Imaginar a Magina

8 comentários

A C.Caç. 3413 que desde Abril de 1972 a Setembro de 1973 esteve sediada na Mamarrosa, cada vez que saía do aquartelamento topava com esta placa pregada numa árvore e que indicava que o aquartelamento de Magina se situava 42 km a leste no norte de Angola, província do Zaire, perto da fronteira do Congo que nessa época se designava por República do Zaire e hoje é a República Democrática do Congo.

Na verdade, nessa época o aquartelamento da Magina já tinha sido desmantelado, julgo que nos princípios de 1971, pelos relatos de comentários referidos neste blog, mas a placa lá continuou intacta pois que as outras localidades ainda figuravam no mapa, com destaque para São Salvador do Congo, a capital da província, onde íamos frequentemente principalmente em busca de provisões e outros serviços que não vale a pena especificar…

Hoje, o tema vai ser a Magina, porque temos a sorte de ser lidos por muitos ex-combatentes que “gastaram” pelo menos 2 anos da sua juventude em terras africanas e depois dos 60 anos é sempre bom olhar para trás e reviver o passado. As fotos que se seguem são do Horácio Marcelino que esteve na Magina e que aqui se partilham esperando que mais gente que por lá passou também se possa manifestar. Eu, que nunca lá estive, posso imaginar pelas fotos, que se tratava de um pequeno aquartelamento onde não cabia mais que uma companhia, situado num planalto, mas rodeado de floresta e montes altos, um lugar propício a flagelamentos do inimigo.

Nos primeiros anos da guerra em Angola que começou em Março de 1961, foram construídos alguns aquartelamentos estratégicos junto à fronteira norte, mesmo em locais onde não havia populações civis, para tentar estancar a infiltração dos guerrilheiros da UPA, que mais tarde se designaria por FNLA, mas num território tão vasto era difícil travar essa infiltração. Com o passar dos anos, de ambas as partes se interiorizou que esta guerra de guerrilha não se resolveria pelas armas e tacitamente a vida correu sem sobressaltos nestes locais de fronteira em que o principal interesse do inimigo era passar para o interior do território sem fazer grandes alardes.

O exército português, já farto da guerra, limitava-se o cumprir os serviços mínimos defendendo os aquartelamentos, protegendo a logística dos abastecimentos e fazendo alguns patrulhamentos para cumprir calendário. O esforço de guerra em meios humanos e materiais chegava ao limite e era preciso racionalizar esse esforço e assim progressivamente nestas regiões de fronteira foram-se substituindo batalhões por companhias, companhias por grupos de combate que consequentemente levaram ao abandono de alguns aquartelamentos como o da Magina e de pelo menos outros dois nesta zona, de seus nomes Pangala e Coma.

No ano de 1972, a estratégia da FNLA começou a alterar-se, devido também ao cansaço de tantos anos de guerra em condições difíceis, muito mais que as nossas, basta imaginar a logística dos guerrilheiros transportando materiais calcorreando a pé centenas de km. Assim, o epicentro do teatro da guerra era agora junto da fronteira onde tinham grande apoio, pois que o presidente da FNLA, Holden Roberto era cunhado do presidente da República do Zaire, Mobutu Sese Seko.

Minas nas picadas, emboscadas, flagelamentos e ataques a aquartelamentos eram notícias constantes, a táctica do “bate e foge” terminou com um período de acalmia reinante até aí.

Em cada aquartelamento, nunca faltava um campo de futebol.

Dando voz ao companheiro Horácio Marcelino e esperando que mais gente para quem a Magina não é palavra vã, deixe aqui os seus “desabafos”, transcrevo alguns comentários:

Caro Carlos Tiburcio,
Estive na Magina, entre Set. de 1965 e Jan. de 1967,integrado na CART. 1405, do BART. 1852. O guia de que fala (N’assala) também por lá esteve todo esse tempo. Além de guia era uma espécie de ordenança do comandante da companhia (Capitão Moniz) e creio que também de mais alguns oficiais. Chegou a constar que pertencia à ” dinastia dos reis do Congo ou que tinha sido soba de uma sanzala daquela zona. Uma vez foi guia de um pelotão numa operação de que eu fiz parte pela zona de Magina-a-Velha em que nos perdemos na Floresta do Dimba por uma tarde e uma noite, quando o programa era ser-mos recolhidos pelas viaturas a meio da tarde. Alguns camaradas levantaram muitas suspeitas se não teria sido o N’assala a provocar o erro do percurso. Salvou-o a calma e o equilíbrio do alferes que nos comandava. É que desde que nos perdemos até à manhã do outro dia não tínhamos nem água nem comida, uma vez que, cada elemento só tinha levado meia ração. Felizmente tudo acabou em bem.

Um abraço,
H.T. Marcelino

Apenas para fazer algumas clarificações/retificações:
O então Ten. Cor. Spinola comandava o B. de CAV. 345 que também foi operar para a zona.
No Luvo esteve a CART. 1406 e em Canga a CART. 1407.
No último parágrafo o pretendia escrever era que em 23-06-1974 o aquartelamento da Mamarrosa foi atacado pela FNLA (Holden Roberto).
Oportunamente vou tentar anexar umas fotos tiradas no local no decorrer da nossa presença.
Saudações
H.T. Marcelino

Caro Sampaio,
Fiz parte do BART.1852, mais concretamente da CART.1405 que estava destacada na Magina. A CART. 1406 estava na Canga, a 1407 no Luvo, na Mamarrosa estava a CCS. Tenho tentado chegar a algumas conclusões quanto às datas em que alguns destacamentos permaneceram naquela zona, não tem sido nada fácil. Quanto a nós, sei que ali estivemos de 09-09-1965 a 15-02-1967 e que durante este período, além de nós, também por ali “passaram” destacamentos de engenharia, para reconstrução de pontes e de vias rodoviárias (picadas) e os pelotões de morteiros que reforçavam algumas das companhias do batalhão. Pelas muitas leituras também me parece claro que BCAV 631, comandada pelo Cap. Almeida Bruno, permaneceu na Mamarrosa sensivelmente pela mesma altura da CART.102, comandada pelo Ten. Cor. Spinola, isto é de Maio de 1961 a 1962.Também me parece claro que o aquartelamento da Magina foi desmantelado em Janeiro de 1971 pela CCAÇ. 2609 do BCAÇ.2890.
Saudações

Vamos lá, companheiros de armas, revisitar o passado, porque RECORDAR É VIVER!

Mário Mendes

8 thoughts on “Imaginar a Magina

  1. No último comentário dirigido ao nosso companheiro Sampaio não me parece que esteja correcto, pois o BCAV631, se lá esteve não foi na mesma altura da CART 102,. Por outro lado, o Ten Cor. Spinola não comandou esta companhia mas sim o BCAV 345 instalado em S.Salvador tendo uma das suas companhias, a 253 estado no Luvo no período de Maio 1962 a Abril de 1963. Fiz parte da CSAP. 151 (Engª) que esteve sediada na Fazenda Mamarosa entre Agosto de 1962 e Julho de 1963 com a missão principal de construir uma estrada que ligasse a Magina a Maquela do Zombo, pois como bem disseram, o IN vinha do ex-Congo Belga e fazia a sua travessia por aquela zona.

    • Caro Magalhães,
      FIco grato pelas suas observações que ajudam a clarificar situações, o pulze vai ficando mais completo e perfeito.
      Sabe qual era a unidade que estava na Magina quando a CSap.Eng. 151 andou nos seus importantes trabalhos? Qundo lá estivemos as pontes, com excepção da do Rio Lufusso, que era o de maior caudal e tinha estruturas metálicas, como as do Luvo, não tinham tabuleiros. Oportunamente enviarei umas fotos tiradas junto ao cruzamento Buela/Pangala e na Buela, junto a placas com sinalética informativa colocada pela 151.

      Um abraço
      HTM

  2. Volto novamente pois esqueci-me de enviar um abraço ao Mário Mendes assim como a todos os companheiros que estiveram nas campanhas de África.
    José Magalhães

  3. ola furriel mendes espere que esteja de boa saude quanto a mim estou bem junto com a minha familia gracas a deus e muito bom recordar os velhos tempos de angola tenho visto as fotos dos encontros e pena nao ter os nomes para se poder reconhecer reconheci voce e o furriel leitao voce sabe do furriel morais e do alferes dias se sabe podia me dizer eu gotava saber eu pertencia ao grupo deles que era o numero 4 agora um abraco pra voce porque eu me lembro muito bem do furriel mendes

    • Olá companheiro Ramiro Carreiro, é um prazer saber notícias tuas, quanto ao alferes Dias, sabemos que mora no Porto, mas ele nunca compareceu aos nossos convívios que realizamos. O furriel Morais já não aparece há alguns anos, mora na região de Lisboa. O furriel Leitão aparece com frequência, mas já este ano teve um enorme desgosto, pois faleceu-lhe um filho de acidente rodoviário. Um abraço do Mário Mendes.

      • Mendes. Os anos passam e as recordações…ainda vão aparecendo, mas cada vez com menos nitidez. Revi estas fotos da Magina, onde estive por duas vezes em operações. Lembro-me do acidentado do terreno e da mata cerradíssima que a envolvia. Quando lá dormíamos, de manhã cedo ao acordar, da mata lá em baixo, vinham autênticas nuvens de humidade. Metia respeito. Tenho uma ou duas fotos que publicarei.

  4. Olá amigo Carreiro é com enorme prazer que te encontrei em conversa com o Mendes, pois eu ainda vou mexendo.Quero deixar-te aqui um grande abraço, e ao mesmo tempo o meu e-mail .Aqui vai: amandio_leitao@hotmail.com. Um abraço.

  5. vivam amigos estive integrado na companhia de caçadores 1783 prestando serviço militar na Magina chegámos no mês Dezembro 1967 e fomos rendidos por rotaçâo de companhias em Junho 1968 para o Luvo . Os dias que estivemos na Magina foram muito difíceis de superar aqui tivemos . diversos acidentes dos quais há a lamentar três baixas das nossas tropas e vários feridos .Eu tenho toda história escrita das memórias dos meus diários de guerra que escrevia no meu dia a dia.
    e muitas fotos tiradas em Angola.Um abraço de amizade para todos combatentes.

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