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As “louras” africanas, anos 70.

Há 41 anos, nos finais de Agosto, ainda estávamos acantonados no campo militar do Grafanil em Luanda, onde as condições habitacionais das casernas eram deprimentes, mas durante o dia a vida corria de melhor feição, porque havia sempre umas “louras” (Cuca e Nocal) a assediar os militares. No mês de Agosto de 1971, a nossa C. Caç. 3413 foi convidada a visitar a fábrica da cerveja Nocal, situada no bairro da Maianga.

O que sucedeu nessa visita não foi muito diferente da situação referida por José Castilho, do B.Caç. 3849 que tal como nós chegou a Luanda na mesma viagem no Vera Cruz e cumpriu a missão em Nóqui. Segue-se a transcrição:

Companheiros de jornada Noqui : a estadia dos militares em Angola, na Guerra Colonial, colocava-os face a um clima adverso, perante uma nova realidade – a sedução do consumo de Cerveja. Refiro-me às Cervejas Cuca, Nocal, já implantadas no mercado e já talvez em 1972 / 73, a outra marca com o nome de EKA, a que o marketing de então associou um conceito novo, “loura tropical”. Nos anos 70, os Batalhões que chegavam a Luanda, alojados no Grafanil, em Luanda, eram seduzidos por visitas de estudo às Fábricas onde a Cuca e a Nocal se produziam, disponibilizando autocarros que transportavam os militares, numa acção de charme das respectivas marcas. E se alguns dos graduados viam nestas visitas uma oportunidade de aprenderem algo sobre uma bebida que apreciavam, na generalidade aos praças, seduzia-os a oportunidade de beberem umas cervejas à discrição. Ora Cerveja à discrição acompanhada de leves aperitivos, nem sempre se conjugavam num bom resultado. E os regressos ao Grafanil, distante uns Km das unidades industriais, eram penosas. O percurso dos autocarros, atravessando a malha urbana de Luanda, não se compadeciam das necessidades fisiológicas de tão imprudentes consumidores, já que não podiam parar para que os aflitos, se pudessem “aliviar”. Porém logo que a densidade do casario luandense diminuía, os autocarros lá paravam, para que os “apertados” visitantes se aliviassem. Enfim, uma experiência que vivi uma vez. Aprendi algo sobre a produção de Cerveja, com os atenciosos técnicos da Nocal, confesso, mas muito mais sobre os efeitos do seu consumo imoderado. Porém no isolamento das Compªs, face às duras realidades com que muitas vezes se confrontavam, a Cerveja terá sido muitas vezes a companhia amiga dos militares, nas horas que passavam lentamente… Era portanto um produto que não poderia faltar nos serviços de aprovisionamento dos militares, já que a sua carência afectaria a moral das tropas.

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Tanto calor, tanta sede!

Já bem entrados no Verão, o calor dos dias presentes, principalmente nas zonas do interior aguça o apetite por umas cervejas bem fresquinhas. Hoje em dia a cerveja é a bebida mais popular e democrática em Portugal, mas nos idos tempos da década de sessenta e setenta quando éramos meninos e moços, esta bebida devido ao seu preço não era para todos os dias.

Nessa época era o vinho a bebida mais consumida e também aquela que estava mais ao alcance de todas as bolsas. O copo de vinho tirado directamente do barril era o ex-libris das tabernas de outrora. Por outro lado no Portugal profundo onde nem sequer a electricidade chegava a muitos locais também era impossível beber uma cerveja bem fresca e o que se usava na altura era mergulhar num poço de água um cesto de arame carregado com as bebidas em garrafa que de lá iam saindo à medida que os clientes as pediam.

Hoje, a cerveja é a rainha de todas as festas populares e outros eventos que no Verão acontecem em todo o Portugal e este sector já representa 1,5% do PIB português.

Os militares que estiveram em Africa, mesmo quem não apreciasse muito a cerveja, depressa se tornaram fãs desta bebida, porque o clima assim o exigia, a água representava mais um perigo que benefício, o vinho que nos davam às refeições era uma autêntica mixórdia, e que designávamos por “água de Lisboa” e por isso só a cerveja satisfazia as necessidades dos corpos sedentos.

Esta foto de 1972, portanto com 40 anos foi tirada na Mamarrosa, norte de Angola e representa bem o enorme consumo de cerveja. Caixas e caixas vazias à espera de serem substituídas.

Para recordar esses tempos, ergo um “canhangulo” à saúde de todos.

Mário Mendes