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Até sempre, companheiro.

42 anos depois, a tragédia deste dia (05/02/1973) vem-nos sempre à memória. Dispensam-se palavras para descrever o que aconteceu, basta ver esta viatura para se ter a ideia da violência do rebentamento de uma mina anticarro que vitimou este nosso companheiro.

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José Rosa Sampaio, outro companheiro da C.Caç. 3413, no seu livro “O Vermelho do Capim: poemas da Guerra Colonial” que publicou em 1986, dedicou um poema ao malogrado António Amaral Machado e que aqui se evoca:

Tinhas uma mosca pousada na tua face vermelha

e os teus lábios entreabertos escondiam um palavra

que não disseste a ninguém …

roubaram-te até o que não te pertenceu em vida,

pois os elos da morte não perdoam a inocência da alma.

Descansa que talvez aconteça que não estejas morto.

(Mamarrosa, maio de 1973)

As fotos que se seguem são da sepultura na freguesia de Santo António, concelho de Ponta Delgada, sua terra natal.

Uma palavra de agradecimento à Junta de Freguesia de Santo António, que teve a gentileza de enviar as fotos.

Descansa em paz companheiro, até um dia. Os teus amigos e companheiros não te esquecem.

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Mário Mendes

 


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8 de Abril de 1972

Faz hoje 42 anos que partimos de Luanda rumo ao norte de Angola. A companhia estava agora unida depois de alguns meses a deambular em vários locais do Uíge com grupos de combate em Vale do Loge, Quimaria, Tôto, Cleópatra, Cecília. O destino era a Mamarrosa, na província do Zaire, mas para lá chegar era preciso percorrer cerca de 550 km, dois dias de viagem.

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A primeira parte do percurso terminou em Ambrizete depois de passar por Cacuaco, Barra do Dande e Ambriz. Aqui terminou também a estrada alcatroada que deu lugar à picada rumo a Tomboco, São Salvador e finalmente Mamarrosa onde chegamos na tarde do dia 9 de Abril de 1972.

Depois de 8 meses sem sítio certo a Mamarrosa e o Luvo seriam agora as nossas “residências” durante o resto da comissão.

Nas duas fotos que se seguem pode-se apreciar a vista geral do aquartelamento.

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Ficamos bem impressionados com o local e as instalações, fomos muito bem recebidos pela C.Caç. 2676, uma companhia formada nos Açores como a nossa, mas não fomos “praxados” porque já não éramos maçaricos, facto que decepcionou a companhia que fomos render.

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Foto da avenida principal da Mamarrosa vista da zona da entrada para o cimo onde se situava o comando.

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Vista geral a partir do local mais elevado.

Mário Mendes


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Memórias da Mamarrosa (I)

A cerca de 6 km a Sul do Luvo, na fronteira do norte de Angola com a RD Congo situa-se a fazenda Mamarrosa onde se explorava o cultivo do café e foi nestes locais que assentamos arraiais desde Abril de 1972 a Setembro de 1973. A nossa companhia C.Caç. 3413 foi render a C.Caç. 2676 que ali chegou em 1970, curiosamente ambas formadas no BII 17, Angra do Heroísmo, ilha Terceira, Açores.

Fomos muito bem recebidos pela C.Caç. 2676, mas houve uma certa decepção porque julgavam que iam receber uns “maçaricos” acabadinhos de chegar da metrópole e verificaram que já tínhamos baptismo de fogo, 8 meses de comissão que as cores dos camuflados bem refletiam. É que nestas rendições havia sempre umas praxes determinadas pelo contraste de sentimentos entre a alegria dos que partiam com o dever cumprido e a timidez dos que chegavam e enfrentavam um destino desconhecido.

Para recordar esses tempos da década de 70, aqui se mostram umas fotos da Mamarrosa de então:

              Instalação do gerador de corrente eléctrica (1º plano)

Cozinha

Messe dos Sargentos (em remodelação). Era de madeira e foi graças à C.Caç. 2676 que os sargentos que lhes sucederam puderam usufruir de melhores condições de vida. Em nome da C.Caç. 3413, bem HAJAM.

Refeitório das praças. Já não o conhecemos assim, a madeira deu lugar ao tijolo e cimento. Outra obra da C.Caç. 2676 que melhorou a qualidade de vida de quem veio a seguir. Mais um OBRIGADO.

Uma caserna. Também aqui houve melhoramentos que saltam à vista.

Instalação onde se guardavam os géneros alimentícios.

Nota: Fotos de Carlos Santos (ex-furriel C.Caç. 2676). Há mais fotos a mostrar nos próximos capítulos.

Mário Mendes


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Mamarrosa, 1968/1969.

Do ex-combatente António Marta, do batalhão de caçadores 1930 recebi esta meia dúzia de fotos que nos transporta aos anos de 1967/68/69 no local que também conhecemos 5 anos mais tarde, que dava pelo nome “Mamarrosa” ou “Fazenda Mamarrosa”, que tinha como principal actividades a cultura do café e a exploração de madeiras, situada na província do Zaire, norte de Angola a cerca de 10 quilómetros da fronteira com a RDCongo, onde também se situava o aquartelamento “Luvo”, nome do rio que dividia os dois países.

Foram alguns milhares os militares que ao longo de 13 anos estiveram nestes locais e é sempre com alguma nostalgia que revisitamos os mesmos através de fotos que aqui partilhamos. Agradeço ao António Marta a disponibilização destes documentos do seu espólio e reafirmo que serão aqui bem-vindos todos os que quiserem testemunhar o passado que muitos milhares de jovens portugueses têm no seu “curriculum” no capítulo da guerra em África.

Transportando madeira para arranjo/conservação da ponte sobre o rio Lucossa.

A mesma ponte a ser reparada.

Salto para o tanque que ficava à entrada do aquartelamento, por detrás da secção de mecânica.

Companheiros posando para a foto, junto da caserna.

Momento de convívio.

Um jogo de futebol no campo da Mamarrosa (em 1972 designa-se por estádio Nª Senhora da Graça).

Mário Mendes


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Mina assassina

Faz hoje 40 anos que uma mina anti-carro ceifou a vida ao condutor do Unimog António de Amaral Machado que podemos reviver nesta foto, na fila da frente, o terceiro a contar da esquerda. O nosso companheiro foi sepultado no cemitério da freguesia de Santo António, concelho de Ponta Delgada, ilha de São Miguel, Açores. 

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Há tempos atrás dirigi um e-mail ao presidente da junta de freguesia solicitando-lhe se possível uma foto digital da campa deste companheiro da C.Caç. 3413, para aqui lhe prestarmos a homenagem que lhe é devida, mas não obtive qualquer resposta.

Penso que continua de pé a possibilidade de alguns de nós ainda este ano se deslocarem aos Açores e se assim for tudo faremos para “in loco” o homenagearmos colocando  um ramo de flores na sua sepultura.

Este blog já publicou outro artigo sobre este episódio que pode ser lido clicando AQUI.

Mário Mendes


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Imaginar a Magina

A C.Caç. 3413 que desde Abril de 1972 a Setembro de 1973 esteve sediada na Mamarrosa, cada vez que saía do aquartelamento topava com esta placa pregada numa árvore e que indicava que o aquartelamento de Magina se situava 42 km a leste no norte de Angola, província do Zaire, perto da fronteira do Congo que nessa época se designava por República do Zaire e hoje é a República Democrática do Congo.

Na verdade, nessa época o aquartelamento da Magina já tinha sido desmantelado, julgo que nos princípios de 1971, pelos relatos de comentários referidos neste blog, mas a placa lá continuou intacta pois que as outras localidades ainda figuravam no mapa, com destaque para São Salvador do Congo, a capital da província, onde íamos frequentemente principalmente em busca de provisões e outros serviços que não vale a pena especificar…

Hoje, o tema vai ser a Magina, porque temos a sorte de ser lidos por muitos ex-combatentes que “gastaram” pelo menos 2 anos da sua juventude em terras africanas e depois dos 60 anos é sempre bom olhar para trás e reviver o passado. As fotos que se seguem são do Horácio Marcelino que esteve na Magina e que aqui se partilham esperando que mais gente que por lá passou também se possa manifestar. Eu, que nunca lá estive, posso imaginar pelas fotos, que se tratava de um pequeno aquartelamento onde não cabia mais que uma companhia, situado num planalto, mas rodeado de floresta e montes altos, um lugar propício a flagelamentos do inimigo.

Nos primeiros anos da guerra em Angola que começou em Março de 1961, foram construídos alguns aquartelamentos estratégicos junto à fronteira norte, mesmo em locais onde não havia populações civis, para tentar estancar a infiltração dos guerrilheiros da UPA, que mais tarde se designaria por FNLA, mas num território tão vasto era difícil travar essa infiltração. Com o passar dos anos, de ambas as partes se interiorizou que esta guerra de guerrilha não se resolveria pelas armas e tacitamente a vida correu sem sobressaltos nestes locais de fronteira em que o principal interesse do inimigo era passar para o interior do território sem fazer grandes alardes.

O exército português, já farto da guerra, limitava-se o cumprir os serviços mínimos defendendo os aquartelamentos, protegendo a logística dos abastecimentos e fazendo alguns patrulhamentos para cumprir calendário. O esforço de guerra em meios humanos e materiais chegava ao limite e era preciso racionalizar esse esforço e assim progressivamente nestas regiões de fronteira foram-se substituindo batalhões por companhias, companhias por grupos de combate que consequentemente levaram ao abandono de alguns aquartelamentos como o da Magina e de pelo menos outros dois nesta zona, de seus nomes Pangala e Coma.

No ano de 1972, a estratégia da FNLA começou a alterar-se, devido também ao cansaço de tantos anos de guerra em condições difíceis, muito mais que as nossas, basta imaginar a logística dos guerrilheiros transportando materiais calcorreando a pé centenas de km. Assim, o epicentro do teatro da guerra era agora junto da fronteira onde tinham grande apoio, pois que o presidente da FNLA, Holden Roberto era cunhado do presidente da República do Zaire, Mobutu Sese Seko.

Minas nas picadas, emboscadas, flagelamentos e ataques a aquartelamentos eram notícias constantes, a táctica do “bate e foge” terminou com um período de acalmia reinante até aí.

Em cada aquartelamento, nunca faltava um campo de futebol.

Dando voz ao companheiro Horácio Marcelino e esperando que mais gente para quem a Magina não é palavra vã, deixe aqui os seus “desabafos”, transcrevo alguns comentários:

Caro Carlos Tiburcio,
Estive na Magina, entre Set. de 1965 e Jan. de 1967,integrado na CART. 1405, do BART. 1852. O guia de que fala (N’assala) também por lá esteve todo esse tempo. Além de guia era uma espécie de ordenança do comandante da companhia (Capitão Moniz) e creio que também de mais alguns oficiais. Chegou a constar que pertencia à ” dinastia dos reis do Congo ou que tinha sido soba de uma sanzala daquela zona. Uma vez foi guia de um pelotão numa operação de que eu fiz parte pela zona de Magina-a-Velha em que nos perdemos na Floresta do Dimba por uma tarde e uma noite, quando o programa era ser-mos recolhidos pelas viaturas a meio da tarde. Alguns camaradas levantaram muitas suspeitas se não teria sido o N’assala a provocar o erro do percurso. Salvou-o a calma e o equilíbrio do alferes que nos comandava. É que desde que nos perdemos até à manhã do outro dia não tínhamos nem água nem comida, uma vez que, cada elemento só tinha levado meia ração. Felizmente tudo acabou em bem.

Um abraço,
H.T. Marcelino

Apenas para fazer algumas clarificações/retificações:
O então Ten. Cor. Spinola comandava o B. de CAV. 345 que também foi operar para a zona.
No Luvo esteve a CART. 1406 e em Canga a CART. 1407.
No último parágrafo o pretendia escrever era que em 23-06-1974 o aquartelamento da Mamarrosa foi atacado pela FNLA (Holden Roberto).
Oportunamente vou tentar anexar umas fotos tiradas no local no decorrer da nossa presença.
Saudações
H.T. Marcelino

Caro Sampaio,
Fiz parte do BART.1852, mais concretamente da CART.1405 que estava destacada na Magina. A CART. 1406 estava na Canga, a 1407 no Luvo, na Mamarrosa estava a CCS. Tenho tentado chegar a algumas conclusões quanto às datas em que alguns destacamentos permaneceram naquela zona, não tem sido nada fácil. Quanto a nós, sei que ali estivemos de 09-09-1965 a 15-02-1967 e que durante este período, além de nós, também por ali “passaram” destacamentos de engenharia, para reconstrução de pontes e de vias rodoviárias (picadas) e os pelotões de morteiros que reforçavam algumas das companhias do batalhão. Pelas muitas leituras também me parece claro que BCAV 631, comandada pelo Cap. Almeida Bruno, permaneceu na Mamarrosa sensivelmente pela mesma altura da CART.102, comandada pelo Ten. Cor. Spinola, isto é de Maio de 1961 a 1962.Também me parece claro que o aquartelamento da Magina foi desmantelado em Janeiro de 1971 pela CCAÇ. 2609 do BCAÇ.2890.
Saudações

Vamos lá, companheiros de armas, revisitar o passado, porque RECORDAR É VIVER!

Mário Mendes