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GUERRA NO ULTRAMAR PORTUGUÊS 1961 – 1974

De muito interesse para os historiadores e para a MEMÓRIA dos ex-combatentes. pois a generalidade dos que combateram na Guiné, principalmente no fim da guerra, opinava que ESTAVA PERDIDA A GUERRA COLONIAL PORTUGUESA

GUERRA COLONIAL PORTUGUESA 1961 – 1974

Jonathan Llewellyn

Espero que perdoem a um estrangeiro intrometer-se neste grupo, mas é preciso que alguém diga certas verdades.

A insurreição nos territórios ultramarinos portugueses não tinha nada a ver com movimentos nacionalistas. Primeiro, porque não havia (como ainda não há) uma nação angolana, uma nação moçambicana ou uma nação guineense, mas sim diversos povos dentro do mesmo território. E depois, porque os movimentos de guerrilha foram criados e financiados por outros países.

ANGOLA – A UPA, e depois a FNLA, de Holden Roberto foram criadas pelos americanos e financiadas (directamente) pela bem conhecida Fundação Ford e (indirectamente) pela CIA.

O MPLA era um movimento de inspiração soviética, sem implantação tribal, e financiado pela URSS. Agostinho Neto, que começou a ser trabalhado pelos americanos, só depois se virando para a URSS, tinha tais problemas de alcoolismo que já não era de confiança e acabou por morrer num pós-operatório. Foi substituído pelo José Eduardo dos Santos, treinado, financiado e educado pelos soviéticos.

A UNITA começou por ser financiada pela China, mas, como estava mais interessada em lutar contra o MPLA e a FNLA, acabou por ser tolerada e financiada pela África do Sul. Jonas Savimbi era um pragmático que chegou até a um acordo com os portugueses.

MOÇAMBIQUE – A Frelimo foi criada por conta da CIA. O controleiro do Eduardo Mondlane era a própria mulher, Janet, uma americana branca que casou com ele por determinação superior. Mondlane foi assassinado por não dar garantias de fiabilidade, e substituído pelo Samora Machel, que concordou em seguir uma linha marxista semelhante à da vizinha Tanzânia. Quando Portugal abandonou Moçambique, a Frelimo estava em tal estado que só conseguiu aguentar-se com conselheiros do bloco de leste e tropas tanzanianas.

GUINÉ –- O PAIGC formou-se à volta do Amílcar Cabral, um engenheiro agrónomo vagamente comunista que teve logo o apoio do bloco soviético. Era um movimento tão artificial que dependia de quadros maioritariamente cabo-verdianos para se aguentar (e em Cabo Verde não houve guerrilha). Expandiu-se sobretudo devido ao apoio da vizinha Guiné-Konakry e do seu ditador Sékou Touré, cujo sonho era eventualmente absorver a Guiné portuguesa.

Em resumo, territórios portugueses foram atacados por forças de guerrilha treinadas, financiadas e armadas por países estrangeiros. Segundo o Direito Internacional, Portugal estava a conduzir uma guerra legítima. E ter combatido em três frentes simultâneas durante 13 anos, estando próximo da vitória em Angola e Moçambique e com a situação controlada na Guiné, é um feito que, miitarmente falando, é único na História contemporânea.

Então porque é que os portugueses parecem ter vergonha de se orgulharem do que conseguiram?

Publicado a 01 de Junho 2013 por Jonathan Llewellyn em “Publicações recentes de outras pessoas”.


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Fronteira do Luvo

 Para aqueles que estiveram no aquartelamento do Luvo, aqui publico com a devida vénia, dois comentários muito interessantes da autoria do ex-alferes miliciano José Castilho, do Batalhão de Caçadores 3849 (1971-1973), sediado em Nóqui, norte de Angola. Este batalhão embarcou no navio Vera Cruz, tal como a C.Caç. 3413, no dia 31 de Julho de 1971, tendo chegado a Luanda a 9 de Agosto de 1971.

 José Castilho, em Março 25, 2011, disse:

A fronteira do Luvo…

Na linha de fronteira norte de Angola, entre Noqui e São Salvador, hoje Mbanza Congo, este posto fronteiriço surgia-nos dotado, com os meios necessários para desempenhar o seu papel. Autoridades civis, militarizadas e o apoio de um destacamento das Compªs da zona – Canga, normalmente. Hoje pelo que se lê aqui e acolá, a fronteira do Luvo continua a desempenhar o seu papel, reflectindo o movimento na mesma, o degelo ou o crispar das relações angolanas com os vizinhos congoleses. O Rio Luvo, sobre o qual se estende uma ponte que liga as duas margens, é testemunha do modo como evoluem as relações entre os dois países. A pág. 200, do seu livro As Brumas do Mato, em 1968/70, o então Alf Milº Capelão Leal Fernandes, do BCaç 1930, descreve a curiosa fronteira… «Durante o dia, de um posto avançado de vigilância, dominavam-se paisagens de Angola e da então Rep. do Zaire . E se aparentemente o Rio Luvo dividia, a passarinhada em manhãs alegres, o sol tudo inundando e o céu, grande e vasto, por cúpula, não consideravam fronteiras nem limites. A ponte de ferro sobre o rio, apesar das minas a espreitar na picada das bandas do Zaire, sugeria um convite permanente a um abraço fraterno e amigo com o exército e a população do Zaire. Da banda de lá, também a uns 300 metros da ponte se levantava um posto fronteiriço zairense. De lá, vinham frequentemente vozes, o toque do içar da bandeira, a passagem rápida de vultos. Embora não havendo relações diplomáticas com o Zaire, devido à intransigência da política colonial do regime de então, a nossa guerra não era com o exército congolês. Com uma fronteira tão extensa na área do Batalhão, delimitada por rios ou mesmo sem uma linha certa e definida, tornava-se quase natural, consciente ou inconscientemente, que surgissem incursões amigáveis ou aventuras juvenis». E prossegue o Alf Milº Leal Fernandes, « o pelotão, já esgotara quase a ração de combate, e então nas lavras das bandas do Congo, grossos cachos de bananas espreitavam por entre o verde da folhagem, numa oferta fácil e tentadora». Mais adiante, continua … «Alguns despimo-nos para atravessar o rio. Eu ia completamente nú», refere um dos militares. E segue, «Estavam já quase a chegar às bananeiras quando depararam com uns homens de cor, sentados, a limpar calmamente as suas armas. Não seriam nacionalistas angolanos, nem tropa zairense, mas possivelmente guardas. Ao avistá-los, seguiu-se logo uma correria cautelosa e tensa de regresso, não fosse ali armar-se alguma escaramuça de tiro e pancadaria ou um insidioso conflito diplomático». As proximidades da fronteira, geravam destas situações. Também na minha primeira saída pelos morros de Noqui, em direcção à fronteira, com um GC misto, com militares dos Morteiros já com a comissão avançada e alguns Sapadores, encontrámos 3 ou 4 mulheres zairenses, que agricultavam umas lavras em frente às antenas da Marconi, e que em francês, lá lhes conseguimos acalmar os receios e as conseguimos encaminhar de retorno à Repª do Zaire. Nem sei se cheguei a mencionar esse facto no relatório do patrulhamento. Às vezes aconteciam factos, em que o bom senso deveria ser a regra. Era o caso. Castilho

 José Castilho, em Maio 18, 2011, disse:

Companheiros de jornada Noqui: confesso que de vez em quando folheio o livro Angola – As Brumas do Mato, do Alf. Milº Capelão do BCaç 1930, Leal Fernandes, onde surgem “estórias” do diabo, só totalmente entendíveis por quem passou por aquelas paragens e viveu aquelas ou outras experiências semelhantes. Para mim uma das mais fascinantes, surge a pág,s 189 seguintes e intitula-se : sou o Pereira de Matadi! Vou tentar resumir, mantendo o colorido do insólito, esta “estória”, que se terá passado no aquartelamento do Luvo, mas poderia ser quase o argumento para um sketch dos Monty Python. O Aquartelamento ficava quase em cima da fronteira com a então Repª do Zaire, e a separação entre os dois países, era feita pelo Rio Luvo, que uma ponte atravessava. A cerca de 300 metros desta ponte, situar-se-iam quer do lado angolano quer do zairense, postos de vigilância. E de ambos os lados, Minas mais ou menos enferrujadas as do lado zairense, que transformariam uma incauta entrada naquele território, sem prestar atenção às mesmas, sobretudo de noite, numa perigosa “roleta russa”! O Luvo, era um posto fronteiriço, com serviços mínimos de Administração, Alfândega e Pide, além de uma unidade militar, naqueles anos, e estamos em finais dos anos 60, ao nível de uma Compª Oper. do BCaç 1930, com sede na Mamarrosa, em regime de rotatividade. Do lado de lá da fronteira, na Repª do Zaire, estariam muitos angolanos para ali fugidos quando da “confusão” de 1961, como os naturais diziam. E alguns deles, quase uma década depois, ansiavam por furtar-se ao controlo que a FNLA sobre eles exercia e ansiavam regressar ao seu espaço, à sua lavra, ao seu lugar de origem. A acção psicológica das autoridades militares, também contribuía para este objectivo. Daí as pontuais apresentações que por vezes se verificavam junto das unidades militares sediadas junto da fronteira. Mais tarde, com o BCaç 3849 sediado em Noqui, sucederia o mesmo. Situemo-nos porém nas palavras de Leal Fernandes e no colorido da sua descrição.(…)« Daquela vez, num domingo, em meados de Julho de 1968, na altura da mudança da Compª 1783 para o Luvo, foi um pacato cidadão. Atravessou a ponte de ferro sobre o Rio, enfiou pelo capim e cerca das 2 horas da manhã, sem que as sentinelas se apercebessem, devido talvez a um estranho manto escuro da noite, momentâneo descuido na vigilância e excessiva cautela do intruso, furou através do arame farpado que envolvia o aquartelamento e entrou. O facto é insólito, pois que a vigilância nocturna ou diurna nas várias companhias do Batalhão, eram apertadas, mas no melhor pano cai a nódoa, diz a sabedoria popular (…)».Retornemos à narrativa de Leal Fernandes, (…)« Lá dentro, na extensa parada solitária e nocturna, para todos os lados que olhasse, a mesma negrura e solidão, ninguém que o atendesse.(…)». E prossegue,(…)« foi bater à casa-posto da PSP, onde residia um subchefe e um soldado da guarda,(…)». E prossegue,(…)« Sem vir à porta, visto a hora não se prestar para divagações inúteis e pensando que se tratasse dalguma sentinela carregada de insónias ou sob o efeito de traumática tensão bélica, o subchefe gritou-lhe lá de dentro, a fim de o despachar: – Não me esteja a chatear. Vá lá para o posto, para o pé dos seus camaradas, que se o capitão sabe, ainda arranja sarilhos (…)». Portanto o suposto apresentado falhava a sua primeira tentativa de apresentação.E segue (…) «Desiludido, parada deserta, portas e janelas fechadas, teria então entrado numa caserna e acende a luz. Incomodada, a tropa portuguesa, de olhos adormecidos, julgando ser algum nativo que vivia no aquartelamento, manda-o sair e apagar a luz. Perante uma demorada indecisão para a saída, palavrões e botas teriam voado pelo ar, numa ameaça agressiva contra o inoportuno (…).» Raio de sorte a minha, que não encontro ninguém a quem apresentar-me, terá pensado o infeliz visitante. Retornemos à descrição de Leal Fernandes, (…) «De novo, desamparado e perdido na mudez e no frio da noite, envolveu-se num lençol, (…) e sentou-se nos degraus da capela, à espera da manhã e de uma palavra acolhedora e amiga (…).» Passa por ele o sargento da ronda, mas aquelas horas desusadas, imaginou que, (…) «fosse o Manuel Afonso ou o seu sobrinho, naturais de São Salvador do Congo e que, há já alguns meses, ganhavam a vida no aquartelamento (…)» e terá atirado uma interrogação, (…)« Ó Manuel Afonso, que estás aí a fazer, e seguiu adiante com um olhar rápido e oblíquo, prosseguindo a sua ronda pelos postos de sentinela restantes(…).» Isto é, falhara a terceira tentativa de apresentação. A noite vai passando e, (…)« Pouco antes das 6 horas da manhã, quase à hora do toque de alvorada, com a vida já a despertar no aquartelamento, o vulto envolvido no lençol, vendo que ninguém lhe ligava, agarrou-se à sineta da capela. Estranhando o lençol branco sobre o corpo – seria um muçulmano? Um feiticeiro? Um fanático de uma exótica seita africana? – e também aquele toque a uma hora não habitual para cerimónias litúrgicas na vida militar do mato, o sargento de ronda, o Fur. Milº(?),naquele seu característico aspecto mexido e grande humor espontâneo, lança-lhe de longe: – Que religião é a tua para estares aí a tocar a uma hora destas? – Sou o Pereira e venho de Matadi (…)» Escapara às passagens da ronda e enrolado num lençol, aguardara pela manhã. Não era definitivamente quem estes supunham. (…)« Era um homem novo e baixo, só ossos, carregado de fome e de pobreza. Entregue à autoridade militar e à Pide, foi interrogado (…).» Em jeito de confissão, (…)« Pertencera à UPA, transformada depois em na FNLA. Combatera em Angola… Participara em ataques e emboscadas à tropa portuguesa, mas – afirmava ele – nunca matara ninguém. Vivia em Matadi, quase em frente de Noqui, na margem esquerda do Rio Zaire e vinha entregar-se.(…)». Eis uma das muitas histórias que torna aliciante a leitura do livro do Alf. Milº Capelão Leal Fernandes, que sintetiza, (…) «O Pereira ,de Matadi, era um pacífico cidadão. Se ele quisesse ter sido guerrilheiro, praticar vandalismo e dezenas de mortos, bastava-lhe ter lançado umas granadas para dentro das casernas e fugir imediatamente…Mas não, a sua intenção não era destruir, nem matar…Farto da guerra e de vida no Zaire, queria regressar e entregar-se. Seria o desejo de cultivar a sua lavra abandonada? Reconhecer o lugar da sua antiga cubata? Saborear a sombra e o fruto das suas mangueiras? Rever familiares e amigos em São Salvador ou em Luanda? Para já, a sua guerra era por um pedaço de pão (…)». Castilho.


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Norte de Angola, Março de 1961

15 de março de 1961 – Faz hoje 51 anos que grande parte do norte de Angola foi varrido por uma onda de barbárie levada a cabo por guerrilheiros da UPA (União dos Povos de Angola) que não poupou nem mulheres nem crianças. A avalanche assassina em que a principal arma foram as catanas foi de tal ordem violenta que as imagens que se podem ver no vídeo podem causar perturbações a pessoas mais sensíveis.

Foi o começo da guerra em Angola e aqui fica o registo para que cenas como esta nunca mais se repitam. O vídeo pode ser visto clicando AQUI.

Um outro post sobre este assunto pode ser lido clicando AQUI.

NR: Atenção que os crimes contra a humanidade nunca prescrevem. Se em Portugal e Angola a justiça não fosse uma “treta” certamente já teria acontecido alguma coisa. O mentor destes acontecimentos (Holden Roberto) já morreu, mas ainda há muitos executantes que estão vivos e ainda se gabam do que fizeram. Basta ver os episódios do filme “a guerra” da autoria de Joaquim Furtado que passou o ano passado na RTP. Angola, esta data não é para comemorar, mas sim relembrar para que actos semelhantes nunca mais se repitam.

Mário Mendes


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Cronologia da guerra colonial (Março/1961)

?- Início dos planos “Centauro Grande”” e “Marfim Negro”, com vista à remodelação do dispositivo de forças portuguesas em Angola, com a companhia como unidade-base da contra-guerrilha.

4- Portaria declara fretado para o transporte de tropas e material de guerra o navio Niassa da Companhia Nacional de Navegação.

– A Fragata Nuno Tristão é alvejada por tiros de metralhadora e de obuses a partir da margem congolesa do rio Zaire, perto de Boma.

– Informação dos Estados Unidos ao Ministério da Defesa sobre a decisão da UPA – União das Populações de Angola, em provocar incidentes.

6- Encontro entre o ministro da Defesa, general Botelho Moniz, e o embaixador americano, Elbrick, que, segundo instruções do seu Governo, pressiona a alteração da política portuguesa em África, posição que o embaixador transmitiu a Salazar no dia seguinte.

7- Elbrick transmite a Salazar o documento enviado por Rusk, a mando de Kennedy. Os Estados Unidos prevêem convulsões graves em Angola, do tipo das do Congo ou piores, e vão votar contra Portugal em 15 de Março.

10- O Conselho de Segurança da ONU inicia o debate sobre a situação em Angola.

11- Uma nota oficiosa da Agência Geral do Ultramar torna pública uma declaração do representante da Confederação dos Trabalhadores do Quénia, em que era confessado ter a sua organização desenvolvido esforços no sentido de introduzir clandestinamente agitadores em Angola e Moçambique.

14- O posto da PIDE em São Salvador difunde uma informação em que se afirma que, no dia seguinte, se verificará um ataque da UPA.

15- Ataques dos elementos sublevados do Norte de Angola a algumas povoações, como Carmona, Aldeia Viçosa e Bessa Monteiro. A partir da fronteira e da região dos Dembos, membros da tribo Bakongo empreendem uma insurreição que alastra pelos distritos de Luanda, Cuanza-Norte, Malange, Uíge e Zaire. São chacinados dezenas de europeus, homens, mulheres e crianças, para além da destruição de bens. Estes acontecimentos, relatados detalhadamente na Imprensa nacional e internacional, causam um impacto emocional profundo na opinião pública portuguesa. A responsabilidade destas acções pertence à UPA, de Holden Roberto, movimento rival do MPLA, que distribuíra panfletos, dias antes dos acontecimentos, onde era anunciado “o início das festas para 15 de Março”. A nível operacional a Direcção da UPA elaborou uma senha que se tornou famosa: “A FILHA DO SENHOR NOGUEIRA CASA-SE NO DIA 15 DE MARÇO DE 1961”.

– O 15 de Março foi escolhido porque sendo uma época de chuvas torrenciais, seria muito difícil ao exército colonial português movimentar a sua tropa motorizada, o que daria largas vantagens aos guerrilheiros capazes de movimentarem-se nas densas matas e a pé, infligindo assim pesadas baixas ao inimigo.

– Partida de Lisboa de duas Companhias de Caçadores Especiais, (7ª e 9ª) para reforço da guarnição de Angola.

16- Das unidades aquarteladas em Luanda e Carmona partem pequenas colunas militares para a zona afectada a fim de socorrer e recolher núcleos de populações isoladas. Portugal, apenas dispunha, em toda a Província, de cerca de cinco mil soldados africanos e mil e quinhentos europeus, dos quais só uma reduzida parte estava disponível para as operações de socorro, que se tornaram extremamente difíceis, em especial nos Dembos.

– Telegrama das associações económicas de Angola ao Governo central a pedir providências.

– Chegada a Luanda da 1ª Companhia de Caçadores Pára-quedistas.

– Morre mais um militar em combate.

17- Na manhã de 17 de Março, as rádios do mundo inteiro anunciaram com grande destaque os acontecimentos ocorridos em Angola. Todos afirmaram que os mesmos tinham sacudido Angola de Cabinda ao Cunene.

– Primeiro comunicado oficial sobre os acontecimentos do Norte de Angola.

18- Início da actuação da Força Aérea no Norte de Angola.

19- Em Angola, são evacuadas para Luanda, via Engage, as mulheres e crianças de Mucaba.

20- Concentração de tropas no Norte de Angola.

– A Força Aérea bombardeia povoações nos distritos do Congo, Cuanza Norte e Malange.

– O ministro do Ultramar, almirante Lopes Alves, parte para Angola.

– Em Luanda, cerca de quatrocentos brancos cercam e isolam o consulado americano e atiram às águas da baía o carro do cônsul William Gibson. A inspiração americana da revolta da UPA é indisfarçável. Henry Kissinger, secretário de Estado, confirmou mais tarde o apoio a Holden Roberto.

21-A Imprensa informa que “No Congo português caminha-se para a completa normalidade”, e que pára-quedistas chegaram a Carmona, tendo sido “carinhosamente recebidos pela população”.

22- A Imprensa refere que o número de refugiados em Luanda ronda os 3.500, após os acontecimentos dos últimos dias.

24- O ministro do Ultramar, Lopes Alves, chega a Luanda, com competência legislativa. A estadia prolongar-se-á até dia 3 de Abril.

– Os estudantes de Lisboa festejam o Dia do Estudante, apesar da vigilância policial, sendo a última vez que a sua comemoração não será proibida.

25- Carta do general Botelho Moniz a Salazar, em que manifesta preocupação pela condução da política ultramarina.

27– A UPA e o PDA fundam a FNLA – Frente Nacional de Libertação de Angola.

30– Decreto que dá aos governadores-gerais o encargo da política de defesa de cada colónia.

31 – Criação do corpo de voluntários civis, para actuação no Norte de Angola.
– É preso em Luanda o reverendo Mendes das Neves, vigário-geral da diocese de Luanda, acusado de “ser o chefe da organização responsável pelos actos de terrorismo ocorridos em Angola”.

– Prisão e deportação para Portugal de nove padres católicos angolanos, acusados de ligações com os movimentos nacionalistas.

Do livro: “Cronologia da Guerra Colonial”, de José Brandão


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O 4 de Fevereiro – A rebelião de um sacerdote

“Na origem da rebelião de 1961, como seu inspirador, esteve o cónego Manuel Joaquim Mendes das Neves, mestiço, natural da vila do Golungo-Alto e missionário da arquidiocese de Luanda. Umas três centenas de homens escutaram a sua voz e hastearam o pendão da revolta. Nenhum tinha ligações ao MPLA.
Já demonstrei em livro e em vários outros textos que o o MPLA jamais existiu antes de 1960. Quando detonaram os motins de 4 e 10 de Fevereiro de 1961 em Luanda, esse agrupamento político (superiormente dirigido por Viriato da Cruz) achava-se confinado na Guiné-Conacri ainda em fase embrionária, sem implantação em Angola. Nesta ex-colónia portuguesa quem de facto reinava era a UPA (União das Populações de Angola), apoiada por grupúsculos clandestinos que cedo desapareceram engolidos pela vaga de prisões em 1959.
Na origem da rebelião de 1961, como seu inspirador, esteve o cónego Manuel Joaquim Mendes das Neves, mestiço, natural da vila do Golungo-Alto e missionário secular da arquidiocese de Luanda. Ele dizia na roda dos seus íntimos aliados ter chegado a hora de provocar um violento abanão no sistema colonial português tantas eram as injustiças contra os africanos. Perto de três centenas de homens escutaram a sua voz e hastearam o pendão da revolta. Nenhum tinha ligações ao MPLA. Oriundos a maior parte de Icolo e Bengo, muitos haviam sido recrutados por Neves Adão Bendinha (empregado de escritório), que passava por ser então um dos maiores activistas políticos da UPA.
Depois de aturadas pesquisas em arquivos e de entrevistas realizadas com os sobreviventes, consegui reconstituir com relativa minúcia o plano dos amotinados. A figura central desse processo foi inegavelmente Bendinha, que fazia a conexão ao cónego e dele recebia instruções. Sempre auxiliado por Domingos Manuel Mateus (pintor da construção civil) e por Paiva Domingos da Silva (carpinteiro), ele formou os grupos de ataque, nomeou um chefe para cada unidade e designou os locais estratégicos da cidade a serem acometidos. Na última semana de Janeiro, organizou a concentração dos insurrectos nas pedreiras do Cacuaco (arredores da capital), onde, sob a orientação de Bento António (pedreiro e cabo do Exército português), se ministraram rudimentos de treino militar e se ritualizaram sessões de feitiçaria de forma a imunizá-los “contra as balas dos brancos”. Enquanto decorriam estes preparativos, Luanda foi de súbito invadida por dezenas de jornalistas estrangeiros por causa da captura do Santa Maria. Corria o boato de que Henrique Galvão conduzia o navio para as costas de Angola. Este acontecimento caiu como uma bomba. Os ataques em Luanda estavam previstos acontecer somente a 13 de Março, de modo a coincidirem com o levantamento no Norte e com o debate de Angola nas Nações Unidas. Que fazer, neste caso? Não esperar mais (pensaram os insurgentes), a presença dos jornalistas era crucial, os seus relatos in loco por certo iriam provocar o maior estrondo internacional. Apenas faltava obter a aprovação do cónego. Salvador Sebastião (estafeta da Junta de Povoamento) foi o escolhido para essa missão. Na manhã de sexta-feira, 3, deslocou-se à Igreja dos Remédios e explicou ao sacerdote a mudança de planos por motivo da nova situação; comunicou que os chefes tinham deliberado passar à acção na madrugada do dia seguinte. O diálogo foi longo, com muitas reticências por parte do reverendo. Este, por fim resignado, abençoou o ataque, mas reputou-o de prematuro. Ele entendia que as coisas careciam de mais tempo e melhor preparação. O grupo responsável por atacar o Aeroporto Craveiro Lopes e incendiar os aviões estacionados na pista e nos hangares era encabeçado por Bendinha, que tinha como lugar-tenente o carpinteiro Raul Agostinho Cristóvão (ou Raul Deão). Esta investida, no entanto, falhou, ao passo que noutros pontos – Casa da Reclusão, Companhia Móvel da PSP (4.ª Esquadra), Cadeia da Administração de São Paulo, Companhia Indígena e Estação dos Correios – se registaram escaramuças entre os rebeldes e as forças da ordem. Paiva Domingos comandou o grupo de assalto à Companhia Indígena com 20 homens, mas, ao ouvir os primeiros disparos, o grupo recuou. O colectivo que carregou sobre a Cadeia da Administração ao sentir a situação mal parada correu em direcção da Companhia Móvel (4.ª Esquadra) e não conseguiu lá chegar. Os militares portugueses já tinham saído dos quartéis no encalço dos rebeldes.
No rescaldo deste assalto, que mobilizou cerca de 220 homens e deixou no terreno quinze mortos e um número indeterminado de feridos, o novo chefe-geral dos sublevados, Agostinho Cristóvão, reorganizou com Paiva Domingos os efectivos que restavam e no dia 10 pela madrugada, ambos à testa de 124 indivíduos, atacaram as dependências da Administração Civil de São Paulo, mais o Pavilhão Prisional da referida administração e a Companhia Indígena. O plano de Agostinho era desferir ataques em simultâneo com dois grupos, um chefiado por ele próprio (ou por José Carmona Adão), e outro por Paiva Domingos. O desastre, no entanto, foi catastrófico: saldou-se numa matança para os insurgentes, que tiveram dificuldade em se evadir. Raros sobreviveram em liberdade. Presos, torturados e interrogados, centenas encontraram a morte no Forte de São Pedro da Barra. De uma assentada, este antigo baluarte transformado em prisão acolheu 112 revoltosos – facto que logo gerou uma súbita acumulação de serviço, conforme se lê num relatório da PIDE, e deu azo a não se instruírem os processos em “moldes legais”. Um belo pretexto forjado pela polícia para fazer desaparecer tantos nacionalistas.
A mobilização geral principiou em Novembro de 1960, sob a batuta dos chefes que se reuniam sucessivamente em casa de uns e de outros. Os cabecilhas eram Neves Bendinha, Domingos Manuel, Paiva Domingos da Silva, Raul Deão e Virgílio Francisco (este último comandante do grupo que atacou a estação dos Correios, Telégrafos e Telefones). Eles davam conhecimento de tudo ao cónego Neves. O tecido para as fardas envergadas pelos revoltosos foi comprado na Mabílio de Albuquerque e as catanas na casa de ferragens Castro Freire. A fim de não levantar suspeitas, o cónego pediu a um fazendeiro amigo que as comprasse, alegando querer distribui-las por camponeses nativos. Em depoimento que me prestou Francisco Pedro Miguel, integrante do grupo de ataque à estação dos Correios, disse ter ido pessoalmente buscar duas caixas com catanas àquela empresa levando-as para a Sé Catedral onde as guardou num dos campanários. Mais tarde, ele e Neves Bendinha retiraram-nas de lá cautelosamente para serem limadas.
De Léopoldville, em vão, se esperou a remessa de armas de fogo, depois que Luís Alfredo Inglês (quadro superior da UPA) partiu para o Congo em meados de 1960, acompanhado por Pedro César de Barros, a pedir ajuda à direcção do movimento. Holden Roberto ignorou os apelos de Luanda. Os nacionalistas ficaram entregues a si próprios, diante do tremendo risco de um enfrentamento com forças superiores. Encenava-se um suicídio colectivo. Não obstante isso, conforme testemunho de todos os sobreviventes, havia que avançar assim mesmo, com armas brancas, sob o risco de se assistir a uma desmobilização geral e o projecto se desmoronar.”

Um texto de Carlos Pacheco, Historiador angolano, sobre o “4 de Fevereiro”
Foto: Sé de Luanda.


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Cronologia da Guerra Colonial (Fevereiro/1961)

4 – Na madrugada de 4 de Fevereiro, alguns grupos de angolanos sob a orientação de Neves Bendinha, Paiva Domingos da Silva, Domingos Manuel Mateus e Imperial Santana, dispondo de cerca de 200 homens empunhando catanas efectuam várias acções na cidade de Luanda. Um primeiro grupo começou por montar uma emboscada a uma patrulha da Polícia Móvel tendo eliminado os seus quatro ocupantes, capturaram-lhe as armas e tentaram tomar de assalto a Casa da Reclusão Militar com o principal objectivo libertar os presos políticos.

Outros grupos, atacam simultaneamente, com armas artesanais a cadeia da PIDE no bairro de S. Paulo, a cadeia da 7ª esquadra da Polícia de Segurança Pública onde igualmente havia presos, e tentam ainda ocupar a emissora estatal de rádio «Emissora Oficial de Angola». Nos confrontos morrem quarenta assaltantes, seis polícias e um cabo do exército abatido junto da Casa da Reclusão.

– O MPLA – Movimento Popular de Libertação de Angola, reclama o 4 de Fevereiro como o início da luta armada em Angola, embora na origem da rebelião, como seu inspirador, esteja o cónego Manuel Joaquim Mendes das Neves, mestiço, natural da vila do Golungo-Alto, missionário secular da arquidiocese de Luanda e que não está ligado a esse movimento.

 5 – Novos incidentes durante os funerais das vítimas do dia anterior e tumultos nos bairros africanos dos subúrbios de Luanda, (muceques), que causam numerosas vítimas entre a população negra.

– Nota oficiosa publicada na Imprensa sobre o assalto ao paquete Santa Maria ocorrido em 22 de Janeiro.

6 – Assalto aos bairros do Prenda, do Marçal e do Sambizanga. A Polícia de Segurança Pública de Luanda cercou os muceques onde são efectuadas mais de 3.000 prisões das quais resultaram cerca de 50 desaparecidos.

– Um militar da 4ª Companhia de Caçadores Especias (4ª CCE) é morto em combate.

7 – Nos dias que se seguem aos ataques da madrugada de 4 de Fevereiro, verifica-se uma frenética e desvairada “caça ao homem”. Ecoavam por toda a cidade gritos de “mata que é turra!, agarra que é Lumumba!, mata esse filho da puta!”

– Algumas fontes indicam que nos dias 5 e 6 foram massacrados 3.000 africanos em Luanda.

– Morte de mais um militar da 4ª CCE em combate.

9 – A Imprensa revela que “estão presos em Luanda cerca de 100 terroristas implicados nos acontecimentos daquela cidade”. As autoridades coloniais designavam os resistentes africanos de “terroristas” ou, ainda mais depreciativamente, de “turras”. Para os mais radicais, todos os negros eram “terroristas”.

10 – Pela madrugada, 124 indivíduos atacam as dependências da Administração Civil de São Paulo, mais o Pavilhão Prisional da referida administração e a Companhia Indígena. Os novos tumultos redundam em sete mortos e dezassete feridos.

– As milícias brancas repetem as batidas aos muceques: novos massacres e mais vítimas sem conta.

11 – Ocupação de Caombo. Informação que os indígenas amotinados se haviam dividido em duas colunas armadas, que tinham iniciado já marcha sobre esta povoação. Uma por Bange-Angola e outra por Chiquita-Canzage.

12 – Recontro de Zungue, sendo destroçada a primeira daquelas colunas. Reconstruídos vários pontões e a ponte sobre o Rio Luaxe, que havia sido incendiada.

16 – Recontro de Canzage, onde foi destroçada a segunda daquelas colunas. Reconstruídos vários pontões.

– Após o assalto comandado pelo capitão Henrique Galvão, o paquete Santa Maria, depois de resgatado, chega a Lisboa, sendo recebido por milhares de pessoas e também por Salazar, que se desloca ao cais.

17 – Em Lisboa, no Diário Popular procura-se limitar o âmbito dos acontecimentos e afastar a possível suspeita de um levantamento nacional: «Não passa do nível tribal a influência exercida pelos agitadores.»

20 – Pedido de uma reunião urgente do Conselho de Segurança da ONU para apreciação do caso de Angola, apresentado pela Libéria. O Governo português protestará contra esta solicitação, que considera ilegal.

24 – É criada em Portugal a classe de Fuzileiros com o Decreto-Lei 43515.

25 – O CEMGFA e o CEME, generais Beleza Ferraz e Câmara Pina, deslocam-se a Angola a fim de se informarem sobre a situação militar.

27 – É anunciado que a região da Baixa do Cassange está pacificada após a recusa de recolha de algodão pelos nativos por serem espoliados nos pagamentos.

– A 4ª Companhia de Caçadores Especiais (4ª CCE) que actuou nessa região junta-se às três outras Companhias de Caçadores Especiais estacionadas em Cabinda, no Toto e em Malange.

– As 4 primeiras CCE, formadas no CIOE (Centro de Instrução de Operações Especiais) de Lamego, chegaram a Angola ainda em 1960: a 1ª, comandada por Soares Carneiro, que foi para Cabinda; a 2ª, do comando de Seia Ramos, que foi para o Toto, nas vizinhanças de Carmona; a 3ª, chefiada por Teles Grilo, com destino a Malange; e a 4ª comandada pelo capitão Teixeira de Morais, que foi enviada para a Baixa do Cassange e aí enfrentou os primeiros problemas de revolta, no início de 1961, da apanha de algodão.

– Estão em Luanda mais duas Companhias de Caçadores Especiais, (5ª e 6ª) vindas de Lisboa.

Do livro: “Cronologia da Guerra Colonial”, de José Brandão


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A conquista de Nambuangongo (09/08/1961)


Edição Correio da Manhã

OPERAÇÃO VIRIATO

A conquista de Nambuangongo
Angola 1961

A vila de Nambuangongo, localizada num planalto a cerca de 200 quilómetros de Luanda, está transformada no quartel-general da União dos Povos de Angola (UPA) – o movimento independentista de Holden Roberto que, em 15 de Março, levou ao massacre de colonos e de trabalhadores bailundos por todo o Norte de Angola, A resposta militar é lenta. Apenas em finais de Abril, o pequeno contingente da província, calculado em 1.500 militares, começa a ser reforçado com tropas enviadas da metrópole. A partir de Nambuangongo, a guerrilha domina as povoações mais próximas e ameaça outras mais distantes como Ambriz, Carmona e até mesmo Luanda.

Os colonos que conseguem escapar aos massacres deixam o Norte. A maior parte das fazendas fica ao abandono. A época das chuvas está a terminar. Os meses do cacimbo costumavam anunciar os carregamentos de café para o porto de Luanda – um dos mais prósperos negócios da colónia, para cima de dois milhões de contos por colheita. Este ano, porém, será diferente. É a guerra. O governador da província, Silva Tavares, e o comandante-chefe, general Libório Monteiro, respondem como podem – e, na verdade, podem muito pouco: a reocupação do Norte não é possível com tão escasso contingente militar disponível e ainda por cima mal distribuído. Os guerrilheiros dominam uma vasta região desde as margens do Rio Zaire até ao Sul dos Dembos. Mas os comunicados oficiais publicados pelos jornais de Luanda dizem o contrário: “A situação encontra-se inteiramente sob o domínio das autoridades”.

“Mas que estucha, Botelho!”

O ministro da Defesa, general Júlio Botelho Moniz, tem em marcha um golpe de Estado. Pretende substituir Salazar por Marcelo Caetano para “modernizar” o regime e, sobretudo, encontrar uma solução para as colónias. A conspiração é abafada ainda antes de eclodir, mais por inépcia dos golpistas do que por mérito dos fiéis salazaristas. Botelho Moniz entende que deve dar uma oportunidade ao Presidente da República, almirante Américo Tomás, para demitir Salazar – e assim evitaria todos os incómodos de um golpe. Pede para ser recebido.

Moniz e Tomás eram amigos. Em privado, tratavam-se por ‘tu’, desde que se conheceram jovens cadetes na Escola de Guerra. O ministro da Defesa diz ao Presidente que tem um dia para demitir Salazar – caso contrário, levaria por diante um golpe de Estado de consequências imprevisíveis. Tomás, afundado no maple, escuta-o em pânico. Bate com as mãos nos joelhos – e desabafa alarmado: “Mas que estucha, Botelho!”.

Mal o general abandona o Palácio de Belém, o Presidente da República corre para o telefone e põe Salazar ao corrente. O chefe do Governo não perde tempo: demite Botelho Moniz e assume a pasta da Defesa Nacional. Num discurso transmitido pela rádio e televisão, em 13 de Abril de 1961, Salazar explica as mexidas no Governo. A mudança, diz, justifica-se com uma única palavra – e essa palavra é Angola. Termina com uma exaltação: “Para Angola, rapidamente e em força”.

Abafada a tentativa de golpe militar, conhecida como “Abrilada”, o presidente do Conselho e ministro da Defesa Nacional mobiliza os primeiros grandes contingentes para Angola. As tropas embarcam com pompa e circunstância no cais da Rocha do Conde de Óbidos, em Lisboa. Os primeiros batalhões, transportados no paquete Niassa, chegam a Luanda no dia 1º de Maio, uma segunda-feira.

O governador de Angola, Silva Tavares, e o comandante militar da província, general Monteiro Libório, são demitidos e mandados regressar a Lisboa. Avança para Luanda o general Carlos Silva Freire – militar que nunca saíra dos gabinetes e nunca experimentara os rigores dos trópicos: tinha como credenciais o prestígio de professor nos cursos de Estado-Maior e a cega fidelidade ao regime. Recusara participar na tentativa de golpe de Botelho Moniz a quem, de resto, lhe reconhecia escasso mérito militar: “É o melhor segundo-comandante do mundo, mas eu não lhe dava nem o comando de um pelotão”.


Testa da coluna do Batalhão 96, em Julho de 1961, na zona do Alto Lifune (foto livro)

Ordem de batalha

O general Silva Freire, à beira dos 54 anos, chega a Angola em 6 de Junho, uma terça-feira, na dupla função de governador e comandante-chefe. Mas, no dia 23, sexta-feira, desembarca em Luanda o seu substituto, o general piloto-aviador Venâncio Deslandes. Silva Freire fica encarregado do mais difícil, o comando das operações de reconquista do Norte da província.

Silva Freire recebe ordens de Lisboa para andar depressa – e bem. É criada a Zona de Intervenção Norte (ZIN). A manobra militar tem vários objectivos: interditar a fronteira, atacar a guerrilha, abrir itinerários, dar segurança às populações, restabelecer a administração civil.

O governo de Lisboa exige a vitória em menos de três meses. As instruções enviadas para Luanda são claras: (…) há a necessidade absoluta de restabelecer totalmente a paz em Angola até à reabertura da Assembleia Geral da ONU, em princípios da segunda quinzena de Setembro (…) a não dominação do terrorismo até à próxima época das chuvas representaria uma nítida vantagem em seu favor dada a dificuldade de actuação das nossas forças nessa época (…) O tempo corre a favor do inimigo. A nossa luta é verdadeiramente a contra-relógio. Há que vencer até meados de Setembro (…) o problema militar é sem dúvida de primeira prioridade, mas deve ser acompanhado e seguido da acção política, psicológica e social para recuperação das populações (…) evitar a divisão entre brancos e pretos (…) impor a disciplina e o respeito mútuo nas povoações (…) disciplinar rigidamente, através duma organização e comandos adequados e capazes, as milícias ou formações do corpo de voluntários (…).

Em meados de Maio, três semanas antes da chegada do general Silva Freire, começam as primeiras movimentações das tropas a caminho do Norte. A principal preocupação do comando militar é criar dificuldades à progressão da guerrilha e cortar-lhes as linhas de abastecimento através da fronteira com o Congo ex-Belga.

A manobra é lenta: apenas fica concluída no início de Julho. Os itinerários, na sua maior parte, estão dominados pela guerrilha. A progressão é difícil. Os guerrilheiros atrasam a marcha: derrubam árvores de grande porte sobre as picadas, cavam valas profundas, destroem pontes. As colunas militares movem-se a passo, vencem as distâncias palmo a palmo, caem nas primeiras emboscadas.

Os batalhões de Caçadores 88 e 92, desembarcados no Porto de Luanda, no dia l de Maio, recebem a missão de ocupar de Damba e Sanza Pombo – e, mais junto à fronteira, Maquela do Zombo e Santa Cruz. O Batalhão de Caçadores 156 ocupa São Salvador e Cuimba. Enquanto unidades de fuzileiros, desembarcadas em Ambriz, Ambrizete e Santo António do Zaire, tomam posições em Tomboco, Quinzau e Quelo. O general Silva Freire, que gostava de elogiar as capacidades militares de Montgomery, inicia então a segunda fase das operações, que tem como objectivo reconquistar a zona dos Dembos. O primeiro grande momento desta manobra é a Operação Viriato – para a tomada de Nambuangongo, a vila transformada em quartel-general dos guerrilheiros. Por esta altura, já estão em Angola cerca de 30 mil soldados portugueses

O Batalhão 96

No remanso da Iha de São Miguel, nos Açores, longe dos viperinos corredores dos altos comandos de Lisboa, o tenente-coronel Armando Maçanita, de 44 anos, algarvio teimoso e valente, comanda o Regimento Independente de Infantaria 18. O sossego é quebrado nos primeiros dias de Abril. Chega uma guia de marcha, que o manda apresentar-se no Continente e seguir para Luanda à frente do Batalhão de Caçadores 96. Mal sabia ele os perigos que o esperavam em Angola. Muito menos imaginava que ia ficar na história – como o primeiro a reconquistar Nambuangongo.

O Batalhão 96, constituído por quatro companhias, embarca ao som da fanfarra, no dia 5 de Maio, uma sexta-feira, na Rocha do Conde de Óbidos, em Lisboa. Desfilou pela primeira vez em Luanda em 14 de Maio, domingo, imediatamente após o desembarque. Fica aquartelado no Campo Militar do Grafanil, a cerca de 10 quilómetros da capital da província.

Duas semanas depois, as companhias já estão na zona, de guerra. Primeira missão: garantir a segurança num longo corredor entre Caxito e a Ponte do Dange. Travam aí os primeiros combates. Os guerrilheiros da UPA atacavam em hordas, às centenas: enfrentavam a saraivada de fogo de peito aberto, aos gritos, armados de catanas, paus e canhangulos.

Os guerrilheiros acreditavam na ressurreição: mesmo que fossem mortalmente atingidos voltariam a viver – e isso dava-lhes coragem para enfrentar a tropa. Os comandantes portugueses receberam instruções para decapitar os guerrilheiros mortos e espetar as cabeças em estacas. Os nacionalistas da UPA, a maior parte de etnia bacongo, estavam convencidos de que não ressuscitariam se lhes fosse amputada uma parte importante do corpo. A exibição das cabeças decepadas servia para lhes provar que morriam de cada vez que atacavam os militares portugueses e não podiam ressuscitar.

O tenente-coronel é um homem de acção. Não frequentou o curso de Estado-Maior: sente-se mais talhado para a ‘porrada’ do que para as teorias desenvolvidas nos gabinetes. Tem até uma maneira muito particular de fazer as coisas – o que causa arrepios ao superiores que preferem agir segundo a doutrina dos livros. Os homens do Estado-Maior, em Luanda, remexem-se incomodados a cada relatório do Batalhão de Caçadores 96 em campanha: “Mais uma à Maçanita…”, resmungam. É a unidade que mais munições gasta em operações.

O comandante tem ainda um modo muito próprio de se relacionar com os subordinados. Trata toda a gente por ‘tu’ – dos soldados aos oficiais. “Era muito afectivo com nós todos, mas em operações, quando as coisas não eram executadas como ele queria, chamava-nos os piores nomes e às vezes até ameaçava que, se fosse preciso, dava-nos um tiro” – recorda o coronel médico Carlos Tapadinhas, então alferes da Companhia 103.

Na zona de Caxito, uma companhia do batalhão depara-se com um numeroso grupo calculado em mais de um milhar de guerrilheiros. Maçanita põe a pistola-metralhadora FBP a tiracolo e vai ver. A mole de negros começa a formar um círculo para cercar a companhia. O tenente-coronel avança com o cabo Armindo Grilo ao lado – e os dois ficam a meia dúzia  de metros de um guerrilheiro armado de canhangulo. Parece ser o chefe. É um gigante com quase dois metros de altura. Maçanita é o primeiro a disparar: faz uma rajada e mata-o.

Vem a saber depois que o homem da guerrilha abatido é Maneca Paca – de quem os militares portugueses já tinham ouvido falar com temor.


Batalhão de Caçadores 96 desaloja guerrilheiros numa fazenda da zona de Santa Eulália
(Foto livro)

Apostas no quartel-general

Cumprida a missão entre o Caxito e a Ponte do Dange, o Batalhão de Caçadores 96 recebe novas ordens. O general Silva Freire tinha decidido lançar a Operação Viriato – a primeira acção militar de grande envergadura da Guerra Colonial. Objectivo: conquistar Nambuangongo, a vila localizada a cerca de 200 quilómetros e que desde Março estava ocupada pelos guerrilheiros da UPA.

A operação consistia na progressão de dois batalhões de Caçadores e de um esquadrão de Cavalaria por três eixos de ataque convergentes sobre Nambuangongo. O Esquadrão de Cavalaria, comandando pelo capitão Rui Abrantes, parte de Ambriz, no litoral. O Batalhão de Caçadores 114, do tenente-coronel Oliveira Rodrigues, abala da zona de Caxito – enquanto ao tenente-coronel Maçanita, à frente do Batalhão de Caçadores 96, é confiado o caminho mais longo (ver infografia na pág. 3).

A Operação Viriato, além da conquista de Nambuangongo, tem ainda como objectivo abrir três itinerários fundamentais para apoiar a reocupação militar do Norte. O mês de Julho já vai a meio e o Governo de Lisboa exige aos altos comandados de Luanda a vitória total até meados de Setembro – antes do início da época das chuvas e antes da reabertura da Assembleia Geral da ONU. Não há tempo a perder.

Está em marcha uma verdadeira corrida disputada por três unidades militares que tem como meta a vila ocupada pelos guerrilheiros. Quem chega primeiro a Nambuangongo? No quartel-general em Luanda apostavam singelo contra dobrado no Batalhão de Caçadores 114. Era comandado pelo tenente-coronel Henrique de Oliveira Rodrigues – oficial com o curso de Estado-Maior e que fora um dos alunos dilectos do general Silva Freire no Instituto de Altos Estudos Militares.

Oliveira Rodrigues foi um aluno aplicado. Aprendeu tudo o que os livros ensinam sobre estratégia, táctica e acção de comando. Silva Freire, o comandante máximo da manobra de reocupação do Norte de Angola, tinha orgulho no seu pupilo. Estava convencido que o discípulo seria o primeiro a chegar a Nambuangongo. O general, porém, estava a cometer um erro imperdoável: subestimava a tenacidade e o desembaraço do tenente-coronel Armando Maçanita que, sem os preceitos da doutrina aprendida nos altos estudos, conduzia a operação à sua maneira – “à Maçanita”, como diziam entre dentes os oficiais do estado-maior de Silva Freire.

A caminho de Nambuangongo

Na marcha para Norte, o Batalhão de Caçadores 96 foi reforçado com um pelotão de engenharia comandado pelo alferes miliciano Jardim Gonçalves, o homem que anos depois daria cartas na Banca. Armando Maçanita guardou até à morte, aos 88 anos, grande admiração pelo engenheiro. “Se não fosse o alferes Gonçalves não sei se teria conseguido chegar a Nambuangongo” – ouviam-no repetir, de lágrima traiçoeira ao canto do olho, nos almoços que todos os anos juntava os bravos do batalhão. O pelotão de engenharia, sob as ordens de Jardim Gonçalves, construiu jangadas com que atravessaram rios, removeu árvores de grande porte que impediam a passagem, ergueu pontes através das quais venceram os rios. No fim da operação, o alferes foi condecorado com uma Cruz de Guerra.

Os homens do tenente-coronel Maçanita, ao mesmo tempo que ultrapassavam as armadilhas do terreno, defendiam-se de emboscadas da UPA e rechaçavam assaltos dos guerrilheiros. Entraram várias vezes em combate – como no Rio Luica, na Fazenda Portugal, no Cassungo e no Mucondo. Enquanto o Batalhão de Caçadores 96 progredia a caminho do objectivo – o Batalhão de Caçadores 114, comandado pelo tenente-coronel Henrique Oliveira Rodrigues, não conseguia contornar as dificuldades. Tanto o comandante, Oliveira Rodrigues, como o segundo-comandante, major Balula Cid, passando pelo oficial de operações, capitão Lemos Pires – todos eram oficiais com o curso de Estado-Maior. O batalhão não consegue passar de Quissacala, sensivelmente a meio caminho entre o ponto de partida, na região de Caxito, e a vila de Nambuangongo.


Chegada do Batalhão 96 a Nambuangongo em 9 de Agosto de 1961 (foto livro)

Ordem para parar

Ao princípio da tarde do dia 9 de Agosto de 1961, uma quarta-feira, o Batalhão de Caçadores 96 estava às portas de Nambuangongo. O tenente-coronel Maçanita tinha perdido quatro homens para ali chegar. Recebe pelo rádio uma comunicação do quartel-general de Luanda. Dizem-lhe para não entrar em Nambuangongo, porque iriam lançar pára-quedistas na zona com a missão de ocupar a vila. A resposta do comandante do batalhão deixou gelados os oficiais do Estado-Maior: “Quem entra ali sou eu. E se lançarem pára-quedistas vou toma-los como inimigos, porque não sei se são portugueses” – e desligou o rádio para não receber mais mensagens.

Não queriam em Luanda que fosse o Batalhão 96 o primeiro a entrar em Nambuangongo. Estava previsto que essa honra seria concedida ao Batalhão 114.

Mas esta unidade estava irremediavelmente atrasada. Planearam então o lançamento de uma companhia de pára-quedistas – para evitar que fosse um oficial de Infantaria, sem penacho, a receber os louros da vitória. Mas o tenente-coronel Maçanita, como era próprio do seu feitio, não ligou às ordens. Estava a cerca de seis quilómetros de Nambuangongo. Montou três auto-metralhadoras à frente da coluna, que faziam fogo rasante e ininterrupto, e marchou atrás delas. A primeira companhia a entrar na vila foi a 103, comandada interinamente pelo alferes Casimiro. A honra de içar a bandeira na torre da igreja coube ao pelotão do alferes Santana Pereira. No dia seguinte, cerca das dez da manhã, chegou a Nambuangongo o Esquadrão 149, comandado pelo capitão Rui Abrantes. O Batalhão 114 continuava acantonado na zona de Quissacala onde seria reforçado por um pelotão de Cavalaria comandado pelo então alferes Manuel Monge.

A teimosia do tenente-coronel Maçanita custou-lhe um rol de pesadas acusações. Foi mandado regressar a Luanda e tiraram-lhe o comando do Batalhão 96. Mandaram-no para Lisboa para responder no Tribunal Militar. Acusavam-no de 13 crimes, entre eles, desobediência, ter recebido dinheiro de um fazendeiro e de ter mantido relações sexuais com uma negra chamada Madalena. Já na Metrópole, foi chamado ao Ministério do Exército. Um brigadeiro rasgou o processo e perguntou-lhe onde queria ser colocado. Maçanita disse-lhe que gostava de voltar a comandar o Batalhão 96, em Angola. O brigadeiro, homem previdente, aconselhou-o a escolher outra unidade: “Se quiser, vai. Mas não o aconselho, porque, como deve calcular não deixou muitos amigos em Luanda”. Maçanita pediu então para voltar ao Batalhão Independente de Infantaria 18, em São Miguel, nos Açores.

NR: Este feito ocorreu há 50 anos. O coronel Armando Maçanita faleceu em 17 de Novembro de 2005 na sua terra natal, Portimão, aos 88 anos de idade.