HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DA C. CAÇ. 3413 (VII)

3 comentários

Num cenário de guerra, onde armas são presença constante e se lida diariamente com elas, por mais cuidado que se tenha, a hipótese de um acidente está sempre presente a todo o momento. Para contrariar isso, ao princípio e como medida de precaução, sempre que vínhamos da frente os graduados de cada grupo, antes do pessoal descer das viaturas, encarregavam-se de toda a minha gente tirar a bala da câmara. Com o passar do tempo, os nossos soldados acharam que esta rotina se tornara desnecessária, e este ritual até desprestigiante para alguns, perante as outras companhias. E deixou de se fazer. Mandavam as regras de segurança os seguintes movimentos:

1- Tirar o carregador – 2- manobrador atrás com extracção da bala que estava na câmara – 3 -pancada no manobrador para levar a culatra á frente já sem bala – 4 – arma apontada para cima – 5- pressão no gatilho para levar o percutor a bater em seco visto a bala já ter sido extraída.

Ora a sequência correcta seria: 1 – 2 – 3 – 4 – 5

Mas havia de vez em quando alguém que trocava os movimentos e em vez da sequência correcta, fazia 2 – 3 – 1 – 4 – 5

E de quando em vez lá se ouvia o estrondo dum disparo e o consequente silvar da bala em movimento. Até que um dia, tinha que se dar, um soldado de seu nome Geraldo (?) fez o segundo movimento, só que em vez de levantar a arma para cima, apoiou-a no chão e encostou o cano ao ombro. O resultado, foi uma evacuação aérea e uns dias de férias forçadas no hospital de Luanda. Coisas…

    Já passado uns tempos de estarmos na Cecília, fomos reforçados com o 3º Grupo e alguns especialistas que estavam no Toto, reagrupando-se em certa medida a Companhia na sua quase totalidade, uma vez que o 4º Grupo continuava em Quimaria, para onde o 3º passado pouco tempo acabou por ir. Por sua vez, o 1º Sarg. Ramalho continuava a “tratar de assuntos de interesse da Companhia, em Luanda”…Pois! Nesta onda veio também o Fur. enfermeiro José do Sacramento Correia. Foi-lhe montada uma tenda novinha, a “Enfermaria”. Por fora era verde, mas por dentro era duma brancura imaculada. Toda vaporosa, com muito tecido esvoaçante, tipo tule, em nada se assemelhando às demais. Toda branquinha. Um enlevo. Claro que tudo isto era o perfeito contraste com as nossas, que já não eram verdes mas sim castanho-escuro de tanto pó que já acumulado, quanto mais branquinhas.

    Mas não era só com armas que se davam acidentes. Aos domingos ninguém saía para a frente em trabalhos na picada, fazendo-se só os serviços mínimos e de manutenção, com excepção dum Grupo que tinha que ficar na frente a guardar as máquinas. O resto da rapaziada aproveitava como muito bem lhe aprouvesse. Jogos de futebol e “brutovólei” eram bastante disputados e muito renhidos. Com a temperatura que estava mais o esforço despendido, originava uma sede tremenda. Certo dia, um dos jogadores, açoriano e da nossa Companhia, no fim do jogo subia a rampa de acesso á sua tenda, e o que vê ele. Á porta da enfermaria um garrafãozinho de água mesmo ali á mão. E zás. Empinou-o á boca, e…uma aflição que ninguém entendia a razão. Mas o Correia deu logo por ela. É que o garrafão não tinha água, mas sim “FORMOL”…e o nosso homem lá teve que ser evacuado, visto no nosso “hospital” pouco mais se poder fazer que uns pensos, dar uns comprimidos “LM” e dar umas injecções. E sobre as injecções posso garantir-vos que ninguém tinha a mestria do Correia. Começava com “ameaças” e por entre umas gargalhadas de terror batia na nádega tanto e com tanta força, que sem nos apercebermos a agulha já lá estava. Resultado, o que doía eram as nalgadas, até porque ele era exímio a dar injecções.

    Ainda sobre a tenda enfermaria, não sei como, mas o nosso Zé Correia, arranjou um Camaleão que se pavoneava por entre as cordas e espias da tenda, tornando-se numa das grandes atracções da Cecília. Toda a minha gente ia apreciar um bicho nunca antes visto, eu incluído. Quem não lhe achava grande graça, era o enfermeiro Machado da 1311.Dizia ele que se estivéssemos a comer perto do bicho, ele lá de cima cuspia no prato e era morte certa. Acreditando ou não o bicharoco lá se foi passeando pela tenda, limpando-a de todo o tipo de insectos que ele devorava para alívio e alegria do Correia.

 


Fotos e texto de: Joaquim Alves

Na primeira foto com elementos da C.Eng. 3478, na esplanada do “Resort do Luaia”, na segunda em plena mata virgem do planalto do Luaia, que os “engenheiros” iam desflorando e na terceira pode-se ver a frente de trabalho junto ao morro do Tomba.

3 thoughts on “HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DA C. CAÇ. 3413 (VII)

  1. Na Mamarrosa, houve outro caso com o formol, que alguns utilizavam para embalsamar pássaros. O Geraldo enganou-se no garrafão e teve que ser evacuado. Ficou com a alcunha de “Geraldo, o embalsamado.”

  2. gostava de entender por que ignora a Buela os 6 mortos e 22 feridos da comp de caçadores 1609,Caídos e feridos quando vinhamos do reabesteciemnto em Cuimba, ou seja, por que nunca vi uma referência aos anos de 1966/1967. A todos os que ali morreram recordo dolorosamente e estejam lá onde estiverem sabem que o digo sinceramente. Um miliciano à força. João dos Santos

  3. É dificil esquecer aquela época que mediou Dez. de 1966 e Dez de 1967. Escrevo e publico, mas nunca consegui, apesar da minha carreira académica escrever uma linha sobre aqueles tempo. Os absessos emocionais estão cá. Apesar de miliciano era uma criança de 21 anos.
    Amigos da 1609. Abraço-vos a todos,
    João

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s