2 comentários

Reencontro com o passado

No primeiro semestre do ano de 1971 juntaram-se no BII 17, em Angra do Heroísmo, ilha Terceira, Açores, a grande maioria dos elementos que haveriam de formar as companhias de caçadores 3412, 3413 e 3414, as duas primeiras com “guia de marcha” para Angola, a outra para a Guiné.

Já se passaram 43 anos e certamente muitos daqueles que ali estiveram tiveram já oportunidade de visitar aqueles lugares. A beleza dos Açores vale uma visita por si só, mas para quem ali esteve na sua juventude há também a curiosidade de voltar ao lugar que guardamos na nossa memória. Foram estes dois motivos que me levaram agora aos Açores na companhia de outro companheiro, o António Penedo. 

O monumento a Almeida Garrett no jardim de Angra do Heroísmo serviu de palco a muitas fotos como esta onde estão elementos das três companhias, aceitam-se identificações. 

foto87

O monumento e o jardim bem tratado lá continuam e como é natural não resistimos à foto da praxe.

IMG_2924

O BII 17, agora RG1 na base do monte Brasil também não podia ficar de fora e agora com mais 2 companheiros açorianos, um com encontro marcado, outro aparecido de improviso revivemos aquele espaço onde tudo continua na mesma.

IMG_2937

O Manuel Dutra de Lima e o Francisco Leal da Silva, respectivamente do 2º e 4º grupos de combate, ambos naturais da freguesia de Porto Judeu, Terceira, o Lima emigrado nos EUA, o Silva radicado na sua terra natal.

IMG_2943

Em S. Miguel a “ordem de serviço” incluía também o reencontro com outro companheiro que já estava de pré-aviso e com quem o Penedo e o Maia tinham estado há pouco tempo na Figueira da Foz.

IMG_3277

Na vila da Povoação com o nosso anfitrião, o Henrique César Furtado Câmara, do 4º grupo de combate.

Na paragem em Vila Franca do Campo, associei  outro companheiro do 2º grupo, de seu nome Miguel Maurício de Chaves e não perdi a oportunidade de inquirir um homem da terra, sobre o seu paradeiro, revelando que o mesmo está radicado no Canadá.

Muitas memórias foram evocadas e recordadas e no último dia passeando na marginal de Ponta Delgada vislumbramos um navio a aproximar-se do porto. Era o “Funchal” que já estivera na sucata e que voltou a navegar, o mesmo que em 1971 nos levou para os Açores e nos trouxe de volta. 

IMG_3406

Há mar e mar, há ir e voltar e termino com uma homenagem ao nosso companheiro que de modo diferente regressou à sua terra natal. Na placa com o nome dos açorianos mortos em campanha presente no forte de Ponta Delgada, lá figura o nosso homenageado António de Amaral Machado. 

IMG_3415

Um abraço para todos, despeço-me com a célebre frase que conhecemos desde 1971 e ainda está bem presente no quotidiano açoriano.

IMG_3382

Mário Mendes

Anúncios


1 Comentário

Ilha Terceira antiga

Caros companheiros da C.Caç. 3413, faz este mês 40 anos (nos meus registos está apontado o dia 4) que partimos de Angra do Heroísmo para o continente, a bordo do navio Funchal.

Depois de 4 meses, no meu caso, alguns estiveram lá menos tempo, a maior parte dos elementos da nossa companhia que ali tinha recebido instrução militar no BII 17 estava pronta para a guerra colonial.

A nós coube-nos Angola e as outras duas companhias que ao mesmo tempo ali se formaram tiveram sortes diferentes. A 3412 foi também para Angola e a 3414 rumou à Guiné.

O nosso destino foi o RI 11 em Setúbal onde completamos a instrução específica para a guerra de guerrilha que enfrentámos em Angola, o chamado IAO (Instrução de Aperfeiçoamento Operacional).

40 anos depois, ainda sentimos alguma nostalgia dos tempos que passamos na bela cidade de Angra do Heroísmo e da pesquisa que efectuei na net aqui ficam algumas fotos da Angra antiga.

Foi neste porto (Porto de Pipas) que desembarcamos em Fevereiro de 1971 e embarcamos em Junho do mesmo ano. Os navios de grande calado como o Funchal fundeavam ao largo e o transporte para terra era feito em pequenas barcaças. Atrás pode ver o imponente monte Brasil. Neste lugar hoje existe uma moderna marina.

Cais do Pátio da Alfândega e Igreja do Colégio.

A Rua Direita que ia da Praça Velha, largo da Câmara Municipal até ao porto, vendo-se ao fundo um navio.

Praça Velha. Pelos fatos dos transeuntes e pelos automóveis, esta foto é de anos muito anteriores á nossa estadia na ilha, mas a traça arquitectónica é a mesma.

Praça de toiros de São João, vendo-se ao fundo o monte Brasil e no sopé deste o castelo de São João Baptista onde dentro das muralhas estava e ainda está o aquartelamento que no nosso tempo era o BII17. Agora tem o nome de RG1. Esta praça de toiros ficou muito destruída no terramoto de 1980 e neste espaço foi construído o Centro de Congressos. Mas existe também uma nova praça de toiros que foi inaugurada em 1984, porque Angra e os terceirenses têm a festa brava no sangue e não podiam dispensar este equipamento.

O jardim Duque da Terceira (foto recente) onde também íamos nos tempos livres para ver as “flores”.

As meninas da Terceira,

Numa cantiga brejeira,

São laranjas sumarentas!

Quem dera saboreá-las,

Se não fossem de más falas,

Azedas e ciumentas.

(Amália Rodrigues)

Caros amigos, ainda está pendente uma questão há muito equacionada. Quando voltamos em conjunto a Angra do Heroísmo para um encontro de confraternização?  Os terceirenses da C.Caç. 3413 que nos lerem digam qualquer coisa …

Partimos há 40 anos e gostaríamos de voltar. Quem parte leva saudades, quem fica saudades tem!

Mário Mendes


1 Comentário

A minha entrada na CCaç.3413

Depois da recruta em Santarém e da especialidade de “Atiroense”, ou “Cacenhos” como o Azevedo adorava dizer, em Tavira, sou enviado para Beja, onde adorei  estar, diga-se. Depois de várias peripécias engraçadíssimas e algumas semanas passadas, dizem-me para me dirigir à secretaria onde havia novidades para mim. Lá fui, e sem mais, dizem-me que tinha acabado de ser “convidado” a ingressar numa Companhia Açoriana com destino a Angola!  “Açores e Angola”! Podia lá eu recusar um convite tão “Honroso”, ainda por cima com viagens, comida, cama, tudo pago para este magnífico “circuito turístico”…E no dia e hora combinados lá estava eu no Cais de Alcântara de mala aviadas. Mal sabia eu que ia ser a minha primeira grande provação,  e foi quando comecei a ter plena consciência de que o “passeio ia ter os seus custos”… Foi muito duro…O barco Funchal era civil o que me permitiu estar com os meus, bem perto do barco e até mesmo há hora de partida. E vi familiares meus, que eu imaginava duros como uma rocha, a deixarem escapar lágrimas cara abaixo…palavras de circunstância… conselhos só para dizer qualquer coisa… toma lá um maço de tabaco… um sufoco! Eu bem tentei e lá consegui não me desmanchar no meu papel de homem forte… Mas como aquilo doeu…Chegada a hora de partir, lá subi e “Adeus e até ao meu regresso”. Chaminés a fumegar, um ronco ensurdecedor do barco, e, o que ainda hoje não esqueci, o estremeção que o barco deu quando soltaram as amarras…Foi aí que senti  que era “agora”, mas… até quando? Por quanto tampo? O que fazia eu ali? Mas lá zarpamos rumo ao mar! Assim que passamos a barra, o mar começou a bater e pouco depois fomos almoçar. E era engraçado ver os empregados de mesa a andarem todos torcidos para manterem o equilíbrio. Menos piada achei sempre que metia a colher na sopa e ela, a sopa, ia andando dum lado para o outro conforme a ondulação, e não havia meio de acertar. Mas lá me desenrasquei! Que remédio…Quanto mais tempo passava pior este estava, até que rebentou uma tempestade como nunca imaginei. Foi quando tomei consciência plena de que “as forças da natureza nunca ninguém as venceu”. Foi terrível e nunca imaginei que o mar brincasse daquela maneira com um navio daquele porte. Eu que até estava batido a navegar (Cacilhas -Lisboa)  e nunca tinha enjoado,  nunca pensei conseguir vomitar tanto. Que horror, que medo daquele mar alteroso, negro, bravo e desejoso de engolir o barquito. Se é que se pode chamar barquito ao Funchal…Até ao Faial, foi sempre a partir. Nessa madrugada arrancámos manhãzinha cedo, olhando pela escotilha, vi uma mancha difusa ao longe. Era S. Jorge. Subi ao convés e passado um bocado achei estranho não ver ninguém. Dirigindo-me para o meio do navio, por entre as chaminés enormes do navio, fiquei siderado com o pico do Pico!!!

Encontrava-me no meio do Canal. Continuámos e já noite cerrada chegamos finalmente à Terceira! O navio atracou ao largo, e cá de longe víamos umas luzinhas da cidade e fogo de artifício a saudar os militares açorianos que tinham cumprido a sua comissão e vinham de chegada. O nosso transporte para terra foi feito numas barcaças, que eram muito mais baixas que o Funchal, e o transbordo, com mar alteroso, de noite, sacos e malas na mão ainda por cima, não era fácil. Tinha que ser feito no preciso momento em que a barcaça empurrada pelo mar atingia a altura da escada do navio. Eu desenrasquei-me bem. Mas vi muito boa gente hesitar e quando davam o passo em frente, ou ainda a barcaça não tinha chegado lá acima, ou vinha na descida. Resultado: grandes trambulhões. Mas chegado a terra era festa geral. E fardado como os demais militares, fui recebido e saudado como um deles e levei beijos e abraços daquela boa gente. Livre daquele burburinho todo, meti-me num táxi e de depois de quatro dias de barco, lá fui parar ao B.I.I. 17.

Ia começar a minha odisseia na C.Caç. 3413.

Joaquim Alves


Deixe um comentário

Angra do Heroísmo actual

Para aqueles que estiveram no BII 17, Angra do Heroísmo, Ilha Terceira, Açores, onde se formou a C.Caç. 3413, aqui estão umas imagens da realidade actual desta cidade (para aguçar o apetite para o tão desejado encontro de que já falámos muitas vezes, talvez em 2011, 40 anos depois de termos chegado àquela terra!)

Clique neste link: Angra do Heroísmo

Mário Mendes


Deixe um comentário

Antes morrer livres, que em paz sujeitos

Antes morrer livres, que em paz sujeitos.

Faz hoje 369 anos que Portugal reconquistou a sua independência face a Castela, e esta frase foi escrita numa carta que Ciprião de Figueiredo e Vasconcelos, então corregedor dos Açores, dirigiu ao Rei Filipe II de Espanha, em 13 de Fevereiro de 1582. Naquela missiva recusa a sujeição da ilha Terceira em troca de mercês várias, dizendo: As couzas que padecem os moradores desse afligido reyno, bastarão para vos desenganar que os que estão fora desse pezado jugo, quererião antes morrer livres, que em paz sujeitos. Nem eu darei aos moradores desta ilha outro conselho… porque um morrer bem é viver perpetuamente…

Ciprião de Figueiredo distinguiu-se como corregedor dos Açores durante a crise de sucessão de 1580, tendo governado o arquipélago durante  o período conturbado que se seguiu à aclamação nas ilhas de D.António, Prior do Crato como rei de Portugal. A ele se deve a fortificação e organização da defesa da ilha Terceira que levou à vitória na batalha de Salga, um recontro travado a 25 de Julho de 1581, na baía de Salga, na vila de São Sebastião entre uma força de desembarque castelhana e as forças portuguesas que em nome de D.António defendiam a ilha.

Esta frase foi também utilizada pelas unidades militares que ao longo dos tempos estiveram aquarteladas na fortaleza de São João Baptista, como o BII 17, onde se formou a nossa C.Caç. 3413.

Esta divisa está também presente no brasão de armas dos Açores, aprovado pelo artigo 3º do Decreto Regional nº 4/79/A, de 10 de Abril.

Aqui estão mais duas fotos do BII 17, para recordar aqueles tempos que ali passamos no ano de 1971.


Fonte: Wikipédia


176 comentários

Mamarrosa, no espaço e no tempo.

Mamarrosa, no espaço e no tempo.

Algumas terras em Angola no tempo da colonização eram baptizadas com nomes de terras da Metrópole, nomes de origem dos fazendeiros que ali assentaram “arraiais”. Este nome é assim derivado da freguesia de Mamarrosa, concelho de Oliveira do Bairro, distrito de Aveiro, donde era natural o patrão da fazenda de café e de outros negócios em S.Salvador, de nome Salvador Beltrão. Nesta cidade, agora chamada de M´Banza Congo, existe ainda um prédio que era conhecido por “Prédio Salvador Beltrão”, onde havia um restaurante e uma drogaria. Certamente não haverá militar que não tenha entrado lá das muitas vezes que ia à capital para reabastecimento ou nas colunas do MVL. Aqui está a foto.

salvadorbeltrao

Mamarrosa fica situada 58 Km a norte de S.Salvador do Congo, 6 km a sul do Luvo (fronteira com a República Democrática do Congo), a Oeste temos Canga a 23 Km e Magina fica a 42 Km para Este. Esta placa à saída do aquartelamento indicava estes percursos.

placa_mamarrosa

As instalações militares da Mamarrosa ficavam numa colina onde no ponto mais alto estava situada a messe dos oficiais (edifício com o nome “MAMARROSA” gravado no telhado). Esta era a vista do local, vendo-se à direita o comando e a secretaria e à esquerda o posto médico e a enfermaria. A população civil (trabalhadores da fazenda do café) situava-se no lado oposto, na parte mais baixa da colina.

Mamarrosa_ar

Outros açorianos recrutados no BII 17 em Angra do Heroísmo por aqui passaram, pois este monumento que lá deixaram prova isso mesmo. “Antes morrer livres que em Paz sujeitos” era o lema daquele batalhão da ilha Terceira. Nesta foto, vê-se ao fundo o edifício da messe dos oficiais.

emblema_bii17

Foi aqui que chegámos em 9/4/1972, depois de percorrer cerca de 550 Km desde Luanda. A primeira etapa terminou em Ambrizete onde pernoitámos, tendo passado por Ambriz e Mussera. No segundo dia passámos em Tomboco, Xamindele, Cumbi, Luanica, S.Salvador. A 8 de Setembro de 1973 fizemos o mesmo caminho de regresso para Luanda, onde estivemos até ao dia 2/10/1973. Estas 3 semanas foram as melhores da comissão, praia na ilha, cucas na Portugália, e o “Puto” ali ao virar da esquina, a 9 horas de distância!

(Mário Mendes)


3 comentários

In memoriam

bii17_angra Quem esteve no BII 17 em Angra do Heroísmo, Açores, no 1º semestre do ano de 1971, com certeza se lembrará dos furriéis Fernando Ribeiro e Pedro Fonseca.

Ambos fizeram parte da C.Caç. 3414 que combateu na Guiné (1971-73).

Eu já tinha conhecimento do falecimento de ambos, o Fernando em combate, o Pedro em acidente de viação já finda a comissão, em Coimbra.

A respeito do Fernando encontrei há dias na internet relatos de seus ex-camaradas, que com a devida vénia transcrevo neste blog.

 

 


guine_1973_fernando_ribeiro

Lisboa  > Belém > Monumento aos Mortos do Ultramar > O Furriel Fernando Gaspar Ribeiro é um dos milhares nomes, gravados no mármore, que constam no impressionante memorial afixado nas muralhas do Forte do Bom Sucesso.

Foto: © Luís Graça (2007). Direitos reservados.

1. Mensagem de alguém que foi das relações de amizade de um camarada nosso, morto na Guiné, e que pretende saber mais pormenores sobre a sua vida e morte. Por razões de sigilo, transcrevo apenas uma parte do teor do mail que recebi (e que circulou internamente na nossa tertúlia):

Bom dia, Luís:

Fiquei muito contente por me ter escrito e então vou contar-lhe o que se passou: (….) O Fernando Ribeiro (…) foi para a Guiné, onde esteve 24 meses. Já depois dos 22 meses a que tinha direito, foi buscar mantimentos a algures, pois dizia que estava cansado de estar no mesmo sítio. Sei que no regresso, na picada entre Binta e Farim, uma mina rebentou (…).

(…) Agora com a Internet, eu vou pesquisando coisas de que gosto e esta foi uma delas: a guerra do ultramar (…).

(…) Num dos comentários, feito pelo João Tunes, a descrição dum acontecimento era esta: quando morre um camarada nosso é como se morresse uma parte do nosso coração, então quando um camarada que ia um carro, sentado em cima dum saco de areia ao lado do condutor, foi morto por uma mina, dizendo-nos:
– Estou fodido, foderam-me a vida e eu sei que não me safo, mas digam à Fulana Tal que estou a pensar nela (1).

(…) Tudo o que me possam dizer do Fernando Ribeiro, Furriel Miliciano de artilharia, eu agradecia (…) Faleceu em Julho de 1973 (2). Foi o único da companhia que não veio.

(…) Sei que esteve também em Bafatá, também perto do Rio Cacheu e chegou a estar mesmo na fronteira do Senegal (…) .

Agradeço a sua atenção por este caso (…).

2. Comentário do editor do blogue:

Fico sensibilizado por saber que o nosso blogue já chega a muitas partes e é lido até por muita gente que nunca esteve na Guiné, nem foi tropa: por exemplo, filhos de camaradas nossos que já morreram, outros familiares, ex-namoradas … E há estórias de partir o coração… Há filhos a querer saber por onde andou o pai na Guiné… Em vida, lá em casa nunca se falava da Guiné… Por pudor, por respeito, por constrangimento… Entretanto, o pai morre precocemente, de doença ou de acidente… Há um pedaço da vida dele que passa a ser um buraco negro na memória de todos e de cada um, a nível da família…

Com culpa e lágrimas nos olhos, vem-me perguntar se os posso ajudar a encontrar um pista, um nome, uma unidade, uma terra, uma camarada…. Aconteceu-me hoje, por exemplo, com uma jovem enfermeira que me procurou, e cuja pai morreu há uns anos, de cancro no estômago… Ela era demasiada nova (15 anos) para puxar a conversa sobre a guerra e a Guiné… A mãe só o conheceu mais tarde, depois da desmobilização… A mala dele perdeu-se na viagem de regresso a casa… Não há fotos, não há aerogramas, não há memórias, traços da passagem do pai pela Guiné…

E agora aparece-me esta mulher a evocar um amigo que morreu na guerra… Confirmei que o Furriel Fernando [José Gaspar] Ribeiro morreu em combate em 15 de Julho de 1973… Dele não sei mais nada. Mas espero que outros camaradas e amigos possam trazer mais algumas pistas. Ficarei feliz se pudermos ajudar esta e outras mulheres recuperar e a fortalecer as suas recordações de juventude… Não traremos de volta, infelizmente, o Fernando (ou qualquer outro dos nossos camaradas que morreram), mas pode ser que apareça alguém que o tenha conhecido, e nos diga algo mais sobre ele e as circunstâncias em que morreu…

Esta nossa visitante não nos pediu confidencialidade… Pelo contrário, teve a coragem de dar a cara e fazer um pedido (público) de ajuda. Entendi, no entanto, que ela não pode ser exposta, em termos mediáticos, e tem direito ao respeito pela sua privacidade e intimidade… Decido publicar o seu caso, sem a identificar, e recorrer à nossa tertúlia. As nossas melhoras saudações tertulianas para ela. E aqui fica a porta aberta para esta ou outras mulheres passarem também a fazer parte deste nosso grupo de amigos e camaradas da Guiné… Elas foram, afinal, as que ficaram na rectaguarda, amando-nos, rezando por nós, escrevendo-nos, animando-os à distância… (LG) .

___________

Notas de L.G.:

(1) Vd. post 21 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 – CCCI: Morreu um soldado português no Afeganistão… http://i.ixnp.com/images/v3.75/t.gif(A. Marques Lopes / Afonso M.F. Sousa / João Tunes)

(2) Fernando José Gaspar Ribeiro, furriel do exército, morto em combate em 15 de Julho de 1973, natural de Condeixa-A-Nova, unidade mobilizadora: BII 17… Vd. Lista disponível, em formato pdf, no sítio do António Pires > Moçambique – Guerra Colonial > José da Silva Marcelino Martins > Militares que Tombaram em Campanha (1961-1974) > Guinéhttp://i.ixnp.com/images/v3.75/t.gif

Guiné > Zona Leste > Sare Bacar http://i.ixnp.com/images/v3.75/t.gif> CCAÇ 3414 (1971/73) > O Fernando Ribeiro, de pé, ao lado do seu amigo Joaquim Peixoto (hoje professor do ensino básico, em Penafiel). Morreu em Julho de 1973, já no final da sua comissão. A viatura blindada que aparece atrás, na fotografia, parece ser uma Chaimite… (LG)

Foto: Joaquim Peixoto (2007). Direitos reservados

1. Mensagem do Joaquim Peixoto:

Caro Luís Graça:

Muitas vezes recorro à Internet para saber notícias dos camaradas da CCAÇ 3414. Fiquei muito surpreendido ao verificar que alguém queria saber algo sobre o meu amigo Fernando Ribeiro (1)

Tal como ele, também eu fui furriel. Pertencíamos à mesma companhia, mas a pelotões diferentes. Formámos batalhão no BII 17, em Angra do Heroísmo. Partimos para a Guiné em 26 de Junho de 1971, a bordo do navio Niassa.

Durante um mês fizemos o IAO em Bolama. Depois partimos para Sare Bacar, a poucos metros do Senegal. Estivemos aqui muitos meses e, quando pensávamos regressar, (felizmente não tínhamos sofrido qualquer baixa) soubemos que ainda tínhamos de cumprir mais alguns meses. Ficámos em Bissau e então começaram os azares.

Numa coluna apanhámos uma mina anticarro que vitimou o condutor Parreira. Mais tarde, quando regressávamos de uma missão, sofremos uma emboscada, que vitimou o Furriel Fernando Ribeiro. Fiquei muito chocado com esta morte, porque poucas horas antes tinha estado a ter uma conversa com ele.

Pouco antes da emboscada tivemos que atravessar um rio.( Onde anos antes tinha havido um grande desastre). Essa travessia foi feita em jangadas. A minha vez de fazer essa travessia era anterior à do Fernando Ribeiro, mas este fez questão de me acompanhar e nessa viagem falou-me da namorada, do irmão, etc … Essa emboscada aconteceu numa estrada alcatroada. O F. Ribeiro seguia duas viaturas à frente da minha.

Foi muito sentida esta morte. Quando chegámos ao quartel houve alguns camaradas que ficaram em estado de choque e precisaram de receber assistência médica. Esta CCAÇ 3414 era formada por soldados açoreanos e nós, os graduados, éramos de cá.

Algum tempo depois de regressarmos da Guiné fizemos um almoço em Coimbra e fomos depositar um ramo de flores no cemitério em Condeixa. Haveria muito a dizer deste amigo que nos deixou tão cedo.

Envio também uma fotografia em que estou com ele. (O Fernando está de pé.) Chamo-me Joaquim Carlos Peixoto, vivo em Penafiel, sou Professor do 1º Ciclo .

Um grande abraço

2. Comentário de L.G.:

Obrigado, Joaquim, pelo teu testemunho. Tu eras camarada e amigo do Fernando. O teu depoimento é muito importante. Tu estavas lá, nessa emboscada fatídica… Foste o primeiro, da tua unidade, a CCAÇ 3414, a responder ao nosso pedido… Bem hajas. Gostaria que te juntasses a nós. Temos muito gosto em que faças parte da nossa tertúlia, tabanca grande ou caserna virtual. Como queiras. (LG)

_________

Nota de L.G.:

(1) Sobre o Fernado Ribeiro, vd. posts de:

24 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 – P1544: Quem conheceu o Furriel Mil Art Fernando J. G. Ribeiro, morto na picada de Binta-Farim em Julho de 1973 ? (Luís Graça)

25 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 – P1547: O Furriel Mil Atirador Fernando Ribeiro pertencia à açoriana CCAÇ 3414 e morreu entre Mansabá e Mansoa (A. Marques Lopes)

28 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 – P1554: As mulheres que ficaram na rectaguarda (Luís Graça /Paulo Raposo / Paulo Salgado / Torcato Mendonça)