Retrato de Portugal a p&b

Deixe um comentário

Vem aí mais um ano, com mais um dia, o 29 de Fevereiro, que só aparece nos calendários de 4 em 4 anos e diz a sabedoria popular que os bissextos costumam ser ruins.

Os responsáveis políticos não se cansam de repetir que os sacrifícios que vão ser exigidos aos portugueses não têm precedentes e como eles nunca dizem a verdade toda ou melhor mentem muito, já todos ficamos a saber o que nos espera.

No início de 2012, “lamentamos” 10 anos da introdução do euro, eu queria dizer “comemoramos”, mas fugiu-me a boca para a verdade. A utilização da nova moeda, “meteu” Portugal no clube dos ricos sem o ser e bastaram apenas 10 anos para que as consequências desse modo de vida estejam agora bem expressas na sociedade portuguesa.

Basta lembrar que as últimas bicas (cafés), custaram entre 40 a 50 escudos, e hoje esse simples acto tão democrático e popular entre nós custa uns trocos de euro, mas na realidade equivalem entre 110 a 120 escudos em lugares modestos porque em sítios mais luxuosos é uma “fortuna” para os depauperados bolsos do “zé povinho”. Então e os salários quanto subiram? Em 10 anos o SMN (salário mínimo nacional) passou de 348 euros para 485, o que equivale a uma valorização de cerca de 40%. Como a bica encareceu mais de 100%, é extrapolar para outros produtos e verificar as “benesses” que nos trouxe o euro.

A ilusão de um país próspero, moderno, rico como os mais desenvolvidos da Europa, parece que cegou os portugueses, mesmo quem não tinha dinheiro, não havia razão para não ter vícios, os cartões de crédito tudo resolviam, quem não se lembra do slogan: “queres dinheiro? vai ao Totta!”‘ passe a publicidade e outros como “compre agora, comece a pagar daqui a 3 meses!”. E assim, cantando e rindo, o povo foi fazendo a festa, mas a factura pode chegar tarde, mas chega sempre e com juros cada vez mais altos.

Há dias um rapazola que tem assento em S.Bento, até alvitrou que não paguemos as dívidas, os credores que nos “incentivaram” a gastar mais que as nossas possibilidades é que são os responsáveis pela nossa irresponsabilidade e portanto que paguem as “favas”. Moralmente, até aceito este raciocínio, mas quando a solução é pior que o “status quo”‘ o melhor é mesmo ficar calado, mas enfim o moço, como bom discípulo, limitou-se a imitar o mestre.

Mas para mal dos nossos pecados, a democracia que se seguiu a uma ditadura longa, produziu também alguns “ilusionistas” e “malabaristas”, autênticos especialistas em engenharias financeiras, económicas e afins que inventaram uns estratagemas só ao alcance de grandes cérebros, tais como: SCUT – Estradas Sem Custo para o UTilizador, PPP – Parcerias Público-Privadas.

As SCUT, cujo nome mais apropriado seria CCC, (Com Custo Contribuinte) porque somos todos nós que as pagamos têm agora cobrança virtual, mas perderam quase metade do tráfego que voltou a circular nas estradas nacionais com as consequências que daí resultam, mais acidentes e deslocações mais demoradas, ou seja mais tempo perdido sem trabalhar, o contrário do que esteve na origem das mesmas. E o que dizer do esquema engendrado para fazer pagar os turistas e emigrantes que nos visitam? Ou alugam um chip que carregam com dinheiro para utilizar durante o tempo que estiverem por cá, ou então tiram “bilhete” em máquinas estrategicamente colocadas à entrada das nossas fronteiras, um sítio privilegiado para que os amigos do alheio os deixem apeados e sem carteira. Um país onde o turismo é uma grande fonte de receita, não é com estas “armadilhas” que se caça. Os inventores das SCUT devem-se estar a rir, já emigrados, um tema que agora entrou na moda, mas como eles foram visionários, estão sempre à frente, ficam na história porque durante alguns anos os portugueses tiveram a ilusão de andar gratuitamente em auto-estrada. Quem vier atrás que feche a porta!

Quanto às PPP, que nasceram como cogumelos e uma vez que o sector público não tinha arcaboiço financeiro para suportar tanta obra faraónica com que nos brindaram os iluminados que escolhemos para nos governar, seria lógico pensar que o próprio nome, Parceria, quereria significar vantagens mútuas para ambos os lados, mas afinal o privado ficou com a nata do negócio, o público com os desperdícios. Estes sorvedouros de dinheiro público vão condicionar o futuro das gerações vindouras. Grandes Parcerias estas, hein!

Hoje, com 10 anos de euro, a nossa economia já regrediu para a última data do escudo e não tardará muito a situar-nos na década de 90 ou mesmo de 80. Dirão alguns que pelo menos fizemos figura de “abastados” durante uns tempos. Não resisto a contar aquele episódio de um alentejano que estava com a sua carroça puxada por macho, a beber água numa fonte à beira da estrada. Ali estaciona também para beber um homem bem vestido e bem montado num carro topo de gama. Então compadre, aqui no Alentejo ainda usam carroça? Olhe ali para o meu carro, tem 150 cavalos! Cada um mete estrada fora e passado algum tempo o alentejano da carroça depara com o carro estampado dentro duma pequena lagoa à beira da estrada. Então, compadre, está dando de beber ao gado!

Ao contrário do que é hábito, esta crónica já vai longa, muito mais haveria que deixar no muro das lamentações, tanto que eu queria pintar o meu país de cores alegres, mas até o verde das florestas é cada vez menos, o preto e branco (p&b) domina, mais o preto, cor da fome e da miséria. A coisa aqui tá preta e para não ser acusado de hipocrisia, devem compreender que é difícil fazer votos de um ano novo cheio de prosperidades, com fazíamos outrora e sendo assim deixo apenas o desabafo que usamos na Beira Baixa quando as perspectivas são sombrias: Haja Saúde e coza o forno!

Mário Mendes

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s