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Fronteira do Luvo

 Para aqueles que estiveram no aquartelamento do Luvo, aqui publico com a devida vénia, dois comentários muito interessantes da autoria do ex-alferes miliciano José Castilho, do Batalhão de Caçadores 3849 (1971-1973), sediado em Nóqui, norte de Angola. Este batalhão embarcou no navio Vera Cruz, tal como a C.Caç. 3413, no dia 31 de Julho de 1971, tendo chegado a Luanda a 9 de Agosto de 1971.

 José Castilho, em Março 25, 2011, disse:

A fronteira do Luvo…

Na linha de fronteira norte de Angola, entre Noqui e São Salvador, hoje Mbanza Congo, este posto fronteiriço surgia-nos dotado, com os meios necessários para desempenhar o seu papel. Autoridades civis, militarizadas e o apoio de um destacamento das Compªs da zona – Canga, normalmente. Hoje pelo que se lê aqui e acolá, a fronteira do Luvo continua a desempenhar o seu papel, reflectindo o movimento na mesma, o degelo ou o crispar das relações angolanas com os vizinhos congoleses. O Rio Luvo, sobre o qual se estende uma ponte que liga as duas margens, é testemunha do modo como evoluem as relações entre os dois países. A pág. 200, do seu livro As Brumas do Mato, em 1968/70, o então Alf Milº Capelão Leal Fernandes, do BCaç 1930, descreve a curiosa fronteira… «Durante o dia, de um posto avançado de vigilância, dominavam-se paisagens de Angola e da então Rep. do Zaire . E se aparentemente o Rio Luvo dividia, a passarinhada em manhãs alegres, o sol tudo inundando e o céu, grande e vasto, por cúpula, não consideravam fronteiras nem limites. A ponte de ferro sobre o rio, apesar das minas a espreitar na picada das bandas do Zaire, sugeria um convite permanente a um abraço fraterno e amigo com o exército e a população do Zaire. Da banda de lá, também a uns 300 metros da ponte se levantava um posto fronteiriço zairense. De lá, vinham frequentemente vozes, o toque do içar da bandeira, a passagem rápida de vultos. Embora não havendo relações diplomáticas com o Zaire, devido à intransigência da política colonial do regime de então, a nossa guerra não era com o exército congolês. Com uma fronteira tão extensa na área do Batalhão, delimitada por rios ou mesmo sem uma linha certa e definida, tornava-se quase natural, consciente ou inconscientemente, que surgissem incursões amigáveis ou aventuras juvenis». E prossegue o Alf Milº Leal Fernandes, « o pelotão, já esgotara quase a ração de combate, e então nas lavras das bandas do Congo, grossos cachos de bananas espreitavam por entre o verde da folhagem, numa oferta fácil e tentadora». Mais adiante, continua … «Alguns despimo-nos para atravessar o rio. Eu ia completamente nú», refere um dos militares. E segue, «Estavam já quase a chegar às bananeiras quando depararam com uns homens de cor, sentados, a limpar calmamente as suas armas. Não seriam nacionalistas angolanos, nem tropa zairense, mas possivelmente guardas. Ao avistá-los, seguiu-se logo uma correria cautelosa e tensa de regresso, não fosse ali armar-se alguma escaramuça de tiro e pancadaria ou um insidioso conflito diplomático». As proximidades da fronteira, geravam destas situações. Também na minha primeira saída pelos morros de Noqui, em direcção à fronteira, com um GC misto, com militares dos Morteiros já com a comissão avançada e alguns Sapadores, encontrámos 3 ou 4 mulheres zairenses, que agricultavam umas lavras em frente às antenas da Marconi, e que em francês, lá lhes conseguimos acalmar os receios e as conseguimos encaminhar de retorno à Repª do Zaire. Nem sei se cheguei a mencionar esse facto no relatório do patrulhamento. Às vezes aconteciam factos, em que o bom senso deveria ser a regra. Era o caso. Castilho

 José Castilho, em Maio 18, 2011, disse:

Companheiros de jornada Noqui: confesso que de vez em quando folheio o livro Angola – As Brumas do Mato, do Alf. Milº Capelão do BCaç 1930, Leal Fernandes, onde surgem “estórias” do diabo, só totalmente entendíveis por quem passou por aquelas paragens e viveu aquelas ou outras experiências semelhantes. Para mim uma das mais fascinantes, surge a pág,s 189 seguintes e intitula-se : sou o Pereira de Matadi! Vou tentar resumir, mantendo o colorido do insólito, esta “estória”, que se terá passado no aquartelamento do Luvo, mas poderia ser quase o argumento para um sketch dos Monty Python. O Aquartelamento ficava quase em cima da fronteira com a então Repª do Zaire, e a separação entre os dois países, era feita pelo Rio Luvo, que uma ponte atravessava. A cerca de 300 metros desta ponte, situar-se-iam quer do lado angolano quer do zairense, postos de vigilância. E de ambos os lados, Minas mais ou menos enferrujadas as do lado zairense, que transformariam uma incauta entrada naquele território, sem prestar atenção às mesmas, sobretudo de noite, numa perigosa “roleta russa”! O Luvo, era um posto fronteiriço, com serviços mínimos de Administração, Alfândega e Pide, além de uma unidade militar, naqueles anos, e estamos em finais dos anos 60, ao nível de uma Compª Oper. do BCaç 1930, com sede na Mamarrosa, em regime de rotatividade. Do lado de lá da fronteira, na Repª do Zaire, estariam muitos angolanos para ali fugidos quando da “confusão” de 1961, como os naturais diziam. E alguns deles, quase uma década depois, ansiavam por furtar-se ao controlo que a FNLA sobre eles exercia e ansiavam regressar ao seu espaço, à sua lavra, ao seu lugar de origem. A acção psicológica das autoridades militares, também contribuía para este objectivo. Daí as pontuais apresentações que por vezes se verificavam junto das unidades militares sediadas junto da fronteira. Mais tarde, com o BCaç 3849 sediado em Noqui, sucederia o mesmo. Situemo-nos porém nas palavras de Leal Fernandes e no colorido da sua descrição.(…)« Daquela vez, num domingo, em meados de Julho de 1968, na altura da mudança da Compª 1783 para o Luvo, foi um pacato cidadão. Atravessou a ponte de ferro sobre o Rio, enfiou pelo capim e cerca das 2 horas da manhã, sem que as sentinelas se apercebessem, devido talvez a um estranho manto escuro da noite, momentâneo descuido na vigilância e excessiva cautela do intruso, furou através do arame farpado que envolvia o aquartelamento e entrou. O facto é insólito, pois que a vigilância nocturna ou diurna nas várias companhias do Batalhão, eram apertadas, mas no melhor pano cai a nódoa, diz a sabedoria popular (…)».Retornemos à narrativa de Leal Fernandes, (…)« Lá dentro, na extensa parada solitária e nocturna, para todos os lados que olhasse, a mesma negrura e solidão, ninguém que o atendesse.(…)». E prossegue,(…)« foi bater à casa-posto da PSP, onde residia um subchefe e um soldado da guarda,(…)». E prossegue,(…)« Sem vir à porta, visto a hora não se prestar para divagações inúteis e pensando que se tratasse dalguma sentinela carregada de insónias ou sob o efeito de traumática tensão bélica, o subchefe gritou-lhe lá de dentro, a fim de o despachar: – Não me esteja a chatear. Vá lá para o posto, para o pé dos seus camaradas, que se o capitão sabe, ainda arranja sarilhos (…)». Portanto o suposto apresentado falhava a sua primeira tentativa de apresentação.E segue (…) «Desiludido, parada deserta, portas e janelas fechadas, teria então entrado numa caserna e acende a luz. Incomodada, a tropa portuguesa, de olhos adormecidos, julgando ser algum nativo que vivia no aquartelamento, manda-o sair e apagar a luz. Perante uma demorada indecisão para a saída, palavrões e botas teriam voado pelo ar, numa ameaça agressiva contra o inoportuno (…).» Raio de sorte a minha, que não encontro ninguém a quem apresentar-me, terá pensado o infeliz visitante. Retornemos à descrição de Leal Fernandes, (…) «De novo, desamparado e perdido na mudez e no frio da noite, envolveu-se num lençol, (…) e sentou-se nos degraus da capela, à espera da manhã e de uma palavra acolhedora e amiga (…).» Passa por ele o sargento da ronda, mas aquelas horas desusadas, imaginou que, (…) «fosse o Manuel Afonso ou o seu sobrinho, naturais de São Salvador do Congo e que, há já alguns meses, ganhavam a vida no aquartelamento (…)» e terá atirado uma interrogação, (…)« Ó Manuel Afonso, que estás aí a fazer, e seguiu adiante com um olhar rápido e oblíquo, prosseguindo a sua ronda pelos postos de sentinela restantes(…).» Isto é, falhara a terceira tentativa de apresentação. A noite vai passando e, (…)« Pouco antes das 6 horas da manhã, quase à hora do toque de alvorada, com a vida já a despertar no aquartelamento, o vulto envolvido no lençol, vendo que ninguém lhe ligava, agarrou-se à sineta da capela. Estranhando o lençol branco sobre o corpo – seria um muçulmano? Um feiticeiro? Um fanático de uma exótica seita africana? – e também aquele toque a uma hora não habitual para cerimónias litúrgicas na vida militar do mato, o sargento de ronda, o Fur. Milº(?),naquele seu característico aspecto mexido e grande humor espontâneo, lança-lhe de longe: – Que religião é a tua para estares aí a tocar a uma hora destas? – Sou o Pereira e venho de Matadi (…)» Escapara às passagens da ronda e enrolado num lençol, aguardara pela manhã. Não era definitivamente quem estes supunham. (…)« Era um homem novo e baixo, só ossos, carregado de fome e de pobreza. Entregue à autoridade militar e à Pide, foi interrogado (…).» Em jeito de confissão, (…)« Pertencera à UPA, transformada depois em na FNLA. Combatera em Angola… Participara em ataques e emboscadas à tropa portuguesa, mas – afirmava ele – nunca matara ninguém. Vivia em Matadi, quase em frente de Noqui, na margem esquerda do Rio Zaire e vinha entregar-se.(…)». Eis uma das muitas histórias que torna aliciante a leitura do livro do Alf. Milº Capelão Leal Fernandes, que sintetiza, (…) «O Pereira ,de Matadi, era um pacífico cidadão. Se ele quisesse ter sido guerrilheiro, praticar vandalismo e dezenas de mortos, bastava-lhe ter lançado umas granadas para dentro das casernas e fugir imediatamente…Mas não, a sua intenção não era destruir, nem matar…Farto da guerra e de vida no Zaire, queria regressar e entregar-se. Seria o desejo de cultivar a sua lavra abandonada? Reconhecer o lugar da sua antiga cubata? Saborear a sombra e o fruto das suas mangueiras? Rever familiares e amigos em São Salvador ou em Luanda? Para já, a sua guerra era por um pedaço de pão (…)». Castilho.


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Mamarrosa, 1968/1969.

Do ex-combatente António Marta, do batalhão de caçadores 1930 recebi esta meia dúzia de fotos que nos transporta aos anos de 1967/68/69 no local que também conhecemos 5 anos mais tarde, que dava pelo nome “Mamarrosa” ou “Fazenda Mamarrosa”, que tinha como principal actividades a cultura do café e a exploração de madeiras, situada na província do Zaire, norte de Angola a cerca de 10 quilómetros da fronteira com a RDCongo, onde também se situava o aquartelamento “Luvo”, nome do rio que dividia os dois países.

Foram alguns milhares os militares que ao longo de 13 anos estiveram nestes locais e é sempre com alguma nostalgia que revisitamos os mesmos através de fotos que aqui partilhamos. Agradeço ao António Marta a disponibilização destes documentos do seu espólio e reafirmo que serão aqui bem-vindos todos os que quiserem testemunhar o passado que muitos milhares de jovens portugueses têm no seu “curriculum” no capítulo da guerra em África.

Transportando madeira para arranjo/conservação da ponte sobre o rio Lucossa.

A mesma ponte a ser reparada.

Salto para o tanque que ficava à entrada do aquartelamento, por detrás da secção de mecânica.

Companheiros posando para a foto, junto da caserna.

Momento de convívio.

Um jogo de futebol no campo da Mamarrosa (em 1972 designa-se por estádio Nª Senhora da Graça).

Mário Mendes


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CARTA ABERTA AO COMBATENTE DO ULTRAMAR PORTUGUÊS

Digníssimo e nobre combatente:
Em romagem vieste ao Monumento,
que consagra a Coragem e a Bravura
daqueles, como Tu, qu´heroicamente
se bateram p´lo Amor Pátrio que perdura,
muito p´r´àlem do que a Razão consente,
fazendo venturosa a desventura.

São disso exemplo, AQUELES qu´ali estão.
Nomes gravados a ouro no PAREDÃO,
atrás do Mausoléu que simboliza
duas mãos postas, ao Céu, em oração
que assim os GLORIFICA e ETERNIZA.

A CHAMA DA PÁTRIA os alumia!
Como a Chama qu´em Teu peito ardia:
– de fervor patriótico e galhardia –
no Teu JURAMENTO DE BANDEIRA,
em qu´A juraste defender, até morrer,
se tal ousasse esse SAGRADO DEVER
de o exigir como “entrega” derradeira.

Foi esse Teu comportamento exemplar
de Respeito, Pundonor e Disciplina,
que canta agora o HINO NACIONAL:
– Heróis do Mar, da Terra e do Ar –
De qu´a nossa História há-de rezar,
p´los Teus feitos na EPOPEIA ULTRAMARINA.

Que a PÁTRIA TE MEREÇA E NUNCA ESQUEÇA,
de TE manter vivo em seu coração,
para que possas Levantar Hoje de Novo,
o Esplendor de PORTUGAL como NAÇÃO!

Viçoso Caetano
Ex-Oficial Miliciano
10 de Junho de 2013


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“Acta” do XVIII Encontro

No dia dezoito de maio do ano de dois mil e treze, pelas doze horas e quarenta e cinco minutos reuniram no restaurante “Páteo das Cantigas” na Portela de Sacavém (Lisboa), dezanove “cotas” da Companhia de Caçadores número três mil quatrocentos e treze, acompanhados de alguns familiares perfazendo no total trinta comensais, para analisarem alguns factos ocorridos no século passado, mais precisamente os referentes  aos anos de mil novecentos e setenta e um a mil novecentos e setenta e três, designadamente aqueles que ocorreram em Angola e depois de muita “discussão” tentando rebuscar o “arquivo” existente lá se chegou ao consenso final, estabelecendo-se então que devido à enorme quantidade de assuntos referidos na “ordem de trabalhos” o melhor seria marcar a próxima reunião para o ano de dois mil e quatorze. Foi também tomada em consideração esta crise que não tem fim à vista e para minorar os seus efeitos foi aprovado por unanimidade que o local onde se vai reunir a “brigada do reumático” será em Cantanhede, um local mais centralizado, para que possa afluir um maior número de “deputados“.

E não havendo outros assuntos a tratar foi encerrada a sessão e lavrada para os devidos efeitos a presente acta. Para apreciação e comentários, é favor consultar os documentos anexos:

Anexo 1

Anexo 2

Mário Mendes


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SORTEIO NACIONAL APVG – 2014

A Associação Portuguesa dos Veteranos de Guerra encontra-se neste momento a realizar um Sorteio Nacional que termina no final do mês de Janeiro de 2014.
O lucro deste Sorteio Nacional está direcionado para as obras do Lar, do Centro de Dia e para os Cuidados Continuados desta Instituição.
Pedimos que todos os nossos associados, familiares e amigos a aderirem a este Sorteio Nacional.
Este Sorteio Nacional foi autorizado pelo Secretário da Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna sob o n.º 13/2013 do dia 24 de Janeiro de 2013.
Para melhor esclarecimento, podem consultar a autorização do respectivo Despacho do MAI, bem como comprovar através de uma cópia do bilhete frente e verso.

O Presidente da Direcção Nacional da APVG

Augusto Oliveira Freitas (Doutor)

Fonte: http://www.apvg.pt

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