Partida de Luanda – Vamos pra guerra

2 comentários

Tal como escrevi no penúltimo artigo, foram 3 semanas em Luanda depois do desembarque que passaram muito depressa, mas mesmo assim foi bem melhor que as nossas primeiras expectativas.
Tinha chegado a hora da verdade, Luanda e a boa vida já tinham ficado para trás e agora a coisa ia fiar mais fino. Faz hoje 40 anos que avançamos para o interior de Angola, para a ZIN (Zona de Intervenção Norte) e todos os nossos sentidos iam bem despertos para a nova realidade que nos esperava.
Saímos logo de madrugada do Grafanil e passamos no Cacuaco, na Fazenda Tentativa, onde me lembro de ver uma enorme plantação de bananeiras e chegamos ao Caxito onde fizemos uma pequena pausa. Nesta estrada circulavam livremente carros civis e nada fazia lembrar a guerra e para que não tivéssemos ilusões quanto ao resto da viagem ali fomos avisados que dali para a frente íamos atravessar zonas onde o inimigo estava muito activo e todos os cuidados eram poucos. A região dos Dembos estava ali e o perigo espreitava a cada curva.
O percurso lá continuava lentamente, Ucua, Piri, Vista Alegre, Aldeia Viçosa, Quitexe e finalmente Carmona, a capital da província do Uige, onde pernoitamos depois de uma longa viagem felizmente sem qualquer percalço. Foi assim o nosso 31 de agosto de 1971, já lá vão 40 anos.
No dia 1 de setembro, voltamos a fazer-nos a estrada, digo estrada porque a via merecia essa designação por ser alcatroada, mas depois da povoação do Songo, a estrada virou picada com todas as consequências resultantes, sendo o pó o mais incomodo.
Passamos em Nova Caipemba e depois no Colonato do Vale do Loge onde ficou o nosso terceiro pelotão. Depois de umas cervejas frescas para regalo das gargantas já atacadas pelo pó, a próxima paragem foi o Toto, onde ficou sediada a CCS.
O quarto pelotão seguiu para Quimaria e os outros dois foram parar ao planalto do Luaia, uma base táctica com barracas de lona.
E foi assim que começamos a guerra, a companhia desfeita em dois dias. Este relato muito simples fica a aguardar contributos de outros companheiros que certamente ainda se recordarão desta viagem que nos introduziu na guerra, o móbil da nossa presença em Angola. Aquelas três semanas em Luanda foi para adoçar a boca!
Mario Mendes

2 thoughts on “Partida de Luanda – Vamos pra guerra

  1. Caro Mário Mendes
    Li seu comentário sobre Quimaria, naveguei de imediato na poeira dos tempos e parei no ano de 1967, quando fui transferido do batalhão de transmissões de angola para o RIL, de lá fui mobilizado para passar por Quimaria cerca de 7 meses terríveis, era uma companhia formada por naturais e residentes em angola . Existe um pequeno monumento na parada do quartel em homenagem aos militares mortos em combate no dia 22 abril de 1967,nessa data morreram cinco militares e foram feitos três prisioneiros, nesse dia também fazia parte da coluna embuscada na picada na recta que ligava quibala norte onde existia um cemitério, quando dispararam a primeira rajada saltei da berliet e caí precisamente no cemitério as granadas e rajadas de uma metrelhadora pesada, eram muito insistentes fiquei alguns momentos protegido pelas campas construidas em adobos e das arvores
    Em 1967 não havia população civil em quimaria, para vermos civis deslocava-mos a Bessa Monteiro, se quería-mos desenferrujar só lá havia a guidinha, a hegiene era feita com pó talco. A minha especialidade era radiotelegrafista, e passei um mes sem qualquer contacto via radio an grc9 que eram 8 e estavam todos avariados e como coincidiu com o tempo das chuvas não havia reabastecimento por camiões civis (mvl). porque as pontes tinham sido destruidas pelas cheias Acontece que numa operação de reconhecimento rebentou a parte da carga de impulso de uma granada basuka no unimog em movimento ferindo gravemente dois militares regressaram logo a base, os maqueiros fizeram o que poderam mas avizaram o comandante que era urgente a evaquação para luanda senão não se salvavam. Como não havia comunicações via radio desmontei todos os emissores verifiquei todas as vavulas de emissão experimentei as que estavam mais cristalinas liguei comecei a ouvir um silvo afinei melhor e fiz uma chamada geral com o grau de maxima urgencia ( ZULU) por autentico milagre responderam-me de imediato os fuzileiros e varias companhias com quem não tínha-mos autorização de contactar, o resultado foi espectacular, passados cerca de uma hora que mais parecia uma eternidade vimos aparecer no horizonte um uma avionete dornier passados uns minutose um avião nord atlas, e depois um heli quando aterraram chorava-mos de alegria e tristeza, feitos os cuidados primários vimos partir os dois militares feridos para o hospitl militar de luanda, regressaram mais tarde já curados e reconhecidos pelo trabalho de toda uma equipa.
    Saudações para todos os veteranos
    joão lima

  2. Caríssimo João Lima. Esta simples mas profunda descrição espelha bem as enormes dificuldades porque passámos e sentimos na pele. Felizmente ou infelizmente, para muita gente foram vinte e muitos meses de paródia…Pura ilusão par quem não foi lá!

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