Sangue no Capim

5 comentários

A Emboscada ao Grupo de Combate da Calambata

No dia 21 de Junho de 1972 assistimos pela rádio, ao relato da emboscada sofrida pelo 3.º GC da Companhia de Artilharia 3449, estacionada na Calambata, que em consequência sofreu 5 mortos, 9 feridos graves, os quais quatro faleceram pouco depois no local, e sete feridos ligeiros.

O triste acontecimento foi bastante sentido pelas tropas estacionadas em toda a região, nomeadamente no sector e no subsector a que tanto os malogrados, como nós pertencíamos, tendo aparecido bastantes voluntários que se ofereceram para irem em perseguição dos atacantes.

O 3.º GC da C.Art. 3449 regressava, via auto, de uma nomadização de quatro dias, após ter sido rendido pelo GC-TE n.º 151, que pouco antes passara pelo local da emboscada, quando foi atacado, entre Lumgadge e Magina, no itinerário S. Salvador-Buela, por um grupo da FNLA, não estimado, com elementos fardados de camuflado, de verde e à paisana.

O inimigo iniciou a emboscada com grande potencial do fogo, tendo a acção durado cerca de meia hora, após a qual retirou, sob fogo intenso dos militares que restavam do grupo de combate.

O comandante do GC, o alferes miliciano António Vieira Alves, um compatriota algarvio de S. Bartolomeu de Messines, foi abatido aos primeiros tiros, contando-se entre os nove mortos o enfermeiro, e o operador de transmissões, este um companheiro de especialidade do BC5 de Campolide, que eu conhecia bem.

No respeitante ao material, as nossas tropas perderam três espingardas automáticas G3, um emissor receptor Racal TR/28-B, e um emissor receptor Onkyo, enquanto inimigo deixou no terreno uma espingarda GMD (de fabrico russo), cinco carregadores para pistola-metralhadora, três carregadores para pistola-metralhadora FN, e um fotómetro, este talvez para mostrar que a acção foi filmada, até porque se constou da presença no terreno de observadores estrangeiros apoiantes do movimento de Holden Roberto, como era o caso dos americanos.

O grupo da FNLA teve pelo menos um morto, que foi visto ser arrastado durante a retirada e também alguns feridos.

A Companhia de Artilharia 3449 pertencia ao Batalhão de Artilharia 3859 (Outubro de 1971-Fevereiro de 1974), com a CCS sediada em Cuimba, ao qual a nossa Companhia de Caçadores 3413 estava adida. Em consequência do ataque um dos nossos grupos de combate foi deslocado em socorro dos malogrados companheiros, enquanto a C.Caç. 3513 (de Quiende), cedeu um dos seus GC para substituir o pelotão parcialmente reduzido.

Este episódio ficou nos anais desta guerra e é dos mais conhecidos, sobretudo através do ex-furriel enfermeiro da Companhia, o escritor e poeta João de Melo, que descreveu o ataque e o socorro aos sobreviventes (coordenado pelo então major Melo Antunes), no seu livro Autópsia de um Mar em Ruínas (Dom Quixote, 6.ª edição, 1997, pp.109-145), e também do seu livro de poemas Navegação da Terra (Vega, Lisboa, 1980). O poema “Calambata” foi recentemente inserido na Antologia da Memória Poética da Guerra Colonial, pp. 208-209 (org. de Margarida Calafate Ribeiro e Roberto Vecchi, Ed. Afrontamento, Lisboa, 2011).

Grupo de Combate da Companhia de Artilharia 3449, em partida para uma operação

(foto tirada da Internet)

Os Mortos:

António Vieira Alves – Alferes miliciano Atirador de Operações Especiais 09434769, natural de S. Bartolomeu de Messines, Silves.

João Manuel Rodrigues Cardim – 1.º Cabo Auxiliar de Enfermeiro 13254770, natural de Santiago, Sesimbra.

Avelino da Silva Gonçalves – 1.ª Cabo Atirador 12436371, natural de Estanado, Caves, Cabeceiras de Baixo.

Francisco José Susana Chorinha – Soldado de Transmissões 10545870, natural de Santana, Portel.

Alfredo Mendes de Barros – Soldado Atirador 80130570, natural de Campanas de Baixo, S. Lourenço, Ilha do Fogo, Cabo Verde, que foi agraciado a título póstumo, com a Cruz de Guerra de 4.ª classe (OE.24/IIIª/67 IV 401).

António Faria de Oliveira – Soldado Atirador 07340271, natural de Barral, Santa Marinha, Vila Verde.

José Joaquim Fernandes Couto – Soldado Atirador 07120971, natural de Ossada, Priscos, Braga.

Manuel Calçada Gomes Velho – Soldado Atirador 07329871, natural de Lavacido, Beiral do Lima, Ponte de Lima.

Manuel Porfírio Gonçalves de Sá – Soldado Atirador 07329271, natural de Cruz, Palhe, Barcelos.


Alferes miliciano António Vieira Alves

(foto da sua campa, no cemitério de S. Bartolomeu de Messines)

 Fontes:

Arquivo Histórico Militar, “História do Batalhão de Artilharia 3859”.

João de Melo, Autópsia de um Mar em Ruínas, Dom Quixote, 6.ª edição, 1997.

João de Melo, Navegação da Terra, Veja, Lisboa, 1980.

Joaquim Cortes, Batalhão de Artilharia 3859: 25 anos depois de Angola, edição de autor, 1999.

Margarida Calafate Ribeiro e Roberto Vecchi
(org.), Antologia da Memória Poética da Guerra Colonial, Ed. Afrontamento, Lisboa, 2011.

José Rosa Sampaio, Contributo para a História da Companhia de Caçadores 3413 (Angola 1971-1973), Portimão, 2010.

Informações por mail de José Leça e Victor Baião.

Portal dos Veteranos da Guerra do Ultramar: http://ultramar.terraweb.biz

(José Rosa Sampaio)

5 thoughts on “Sangue no Capim

  1. A publicação deste trabalho no blogue, que como vejo rapidamente se tornou num dos mais lidos, destinava-se a um desafio, sobretudo àqueles que directa ou indirectamente estiveram envolvidos, quer o pessoal da C. Art. 3449, e do próprio B. Art. 3859, quer outras unidades que na altura se movimentaram em socorro e nas saídas para contacto com o grupo IN.
    Seria importante conseguir algumas achegas e mais informação, sobre o que de facto se passou, pois este evento também faz parte da nossa História, da qual fomos agentes.
    Força! Escrevam, que os jovens, nossos companheiros de armas, que tão dramaticamente tombaram, agradecerão …
    José R. Sampaio

  2. Para mim foi a maior tristeza, durante todo tempo que ali permaneci ouvindo pela rádio os disparos, rebentamentos ao mesmo tempo solicitando autorização para irmos em socorro dos nossos companheiros de armas que se encontravam sendo chacinados pelo inimigo, a a resposta era sempre a mesmo,encontrava-mos longe para tal e que já havia outros grupos, das outras unidades mais próximo, saídos em socorro. A tristeza aumentou quando soubemos que havia mortos e feridos graves, para mim, pessoalmente e outro companheiros de Cabo Verde, foi uma das maiores tristeza ao saber da morte do nosso companheiro Alfredo Mendes de Barros.
    O que nos entristeceu mais foi que até ao nosso regresso para Portugal, nunca mais ficamos a saber do que ficaram feridos.
    Faz tempo que venho pedindo se alguém souber desses companheiros que ficaram feridos, em que estado se encontram, mas nada, o meu espanto e que só agora fiquei a saber que alguns morreram.
    Que tristeza!
    Paz eterna às suas almas.
    Severo Oliveira

    • Meu amigo e camarada de armas Severo, sabes quem eu sou, Santos de transmissões do 2º GC da CAT 3449, quero partilhar a mesma dor contigo pelos nossos camaradas que lá naquela terra distante deixaram a sua vida, um forte abraço para ti.

  3. Tanto quanto me recordo, quando desta fatídica emboscada, estava com o meu G.C. em operação nas imediações da Luvaca, sede da C.ART.3447. Foi pois, através do E/R de TRAMS que nos acompanhava, que tivemos conhecimento da emboscada e da dimensão da mesma, quando ouvimos relacionadas as baixas havidas. Tive a oportunidade de conversar com o alf.mil. António Vieira Alves, quando demos umas voltas por Luanda antes de irmos para o Norte, o “Sub-Sector Cuimba”.
    O artigo que abriu este tópico, “Sangue no Capim”, merece-me as seguintes considerações, que aqui partilho, tendo tudo como fonte, a ” “História da Unidade do B.ART.3859, a fls 99 e 101:
    – A emboscada teve lugar quando o G.C. da C.ART.3449, se deslocava em 210900 na “Picada CMDTE SEABRA, na região (142540.055930)
    – De entre o material capturado ao IN figurava “1 GMD”, (que sem qualquer outra referência, será uma “granada de mão defensiva”).
    – A referida data de (Outubro de 1971-Fevereiro de 1974) atribuída à C.ART. 3449 do B.ART.3859, está incorrecta, e tal terá a ver com as fontes consultadas, já que localizei a referência a OUT71 (e 23OUT71) em blogs e no “portal UTW terraweb” que erradamente as mencionam. A datas são 17NOV1971, embarque em Lisboa e 27NOV1971 chegada a Luanda. A data de FEV1974, está no entanto correcta.
    Termino com a transcrição que a pags. 101 a “História da Unidade” refere:
    ” O IN, na aproximação ao local da emboscada furou o capim junto ao solo, abrindo galerias de aproximação.
    O IN escolheu um local de emboscada em que as viaturas tinham de abrandar a marcha ao efectuarem uma ligeira subida. A posições das metralhadoras encontravam-se em pontos dominantes, e tanto estas como os atiradores IN se encontravam mesmo junto à picada dissimulados pelo capim que furaram em galerias.
    O IN havia montado um acampamento a cerca de 2 km do local da emboscada e para Norte da Picada. Do local da emboscada até à fronteira distam cerca de 12 km que o IN percorre em 2 ou 3 horas”. Ao dispor no “panoramio – humberto fernandes” ou pelo habitual humb_fern@netcabo.pt , ou nos grupos em que participo no Facebook.

  4. Gostaria de saber o V/ email, a fim de enviar o poema COMOÇÃO, de Antonio Trovela, sobre LAVACIDO, terra natal do Sold. Atir. MANUEL CALÇADA GOMES VELHO, um dos nove Herois de Calambata, referidos em SANGUE NO CAPIM (poema publicado no “Anunciador das Feiras Novas” n. 31, de 2014, de Ponte e Lima). A esse Herói é também dedicada a homenagem da “Revista LIMIANA” n. 37, de Abril/2014, que contém o poema OS DESEJADOS, publicada também em UTW Portal dos Veteranos.
    Muito obrigado.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s