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Mbanza Congo com nova imagem

Mbanza Congo Recupera a Imagem da Cidade


A cidade de Mbanza Congo, província do Zaire, está a apresentar um novo cenário. A avenida Comandante Dangereux e outras ruelas adjacentes que integram a zona urbana recebem, neste momento, um novo tapete asfáltico, uma acção muito aplaudida pelos habitantes locais, devido à melhoria da circulação rodoviária e à maior comodidade que representa para os peões.

A renovação das ruas da cidade de Mbanza Congo tem atraído satisfatoriamente a atenção da população, que vê assim concretizado um sonho adiado durante anos a fio.

Gabriel José Tambo, 27 anos, residente em Mbanza Congo há dez, afirmou ao Jornal de Angola que as estradas esburacadas e terraplanadas atormentavam o estado emocional dos habitantes.

Por isso, a intervenção que está a ser levada a cabo é por ele elogiada, ao mesmo tempo que reconhece ser fruto dos esforços que o governo imprime no sentido de melhorar os serviços e as condições de vida das populações. “Um ganho que resulta dos dez anos de paz”, acrescentou Gabriel Tambo.
Para ele, a recuperação da imagem da cidade vai influenciar a presença de potenciais investidores nacionais e estrangeiros com interesse em relançar o adormecido sector empresarial na região.

“Estamos satisfeitos com o governo, porque a circulação de viaturas e de peões vai dar outra dinâmica à cidade, na fase conclusiva da empreitada (asfaltagem). Já não duvidamos que estamos a dar passos seguros para o desenvolvimento sustentável que aspiramos. A nova imagem que a cidade está a ganhar dignifica-nos e faz-nos sentir orgulhosos”, garantiu.

Fim da poeira

A ausência de asfalto nas ruas do município tem obrigado muitas famílias a manterem as portas e janelas sempre fechadas, para acautelar a infiltração de poeira. Além disso, há a referir a situação frequente de doenças respiratórias que o vulcão de poeira causa. Hoje, esse calvário tem os dias contados, com o arranque das obras de asfaltagem das estradas e ruelas da capital do Zaire.

Habitantes e visitantes já esboçam sorrisos nos semblantes e são unânimes em frisar que “valeu a pena esperar”. Foi com estas palavras que o motociclista Henrique de Lemos, 24 anos, manifestou a sua satisfação à reportagem do Jornal de Angola. Residente no município do Tomboco, disse que a viagem de motorizada durou pouco mais de hora e meia, o que não acontecia num passado recente, quando a estrada estava em péssimas condições, à semelhança das demais estradas do município. “Parti do Tomboco às 6h30 e cheguei a Mbanza Congo às 7h40. A viagem foi rápida, devido às novas condições da estrada que liga os dois municípios” sublinhou, lembrando as peripécias de que era vítima no passado, durante este percurso.

“Antes, o sofrimento que se vivia na estrada número 110 entre Tomboco e Mbanza Congo era igual em relação aos buracos e à poeira que existe em Mbanza Congo” disse o jovem. A viagem provocava avarias nos veículos, principalmente com a destruição dos amortecedores, rótulas e pneus.
Henrique de Lemos afirmou estar satisfeito com o trabalho do Executivo, por também direccionar as suas atenções para a criação de condições básicas da população do Zaire.

“Vim renovar o meu Bilhete de Identidade e regresso de moto no mesmo dia para o meu município” disse Henrique de Lemos.

Para Sousa Ernesto, 25 anos, que conseguiu o seu primeiro emprego como ajudante do camião que transporta alcatrão da empresa chinesa responsável pelas obras, é uma honra participar num projecto tão significativo, em benefício dos munícipes de Mbanza Congo, uma vez que a reabilitação das estradas vai ser uma mola impulsionadora para o desenvolvimento de uma cidade com potencial histórico reconhecido.

“Todos os jovens da região devem predispor-se a dar o seu contributo para o desenvolvimento deste município, que é um dos baluartes da memória ancestral do povo angolano”, concluiu.

Os trabalhos de reabilitação das estradas começaram há uma semana e ficam concluídos em Julho, garantiu ao Jornal de Angola o coordenador provincial do Programa de Infra-Estruturas Integradas para a província do Zaire, Eduardo Chilembo.

Programa integrado

A empresa responsável pelas obras leva a cabo um aturado trabalho de tapa buracos no antigo pavimento, limpeza de resíduos e pintura de ligação com alcatrão, além da aplicação de pavimento asfáltico novo, com cinco centímetros de espessura.

Eduardo Chilembo explicou que os processos globais da asfaltagem, que envolvem todas as ruas do município sede e cujos trabalhos evidenciam avanços substanciais, ficam concluídos até Dezembro deste ano. Os trabalhos incluem a construção da estrada entre o complexo residencial das 15 Casas, área suburbana, e a rotunda do supermercado Nosso Super. A acção vai ainda ser extensiva à estrada circundante do comando provincial da Polícia Nacional, até à “cabeceira” do aeroporto de Mbanza Congo, num perímetro que envolve nove quilómetros.

“Na área suburbana, decorrem neste momento os trabalhos de aplicação da camada de base, ao longo de toda via, para depois ser colocado o tapete betuminoso (asfalto) “, disse.

A estrada que liga o supermercado Nosso Super ao complexo das 15 casas vai ter 18 metros de largura, duas faixas de rodagem em cada sentido e um espaço de estacionamento para viaturas.

“A empreiteira chinesa dedicou-se, durante muito tempo, à construção do canal longitudinal destinado à drenagem, que tem um diâmetro de seis metros quadrados para facilitar o escoamento das águas pluviais” referiu Eduardo Chilembo.

O Programa de Infra-estruturas Integradas prevê a asfaltagem, numa primeira fase, de nove quilómetros de arruamentos da zona urbana e suburbana.
Segundo o administrador municipal de Mbanza Congo, Ângelo dos Passos, o programa em curso decorre em ritmo aceitável e vai permitir a melhoria dos serviços integrados concebidos no programa, nomeadamente, o sistema de distribuição de energia eléctrica, o abastecimento de água às populações e o funcionamento rigoroso da rede de esgotos. “Neste momento, já concluímos os trabalhos de desentupimento de toda a rede de esgotos e a cidade já não vai ter mais problemas de águas pluviais.

Em Mbanza Congo, o carcomido asfalto, que data da era colonial, recebe agora uma camada betuminosa (asfalto) com uma espessura de cinco centímetros, cuja largura mede oito metros, com duas faixas de rodagem, sendo uma descendente e outra ascendente.

Os trabalhos de asfaltagem estão a ser acompanhados do desassoreamento da velha rede de esgotos para, de certa forma, debelar o problema da poeira nos edifícios públicos e residências da cidade, situação que se verifica com maior incidência no período de cacimbo.

Jornal de Angola/João Mavinga Fernando Neto


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A história de São Salvador do Congo

Início do Baptismo

Portugal enviou missionários para a cidade de Mbanza Congo e começaram os baptismos. “No dia três de Maio de 1492, dia de Santa Vera, frei João, vigário geral dos missionários, baptizou o rei do Congo com o nome de D. Afonso I, tendo abdicado do nome de Ne Nvemba Nzinga e assim foi acontecendo com os outros reis que o sucederam. O ntótela Nenyanga foi baptizado com o nome de D.Pedro II e o penúltimo rei, John Lengu por D. Pedro VII”, disse Nicolau Cabeia.
O rei Dom Afonso I ordenou que fossem queimados todos os locais onde decorriam os cultos tradicionais. Quem não cumpria, sofria a pena de morte ou outras punições. Em função dos mandamentos, ele próprio, o rei do Congo, a título de exemplo, decidiu deixar as muitas mulheres que tinha, tendo ficado apenas com uma, conforme ditava a regra dos missionários, quando instalaram a religião católica em Mbanza Congo.

Kulumbimbi é a primeira igreja construída na África subsaariana, por missionários católicos que faziam parte da primeira expedição portuguesa liderada por Diogo Cão, e que chegou a Angola em 1482. O local do desembarque, na foz do rio Zaire, tem um padrão (Ponta do Padrão), no Soyo, província do Zaire.
A lenda diz que o templo foi construído de pedra e cal, durante uma noite. Hoje está em ruínas. A igreja está localizada no centro da cidade de Mbanza Congo, ao lado do cemitério dos reis do Congo.
Documentos da época desmentem a lenda. Os trabalhos de construção da igreja de Kulumbimbi foram executados entre seis de Maio e seis de Julho de 1491. As ruínas têm despertado o interesse de especialistas nacionais e estrangeiros, pela raridade do seu aspecto arquitectónico.
Nicolau Cabeia conhece a história do templo. Diz que o “ntotela” Ne Nvemba Nzinga autorizou os emissários de Diogo Cão a construir a igreja no centro de Mbanza Congo, que mais tarde foi baptizada de S. Salvador do Congo: “a obra contribuiu para a pacificação dos espíritos e a elevação cultural dos povos naquela altura”.
Enquanto decorriam as obras, o espaço foi vedado aos olhos dos mortais. E quando o rei disse ao povo que já podia ir ao centro da mbanza real, toda a gente ficou admirada por ver uma bela igreja que no dia anterior ninguém tinha visto. Por isso é que correu a lenda que Kulumbimbi tinha sido construída da noite para o dia.
A igreja foi arrasada pelo tempo e desapareceram os seus apetrechos. Hoje resta apenas o altar.

Rei mata mãe

Nicolau Cabeia diz que o rei, era intolerante: “mandou enterrar viva a sua própria mãe, Mamã Mpolo, Dona Apolónia, depois de baptizada. Foi sentenciada por recorrer aos curandeiros tradicionais.
“O rei simulou uma cerimónia, convidando toda população. No local onde mandou sua mãe sentar, havia um buraco de tamanha profundidade, com paus ligeiros atravessados e cobertos com um Luando (esteira) e uma cadeira executiva por cima para a mãe do rei” afiançou.
A morte de Dona Apolónia provocou momentos de muita consternação ao povo Congo. O rei D. Afonso I (Ne Nvemba Nzinga) veio a falecer de forma trágica numa missa dominical realizada em Mbanza Congo.

Reis embalsamados

Os cadáveres dos reis eram transportados para o sunguilu, local onde eram lavados para depois serem levados para Mpinda E’tadi (casa mortuária), onde eram recebidos por mamãs especializadas na arte de embalsamar.
O historiador explicou que na casa mortuária o cadáver era estendido numa maca com fogo por baixo para garantir o escorrimento de toda a água contida no corpo, processo que permitia a conservação natural do defunto, de seis meses a um ano, enquanto os seus colaboradores preparavam a eleição do novo sucessor, por sufrágio universal.
O séquito do rei, incluindo a equipa das mamãs que embalsamavam os corpos dos reis, tinha a obrigação de manter sigilo sobre a morte do rei até à eleição do sucessor para, conforme aludiu Nicolau Cabeia, prevenir desordens e invasões.

Revolta popular

Antes da chegada dos portugueses, Mbanza Congo chamava-se Mpemba na época de Nimi a Lukeni, o fundador da cidade. Nicola Cabeia, elucidou que por altura da prestação de contas, Mbanza Congo, como capital do reino, acolhia as grandes reuniões que juntavam todos os manis (governadores provinciais).
A capital do reino do Congo foi descoberta por Nimi a Lukeni, que era um exímio caçador proveniente da Lunda, das margens do rio Cuango.
Nimi a Lukeni mereceu a confiança do povo à sua chegada a Mbanza Congo, por apresentar propostas que melhoravam a vida das pessoas. Foi aclamado rei.

Árvore secular

Yala Nkwo é conhecida como a árvore secular de Mbanza Congo. Segundo reza a tradição, a sua existência é anterior à chegada dos portugueses. A coloração da sua seiva é avermelhada. A população confundia a seiva com sangue. Aproveitando a brisa da sua sombra, o rei do Congo escolheu o local para recepção de visitantes ilustres e descanso nas horas de lazer, disse Nicolau Cabeia.
Nicolau Cabeia disse a terminar que até hoje paira ainda o mito de que ninguém pode tocar na Yala Nkwo com objectos cortantes, porque senão, quem golpear a árvore pode morrer ou ter problemas de saúde.

João Mavinga/Jornal de Angola