O SPM 3346

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O SPM 3346

Este era o número do nosso endereço postal, como obrigavam as leis e os segredos militares de um país em guerra. O Serviço Postal Militar (SPM) foi criado a 3 de Junho de 1961, embora tenha sido oficializado em 1966, através do decreto-lei n.º 46826, de 4 de Janeiro.

Recentemente descobri a existência de um livro sobre o SPM, que ainda não li, a História do Serviço Postal Militar (2004), dos irmãos Eduardo e Luís Barreiros (dois médicos do Hospital de Santa Maria, que eu conheço).

Durante os longos anos de guerra o SPM ficaria sempre estreitamente ligado aos aerogramas do Movimento Nacional Feminino (MNF) e às famosas e memoráveis madrinhas de guerra.

As cartas e aerogramas partiam e chegavam da família e dos amigos, mas as mais esperadas eram as das madrinhas de guerra, esses anjos carinhosos e pacientes, cujo papel ainda não foi suficientemente valorizado e estudado. Alguns coleccionavam-nas, e pela minha parte cheguei a ter cinco: a Leonarda que estudava em Londres, a Olinda Rodrigues de S. Tomé (o que será feito dela?), a Piedade (uma trigueira algarvia), a Luísa (do Barreiro, hoje uma avozinha sessentona), e a Zulmita (uma mulata da Guiné). Nunca fui propriamente um coleccionador e ao contrário de muitos dos afilhados não me casei com nenhuma delas.

Os aerogramas estavam isentos de franquia, e enquanto no ultramar eram oferecidos aos militares, em Portugal eram vendidos a 20 centavos.

Muitos dos aerogramas partiam «à boleia», isto é, ao cuidado do carteiro de uma terra qualquer, que naquela altura conhecia toda a gente, com o pedido de que a entregasse a uma menina bonita que encontrasse. Claro que havia sempre aqueles que tinham mais sorte na terra escolhida, e de tantas madrinhas que tinham até dispensavam aos amigos.

Da família dispersa também vinham algumas missivas, nomeadamente da mana Conceição (a minha arquivadora da guerra) e do mano furriel João Sampaio, que por ser de Farmácia (uma especialidade rara) teve o privilégio de não ir ao ultramar.

Não receber uma carta ou encomenda, no dia da distribuição do correio era a suprema maldição dos deuses. O correio saía sempre das entranhas gordas das passarolas voadores, como a SATAL, ou o «Dornier DO-27», conhecido apenas por «DO». Quando este pousava na pista poeirenta, sob a protecção de uma secção e deixava a preciosa carga sabia-se logo se tinha vindo ou não o saco do SPM, fechado a cadeado.

Para receber as cartas havia formatura ou simples ajuntamento e o carteiro de serviço era quase sempre o cabo escriturário Gaspar. Recordo-me que um dia, já na Mamarrosa, em 1972 ou 1973, o Gaspar não chamou pelo meu nome, mas quando eu regressava ao “Motel TRMS” vejo-o vir atrás de mim com uma grossa encomenda, que era muito superior às cartas que não recebi.

De todas as cartas e aerogramas que enviei para a família, que a minha irmã guardou religiosamente, nem todas chegaram ao destino. Talvez se tenham extraviado, ou sido apreendidas e devoradas pelas bocarras das censuras militar e civil. Claro que não se podia falar da guerra, porque para o regime não havia guerra, mas sim férias nas praias de Luanda e nos pegos a fazer de piscina, que construíamos junto aos rios, sempre com a protecção por perto, como aconteceu na Cecília (Luaia), onde chegaram a ser vistas a nadar umas beldades «turras».

José Rosa Sampaio, das TRMS

barreiroslivroaerogramas

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