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Julho de 1975 em Portugal

Eis alguns factos relevantes que aconteceram em Portugal no chamado verão quente de 1975, faz agora 40 anos.

1 de Julho
•O D. L. nº 330/75 cria a Agência Noticiosa de Portugal (ANOP).
•O Governo, em plenário, decide nomear uma Comissão Administrativa para gerir a Rádio Renascença até à nacionalização das estações emissoras.

2 de Julho
•Rosa Coutinho afirma que o Chanceler Helmut Schmit garantira o apoio da RFA ao reforço das relações de Portugal com a CEE.
•Manifestação organizada pelas Comissões de Trabalhadores da Cintura Industrial de Lisboa, convocada para apoiar os trabalhadores da Rádio Renascença e como medida de protesto contra a decisão do Governo de devolver a estação emissora ao Patriarcado.

3 de Julho
•Primeira e única reunião entre o PR, a Comissão Política do CR, a equipa económica do Governo e os partidos políticos, com vista à discussão das bases do Plano Económico de Transição, cujo calendário já tinha sido aprovado pelo Governo.
•Assembleia de Delegados do Exército. Entre outros pontos habituais (situação político/militar e análise da crise económica), aprova-se uma moção de apoio ao PAP. Simultaneamente toma-se conhecimento também do Documento-Guia Aliança Povo-MFA.
•O Conselho da Revolução decide nacionalizar a RR e não nomear a comissão administrativa proposta pelo Governo em 1 de Julho. Vasco Gonçalves, que defende a entrega da estação emissora à Igreja, pede a demissão do cargo, mas é demovido e mantém-se em funções.

4 de Julho
•Face aos intensos rumores de graves tensões entre Vasco Gonçalves e Otelo Saraiva de Carvalho, o PCP organiza diversos plenários e reuniões de esclarecimento. A Intersindical apoia essa mobilização.
•Costa Gomes vai à televisão, ladeado por Vasco Gonçalves e por Otelo Saraiva de Carvalho, para desmentir qualquer cisão no MFA: “Não nego a existência de correntes de opinião entre os militares, como homens livres de um povo que se realiza. (…) No entanto, só as forças contra-revolucionárias se podem interessar em, a partir do salutar pluralismo de opiniões, extrapolar doentiamente para situações de confronto.”
•Criação do Conselho Municipal do Porto constituído pela Comissão Administrativa da Câmara, representantes das Comissões de Moradores dos Bairros Camarários, das Juntas de Freguesia e das Comissões de Trabalhadores da Câmara.
•Em comunicado, o Conselho Permanente do Episcopado denuncia o que chama “fraquezas do poder político”.
•Manifestação em Lisboa, convocada pelos trabalhadores da Cintura Industrial, de apoio ao Poder Popular e contra os boatos de mais um golpe militar de direita.

5 de Julho
•Decorrem as cerimónias da independência de Cabo Verde. A delegação portuguesa é chefiada por Vasco Gonçalves.
•É distribuído no Porto um panfleto intitulado Carta aberta ao povo português em que se ataca o Governo Provisório, acusando-o de ser comunista. O SDCI identifica o papel como sendo de origem espanhola. (JSC)

7 de Julho
•Em Lisboa, a partir do Elevador de Santa Justa são lançadas as primeira tarjetas com a sigla do MDLP. (JSC)

8 de Julho
•Assembleia do MFA. É apresentado o Documento-Guia da Aliança Povo/MFA, “com vista à instauração do poder popular”. Elaborado pelo COPCON em colaboração com os gabinetes de dinamização dos três ramos das Forças Armadas, a 5º Divisão, a CDEA e alguns elementos da CODICE. A Assembleia do MFA aprova esse documento, numa tentativa de o conciliar com o PAP. E aprova ainda um documento apresentado por Vasco Gonçalves.
•São institucionalizadas as comissões de moradores e de trabalhadores e outros organismos de defesa da revolução.

10 de Julho
•Reaparece o jornal República  sob a orientação da Comissão Coordenadora de Trabalhadores e tendo como director o Coronel Pereira de Carvalho. Na sequência deste facto, o PS abandona o Governo e desencadeia por todo o país uma onda de protesto contra o que chama o “roubo do República”.
•Tem início, em Lisboa,  uma vaga de grandes manifestações que se prolongará até ao dia 17. São convocadas por organizações populares para apoio do Documento Guia POVO/MFA e pelo reforço do Poder Popular de Base.
11 de Julho
•PS e PPD criticam  o Documento-Guia da Aliança Povo-MFA. Mário Soares afirma a propósito: “está para se saber como foram escolhidas as pessoas que formam a Assembleia do MFA”.
•Manifestação popular de apoio à Aliança com o MFA.
•O D. L. nº 363/75 estabelece as Bases da Reforma do Ensino Superior.

12 de Julho
•Independência de S. Tomé e Príncipe. Rosa Coutinho chefia a delegação portuguesa presente nas cerimónias.
•É emitida pelo CR uma nota em que considera demitidos os ministros socialistas que haviam abandonado o Governo .

13 de Julho
•Em Aveiro, a anunciada manifestação de apoio ao Episcopado a propósito da questão da Rádio Renascença não chega a realizar-se por entretanto surgir a notícia da possível demissão do primeiro Ministro Vasco Gonçalves.
•É aprovado o regulamento da Assembleia Popular da zona da Pontinha.
•É nacionalizada a companhia CARRIS.
•Em Rio Maior, assalto e destruição de sedes locais do PCP e da FSP. Esta acção foi considerada como o início da escalada anticomunista do “Verão Quente”, e ainda que já anteriormente se tivessem verificado agressões contra militantes de esquerda, a partir daqui passou a verificar-se a planificação sistemática das acções. (JSC)

14 de Julho
•Na Alemanha Federal, certos sectores da oposição alemã federal ligados à social democracia exigem a anulação do auxílio económico concedido pelo Governo daquele país a Portugal.
•O Conselho de Defesa dos Trabalhadores da LISNAVE publica um documento sobre a situação política e as tarefas da classe operária.
•Em Rio Maior, grupos de populares queimam jornais por considerarem que “não foram correctamente relatados os acontecimentos do dia anterior”.

15 de Julho
•O CR decide nomear uma comissão administrativa para a Rádio Renascença.
•Comunicado da 5ª Divisão sobre a Aliança Povo-MFA.
•Manifestação do PS em que pela primeira vez se grita: “O povo não está com o MFA”, e Mário Soares anuncia que o PS passou à oposição, exigindo o afastamento de Vasco Gonçalves.
•O SDCI identifica no interior do país o coordenador das informações da DGS espanhola sobre Portugal, o comissário Miguel Ayedo. (JSC)

16 de Julho
•Manifestações no Porto e em Lisboa, organizadas por Comissões de Trabalhadores. Nesta última, grita-se, perante o Presidente da República em Belém: «Controlo operário, dissolução da Constituinte já!» e «Governo Provisório não, governo popular sim».
•Reunião Plenária do CR em que este procede a uma exaustiva análise da situação, concluindo estar a sociedade portuguesa a atravessar dolorosa e gravíssima crise. O Conselho resolve, por proposta de Marques Júnior, aprovada por unanimidade, delegar no Presidente da República, Primeiro-Ministro e Comandante do COPCON a elaboração de um projecto político, capaz de superar a crise. Decidiu ainda que, até à apresentação ao Plenário desse programa político, não teriam lugar quaisquer reuniões dos órgãos de cúpula do MFA, incluindo as do próprio CR, salvo para tratar de assuntos específicos de carácter urgente. Decide finalmente nomear uma comissão administrativa para a Editorial República SARL.
•D. L. nº 372-A/75 estabelece o novo regime do contrato individual de trabalho “considerando que esse regime deve ter em atenção o direito ao trabalho e ao emprego, rodeando o despedimento das cautelas necessárias a que ele não seja possível senão em condições muito especiais”.

17 de Julho
•O PPD abandona o Governo, à semelhança do PS.
•Comunicado do CR sobre a saída do Governo dos ministros do PPD.
•É publicada a Lei nº7/75 sobre a descolonização de Timor na qual se diz que perante a impossibilidade de “criação de condições para a fixação por acordo do processo e do calendário da respectiva descolonização se recorre à sua fixação através de diploma constitucional”.
•Convocada pelos CRTSM realiza-se em Lisboa uma manifestação, durante a qual se vitoria a “ditadura do proletariado” e se exige a “dissolução do Governo e da constituinte”. Otelo Saraiva de Carvalho autoriza a presença de militares, incluindo a sua deslocação em viaturas militares. Soldados do RALIS entram na manifestação.
•O Governo francês veta auxílio a Portugal “por receio de estar a subsidiar uma aliança socialista-comunista” e o Conselho de Chefes de Estado e de Governo lança a Portugal um ultimato: “a Comunidade Económica Europeia, tendo em conta a sua tradição política e histórica, só pode dar o seu apoio a uma democracia pluralista. (RE)
•Sanches Osório lança em Madrid o  livro O equívoco do 25 de Abril.

18 de Julho
•Assembleia Extraordinária do MFA. Discute a proposta do CR de estabelecimento de um Directório (Triunvirato) constituído por Costa Gomes, Vasco Gonçalves e Otelo Saraiva de Carvalho, encarregado de “definir uma orientação política e ao qual seriam dados amplos poderes, mantendo-se o CR, do qual aqueles também faziam parte, para decidir os assuntos de maior responsabilidade”.
•São assaltadas as sedes do PCP na Lourinhã  no Cadaval.
•Melo Antunes desloca-se a Itália onde discute apoio da CEE a Portugal.
•Manifestação anticomunista em Aveiro, no seguimento da qual foi assaltada a sede do PCP e da Intersindical.

18/19 de Julho
•Reagindo ao curso dos acontecimentos e à situação do jornal República,  o PS convoca dois comícios (Estádio das Antas e Fonte Luminosa). No primeiro, Mário Soares afirma perante cerca de 50000 pessoas: “Estamos aqui dezenas de milhares apesar dos boatos alarmistas desses irresponsáveis da Intersindical e dessa cúpula de paranóicos que é o Comité Regional do Norte do Partido Comunista”. No segundo, de cerca de 100.000 pessoas, contesta violentamente Vasco Gonçalves e avisa que “o PS pode paralisar o país”.

19 de Julho
•Às primeiras horas do dia forças do COPCON substituem os civis nas barricadas efectuadas para controlo do acesso a Lisboa de manifestantes conotados com o PS que projectariam uma “marcha sobre Lisboa”.
• Inicia-se na 5º Divisão a campanha de apoio a Vasco Gonçalves, que culmina na edição do cartaz de autoria de João Abel Manta, MFA/VASCO/POVO, e na canção transformada em slogan, “força, força, companheiro Vasco.”

20 de Julho
•Apesar das opiniões contrárias de alguns oficiais do COPCON, Otelo Saraiva de Carvalho parte para uma viagem a Cuba, durante a qual admite poder vir a aceitar o cargo de vice-primeiro ministro.
•O COPCON  divulga um comunicado em que afirma ” face à escalada da reacção, serão utilizadas as armas, se tal vier a ser necessário.”
•São nacionalizadas as principais empresas de pesca.
•Tem início uma onda de assaltos a sedes do PCP, MDP e partidos e organizações da esquerda revolucionária. Essas acções foram reivindicadas por um autodenominado “Movimento Maria da Fonte” que actuava no norte do país e era apoiado por certos sectores da Igreja Católica e por grupos anti-comunistas, com ligações ao MDLP. (JSC)
•Manifestação anticomunista em Viseu no seguimento da qual se tenta assaltar a sede do PCP. Nesse mesmo dia, no Norte e Centro do país verificam-se sete acções idênticas. (JCS)
•Destruídas as sedes do PCP e do MDP em Ponta Delgada.

21 de Julho
•A 5ª Divisão divulga um documento de Vasco Gonçalves de análise da situação política actual.
•Destruída a sede do MDP e a sala da Câmara em Matosinhos tendo-se registado 14 feridos. (JCS)
•No Norte do país, são atacadas quatro sedes do PCP.

22 de Julho
•Vasco Gonçalves inicia as diligências para a formação do 5º Governo Provisório, convidando também alguns dirigentes do PS. Só dois secretários de estado ligados a este partido acabam por aceitar.
•Assaltada a sede do PCP em Alcobaça.

23 de Julho
•Reunião de Delegados da Arma de Infantaria. Vasco Lourenço reúne na EPI, em Mafra, com 60 oficiais e 5 sargentos de Infantaria. As decisões são depois aprovadas por oficiais do Quadro Permanente da RMN que emitem um documento onde criticam Otelo Saraiva de Carvalho, Vasco Gonçalves (em cuja substituição não vêm inconveniente), a 5ª Divisão (pedindo a sua dissolução) e Diniz de Almeida, cuja punição é solicitada por ter participado na manifestação do dia 17.
Além disso:
– Propõem que a Assembleia do MFA seja considerada apenas como órgão consultivo e que seja alterada a composição garantindo uma proporcionalidade que assegure a  importância relativa de cada um dos ramos das Forças Armadas.
– Exigem que as votações nas assembleias militares sejam por voto secreto.

24 de Julho
•Assembleia de Delegados do Exército, presidida por Carlos Fabião, no Centro de Sociologia Militar. Vasco Lourenço apresenta as conclusões da reunião anterior, que acaba por retirar. Acusa entretanto, a Assembleia de incoerência, tendo em conta as suas posições de 8 de Julho, em contradição com as de 19 de Junho.
•Reunião do futuro “Grupo dos Nove” em casa de Gomes Mota. Decidiram elaborar um documento  subscrito por Melo Antunes, Vasco Lourenço, Vítor Alves, Costa Neves e Canto e Castro, para ser lido na Assembleia do MFA do dia seguinte, o que não vem a acontecer.
•Em Angola, a FNLA ocupa o Caxito com apoio de militares zairenses e mercenários portugueses, com a supervisão dos EUA (CIA).

25 de Julho
•Pelas primeiras horas da manhã Vítor Alves desloca-se ao Palácio de Belém, onde junto do PR explica as razões que determinarão a sua ausência na Assembleia daquele dia. Os restantes elementos fazem o mesmo através  do envio de missivas individuais directamente entregues ao PR.
•Assembleia do MFA. As oposições  entre os militares avolumam-se. Sob os temas «Um ritmo para a Revolução, um caminho para a independência nacional e um curso para continuar a descolonização», as posições de Costa Gomes e Vasco Gonçalves foram radicalmente opostas, mas ambas aplaudidas. A Assembleia apoia a criação da Troika.
•Entretanto a moção aprovada na reunião de 23 de Julho é votada pelos oficiais da RMN.
•É publicada a Lei nº8/75 de 25 de Julho, que determina a punição a aplicar aos responsáveis, funcionários e colaboradores das extintas DGS, PIDE e LP (8 a 12 anos de prisão) e estabelece que a competência para o respectivo julgamento é de um tribunal militar.
•Assaltadas várias sedes do PCP no Norte do País.
•Início dos trabalhos do Congresso da Intersindical. Segundo a organização participam 159 sindicatos.

27 de Julho
•Vasco Gonçalves, presente no encerramento do Congresso dos Sindicatos afirma: ” eu vejo nesta aliança Povo/MFA uma vanguarda constituída pelas classes trabalhadoras e pelo MFA, movimento revolucionário autónomo das Forças Armadas, aliado aos pequenos industriais, aos pequenos comerciantes, aos pequenos e médios agricultores, porque essa gente também era trucidada e explorada pelo capitalismo monopolista de Estado”.
•Manifestação em Bragança de apoio ao Episcopado.
•Realiza-se em Coimbra o 1º Congresso Nacional das Autarquias Locais, com a participação de Comissões de Moradores de Lugar, Aldeia e Bairro, Juntas de Freguesia, Município e Comissões de Trabalhadores, com o objectivo de discutir as formas de intervenção efectiva na resolução dos problemas comunitários, através da transferência de poderes de decisão e gestão da vida local e regional.

29 de Julho
•Melo Antunes deixa a pasta dos Negócios Estrangeiros.
•É publicado o D. L. nº 406-A/75, Lei da Reforma Agrária, em cujo preâmbulo se afirma que os dispositivos legais contidos no presente diploma “constituem apenas um quadro geral de ataque à grande propriedade e à grande exploração capitalista da terra [..] destinado a prever e regular o processo de desapossamento da grande propriedade da terra e das grandes explorações capitalistas dos estratos até agora dominantes e seus agentes mais poderosos”.
•O D. L.  nº 406-B/75 cria o crédito às Cooperativas Agrícolas.
30 de Julho
•Reunião de Oficiais das diversas unidades da RMN, no Porto. É apresentada por oficiais ligados ao futuro “Grupo dos Nove”, uma moção  que vem a ser aprovada após uma longa noite de acesa discussão, na qual se contesta o Comandante da RMN, Eurico Corvacho, ao mesmo tempo que se afirma o apoio à moção aprovada na EPI.
•Otelo Saraiva de Carvalho, no regresso da sua viagem a Cuba declara: “Mário Soares é uma das esperanças da direita em Portugal (…) O CR não mostrou a eficácia  que todos esperávamos.”
•A delegação portuguesa parte para a Conferência de Helsínquia, onde  a situação em Portugal é um dos temas em debate.
•O Alto Comissário de Angola, general Silva Cardoso, pede a demissão.
•Jorge Sampaio e João Cravinho ex-MES abandonam o Governo.
•O D. L. nº 407-C/75 extingue as coutadas, considerando que ” a concessão de coutadas, sob a capa de protecção e fomento da caça, mais não constitui do que uma fonte de privilégios a que urge pôr termo”.
•Assaltadas as sedes do MDP/CDE, PRP e FEC-ml em S. João da Madeira, o que completa a destruição de todas as sedes de forças políticas à esquerda do PS, naquela localidade, depois da destruição da sede do PCP que ocorrera na véspera. (JSC)

31 de Julho
•A engenheira Maria de Lurdes Pintasilgo tom posse do cargo de embaixador português junto da UNESCO.
•É ratificada pelo CR a criação do Directório para “assegurar a autoridade do poder”.
•Oficiais e praças do Regimento de Comandos da Amadora insubordinam-se contra o seu Comandante Major Jaime Neves e prendem o 2º Comandante Major Lobato Faria, entre outros militares e elegem como comandante interino o major Miquelina Simões. O   em comunicado sanciona  o saneamento de Jaime Neves.
•Intensifica-se a ponte aérea que a partir de Angola e de outros territórios africanos, durante vários meses, vai fazer afluir a Portugal centenas de milhares de retornados.
•Na cidade de Dili ocorrem violentos confrontos entre as forças da UDT e da FRETILIN, provocando vários mortos.

Ainda em Julho
•Encontro entre Valdemar Paradela de Abreu, João Braga, António Estarreja e José Brito Silva Santos, com ao Bispo de Braga a quem apresentaram uma carta de Jorge Jardim. Com a ajuda do cónego Eduardo Peixoto de Melo organizam o movimento “Maria da Fonte”, que tem o seu epicentro na diocese bracarense, com vista à luta anticomunista no Norte e Centro do país. O Movimento estende-se a seis dioceses e é responsável, entre Julho e Novembro, pelo ataque a mais de cem sedes do PCP e de organizações que lhe eram próximas. “Maria da Fonte” foi, na prática, um desdobramento tácito do MDLP. (JSC)
•Sai o primeiro exemplar do mensário Viriato. Jornal clandestino de portugueses e só para portugueses  ligado ao MDLP. Aparecem 3 exemplares, o último dos quais datado de Setembro de 1975. Os responsáveis por esta publicação foram o engenheiro Jorge Jardim e o coronel Costa Campos. (JSC)
•Aparecem os Comités de Defesa da Civilização Ocidental (CODECO), ligados a Vasco Montês. Os seus principais operacionais são: José Cruz da Silva, António Jorge Panasqueira Gago e José Esteves. Mantiveram laços estreitos com o ELP. (JSC)

Fonte: Centro de documentação 25 de Abril (cronologia pulsar da revolução).

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Ecos do encontro de 2015

A maior novidade deste ano foi a partilha do encontro de confraternização entre a C.Caç. 3413 e a C.Caç. 1311 que estiveram juntas nos finais de 1971 e princípios de 1972, na província do Uíge, norte de Angola, tendo por missão a protecção à C. Eng. 2759, que abria uma picada na mata do Luaia, proporcionando um  reencontro de 44 anos.

No que se refere à 3413 e pese embora o esforço do organizador Albino Igreja não foi possível “rebocar” aqueles que teimam em se manter no lote dos “ausentes definitivos” e respeitando a opção de cada um, comunicamos que a próxima oportunidade será no dia 21 de maio de 2016.

Quanto aos “ausentes temporários” que desta vez não puderam estar presentes, esperamos que no próximo ano não haja impedimentos. Quero aqui destacar o telefonema que recebi do nosso amigo e companheiro Amândio Leitão que nos últimos 3 anos não tem estado presente devido ao drama que a perda de um filho representa, esperamos que em 2016 o possa fazer para lhe darmos um abraço de solidariedade.

Novidade, novidade, foi a presença do nosso companheiro açoriano Henrique Câmara que se deslocou da sua terra natal, Povoação, ilha de São Miguel, para estar presente e foi bem visível a sua satisfação por rever companheiros de luta que desde 1973 não se viam.

 

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Da esquerda para a direita: Penedo, Câmara, Cap. Ribeiro, Rodrigues, Azevedo e Mendes. Em segundo plano está o Alves e o Correia.

Outra novidade foi termos o prazer de ouvir as poesias do Toni enfermeiro, Moreira, sempre alegre e bem disposto como já era seu timbre.

Seguem-se 3 vídeos, um com o Moreira dedicando um poema ao nosso malogrado companheiro Machado, falecido em 5 de Fevereiro de 1973, vítima de uma mina anti-carro e os outros dois são enxertos dos discursos dos comandantes das companhias presentes, Afonso Videira da 1311 e Carlos Ribeiro da 3413.

Mário Mendes

 

 

 


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Encontro/2015

Companheiros e amigos

Espero que já tenham tudo a postos para a grande operação cujo ponto de encontro se situa em Santa Maria da Feira. Botas engraxadas, armas limpas e oleadas e toca a andar que se faz tarde. Quantos são, quantos são?

Este ano serão certamente mais que nos anos anteriores, pois devido à grande complexidade da operação houve a necessidade de pedir reforços e assim a C.Caç. 1311 vai também associar-se ao evento e lá estaremos tal como em 1971/1972.

O teatro de operações é o que se apresenta nestas fotos.

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A ração de combate será distribuída pelas 12,30 do dia 16 de Maio, no local cujas coordenadas GPS são:

40˚, 57ˊ,27ʺ N / 8˚, 32ˊ, 08ʺ W

Um abraço

Mário Mendes


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XX Encontro

O programa do encontro deste ano engloba as Companhias de Caçadores 1311 e 3413, que partilharam no norte de Angola, província do Uíge, as bases tácticas de Cleópatra e Cecília, dando protecção à Companhia de Engenharia 2579. Vamos relembrar episódios que no último trimestre de 1971 e nos primeiros dois meses de 1972 ali vivemos.

As inscrições da 3413 serão acolhidas pelo companheiro Albino Igreja.

Para consultar o evento, clique  AQUI.


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Lembranças do passado

O amigo e companheiro Ramiro Carreiro deu à estampa mais estas duas fotos, uma a bordo do navio Vera Cruz que transportou a C.Caç. 3413 desde Lisboa até Luanda entre os dias 31 de Julho e 9 de Agosto de 1971 e outra no aquartelamento da Mamarrosa.

A data de 31 de Março de 1972, já depois de termos realizado a operação “sequência” descrita no artigo anterior e antes de partirmos para a Mamarrosa em 8 de Abril de 1972, um período de “férias” nas intermitências da guerra que a nossa condição de companhia de intervenção nos proporcionava, trás à memoria do Carreiro um acontecimento de que não tenho grande recordação, que foi a explosão de um paiol de munições no Grafanil, mesmo atrás das casernas dos nossas praças.

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 Só reconheci 2 nomes no conjunto das fotos, o Carreiro já identificou os restantes, mas por agora não vou divulgar os seus nomes. Quem se atrever a dar palpites faça o favor de se chegar à frente. Vamos lá ver quem é que toma “memofante”. Dentro de dias dou a “chave”.

Um abraço para todos, Boa Páscoa.

Mário Mendes


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HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DA C. CAÇ. 3413 (X)

A operação aqui relatada com o nome de código “sequência” decorreu entre os dias 12 e 18 de Março de 1972 e à distância de 43 anos é vista pelo nosso companheiro Joaquim Alves que também enviou as fotos, da maneira que se segue:

Ainda de madrugada, tudo para cima das viaturas e depois de muitos kms e muitas peripécias, tal como o acidente que mandou com o Valdez para o hospital militar de Luanda, instalamos na base táctica idealizada. Depois de descansarmos o resto do dia, ainda nessa noite desse dia fomos largados no sítio previamente estabelecido. Tínhamos como objetivo uma sanzala algures no meio do mato na zona do rio Zenza, sabíamos que a dita estava habitada e de antemão perspetivava-se que o confronto iria ser inevitável. Além do 1º e do 2º grupo de combate, iam uns carregadores negros com diverso material de prevenção e um indivíduo que havia sido capturado e pertencia aquela aldeia indígena, daí conhecer bem o caminho e servir de nosso guia. Logicamente fomos largados bem longe para não sermos detetados e podermos aparecer sem sermos esperados e a partir daí foi palmilhar kms e mais kms, só esporadicamente parávamos para comer a ração e toca a andar. Ao anoitecer, ainda de dia, fixávamos um ponto onde pernoitar, de preferência um sítio mais elevado para evitar surpresas e só estacionávamos já noite cerrada…

Ao princípio a mata não era muito fechada mas pouco a pouco só avançávamos a golpes de catana e conforme íamos avançando, assim as nossas dificuldades também iam aumentando. O calor era insuportável. Dentro do saco de campanha carregávamos com os cantis de reserva cheios de água, mais as rações de combate para 4/5 dias e o ponche além de tudo isto ainda carregávamos a arma, de 4.100 kg com os respectivos 5 carregadores de 600 gr cada, além das granadas. Tudo isto começou a tornar o “passeio” num verdadeiro suplício. Os ombros onde as correias do saco se apoiavam, ficaram em ferida e a cada paragem se ficasse em pé sem me apoiar para a frente na G3 era certo e sabido que caía de costas…

Entretanto ao fim do 2º dia entramos em zona pantanosa. Como precaução o enfermeiro levava um aparelhómetro para limpar e purificar a água que apanhássemos. Funcionava gota a gota e para tantos homens era simplesmente impraticável e o mais prático era encher o cantil onde desse para isso. A água era repugnante, estagnada e com sabor até a urina de animais selvagens e demais porcarias, intragável. Mas que se havia de fazer? Cantil cheio e um comprimido para matar a bicheza e toca a andar. A mata fechada é toda muito semelhante, não se tendo uma perspetiva real do terreno nem da direção em que seguimos, mas começamos a desconfiar que havia sítios ou muito parecidos…ou já ali tínhamos passado! Disfarçadamente começamos a deixar algumas marcas nas árvores. Tal e qual…o nosso guia levava-nos ao “objetivo” sim, só que não ia a direito. Íamos avançando mas fazendo grandes círculos e fez-se luz. O homem era guerrilheiro e pertencia aquela aldeia e assim dava-lhes a oportunidade de os seus vigias nos detetarem e assim o seu povo poder fugir enquanto era tempo. Depois de tudo confirmado, umas agressões, umas ameaças mais fortes e lá continuamos, o que prevíramos, aconteceu. Enquanto o “povo” se raspou, para trás ficaram os que estavam armados, uns tiritos mais para nos retardar do que propriamente nos enfrentarem e lá acabámos por ocupar a “cidadela” já deserta…

Ficamos impressionados com a organização e asseio com que nos deparamos. O chão estava todo limpo até de ervas, mas olhando para cima confirmamos que era impossível serem detetados tal o teto que as árvores lá em cima se encarregavam de fazer. Algumas árvores que serviam de vigia, tinham desde cá debaixo até lá acima em círculo uma escada em madeira espetada nas árvores para poderem subir e descer com facilidade. Antes de lá entrarmos deparámos com as sempre traiçoeiras “armadilhas “e quem lá caísse estava tramado. Depois de tudo bem visto e destruído o que nos pareceu merecer a pena, reiniciamos a caminhada, agora para o ponto onde seríamos recolhidos.

A água, esse bem imprescindível, desaparecia rapidamente dos cantis e o único sítio onde dispusemos dela com fartura, foi quando em determinado momento passamos junto ao zenza. Daí para a frente, tudo seco. Nem água putrefacta para molhar a garganta, zero. O terreno era tipo arenoso, a vegetação também começou a ser mais rasteira embora fechada. As árvores, menos volumosas também, apresentavam uns espinhos enormes que ao passarmos nos rasgavam o camuflado…e por vezes a pele.

Entretanto estava tudo stressado, tudo de rastos e a coisa piorava a olhos vistos. Para agravar o estado de coisas o guia deixou de poder andar. “Mata-se já aqui o filho da puta e arruma-se o caso”… muitas ameaças, uns abanões mas nada o homem não era mesmo capaz de dar um passo quanto mais andar…ele estava habituado a comida do mato, natural e sem sal. Ao comer rações de combate, com sal, com muitos kms andados o desgraçado deu em inchar e não se podia mesmo mexer, e não houve outro remédio que não fosse improvisar uma maca para o carregar. Ainda lembrados das voltas que ele nos obrigou a dar ao princípio, completamente extenuados e ainda por cima ter que carregar com ele,…era de mais e alguns queriam mesmo acabar-lhe com a vida, mas valeu a intervenção doutros, não evitando que de vez em quando não viesse parar ao chão debaixo das maiores ameaças…

A nossa progressão era cada vez mais penosa. A água tinha acabado e a esperança de encontrarmos uma linha de água que fosse, já sabíamos que estava posta de parte. Cada passo era um sacrifício terrível. Cada metro parecia um km, já não andávamos, arrastávamo-nos e o ponto de recolha não havia meio de aparecer…

Depois de mais uns quantos episódios, uns quantos kms e muita sede finalmente atingimos a picada onde iríamos ser recolhidos. Ufa que alívio. Não havia meio mas finalmente tínhamos conseguido. Via transmissões havia um único pedido: “água”! Quando a coluna que nos foi recolher chegou acabou-se a postura e desatou tudo a correr para os autotanques pedidos. E todos metemos á bruta as bocas debaixo de água para nos dessedentarmos… as hierarquias ou as boas maneiras foram completamente postas de parte, e todos tínhamos um só pensamento: beber água… foi a bebida que na vida melhor me soube…pudera! E dali para a base tática.

Naquele estado lastimoso, a nossa vontade era nula e iríamos para onde nos levassem…e levaram-nos a tomar banho no rio que passava perto da base táctica. Havia crocodilos? Nada que umas granadas e umas rajadas não resolvessem. Montaram uma grande segurança á nossa volta e tudo para dentro de água! Tinha uma parte baixinha para os que não sabiam nadar e uma outra bem funda. Espectáculo! Até tinha umas quedas de água. Foi uma loucura. Acabado o banho, devidamente lavados e refrescados fomos levados a uma tenda tipo refeitório. Com mesas e tudo além duns bancos para nos sentarmos. As tendas eram verdes como as demais mas lá por dentro duma alvura e dum asseio a toda a prova, onde nos serviram um bifalhão enorme, com muita batata acabadinha de fritar e um ovo a cavalo para cada. E podíamos repetir. Para finalizar a nossa surpresa tudo isto era acompanhado por nocais fresquinhas, que ainda vinham tapadas com gelo, que o Batalhão “sus a eles” tinha ido buscar para nós na localidade ali mais próxima mas a uns bons quilómetros. Não havia dúvida. O comandante deles, coronel Duarte Silva, não brincava em serviço. E se era muito exigente e rigoroso, a compensação era em tudo idêntica…

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Acontecimentos de Março de 1975

Faz hoje 40 anos que ocorreu o chamado golpe militar de 11 de Março de 1975, a tentativa de Spínola mudar o rumo da revolução de 25 de abril de 1974.

1 de Março

•Encerramento definitivo do jornal Novidades órgão de informação afecto ao regime deposto.

•O general Spínola adia o golpe de estado que tinha preparado para esse dia, por falta de coordenação. A organização conspirativa de Spínola, sobretudo no âmbito civil, apoia-se nas organizações de direita desmanteladas no seguimento do 28 de Setembro e infiltradas pelo Serviço de Extinção da PIDE/DGS. (JSC)

3 de Março
•O jornal A Capital, citando a revista alemã ocidental Extra: afirma: «A CIA planeia golpe em Portugal ainda antes do fim de Março».
•Ocupação de uma vivenda para instalação de um centro popular no Barreiro.

3 a 8 de Março
•Decorrem eleições para os conselhos das Armas e Serviços do Exército, órgãos consultivos dos Directores e do Chefe do Estado Maior do Exército. Não foram eleitos alguns dos mais destacados elementos do MFA. Por exemplo, para o Conselho da Arma de Artilharia não foram eleitos Otelo Saraiva de Carvalho, Melo Antunes e Francisco Charais. Para o Conselho da Arma de Cavalaria foi eleito o General Freire Damião, pouco antes destituído do Comando-Geral da GNR, além do Major Soares Monje e do Coronel Duarte Silva, coordenadores das Tropas Especiais.
•Na EPC de Santarém surge a moção de desconfiança  à CCP motivada pela sua posição face à Lei Sindical. Essa moção alastra à Região Militar de Tomar e depois à Região Militar de Évora (com excepção da EPA de Vendas Novas).

4 de Março
•Assembleia do MFA. Enérgicas intervenções do 2º Comandante da EPC, Ricardo Durão, contrariando o plano Melo Antunes, e do Comandante do Regimento de Caçadores Pára-quedistas Rafael Durão, antevendo a inevitabilidade do “golpe”.
•Os embaixadores dos Estados Unidos a América e da República Federal Alemã desmentem qualquer colaboração com a CIA para um golpe em Portugal.
•O Ministério da Educação lança um ultimato aos estudantes do ensino secundário para que recomecem as aulas dentro de dois dias.

6 de Março
•Reunião do Conselho de Estado. Toma conhecimento de uma notícia da Secção de Apoio segundo a qual nessa noite tropas pára-quedistas marchariam sobre Lisboa para deter Costa Gomes.
•A revista francesa Temoignage Chrétien noticia que “o General Spínola recebeu luz verde do embaixador dos Estados Unidos da América para tentar subverter o processo revolucionário em Portugal”.
•Plenário na LISNAVE (Margueira) com mais de 3000 trabalhadores demite a Comissão para a Redução do Leque Salarial devido às suas propostas envolverem verbas que poriam em risco a situação económica da empresa.

7 e 8 de Março
•Verificam-se violentos incidentes, em Setúbal, quando elementos de extrema-esquerda tentam boicotar um comício do PPD. A PSP intervém fazendo um morto e vários feridos.

8 de Março
•O Conselho dos 20 decide efectuar a institucionalização do MFA em 25 de Abril de 1975.
•Comemoração do Dia Internacional da Mulher. Em Lisboa, centenas de pessoas participam num desfile organizado pelo MDM e Intersindical. No Porto a FEC-ml enche o Palácio de Cristal para debater os problemas da mulher e a luta pela reconstrução do comunismo. (JSC)
•Reunião em Madrid, na rua Yuan Bravo, domicílio de Barbieri Cardoso, com a presença do próprio Barbieri, do comandante Jorge Braga, Jorge Jardim, primeiros tenentes Rolo e Nuno Barbieri , e o engenheiro Santos e Castro que informou os presentes que o Chefe do Governo Espanhol, Raias Navarro lhe tinha indicado que se iria produzir “A Matança da Páscoa”. (JSC)
•Spínola é avisado pelos serviços secretos espanhóis e franceses de que está em marcha a operação da “Matança da Páscoa”, com o objectivo de neutralizar 500 oficiais do QP e 1000 civis que lhe eram fiéis. As organizações da extrema direita militar, através do general Tavares Monteiro, fazem-lhe chegar idêntica mensagem. Durante estes dias circulam múltiplos boatos sobre a “matança da Páscoa” atribuídos quer aos serviços secretos de alguns países europeus (Alemanha, Espanha e França), quer ao KGB, quer à CODICE.

9 de Março
•Primeira reunião conjunta das Câmaras Municipais da região de Lisboa e Setúbal.
•No Montijo, a UDP realiza o seu primeiro congresso.
•Na sede da Comissão de Extinção da PIDE realiza-se uma reunião com vários oficiais daquele serviço,  do RAL 1, da 5ª Divisão e da Armada. A reunião é dirigida pelo major Nápoles Guerra, chefe dos Serviços de Extinção da PIDE/DGS, para organizar o contra-golpe e as acções do 11 de Março. (JSC)

10 de Março
•Jorge Campinos, Subsecretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, de visita à RFA  declara que: “os socialistas portugueses de acordo com o actual presidente Costa Gomes, pensam ser possível a substituição do Primeiro Ministro Vasco Gonçalves ainda antes da eleições, para  com Costa Gomes ou até Spínola como presidente, poderem ter, depois das eleições uma participação ainda mais activa nas decisões políticas. (RE)

11 de Março

Madrugada
•António de Spínola conjuntamente com outros militares, em carros transportando armas, chega à Base Aérea nº 3 em Tancos. São recebidos pelo coronel Moura dos Santos comandante da Base.

8.30 horas
•Praças, sargentos e oficiais da Base Aérea nº 3 verificam que a instrução normal que deveria ter lugar ao princípio da manhã  fora cancelada. Entretanto, no regimento de Caçadores pára-quedistas, o coronel Rafael Durão reúne os oficiais da unidade para lhes explicar a operação, alegando ter recebido ordens do Chefe de Estado Maior da Força Aérea (CEMFA).

10.30 horas
•O major Casa Nova Ferreira, comandante distrital da PSP de Lisboa, dá conhecimento do golpe a alguns oficiais daquela corporação.

11.45 horas
•Ataque aéreo, ao RAL 1 (que meses mais tarde passa a designar-se RALIS) por aviões da Base Aérea nº 3. Um morto (o soldado Joaquim Carvalho Luís), 15 feridos e largos danos nas instalações da Unidade.

12 horas
•Tropas pára-quedistas, do Regimento de Caçadores Pára-quedistas de Tancos, sob o comando do major Mensurado cercam o RAL 1.
•No Quartel do Carmo, oficiais no activo e da reserva, da GNR, comandados pelo major Freire Damião prendem o comandante geral general Pinto Ferreira, o comandante e outros militares fiéis ao MFA.

12.05 horas
•As forças do RAL 1, comandadas por Diniz de Almeida tomam posições de combate e ocupam prédios em frente do quartel. Entretanto o COPCON inicia a movimentação militar tendente a neutralizar o golpe e ocupa o Aeroporto de Lisboa.

12.45 horas
•No exterior do RAL 1 verifica-se um insólito diálogo entre o capitão Diniz de Almeida e o capitão pára-quedista Sebastião Martins acerca dos motivos do assalto:
“Diniz de Almeida: – porque é que o camarada não vem comigo ao COPCON? Reconhece ou não a autoridade do COPCON? o General Carlos Fabião, o Chefe do Estado Maior do Exército? Os nossos chefes deram-nos ordens contrárias…A si de atacar…a mim de me defender…Porque não deixamos que eles discutam o assunto?
Sebastião Martins: – As Forças Armadas não estão consigo.
Diniz de Almeida: – Se assim for, não terei a mínima dúvida em me render à maioria. Mas, que eu saiba, o Exército está connosco, a Marinha está connosco, só vocês é que não.
Sebastião Martins: – Vamos ver. Vamos então esperar que os nossos chefes decidam.”
Os dois comandantes, Coronel Mourisca do RAL 1 e Major Mensurado dos pára-quedistas deslocam-se  ao Estado Maior da Força Aérea para esclarecer a situação e tentar um acordo, o que foi obtido pelas 14.30 horas.

A partir das 12.45 horas
•Primeiros apelos à mobilização popular por parte da Intersindical. Levantam-se as primeiras barricadas nas estradas de Vila Franca e Setúbal.
•Organizam-se piquetes de trabalhadores em locais estratégicos: Bancos, Emissora Nacional, etc.
•A população, em diversos pontos do país, acorre aos quartéis,colocando-se à disposição dos militares.
•É assaltada a casa de António de Spínola e as sedes do PDC e do CDS em Lisboa e do PPD no Porto.

13 horas
•A Emissora Nacional declara-se a «única voz autorizada» e passa a transmitir exclusivamente informações da 5ª Divisão do Estado Maior.
•O Rádio Clube Português é atacado e deixa de transmitir em onda média, de Lisboa. Continua a transmitir em frequência modulada e onda média do Porto.

13.30 h
•O Capitão Duran Clemente dá as primeiras informações aos microfones da Emissora Nacional.
•Começa a transmitir, em ligação com a EM, a Estação Rádio da Madeira (protegida por forças do COPCON).

13.50 h
•A Rádio Renascença interrompe a sua greve, iniciada há 22 dias e começa a transmitir em simultâneo com o Rádio Clube Português. Entram também no ar Rádio Ribatejo, Rádio Alto Douro e Rádio Altitude.

14.40 h
•As forças pára-quedistas levantam cerco ao RAL 1. Confraternização de militares e civis.
•Ricardo Durão desloca-se com Salgueiro Maia a Tancos para dialogar com António de Spínola.
•O General Tavares Monteiro é mais tarde preso em Tancos pelos seus sargentos.

14.45 h
•A Emissora Nacional transmite o primeiro comunicado do gabinete do Primeiro-Ministro: “a aliança entre o Povo  e as Forças Armadas demonstrará, agora como sempre, que a revolução é irreversível. ”

15 horas
•O Diário de Lisboa é o primeiro jornal a sair com a cobertura dos acontecimentos. Fará três edições.
•O general Spínola admite o malogro do golpe. Entretanto, em Tancos, há hesitações por parte de sargentos e praças que desconfiam das ordens recebidas. O general Tavares Monteiro é mais tarde preso naquela unidade por soldados, sargentos e oficiais milicianos.

15.10 h
•A Rádio Televisão Portuguesa noticia brevemente os acontecimentos.

15.25 horas
•Entrevista com Otelo Saraiva de Carvalho na televisão: A situação está perfeitamente calma. Foi um exercício de fogos reais. Quanto aos responsáveis do sucedido eles serão exemplarmente castigados. As forças do exército no país, estão totalmente serenas e com o MFA.

16 horas
•Mensagem do Presidente da República: “que desta lamentável aventura saia mais uma vez reforçada a unidade Povo-MFA e que a população portuguesa dê mais uma vez ao mundo um exemplo da sua maturidade cívica”.

17 horas
•Rendem-se e libertam os oficiais detidos os elementos que se haviam revoltado no Quartel do Carmo. Quatro dos revoltosos (general Freire Damião, tenente-coronel Xavier de Brito, major Rosa Garoupa e tenente Gomes) pedem asilo político na Embaixada da RFA.

17.15 horas
•Discurso de improviso do Primeiro-Ministro: “Uma minoria de criminosos lançou homens das Forças Armadas contra as Forças Armadas, o que é o maior crime que hoje se pode perpretar em Portugal”.

17.30 h
•É transmitido novo comunicado da 5ª Divisão em que se faz “o ponto da situação militar no país regressado à normalidade”.
•O General Pinto Ferreira aparece à janela do Carmo, já livre, e reafirma depois a confiança nos seus homens que  segundo ele «foram enganados».

17.45 h
•Mensagem do Ministro da Comunicação Social, Correia Jesuíno, à imprensa.

19 horas
•Quase todos os partidos convocam manifestações: PCP, PS, MES, FSP, MDP/CDE no Campo Pequeno. MRPP e UDP no Carmo.
•Segundo um telegrama da Agência France Presse, Spínola, acompanhado da mulher e de 15 oficiais chega à base aérea de Talavera La Real (Badajoz).

19.30 horas
•Em conferência de imprensa Otelo Saraiva de Carvalho afirma que os acontecimentos correspondem a “mais um assalto das forças contra-revolucionárias à jovem democracia portuguesa”.

20 horas
•Milhares de pessoas agitando bandeiras e gritando slogans em que predominam as palavras de ordem, “unidade” e “soldado amigo o povo está contigo” desfilam em Lisboa desde o Campo Pequeno até ao Rossio. Idênticas manifestações decorrem por todo o país.

21 horas
•Mensagem do Presidente da República em que dá a lista dos implicados. Entre eles figuram António de Spínola, Alpoim Calvão, António Ramos, Neto Portugal, Rosa Garoupa, Rafael Durão, Freire Damião, Tavres Monteiro e Xavier de Brito.

23.50 horas
•Reunião Extraordinária do MFA, durante toda a noite, em que tiveram assento, pela primeira vez, sargentos e praças dos três ramos das Forças Armadas. Decide-se institucionalização do MFA; constituição do Conselho da Revolução (CR) e realização de eleições. O comunicado emitido no final da reunião termina afirmando: “a assembleia reconheceu o valor e o espírito de sacrifício com que o RAL 1 suportou e reagiu ao intempestivo ataque de que foi vítima e manifestou a todo Povo Trabalhador Português, que dos seus locais de trabalho acorreu a tomar o seu lugar ao lado do Movimento das Forças Armadas, o seu reconhecimento de que na Revolução Portuguesa o Povo e o Movimento das Forças Armadas caminham unidos e firmes para o desenvolvimento e progresso social do país.
•Manifestação popular junto ao RAL 1 durante toda a noite.
Ainda em 11 de Março
•É publicado o D. L. nº123/75  com vista a ultrapassar  “as situações de impasse no saneamento da função pública”.

12 de Março

  • À 1 hora da manhã a RTP transmite a reportagem do ataque ao RAL 1.
    •Mensagem do capitão Bargão dos Santos, director de informação da RTP, confirma que: António de Spínola fugiu de helicóptero para Espanha.  Rafael Durão tendo recebido ordem de prisão decidiu entregar-se.
    •Em várias cidades do país as sedes do PDC e do CDS são assaltadas.
    •O Ministro Correia Jesuíno dá uma conferência de imprensa com a presença de dezenas de jornalistas estrangeiros. Fala, entre outras coisas, de alterações na Emissora Nacional e na RTP, a fim de melhor corresponderem ao papel revolucionário que lhes compete.
    •São fechadas as fronteiras com Espanha a partir das 14.30 horas.No Porto as estações de rádio e televisão são ocupadas pelo MFA.
    •Reunião dos quadros da 5ª Divisão. O debate polariza-se à volta da co-optação dos novos membros do CR. Face ao clima de boatos, tensão e confusão a 5ª Divisão cria o Centro Contra o Boato, através do qual se propõe esclarecer directamente (por meio de duas linhas telefónicas) ou indirectamente (via rádio ou TV ) a opinião pública.
    •Junto à portagem, militares que faziam guarda ao RAL 1, atingem mortalmente um civil, que não obedeceu à ordem de paragem.
    •Tem início uma vaga de ocupações de empresas, pelos trabalhadores. Também no campo da habitação se verifica uma nova vaga de ocupações de prédios vazios e de grandes mansões abandonadas, transformadas depois em creches e locais de habitação.

13 de Março
•Uma esquadra composta por forças da  NATO e inglesas aproxima-se da costa  portuguesa.
•Na zona de Lisboa verificam-se movimentações de carros militares transportando material de artilharia.
•A 5ª Divisão, transmite através da Emissora Nacional, comunicados regulares.
•Mensagem de Costa Gomes, anunciando a realização de um inquérito ao 11 de Março “sem distinguir nomes, entidades, classes privilegiadas, ou interesses poderosos”.
•O Governo publica o D. L. nº 129-D/75 que atribui, a título excepcional, uma pensão vitalícia à viúva do General Humberto Delgado.

14 de Março
•Pela Lei nº 5/75, são instituídos o Conselho da Revolução (CR),  ao qual foram atribuídos poderes constituintes e a Assembleia do MFA. Pela mesma lei são dissolvidos a JSN, o Conselho de Estado e o Conselho dos 20.
•Instituída a Assembleia do MFA. Embora já existisse desde Novembro de 1974, com o nome de Assembleia dos 200, modificou a sua composição, podendo agora compreender oficiais e sargentos da escala activa e da de complemento, assim como soldados.
•É publicado o D. L. nº132-A/75 que nacionaliza as instituições bancárias.
•O Governo em declaração pública garante a manutenção dos interesses das multinacionais em Portugal.
•Milhares de pessoas concentradas em Belém saúdam a primeira medida do recém-criado Conselho da Revolução.
•É publicado o D. L. nº135-A/75 que nacionaliza as companhias de seguros.

15 de Março
•São presos vários militantes do MRPP que na rua apelavam à realização de uma manifestação convocada pela Associação dos Familiares dos Antifascistas Presos, pedindo a libertação de Saldanha Sanches, líder do MRPP.

17 de Março
•Pelo D. L. nº 137-A/75 é publicada a constituição do Conselho da Revolução.
•Alpoim Calvão chega a Espanha, conseguindo passar a fronteira graças à cumplicidade de alguns padres que o haviam escondido em várias casas paroquiais até esse momento. (JSC)

18 de Março
•Realiza-se uma Assembleia de milicianos da Força Aérea.
•Reunião do Conselho da Revolução. Decide suspender as actividades do PDC, MRPP e AOC sob a acusação de actividades atentatórias contra o Processo Revolucionário em Curso (PREC sigla por que passou a ser conhecido e período que decorre entre 1974-1975), e adiar para 25 de Abril as eleições previstas anteriormente para 12 de Abril, de forma a obviar a atrasos processuais motivados pela tentativa de golpe de Estado.

20 de Março
•Costa Gomes na cerimónia de tomada de posse do CR afirma: ” Este Conselho da Revolução, em poucos dias, já demonstrou capacidade legislativa revolucionária e ninguém o acusará de limitado quanto a horário de trabalho ou quando à coragem das suas decisões”.
•Realiza-se em Lisboa uma manifestação de cerca de 5000 operários metalúrgicos que, agrupados em comissões de trabalhadores, lutam contra a direcção do respectivo sindicato.
•António de Spínola chega a Espanha.
•Em meios de comunicação social da Europa e dos EUA verificam-se reacções desfavoráveis à interdição de actividades a partidos políticos em Portugal.

21 de Março
•Em Setúbal a 5ª Divisão promove uma reunião para coordenar as “ocupações selvagens” e avisar que a desocupação terá de ser feita até 24 de Março. Mas as ocupações prosseguem e prolongam-se por todo o mês de Abril.
•Dada a impossibilidade de concorrer em coligação com suspenso PDC, o CDS é obrigado a reelaborar as sua listas eleitorais. (JSC)

22 de Março
•Na tentativa de resolver o conflito surgido na Rádio Renascença o Governo nomeia uma comissão mista. O Episcopado rejeita esta solução.

23 de Março
•Eurico Corvacho, Comandante da RMN, dá uma conferência de imprensa no Porto, na qual denuncia as actividades do ELP, afirmando que “foi descoberta uma organização fascista, o autodenominado Exército Para a Libertação de Portugal, com comando instalado em Espanha e que visa espalhar o sangue e o luto no seio do povo português”.
•As autoridades militares anunciam a detenção de doze indivíduos ligados ao ELP, cuja prisão  ocorrera, de facto, em finais de Fevereiro. Os serviços de informação tornaram pública a notícia depois do 11 de Março, para fazerem crer que ela vinha na sequência do fracassado golpe spinolista.

24 de Março
•É instaurado um inquérito ao comportamento de Varela Gomes no 11 de Março.

25 de Março
•Por decisão do CR, António de Spínola e outros 18 oficiais são expulsos das Forças Armadas.
•Pelo D. L. nº 155/75 são suspensas as acções de despejo.
•Na imprensa surgem notícias de que o ELP está a organizar uma vasta campanha de angariação de fundos junto de figuras conotadas com o regime deposto e que se encontram no exílio. (JSC)
•Em conferência de imprensa o MRPP apela ao “boicote activo às eleições”.

26 de Março
•Tomada de posse do 4º Governo Provisório, chefiado por Vasco Gonçalves: O Primeiro Ministro afirma “Considero este Governo um Governo de Campanha, constituído por verdadeiros combatentes e militantes da luta pelo progresso e bem estar do povo português.”
•Em face da situação de ruptura entre o MPLA e a FNLA é imposto o recolher obrigatório em Luanda.

29 de Março
•O ELP, em notícia divulgada pela imprensa, nega qualquer intervenção no Golpe de 11 de Março mas afirma-se pronto a actuar em todo o território português.

31 de Março
•Notícias chegadas de Bissau confirmam uma conspiração, entretanto abortada, que visava a eliminação de dirigentes máximos do PAIGC.
•Pelo D. L. nº 169-D/75 é criado o subsídio de desemprego.
•Pelo D. L. nº 169/75 é criado o Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais (IARN).
•No Alentejo e Ribatejo concretizam-se as primeiras ocupações de terras. Os conflitos sociais nessas zonas vinham-se  agudizando desde o 28 de Setembro de 1974.

Fonte : Centro de documentação 25 de abril