Sangue no capim de Angola

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O autor


Reis Ventura

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PALAVRAS ENIGMÁTICAS…

Pg.64/67. Ao cabo de tantos dias tormentosos, a pequena coluna estava de novo em Caxito. Voltavam com três feridos (que uma ambulância imediatamente transportou para o Hospital da Tentativa) e com a saudade do camarada a quem tinham dado sepultura cristã no pequeno cemitério do Úcua.

Tinham partido, decididos e bem treinados, mas bisonhos. Voltavam veteranos nesta guerra insidiosa de catana e canhangulo. Voltavam mais homens, inteiramente côncavos de que se batiam pela razão e pela justiça. Voltavam diferentes.

Sentado confortavelmente na varanda da residência do administrador, enquanto aguardava o almoço com que a gente de Caxito quisera brindar aquela dúzia de bravos, o alferes, já depois dum banho reparador, ficara por momentos sozinho. E uma estranha modorra o tomara, como se, finda a enorme tensão em que se aguentara, na contínua vigília e excessivo esforço, refluíssem agora sobre si todas as fadigas, perigos, brutalidades e horrores daqueles dias…

Também ele voltava mudado. Diferente. Sabia agora que ingénuos eram os que supunham os terroristas movidos por ideais de emancipação política. Na verdade, nenhum outro sentimento os impelia, senão uma porca e animalesca ânsia de sangue, de pilhagem e de estupro. Agiam como bestas-feras, levados pela força diabólica do ódio racial, dos instintos desenfreados e do medo ancestral aos feiticeiros. Avançavam sob o efeito alucinante da «liamba», massacrando, violando, queimando, destruindo, tripudiando sobre cadáveres estripados, dançando entre o choro lancinante das crianças torturadas e o estertor de velhas e meninas violentadas até à morte.

Depois da tremenda peregrinação pelo calvário do Congo Português, seguindo o rasto sangrento dos facínoras a quem na ONU chamavam «patriotas», o moço oficial compreendia agora o bramir de leão ferido, que haviam soltado os homens do Quitexe, do Negage, da Damba e de Carmona. O terrorismo em Angola era, efectivamente, um duplo crime. Crime repugnante dos que retalhavam à catana as carnes de pobres criancinhas que traziam ao colo, porque os pais lhas haviam confiado. E crime igualmente repugnante daqueles que, de longe, excitavam os piores instintos de homens primitivos, seduzindo-os com as mais grosseiras mentiras, para os lançarem depois, embrutecidos pelas drogas, contra as balas implacáveis das metralhadoras.

Recordava os cadáveres mutilados, caídos pelos terreiros das roças de Nambuangongo; e aquele pobrezinho bebé, degolado ao pé da sua branca alcofa; e aquele moço tombado com um lanho de catana na testa, à entrada da varanda da sua casa, por detrás dum monte de terroristas abatidos enquanto lhe não faltaram as munições; e o Dembo traidor que confundira os «caçadores especiais» com o prometido auxilio dos chefes de além-fronteira; e o velho colono, meio louco de dor, que desfechara o seu velho revólver na cabeça dum terrorista em julgamento; e o peito aberto e sangrento do soldado de Amarante; e, nos últimos combates, a raivosa arremetida contra os facínoras, por entre o capim verde e ondulante como o manto real da morte…

—Sono ? — perguntou, de repente, o administrador que voltava.

Não — contestou o alferes. — Cismava… Nalguma bonita moça deixada em Lisboa?… Antes fosse… Mas trago o pensamento cheio do que vi por esses matos… E que pensa de tudo isto? Que andam feras à solta… É preciso abatê-las! Nem todos assim julgam. É porque não viram o que eu vi… Deixemo-nos agora de coisas tristes! Vamos almoçar!

O almoço não decorreu com a alegria que seria de esperar em soldados regressados da «frente». Na lembrança de todos estavam ainda muito vivas as imagens do camarada morto e os gemidos dos feridos que já deviam ter chegado à Tentativa…

Por isso, eram breves e concisas as respostas dadas à compreensível curiosidade dos homens de Caxito.

—Encontraram terroristas?
—Bastantes.
—Mataram muitos?
—Alguns.
—Há sobreviventes em Nambuangongo ?
—Só vimos cadáveres.
— E a gente do Quitexe, do Úcua e do Quibaxe?
—Aguentam-se.

E a conversa não passava deste cruzar de perguntas e respostas, curtas e secas. Faltava ali — todos o sentiam — a alegria comunicativa de alguém .que jazia agora, sob a terra húmida dum cemitério sertanejo, com o peito esburacado pela ferralha dum canhangulo disparado da sombra…

O prato de substância era leitão assado.

Quando o bicho apareceu, bem alourado e apetitoso, entre picles e raminhos de salsa, com a tradicional batata entalada na boca, o alferes mal ouviu o administrador que o convidava a servir-se. É que no seu cérebro imediatamente surgira, nítida e horrível, a cena do terreiro daquela roça, onde uma vara de porcos, incluindo uma leitoa enorme acompanhada dos seus bacorinhos, chafurdava nas vísceras dos brancos assassinados…

—Sirva-se, meu alferes! repetiu o Administrador.
—Muito obrigado! Não me apetece .mais nada…

O cabo limitou-se a fazer para o criado que trazia à travessa um gesto negativo. E todos os soldados recusaram o pitéu, alguns sem conseguirem esconder um trejeito de nojo.

—Mas então?! —estranhou um sujeito baixote, já entrado em anos de grande bigode grisalho a ensombrar-lhe a boca firme e o queixo voluntarioso.— A tropa não gosta de leitão assado?!
—Gostamos, sim senhor! — declarou o cabo. — Mas, nesta altura, lembra-nos cá uma certa coisa…

O homem de Caxito ia a investigar que coisa era essa que lhes lembrava o leitão, quando o alferes o interrompeu:

—Se não estou a confundir caras, quando por aqui passámos a caminho de Nambuangongo, foi o senhor que me perguntou o que tinha eu ouvido dizer em Lisboa sobre os acontecimentos de Angola; lembra-se?
—Lembro-me muito bem! —confirmou o homem. — Perguntei-lhe se era verdade que, em Lisboa, havia quem responsabilizasse os cafeicultores pelo terrorismo. Por sinal que o meu alferes não gostou da pergunta. Nem me respondeu…
—Eu também tinha ainda as minhas ilusões, meu amigo…
—E agora?
—Agora conheço a realidade…

E, voltando-se para o administrador, passou a falar doutra coisa…

NR: A pequena coluna militar aqui referida foi a primeira a chegar às zonas dos massacres e era comandada pelo alferes Robles.

One thought on “Sangue no capim de Angola

  1. Que teria acontecido ao Alferes Robles? Gostaria de saber.

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