HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DA C. CAÇ. 3413 (X)

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A operação aqui relatada com o nome de código “sequência” decorreu entre os dias 12 e 18 de Março de 1972 e à distância de 43 anos é vista pelo nosso companheiro Joaquim Alves que também enviou as fotos, da maneira que se segue:

Ainda de madrugada, tudo para cima das viaturas e depois de muitos kms e muitas peripécias, tal como o acidente que mandou com o Valdez para o hospital militar de Luanda, instalamos na base táctica idealizada. Depois de descansarmos o resto do dia, ainda nessa noite desse dia fomos largados no sítio previamente estabelecido. Tínhamos como objetivo uma sanzala algures no meio do mato na zona do rio Zenza, sabíamos que a dita estava habitada e de antemão perspetivava-se que o confronto iria ser inevitável. Além do 1º e do 2º grupo de combate, iam uns carregadores negros com diverso material de prevenção e um indivíduo que havia sido capturado e pertencia aquela aldeia indígena, daí conhecer bem o caminho e servir de nosso guia. Logicamente fomos largados bem longe para não sermos detetados e podermos aparecer sem sermos esperados e a partir daí foi palmilhar kms e mais kms, só esporadicamente parávamos para comer a ração e toca a andar. Ao anoitecer, ainda de dia, fixávamos um ponto onde pernoitar, de preferência um sítio mais elevado para evitar surpresas e só estacionávamos já noite cerrada…

Ao princípio a mata não era muito fechada mas pouco a pouco só avançávamos a golpes de catana e conforme íamos avançando, assim as nossas dificuldades também iam aumentando. O calor era insuportável. Dentro do saco de campanha carregávamos com os cantis de reserva cheios de água, mais as rações de combate para 4/5 dias e o ponche além de tudo isto ainda carregávamos a arma, de 4.100 kg com os respectivos 5 carregadores de 600 gr cada, além das granadas. Tudo isto começou a tornar o “passeio” num verdadeiro suplício. Os ombros onde as correias do saco se apoiavam, ficaram em ferida e a cada paragem se ficasse em pé sem me apoiar para a frente na G3 era certo e sabido que caía de costas…

Entretanto ao fim do 2º dia entramos em zona pantanosa. Como precaução o enfermeiro levava um aparelhómetro para limpar e purificar a água que apanhássemos. Funcionava gota a gota e para tantos homens era simplesmente impraticável e o mais prático era encher o cantil onde desse para isso. A água era repugnante, estagnada e com sabor até a urina de animais selvagens e demais porcarias, intragável. Mas que se havia de fazer? Cantil cheio e um comprimido para matar a bicheza e toca a andar. A mata fechada é toda muito semelhante, não se tendo uma perspetiva real do terreno nem da direção em que seguimos, mas começamos a desconfiar que havia sítios ou muito parecidos…ou já ali tínhamos passado! Disfarçadamente começamos a deixar algumas marcas nas árvores. Tal e qual…o nosso guia levava-nos ao “objetivo” sim, só que não ia a direito. Íamos avançando mas fazendo grandes círculos e fez-se luz. O homem era guerrilheiro e pertencia aquela aldeia e assim dava-lhes a oportunidade de os seus vigias nos detetarem e assim o seu povo poder fugir enquanto era tempo. Depois de tudo confirmado, umas agressões, umas ameaças mais fortes e lá continuamos, o que prevíramos, aconteceu. Enquanto o “povo” se raspou, para trás ficaram os que estavam armados, uns tiritos mais para nos retardar do que propriamente nos enfrentarem e lá acabámos por ocupar a “cidadela” já deserta…

Ficamos impressionados com a organização e asseio com que nos deparamos. O chão estava todo limpo até de ervas, mas olhando para cima confirmamos que era impossível serem detetados tal o teto que as árvores lá em cima se encarregavam de fazer. Algumas árvores que serviam de vigia, tinham desde cá debaixo até lá acima em círculo uma escada em madeira espetada nas árvores para poderem subir e descer com facilidade. Antes de lá entrarmos deparámos com as sempre traiçoeiras “armadilhas “e quem lá caísse estava tramado. Depois de tudo bem visto e destruído o que nos pareceu merecer a pena, reiniciamos a caminhada, agora para o ponto onde seríamos recolhidos.

A água, esse bem imprescindível, desaparecia rapidamente dos cantis e o único sítio onde dispusemos dela com fartura, foi quando em determinado momento passamos junto ao zenza. Daí para a frente, tudo seco. Nem água putrefacta para molhar a garganta, zero. O terreno era tipo arenoso, a vegetação também começou a ser mais rasteira embora fechada. As árvores, menos volumosas também, apresentavam uns espinhos enormes que ao passarmos nos rasgavam o camuflado…e por vezes a pele.

Entretanto estava tudo stressado, tudo de rastos e a coisa piorava a olhos vistos. Para agravar o estado de coisas o guia deixou de poder andar. “Mata-se já aqui o filho da puta e arruma-se o caso”… muitas ameaças, uns abanões mas nada o homem não era mesmo capaz de dar um passo quanto mais andar…ele estava habituado a comida do mato, natural e sem sal. Ao comer rações de combate, com sal, com muitos kms andados o desgraçado deu em inchar e não se podia mesmo mexer, e não houve outro remédio que não fosse improvisar uma maca para o carregar. Ainda lembrados das voltas que ele nos obrigou a dar ao princípio, completamente extenuados e ainda por cima ter que carregar com ele,…era de mais e alguns queriam mesmo acabar-lhe com a vida, mas valeu a intervenção doutros, não evitando que de vez em quando não viesse parar ao chão debaixo das maiores ameaças…

A nossa progressão era cada vez mais penosa. A água tinha acabado e a esperança de encontrarmos uma linha de água que fosse, já sabíamos que estava posta de parte. Cada passo era um sacrifício terrível. Cada metro parecia um km, já não andávamos, arrastávamo-nos e o ponto de recolha não havia meio de aparecer…

Depois de mais uns quantos episódios, uns quantos kms e muita sede finalmente atingimos a picada onde iríamos ser recolhidos. Ufa que alívio. Não havia meio mas finalmente tínhamos conseguido. Via transmissões havia um único pedido: “água”! Quando a coluna que nos foi recolher chegou acabou-se a postura e desatou tudo a correr para os autotanques pedidos. E todos metemos á bruta as bocas debaixo de água para nos dessedentarmos… as hierarquias ou as boas maneiras foram completamente postas de parte, e todos tínhamos um só pensamento: beber água… foi a bebida que na vida melhor me soube…pudera! E dali para a base tática.

Naquele estado lastimoso, a nossa vontade era nula e iríamos para onde nos levassem…e levaram-nos a tomar banho no rio que passava perto da base táctica. Havia crocodilos? Nada que umas granadas e umas rajadas não resolvessem. Montaram uma grande segurança á nossa volta e tudo para dentro de água! Tinha uma parte baixinha para os que não sabiam nadar e uma outra bem funda. Espectáculo! Até tinha umas quedas de água. Foi uma loucura. Acabado o banho, devidamente lavados e refrescados fomos levados a uma tenda tipo refeitório. Com mesas e tudo além duns bancos para nos sentarmos. As tendas eram verdes como as demais mas lá por dentro duma alvura e dum asseio a toda a prova, onde nos serviram um bifalhão enorme, com muita batata acabadinha de fritar e um ovo a cavalo para cada. E podíamos repetir. Para finalizar a nossa surpresa tudo isto era acompanhado por nocais fresquinhas, que ainda vinham tapadas com gelo, que o Batalhão “sus a eles” tinha ido buscar para nós na localidade ali mais próxima mas a uns bons quilómetros. Não havia dúvida. O comandante deles, coronel Duarte Silva, não brincava em serviço. E se era muito exigente e rigoroso, a compensação era em tudo idêntica…

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One thought on “HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DA C. CAÇ. 3413 (X)

  1. Muito bom relato do que se passou. Parabéns Joaquim Alves

    *Carlos Ribeiro*

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