

1 – A pasta do Ultramar é entregue a Adriano Moreira que, em 1 de Maio, acompanhado pelo Secretário de Estado da Aeronáutica, está em Luanda para assistir ao desfile das tropas do primeiro contingente expedicionário que ali chegaria no dia seguinte, via marítima.

2 – Chegada a Luanda do primeiro grande contingente militar transportado por via marítima composto por 2 Batalhões de Caçadores (BCaç 88 e BCaç 92), 9 Companhias de Caçadores (CCaç), 9 Companhias de Artilharia (CArt), 2 Companhias de Cavalaria (CCav) e 4 Pelotões de Polícia Militar (PelPM).

– Ataque a Sanza Pombo e novos ataques a Mucaba e à Damba, no Norte de Angola.

4 – Ataque ao Songo, a norte de Carmona.

– Salazar remodela o Governo. Franco Nogueira entra para Ministro dos Negócios Estrangeiros e o general Venâncio Deslandes é nomeado governador-geral e comandante militar de Angola.

– O Ministro do Ultramar, Adriano Moreira, inicia a publicação de 33 diplomas legislativos para Angola.

5 – A mentalidade com que as tropas portuguesas entravam na guerra ficou bem patente no discurso de despedida de um contingente, proferido pelo ministro do Exército, general Mário Silva: «Vamos para combater, não contra seres humanos, mas contra feras e selvagens. Vamos para combater animais selvagens. Vamos enfrentar terroristas que devem ser abatidos como animais selvagens».

6 – Ataque a São Salvador do Congo.

– As tropas metropolitanas recém-chegadas começam imediatamente a reocupação militar de toda a região afectada com unidades de tipo batalhão e a acorrer às povoações que ainda continuavam isoladas e sem qualquer defesa militar.

– O transporte das companhias era feito tendo por base jipes Willes MB 4×4 mod. 1944, “jipões” Dodge 4×4 mod. 1948, camiões GMC 6×6 mod. 1952 e Ford mod. Canada 4×4 (rodado simples). Esta última viatura possuía no tejadilho da cabine, sobre o local ao lado do condutor, uma abertura circular na qual se podia colocar em operação uma metralhadora.

7 – O correspondente do jornal Observer, em Luanda, calcula que foram mortos mais de 20.000 africanos desde o início da revolta, em 4 de Fevereiro.

– Os guerrilheiros, nestes primeiros meses de guerra, acreditavam na ressurreição: mesmo que fossem mortalmente atingidos voltavam a viver – só morriam se lhes fosse amputada parte importante do corpo. Os militares receberam ordens para decapitarem os cadáveres e espetarem a cabeça em estacas – para provar aos vivos que morriam se atacassem os portugueses.

8 – Criação dos batalhões de Caçadores Pára-Quedistas n ° 21 (BCP 21), em Angola, e n° 31 (BCP 31), em Moçambique.

– Ataques a Sanza Pombo, Úcua, Santa Cruz, Macocola e Bungo, com utilização de novas armas.

– Morrem em combate um alferes e um soldado pára-quedista.

13 – Os contingentes de reforço chegados a Luanda avançam para o Norte. A coluna é composta por 150 jipes, 20 camiões de quatro toneladas e 6 camiões-tanques. Em algumas das viaturas foram instaladas protecções em chapa de aço de 10 milímetros.

– Partiu de Luanda uma coluna que, chegada ao Negage, se divide por dois eixos: o primeiro definido por Songo, Damba e Maquela do Zombo; o segundo, por Púri, Sanza Pombo, Macocola, Quimbele e Santa Cruz. As suas companhias ocupam todas as povoações das áreas onde iam estacionando.

14 – Chegada a Luanda do navio Vera Cruz arvorado em transporte de tropas.

– Sucedem-se os embarques para Angola de unidades incipientemente preparadas para o tipo de guerra com que vão defrontar-se, com mau equipamento e mau armamento.

16- Morrem em combate 1 alferes e 4 praças do BCaç 3.

21- Ataque frustrado ao nó de comunicações do Toto, a sul de Bembe.

24 – Ataque a Quimbele durante treze horas consecutivas. – Ataque ao posto de Porto Rico, próximo de Santo António do Zaire, com utilização de armas automáticas.

26 – Pedido de convocação urgente do Conselho de Segurança do ONU, por mais de 40 países afro-asiáticos, em face do agravamento da situação em Angola.

– Lord Home, ministro britânico dos Estrangeiros, visita Lisboa para conversações com Salazar.

31 – Entrevista de Salazar ao New York Times.

– Chegada do Batalhão de Caçadores 88 à Damba.

– Separação da União Sul-Africana da Commonwealth, tomando a designação de República da África do Sul.

– Durante este mês as baixas das forças portuguesas totalizaram 16 mortos. Em acções de combate morreram 15 militares.

Do livro: “Cronologia da Guerra Colonial”, de José Brandão


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Partida de Luanda – Vamos pra guerra

Tal como escrevi no penúltimo artigo, foram 3 semanas em Luanda depois do desembarque que passaram muito depressa, mas mesmo assim foi bem melhor que as nossas primeiras expectativas.
Tinha chegado a hora da verdade, Luanda e a boa vida já tinham ficado para trás e agora a coisa ia fiar mais fino. Faz hoje 40 anos que avançamos para o interior de Angola, para a ZIN (Zona de Intervenção Norte) e todos os nossos sentidos iam bem despertos para a nova realidade que nos esperava.
Saímos logo de madrugada do Grafanil e passamos no Cacuaco, na Fazenda Tentativa, onde me lembro de ver uma enorme plantação de bananeiras e chegamos ao Caxito onde fizemos uma pequena pausa. Nesta estrada circulavam livremente carros civis e nada fazia lembrar a guerra e para que não tivéssemos ilusões quanto ao resto da viagem ali fomos avisados que dali para a frente íamos atravessar zonas onde o inimigo estava muito activo e todos os cuidados eram poucos. A região dos Dembos estava ali e o perigo espreitava a cada curva.
O percurso lá continuava lentamente, Ucua, Piri, Vista Alegre, Aldeia Viçosa, Quitexe e finalmente Carmona, a capital da província do Uige, onde pernoitamos depois de uma longa viagem felizmente sem qualquer percalço. Foi assim o nosso 31 de agosto de 1971, já lá vão 40 anos.
No dia 1 de setembro, voltamos a fazer-nos a estrada, digo estrada porque a via merecia essa designação por ser alcatroada, mas depois da povoação do Songo, a estrada virou picada com todas as consequências resultantes, sendo o pó o mais incomodo.
Passamos em Nova Caipemba e depois no Colonato do Vale do Loge onde ficou o nosso terceiro pelotão. Depois de umas cervejas frescas para regalo das gargantas já atacadas pelo pó, a próxima paragem foi o Toto, onde ficou sediada a CCS.
O quarto pelotão seguiu para Quimaria e os outros dois foram parar ao planalto do Luaia, uma base táctica com barracas de lona.
E foi assim que começamos a guerra, a companhia desfeita em dois dias. Este relato muito simples fica a aguardar contributos de outros companheiros que certamente ainda se recordarão desta viagem que nos introduziu na guerra, o móbil da nossa presença em Angola. Aquelas três semanas em Luanda foi para adoçar a boca!
Mario Mendes


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Carmona (Uíge)

A província do Uíge situada no extremo norte de Angola tinha  como capital na época colonial a cidade de Carmona. Esta designação aconteceu em 1955, como homenagem ao presidente da república portuguesa Óscar Carmona, falecido em 1951, e manteve este nome até à independência de Angola, em 1975, voltando nessa altura ao seu nome inicial, Uíge.

Carmona, também esteve na rota da C.Caç. 3413, porque lá pernoitamos no dia 31 de Agosto de 1971 (BC 12 – foto abaixo, colhida na net), quando de Luanda rumamos ao nosso primeiro destino (Colonato do Vale do Loge, Quimaria, Toto e BTCleópatra), locais que foram a nossa “casa” nos primeiros meses de comissão.

A estrada de Luanda para Carmona, era também designada por “estrada do café” porque a grande produção da província era o café, havendo grandes fazendas em diversos locais, que o traziam para o mercado de Carmona onde era vendido e depois transportado para Luanda para exportação.

Por ser zona onde havia muitos fazendeiros brancos e trabalhadores bailundos ao seu serviço, foi um dos locais escolhidos pela UPA para começar os massacres em Março de 1961, Quitexe, Cólua, etc.

Nos anos 70, devido à grande riqueza que o café proporcionou, Carmona era uma cidade próspera, com muitas infraestruturas que outras cidades não tinham. Tinha um aeroporto, aero clube, piscina, colégio, escola técnica, uma delegação do Banco de Angola, o Rádio Clube do Uíge, o Grande Hotel do Uíge, Clube Recreativo do Uíge, Hospital e todos os serviços públicos.

A foto que se segue (net) mostra uma vista aérea da cidade nos anos 70.

e esta outra, o mercado do café, razão da sua prosperidade.

Para aqueles que ali viveram, aqui está um vídeo que mostra o quotidiano da cidade na década de 70.

Mário Mendes