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Luanda, há 40 anos.

Por esta altura, há 40 anos atrás, estávamos de novo em Luanda, com mesa e cama postas no Grafanil. A estadia de 6 meses que terminou em 28 de Fevereiro de 1972 nas chamadas bases tácticas, que mais não eram que acampamentos de barracas de lona com condições de habitabilidade muito precárias exigiu-nos muitos sacrifícios e por isso o regresso à “civilização” foi uma enorme alegria para todos.

O Grafanil não era um aquartelamento onde as condições fossem sequer razoáveis, mas em todo o caso nada que se comparasse aqueles “SPA´S” da Cleópatra e Cecília lá no Uíge.

A vontade de me esquecer que estava na guerra era tanta que logo que pude me instalei uns dias numa residencial ali para os lados da Mutamba para desfrutar do descanso que compensasse tantos dias mal dormidos e mal comidos. O pó das picadas tinha ficado para trás, a bela cidade de Luanda chamava por nós, toca a aproveitar.

Na mesinha de cabeceira, o rádio e uma imagem de Nossa Senhora de Fátima que me acompanharam durante toda a comissão. Quando do término da mesma, a última noite dormi numa residencial na baixa de Luanda em 1 de Outubro de 1973 e só quando cheguei a casa, ao continente, dei pela falta da imagem, o que me provocou uma enorme angústia e desilusão. Resolvi escrever ao dono da residencial, pedindo-lhe o favor de me devolver a imagem, porque era muito importante para mim e felizmente o homem acedeu ao meu pedido e sendo assim a imagem tornou à minha posse e continua a acompanhar-me.

Eis alguma fotos da Luanda que conhecemos nos anos 70.

Os dois edifícios mais altos, o BCA (Banco Comercial de Angola) e a CUCA; a praça da Mutamba; a marginal; a Avenida dos Combatentes; o estádio dos Coqueiros.

Fotos de Luanda colhidas do site: http://www.sanzalangola.com

Mário Mendes

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Grafanil


Chegados a Luanda a 9 de Agosto de 1971, mal tivemos tempo de olhar o céu, porque assim que saímos do navio Vera Cruz deram-nos ordem para entrar num comboio de mercadorias que nos havia de levar a este local, o campo militar do Grafanil.

Nos primeiros tempos da guerra o desembarque era seguido pelo desfilar das tropas na avenida marginal perante as autoridades civis e militares ao som do hino “Angola é nossa”, mas com o passar dos tempos esse ritual passou à história, porque se foi percebendo que Angola um dia, mais cedo ou mais tarde deixaria de ser nossa.

Aliás, logo nos primórdios da guerra em 1961, Portugal era já o único país europeu que se dava ao luxo e ostentação de ainda ter colónias em África e que contra tudo e todos a teimosia de Salazar pretendia perpetuar.

Hoje, vivemos outros tempos em que já nem Portugal é nosso, mas de gente sem rosto, uma associação de especuladores e agiotas, os chamados mercados. É verdade que somos nós que lhes batemos à porta com a mão estendida e por conseguinte temos que nos “dobrar” perante as suas exigências.

Voltando ao Grafanil, podemos ver na imagem de satélite que este local a meio caminho entre o centro de Luanda e Viana lá continua, mas agora todo cercado por enormes musseques, fruto do crescimento descomunal da cidade de Luanda. Talvez esteja guardado para qualquer investimento imobiliário de luxo a contrastar com os bairros envolventes, mas o que é certo é que consegue resistir ao tempo e continua incólume ao desordenamento geral que impera ao seu redor.

Ainda se pode ver o écran e a arquibancada do cinema ao ar livre. Todos os militares mobilizados para Angola conheceram este local, que não era mais que um “depósito” de tropas, guarida dos que chegavam e partiam da/para a metrópole.

As instalações eram precárias, mas mesmo assim bem melhores que aquelas que muitos de nós havíamos de encontrar nos aquartelamentos do mato. Em relação à nossa companhia (C.Caç. 3413) as diferenças foram abismais, pois quando dali partimos esperava-nos uma tenda de lona com colchão de ar lá nos confins da província do Uíge, que foi a nossa “casa” durante alguns meses.

Como campo militar em rotação permanente, o Grafanil distinguia-se dos aquartelamentos convencionais, ali ninguém sabia bem quem era quem, uns fardados outros à civil, uma barafunda enorme que proporcionava uns “desenfianços” para a vida boémia que a bela cidade de Luanda oferecia.

Aqui vão duas fotos que têm 40 anos, dos primeiros dias no Grafanil em Agosto de 1971.

Mário Mendes