Grafanil

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Chegados a Luanda a 9 de Agosto de 1971, mal tivemos tempo de olhar o céu, porque assim que saímos do navio Vera Cruz deram-nos ordem para entrar num comboio de mercadorias que nos havia de levar a este local, o campo militar do Grafanil.

Nos primeiros tempos da guerra o desembarque era seguido pelo desfilar das tropas na avenida marginal perante as autoridades civis e militares ao som do hino “Angola é nossa”, mas com o passar dos tempos esse ritual passou à história, porque se foi percebendo que Angola um dia, mais cedo ou mais tarde deixaria de ser nossa.

Aliás, logo nos primórdios da guerra em 1961, Portugal era já o único país europeu que se dava ao luxo e ostentação de ainda ter colónias em África e que contra tudo e todos a teimosia de Salazar pretendia perpetuar.

Hoje, vivemos outros tempos em que já nem Portugal é nosso, mas de gente sem rosto, uma associação de especuladores e agiotas, os chamados mercados. É verdade que somos nós que lhes batemos à porta com a mão estendida e por conseguinte temos que nos “dobrar” perante as suas exigências.

Voltando ao Grafanil, podemos ver na imagem de satélite que este local a meio caminho entre o centro de Luanda e Viana lá continua, mas agora todo cercado por enormes musseques, fruto do crescimento descomunal da cidade de Luanda. Talvez esteja guardado para qualquer investimento imobiliário de luxo a contrastar com os bairros envolventes, mas o que é certo é que consegue resistir ao tempo e continua incólume ao desordenamento geral que impera ao seu redor.

Ainda se pode ver o écran e a arquibancada do cinema ao ar livre. Todos os militares mobilizados para Angola conheceram este local, que não era mais que um “depósito” de tropas, guarida dos que chegavam e partiam da/para a metrópole.

As instalações eram precárias, mas mesmo assim bem melhores que aquelas que muitos de nós havíamos de encontrar nos aquartelamentos do mato. Em relação à nossa companhia (C.Caç. 3413) as diferenças foram abismais, pois quando dali partimos esperava-nos uma tenda de lona com colchão de ar lá nos confins da província do Uíge, que foi a nossa “casa” durante alguns meses.

Como campo militar em rotação permanente, o Grafanil distinguia-se dos aquartelamentos convencionais, ali ninguém sabia bem quem era quem, uns fardados outros à civil, uma barafunda enorme que proporcionava uns “desenfianços” para a vida boémia que a bela cidade de Luanda oferecia.

Aqui vão duas fotos que têm 40 anos, dos primeiros dias no Grafanil em Agosto de 1971.

Mário Mendes

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