HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DA C. CAÇ. 3413 (V)

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De vez em quando, deslocávamo-nos em coluna ao Toto para reabastecimento de todo o tipo de coisas, que iam desde produtos alimentares, a bebidas, gasolina e gasóleo, tudo o que nos fazia falta e que o exército nos podia e entendia fornecer. Além do incómodo da distância e do pó que éramos obrigados a comer, todo o caminho éramos violentamente sacudidos em cima das viaturas, graças aos sucessivos buracos da picada, tornando o “passeio” num “agradável” tormento para o corpo. Ainda para mais os bancos eram de madeira, duros e incómodos quanto baste, e o melhor era fincar bem os pés e as costas contra o Unimog para suavizar o embate a cada buraco. Aconselhava a prudência, até por ser zona do célebre”Pedro Afamado”, que o melhor era ficar no aquartelamento. Mas a irreverência, temperada com um pouco de inconsciência própria da juventude, levava a oferecer-me para integrar a coluna, sempre que podia. O mais importante para mim, era sair daquele buraco infecto, nem que fosse por umas horas. Embora poucas, via caras e coisas diferentes, tudo eram novidades, além de me saciar no civil que havia em frente ao quartel. A casa era asquerosa, sem qualquer tipo de condições. Mas era civil! Tinha cerveja fresca, frangos no churrasco e alheiras! Alheiras? Sim, que eu não sabia o que era mas que passei a comer sempre que lá ia. E que bem me sabiam…Dum lado da picada ficava o quartel e do outro era a sanzala onde a rapaziada aproveitava para mudança de “óleo”… Quando chegávamos á aldeia já havia uma fila enorme de malta em cada casa habitada por quem praticava a mais velha profissão do mundo, e onde toda a minha gente ululava de impaciência de chegar a sua vez…Eram umas oito ou nove, (seriam?) para “aviar” todos os quartéis e destacamentos daquela zona. Nunca tive pachorra para aquele espectáculo degradante e preferia deliciar-me no civil. “Daquelas Senhoras” lembro-me bem da “Maria Pacaça”. E digo senhoras com todo o respeito, porque eram elas que iam dando algum ânimo aquela “gaiatada” toda que tinha sido arrancada aos seus e enviada sabe-se bem agora para onde…Voltando á Maria era uma “senhora” alta e bem pesada nos seus mais de cem quilos. Muita simpática, muito alegre e penso, segundo me lembra, ser até a única com gira-discos. Só tinha um ou dois discos mas tocava. E o que ela tentou para dançar comigo…

Por vivermos em condições nada fáceis e com a complacência dos nossos comandantes, éramos o perfeito contraste com a malta do Toto. Eles impecavelmente fardados e nós, nem todos mas muitos, na mais completa anarquia, em que cada um dava asas á sua imaginação e fazia as mais variadas e bizarras modificações aos camuflados. Ou estavam rasgados, descosidos, ou com franjas tipo índio. Calças e mangas eram cortadas de qualquer maneira. Em vez do quico camuflado, chapéus e alguns bem largos tipo “Cow boy”. A barba de vários dias, o cabelo crescido, mais o pó da picada, e aqui nada havia a fazer, aliado a um comportamento inadequado a um militar que se preze, tudo isto se tornou muito “censurável” por parte dos “Chefões” do quartel. E certo dia proibiram mesmo os “SICILIANOS”, como nos tratavam, de entrar no quartel. Deu-se uma “maca” de todo o tamanho, que só não redundou em nada de grave por ter havido alguém da nossa coluna, que exigiu entrar e explicou aos ditos “Senhores” as condições degradantes em que vivíamos, ficando a promessa de futuramente os “Sicilianos” se apresentarem mais compostos. E contra a vontade daquela “chicalhada”, lá se abriram os portões para entrarmos, não todos, só alguns para umas compras mais urgentes, e tendo sempre presentes que éramos um péssimo exemplo para os demais militares! E era entrar e sair rápido.

Este episódio, aliado a duas minas e a um ataque á Cecília, foram o álibi perfeito para nos impedirem de ali nos deslocarmos, passando a partir daí, a sermos abastecidos por via aérea, através das célebres D.O. Mas antes de estas entrarem em acção, não resisto a contar este episódio.

Do alto da Cecília, tínhamos uma visibilidade enorme, daí se vislumbrando uns bons kms de capim, mata e a serpenteante picada. O tempo passava e da coluna que tinha ido ao Toto, nada. Faz-se noite de repente como é costume, e via rádio sabemos que houve atraso e que vão chegar mais tarde. Tudo bem. Jantamos, e passado um bocado vemos as luzes das viaturas lá ao longe, que se vão aproximando lentamente. Mais uma hora e estão cá, calculamos. Já relativamente perto e de repente, um estrondo que não engana ninguém, seguido de tiros e rajadas. As luzes das viaturas apagam-se. Tentamos via rádio saber o ponto da situação. Nada. Ninguém responde. A tensão sobe á medida que o tempo passa. Dos pelotões que ficaram, há um que está de serviço para acudir nestas situações, mas o comandante desse pelotão, que tinha a mulher grávida no Toto, sentiu-se “mal” e lá tivemos que ir nós… viaturas em funcionamento, só luzes de presença acesas, velocidade reduzida, sabendo sermos um alvo mais que perfeito e tendo a noção exacta do perigo que estávamos a correr… Até porque “Eles estavam ali”…Mas tínhamos que ir. Nem sabíamos bem ao quê, mas tínhamos que ir. Os segundos, eram uma eternidade. Mãos crispadas nas armas, todos em posição para saltar ao mais pequeno sinal de alarme. O coração batia desvairadamente, e não havia meio de chegarmos junto da coluna…Mas lá chegámos…Temendo o pior… E o que se tinha passado?

Uma viatura tinha detonado uma mina. Por sorte era uma Berliet, que vinha como todas as outras, carregadíssima. Nesta vinham géneros alimentares, muita cerveja e poucos homens. A carga explosiva que tinha escavacado esta viatura, teria feito estragos humanos inimagináveis, se tivesse sido num Unimog carregado com pessoal. Nela vinha o nosso Capitão Ribeiro. Sacudido pelo rebentamento, meio atordoado e naturalmente dorido, e não sabendo o que se iria passar a seguir á explosão, ordenou-lhe o instinto que se abrigasse debaixo da viatura e aguardasse. Passado um bocado e depois de as coisas acalmarem e instalada a segurança possível, visto ser noite cerrada e nada se ver, ouve-se a voz do Capitão Videira da 1311 a chamar pelo nosso já perto da viatura acidentada.

-“Cap. Ribeiro…”

-“Estou aqui Videira. Estou aqui e devo estar muito ferido. Ora veja”.

O cap. Videira aproximou-se, e o nosso capitão guiou-lhe a mão para a zona do seu estômago. No escuro da noite sentiu uma viscosidade pegajosa e húmida, o que o deixou petrificado e pensou: “Este está arrumado”. Vieram viaturas para iluminar com os faróis e constatou-se que o Capitão Ribeiro estava coberto sim, mas não de sangue como tudo o indicava. Era óleo do cárter da viatura acidentada onde ele se abrigara…que alívio! Estava dorido, meio atordoado, umas esfoladelas, umas nódoas negras e um grande susto…Que sorte…È claro que a viatura não podia ficar ali. E a companhia de Engenharia com as suas máquinas, lá rebocou a viatura encosta acima. Isto tudo se conta em breves minutos, mas efectivamente foram horas e horas.

Como as viaturas eram bem mais “preciosas” que nós, começamos a ser “aviados” pelas já referidas D.O. Improvisou-se uma pista num dos lados e começou o apoio aéreo…No dia e hora combinados via rádio, lá estávamos á espera. Segurança montada em volta da pista e até dentro da mata circundante para não haver surpresas…e surpreendidos fomos nós quando vemos os géneros a serem lançados do ar!

Por mais devagar que a D.O. fosse, por mais baixo que voasse, o impacto com o terreno seria sempre demasiado forte para vários géneros, tais como sacos com farinha ou leite em pó, que, para desconsolo nosso, ficavam espalhados pelo chão. Que raiva…Via rádio começamos por lhes dizer para aterrarem que a segurança estava garantida. Mas qual quê. Tomem lá disto e desenrasquem-se. A partir da segunda vez que fizeram isto, chamávamos-lhe tudo e até se ouviam vozes a querer disparar contra eles, tal a raiva que nos provocavam. Claro que eram desabafos de quem se sentia abandonado e desrespeitado por quem estava lá em cima, mas enfim, valia-nos o correio para aliviar.

Por essa altura, visto não ser necessária, a segurança era só feita em volta da pista, e nem isso justificavam. Era mais para apanharmos o que caía do avião do que outra coisa. Até que certo dia, para espanto e alegria de todos, ouvimos via rádio da D.O. “Sei que têm tido uns problemazitos, mas garantem-me que posso aterrar em segurança?” E foi toda a minha gente fazer segurança, não só perto da improvisada pista, mas também num raio enorme para que não houvesse mesmo nada. Porque o “Homem” justificava e merecia!

O aviador mal aterrou, quis logo conhecer a famosa Cecília. E lá estava um jipe para levá-lo até á “NOSSA MESSE”, onde lhe disponibilizámos “tudo” do pouco que tínhamos. A todos impressionou pela sua simplicidade e simpatia, e a partir desse dia passámos a ser brindados com umas acrobacias espectaculares, que eram a nossa maior e quase única diversão. E mal se ouvia lá ao longe o roncar da D.O., toda a minha gente largava tudo o que estivesse a fazer, para saudar este nosso companheiro com as suas piruetas e o correio que sempre vinha a bordo.

Mas como “não há bem que sempre dure”, certo dia informou-nos que tinha sido transferido para outra zona e esta seria a sua última vez. Com muita pena nossa lá nos despedimos e o que se passou a seguir foi qualquer coisa de grandioso e indescritível. Nem os famosos aviadores das Red Bull Air Race se lhes comparam. Eram descidas a pique sobre as barracas, seguidos de loopings e toda a sorte de maluqueiras, rasando as tendas e obrigando o pessoal a fugir para zonas mais baixas. Tudo tentamos para ele acabar com aquilo, mas quanto mais sinais lhe fazíamos maior e mais complicada era a pirueta seguinte. Foi de loucos. E só terminou quando entendeu que a gasolina já devia só dar até ao aeródromo, e lá partiu, para nossa tranquilidade e alegria de o ver normalizar o aparelho e rumar ao Toto, fazendo balançar o aparelho em sinal de despedida! Até sempre “amico di meu”… Alguém se lembra do nome? Eu também não, mas jamais esquecerei aquele dia de acrobacias inimagináveis e indescritíveis.

Grupo dos furriéis dos 2 grupos de combate da C.Caç. 3413, à porta do seu bar privativo. Falta um, que serviu de fotógrafo. Em vez do tradicional quico, estava na moda o chapéu à “cow-boy”, talvez influência dos filmes do Oeste Americano, tipo Bonanza.

Joaquim Alves


11 thoughts on “HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DA C. CAÇ. 3413 (V)

  1. Episódios como estes passados há 40 anos, já se varreram da memória de muitos, mas felizmente existe sempre alguém que os recorda e os partilha. Muitos parabéns ao escriba e que mais memórias de outros companheiros saiam das profundezas onde se encontram e apareçam à luz do dia.
    Recordar é VIVER!

  2. Olá companheiro Joaquim Alves,
    Excelente artigo! Parabéns e continua…

    Da coluna de socorro que partiu da Cecília, para auxilio da que vinha do Toto e que foi atacada ia eu como operador de rádio, tendo-me oferecido como voluntário.
    À nossa frente ia a plataforma da companhia de Engenharia (como rebenta minas), que era seguida por uma Berliet. Logo atrás ia o Unimog do alferes Igreja, ao lado do qual eu ia com uma mão na arma e outra segurando a bolsa da antena do Racal TR-28.
    Toda a gente esperava um ataque à nossa coluna, o que felizmente não sucedeu, e na nossa base a malta tinha ficado enfiada nas trincheiras à espera também de um ataque.
    À nossa chegada lembro-me apenas de que a Berliet carregada de cerveja, que saltou sobre a mina, tinha atirado as preciosas Cucas e Nocais em todas as direcções e a maior parte dos heróis do dia tinha sido brindada com uma distribuição gratuita e já estava bastante alegre.
    A paisagem que se avistava do planalto da Cecília era deslumbrante, sobretudo ao longo do rio M’abridge.
    No Toto, para aqueles que não se queriam candidatar às doenças venéreas, o melhor era, de facto, a churrascada regada de gindungo e de cerveja.
    Nós das TRMS tínhamos o privilégio da especialidade, que nos dava direito a ter o frango à espera, pois a encomenda tinha partido via rádio, com o número de “Papa Golfe” a sacrificar.
    A mesa reservada também abrangia os enfermeiros e outros amigos, e alguns alferes e furriéis mais simpáticos connosco, como era o caso do Pinto, Igrejas, Fernandes, Alves, Correia, Benjamim, Neves, Gaspar, etc.
    Uma vez que a companhia tinha ficado dispersa pelo Vale do Loge, Toto, Quimaria e Cecília este também era o dia do encontro “familiar”.

    Um abraço do José Sampaio

    • Lembro-me de alguns factos mais importantes e de alguns pormenores, mas de tudo é impossível. Ainda para mais passados tantos anos e socorrendo-me só da memória, uma vez que nada tenho escrito. Mas agora que descreves alguns pormenores, já me recordo das cervejas que a malta da coluna mamou, e de quando chegámos ao pé deles estar tudo “bem alegre”. O grupo de serviço, piquete, era da 1311, mas pelo menoo meu pelotão é que acabou por ir. Recordar é viver, e quando voltarmos a encontrarmo-nos contarte-ei o porquê de termos ido nós e não a quem competia.Abraço

  3. o silvino resende sempre viveu no canada na cidade de toronto perto de mim mas inflismento ele ja morreu a 5 o 6 anos atras foi um grande amigo meu nois dois tinhamos as noivas aqui no canada agora um abraco do ramira carreiro

    • Caríssimo Ramiro Carreiro. Vi hoje uma foto por ti enviada para o blogue da nossa companhia, e envia tudo o que possas e queiras. Infelizmente tenho agora a confirmação do falecimento do Silvino. Na foto está ainda além de mim o Artur Oliveira com quem estive há dois anos na Terceira. Abraço. Alves ex- furr. mil.do 1º pelotão, do silvino e do Artur.

  4. Alertado pelo furriel Brandão para pesquisar no google apalavra Luaia,deparei-me com alguns textos que adorei e me chegaram a trazer lágrimas aos olhos.Chamo-me Afonso Videira sou Médico em Valpaços e tive o orgulho de comandar a CCAÇ1311 de 71/73..Há cerca de 20 anos que fazemos um almoço anual onde recordamos esses tempos por vós tão bem descritos.juntem-se a nós serão bem vindos.Um abraço do Cap. Videira para os “engenheiros” e para os “açorianos”

    • Olá Dr. Videira, é um enorme prazer contar com a sua presença neste blog de recordações da nossa guerra em Angola. A C.Caç. 3413 também faz anualmente um almoço de confraternização e o nosso comandante Cap. Carlos Ribeiro é um dos mais entusiastas. Não falha um. Seria uma boa ideia reunirmos as companhias.
      Um abraço. Mário Mendes.

      • Camaradas, a minha companhia era a 2695 e foi rendida em Quimaria em 71, pela (penso eu) 3413. Aliás, à chegada da 3413 vim fora do arame às viaturas procurar o meu amigo José Albino Simões, que me parece ter ficado a trabalhar na Messe dos Oficiais. Na vida civil era empregado de mesa a bordo do paquete Angola. Lamentavelmente já faleceu. Um abraço camaradas, Amílcar Rosário C.Caç 2695 Bat. 2910 (Nova Caipemba, Vale do Loge, Quimaria e depois a peluda, Fazenda Tentativa no caxito

    • Caríssimo Dr. Videira. Estive convosco perto da Lourinhã no restaurante Camelo aquando do V/almoço em 2011. É urgente juntarmo-nos “TODOS”. Abraço do ex-fur Alves da 3413.

  5. Lembro-me perfeitamente dessa mina, e como fui com o meu pelotão 3ª da CCaç 1311 ao encontro da coluna que rebentou a mina. Na altura o pelotão de piquete o 2º pelotão, argumentou que estava de piquete ao acampamento, e apesar de estarmos de folga por ter dormido na noite anterior na frente de trabalhos, fizemos a coluna de apoio junto com o pelotão da C.Caç3413,creio que do alferes Fernandes.( Só eram permitidas deslocações naquela zona com dois grupos de combate)
    Lembro-me de, durante o percurso ter reflectido sobre a minha sorte com as minas, uma vez que dias antes tinha rebentado uma no meu Unimog, quando nos deslocávamos para ir buscar água, o que de certa forma aliviou o meu estado de espírito, uma vez que as probabilidades de acontecer outra vez eram mais pequenas.
    A propósito da mina que rebentou no meu Unimog no dia seguinte à flagelação que fomos alvo, recordo-me como um dos melhores e inesquecíveis momentos aquele em que estando eu completamente traumatizado com o facto de ter voado do Unimog devido à explosão, coberto de pó e com alguns arranhões, vendo o soldado condutor que ia comigo a ser coberto com um lençol pelo soldado Catanhô (felizmente só estava desmaiado), mas dizia eu, estando nesse estado apareceu um soldado que veio do acampamento em socorro com um pelotão da C.Caç 3413 que me trouxe do acampamento uma cerveja geladíssima e disse: Meu alferes lembrei-me de si. Era um rapaz açoriano louro que se não me engano Valadão.

    Um Abraço

    António Nunes Fernando

    • Realmente havia um Valadão na nossa companhia, louro, açoreano e julgo,” a memória já vai fazendo mossa”, que era condutor. Recordar é viver, por isso de vez em quando vou escravinhando algumas coisas que a memória “ainda guarda”…Abraço.

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