Açorianos recordam guerra colonial

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Lino de Freitas Fraga, corvino, que nasceu em 1944, escreveu recentemente o livro “Pátria porque nos abandonas? Sofrimentos de uma Guerra”

“Pátria porque nos abandonas? Sofrimentos de uma Guerra” é como se intitula o livro de Lino Freitas Fraga, que será apresentado hoje às 17h30 pelo professor Carlos Cordeiro, na Universidade dos Açores. Em entrevista à TSF-Açores, o corvino que nasceu em 1944 explica que o seu livro consiste em contar histórias de cerca de 27 “camaradas” que estiveram no Ultramar, assim como ele. O que é que o levou a escrever este livro e porquê agora? A gota de água que me enviou para a escrita deste livro surgiu numa conversa com um amigo meu, antigo camarada do Ultramar. Ele contou-me que um colega nosso se encontrava a viver lastimavelmente e decidi ir entrevistá-lo. Depois de ver as condições desumanas em que ele vive, porque não tem reforma e encontra-se completamente arrasado psicologicamente devido à guerra, comecei a procurar mais pessoas disponíveis para dar testemunhos, sendo que muitas delas preferiram o anonimato. Portanto, são relatos de quem esteve em África, na guerra, que regressando aos Açores se sentem abandonados, ou seja, por conta própria? O Estado não providencia qualquer tipo de ajuda? Completamente abandonados…O único político, depois do 25 deAbril, que ainda fez alguma coisa pelos militares, embora pouco, foi o Dr. Paulo Portas, dando uma pequena pensão anual no valor de cerca de 140 euros. Quando se fala destes heróis esquecidos e se fala nas cicatrizes de guerra, talvez as mais profundas são as que ficam na mente…Teve conhecimento deste tipo de problemas durante a recolha que fez? Sim, e estão alguns bem relatados no livro. Entrevistei pessoas que começaram a dar a entrevista completamente à vontade, que davam o nome e deixavam tirar fotografias para o mesmo, mas a meio da entrevista ficavam muito emocionados. Em regra como vivem ou sobrevivem essas pessoas? Alguns dos que entrevistei vivem bem devido às suas vidas profissionais, habilitações literárias e às reformas, mas outros que regressaram com a quarta classe e deixaram de poder trabalhar, ainda com a agravante dos traumas que foram aparecendo ao longo dos anos, estão a viver abaixo do linear da dignidade humana. A intenção do livro é mostrar às entidades públicas as tragédias familiares que existem. Os que vivem melhor são os que vieram deficientes das forças armadas; os que vivem pior são os que fisicamente estão bons mas com doenças do foro psiquiátrico. O Lino Fraga também esteve em Angola…Qual foi o cenário que lá viveu? Cheguei a Angola no dia 30 de Agosto de 1966, com 21 anos, já com dez meses de tropa. Cheguei a casa com 24 anos…Eu pertencia à Força Aérea e nós não íamos para o mato nem entrei em combates; o que fiz mais foi serviço burocrático e carregar bombas. Marcaram-me muito as coisas que vi e a que assisti…Impressionava-me ver gente mais ou menos da minha idade sem pernas e a gritar com dores. Não gritavam com medo… era mais raiva. Ao longo dessa sua estadia em Angola e depois dos depoimentos que foi recolhendo, que imagem pretende transmitir às pessoas destes tempos de Angola, Moçambique e Guiné? Ninguém imagina o que foi para as famílias portuguesas, neste caso açorianas, viver treze anos na angústia da guerra. Era uma vida complicada, tanto para os que iam como para os que ficavam e houve famílias de luto em todas as ilhas, talvez em todas as freguesias… No total da Guerra existiram mais de dez mil mortos e mais de trinta mil estropiados.

• Paulo Simões/Bruna Ferreira
2012-2-3 por Açoriano Oriental em http://www.acorianooriental.pt

One thought on “Açorianos recordam guerra colonial

  1. Com o devido respeito pelo Autor, mas o que são 140,00€, anuais, para Homens, que deixaram parte ou toda a sua juventude, na Guerra do Ultramar. Também andei pela Guiné e por mim, esse sr. paulo portas, pode meter essa ridícula esmola, que não chega a todos os ex-Combatentes e a alguns com valor inferior a 140,00€/ano, num sitio que todos nós sabemos!!! (Eu não recebo, nem nunca recebi nada, como ex- Combatente).
    Pedro Neves
    ex Furriel Mil. Op. Especiais
    C.Caç. 4745 – Àguias de Binta
    Guiné 73/74

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