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A guerra – cenas do quotidiano

Do nosso companheiro Ramiro Carreiro, recebi estas duas fotos que retratam tarefas que diarimente faziam parte da nossa vida na guerra em Angola.

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O içar e o arriar da bandeira nacional, cerimónias cumpridas diariamente, a primeira por volta das 9 horas, a segunda ao por do sol. O Carreiro está a operar a bandeira e os outros elementos que ele identifica são o furriel Leitão e os cabos Moniz, Araujo e Pereira. O corneteiro não consegue identificar. O aquartelamento, digo eu, é no Luvo.

A segunda foto é deveras singular e representa uma actividade que nos primeiros meses da comissão tinhamos que desempenhar, recolha de água para abastecimento, que prova as condições precárias que tivemos que enfrentar nas bases tácticas do planalto do Luaia. Aqui a colheita da água era levada a cabo no leito de um riacho atraves de uma lata para dentro do autotanque. Reconheço-me nesta foto e pensava que esta tarefa da recolha fosse feita por motor de água, mas era mais artesanal. Quanto à qualidade da mesma é fácil adivinhar, talvez por isso é que a bebida predilecta fosse a cerveja (cuca ou nocal).

Um abraço para todos.

Mário Mendes

 

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22/12/1971 – A primeira baixa

Neste dia, quando nos preparávamos para o 1º Natal passado em clima de guerra na base táctica de Cecília, província do Uíge, norte de Angola, sofremos a primeira baixa, o soldado Emanuel Firmino Nunes Aguiar, um madeirense residente em Angola que fazia parte do contingente africano da nossa companhia, incorporado pelo RI 22 de Sá da Bandeira e que foi vítima de acidente com arma.

Durante muito tempo, aquele cenário em que tantas vezes participámos e que era rotina diária de recolher a água necessária para os diversos fins da base, num ribeiro ali próximo, ficou bem presente na minha memória.

Enquanto os operacionais procediam à recolha da água através de motobomba para os depósitos, a guarnição de segurança tomava as posições mais adequadas para proteger a operação e eis que a certa altura se ouve um tiro que ecoa forte na densa mata. Arma em riste, olhar atento e o que vejo é um dos nossos tombar. Um único tiro, inimigo nem vê-lo, que raio de guerra é esta que faz vítimas sem confronto, foi esta a sensação do momento.

Infelizmente, foram muitos os que tombaram na guerra em África, certamente a maioria, vítimas das armas inimigas, mas houve também muitos mortos e acidentados por acidentes vários, em que nos é difícil perceber as ocorrências.

Neste caso, 41 anos passados, e porque fui relator do processo, a minha mente ainda guarda aquele instante, o Natal de 1971 ficou manchado com aquele episódio. Fiquei com a sensação que o disparo da arma do companheiro Abílio foi puramente acidental e como já não era possível devolver a vida ao malogrado Emanuel, o autor material do disparo depois de cumprir algum tempo em prisão no Toto, enquanto decorreu o processo foi integrado no seio da companhia mas as sequelas deste facto ficaram-lhe marcadas para o resto da comissão, porque afinal os dois eram amigos. O nosso companheiro foi sepultado em Folgares, uma vila da província da Huíla em Angola, que aqui se mostra.

Nesta quadra natalícia recordo também a outra vítima mortal da nossa companhia, o soldado condutor António de Amaral Machado, que está sepultado na sua terra natal, a freguesia de Santo António, Ponta Delgada, Açores.

Dos companheiros que já nos deixaram de que tenha conhecimento, o sargento Ramalho e os açorianos Valadão, Joel Carreiro e Dinis. Há um tempo atrás, “apareceu” neste blog o Ramiro Carreiro, dos Açores que reside no Canadá em Toronto e deu também conhecimento da morte do Silvino Resende há cerca de meia dúzia de anos.

Se alguém tiver alguma foto do companheiro Emanuel Aguiar, falecido no dia 22-12-1971, com 21 anos e a quiser partilhar connosco, agradecemos.

Aos familiares dos companheiros que neste Natal só estarão presentes na nossa memória, desejamos BOAS FESTAS.

Mário Mendes


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Magina, no espaço e no tempo

MAGINA: O ISOLAMENTO

A CART. 1405 do BART. 1852 esteve na Magina dezoito meses, de Setembro de 1965 a Fevereiro de 1967. Creio que fomos a terceira ou quarta unidade militar a estar naquele polo militar, situado no Norte de Angola, junto à fronteira com a agora Republica Democrática do Congo. Antes, segundo os dados que consegui coligir, estiveram a CART. 102(?), a C.Sap. e Eng.151 e companhias de cavalaria dos Batalhões 595(?) e 631(?).
Além do isolamento devido à distância a que estávamos de outras unidades militares (Mamarrosa, Buela e Pangala distavam a mais quarenta quilómetros) e de São Salvador do Congo (cerca de oitenta por Mamarrosa e a cem por Pangala) que era a única povoação em que também residia população civil, além de militar, as vias rodoviárias estavam em muito mau estado.
As saídas da Magina tornavam-se ainda mais complicadas porque pela Mamarrosa tínhamos a subida ou descida do Luvo, na Mata/Floresta do Dimba, em que com as chuvas ou tempo húmido era um obstáculo quase intransponível e pela alternativa da Pangala e Calambata, além de mais quilómetros, entre a Magina e o cruzamento para a Buela, tínhamos três ou quatro pontes destruídas em que nas suas passagens as viaturas tinham que as atravessar fazendo equilíbrio em troncos de árvore ou contornando os locais por onde o caudal dos rios o permitisse. Algumas vezes tivemos que regressar ao aquartelamento ou ficar na Mamarrosa à espera de melhores condições atmosféricas.
A Magina situava-se no alto de um morro, numa clareira da Mata do Dimba (que diziam ser a segunda maior floresta virgem de Angola), o Rio Luvo situava-se no vale desse morro e era cercada por outros morros que diariamente eram patrulhados na chamada “volta dos tristes”.
Durante a nossa permanência, em termos militares, além de umas ocorrências menores, tivemos um acidente com uma mina que destruiu um Unimog que causou diversos feridos um dos quais, o condutor, que ficou em estado mais grave e sofremos uma emboscada à coluna militar da companhia que estava na Canga, (a CART. 1407) em que se sofreu uma baixa, também o condutor.
Eu era condutor auto, nos primeiros dois meses não tinha viatura distribuída, depois foram vinte e dois meses a “ir a todas”.
Espero que as fotos, parte delas tiradas por mim e pela minha máquina fotográfica, dêem para ajudar a ilustrar o texto e contribuam para que outros camaradas, ex-militares, nos transmitam mais informações da Magina e arredores, em particular o número e as datas que outras unidades lá permaneceram. Até à data só as vi através do Blog do “Barreirense Costa” que tem um pasta com fotos do ex- camarada José Manuel Vasques, da CCAV. 1783 do BCAV. 1930, que lá esteve de Dezembro de 1967 a 1969.

NR: Na sequência do artigo anterior chega-nos à redacção este texto do companheiro Horácio Marcelino que escreve na primeira pessoa do que era a vida no aquartelamento nos anos de 1965/67. Pelo diapositivo que se segue, as dificuldades do dia a dia estão bem patentes. A água para todos os usos, um bem essencial, tinha que ser recolhida em bidons no leito do rio que ali corria e como se pode ver, era uma carga de trabalhos.


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Água potável na comuna do Luvo

Diversos chafarizes estão a ser instalados

Fotografia: Jornal de Angola

 O administrador comunal do Luvo, Inácio de Almeida, anunciou que pelo menos seis mil habitantes das localidades do Sumpi, Nkoko e Dobo, comuna do Luvo, município de Mbanza Congo, província do Zaire, beneficiam em Agosto próximo de água potável, no quadro do Programa “Água para Todos”.

Inácio de Almeida, em declarações sexta-feira à Angop, assegurou que actualmente a concretização do programa encontra-se na segunda fase, que consiste na instalação da rede de distribuição de água potável e chafarizes.
“Na aldeia do Nkoko, a empresa a quem foi adjudicada a obra já está a instalar a rede de distribuição de água, ao que se 
segue a montagem de cinco chafarizes. Para a localidade do Sumpi prevê-se a colocação de sete chafarizes, atendendo à densidade populacional da circunscrição”, disse.
O administrador revelou que para a regedoria do Dobo, situada a oeste da comuna do Luvo, as obras de construção do sistema de captação, tratamento e distribuição de água já estão concluídas, faltando apenas alguns arranjos para a sua inauguração. Inácio de Almeida disse que a entrada em funcionamento dos referidos sistemas de abastecimento de água potável contribui para a redução de algumas doenças provocadas pelo consumo de água não tratada.
Com uma extensão de 1.200 quilómetros quadrados, a comuna do Luvo, que se situa 60 quilómetros a norte da 
cidade de Mbanza Congo, tem uma população estimada em 12.400 habitantes

 Fonte: Jornal de Angola, 8 de Julho de 2012.