HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DA C. CAÇ. 3413 (IV)

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    E os dias foram passando, uns mais agradáveis que outros, mas todos concorreram para deixar esta incurável saudade, mas que se há-de fazer… Isto é assim mesmo e não há volta a dar, e o melhor mesmo é ir recordando e partilhando com quem quer fazer o favor de ler estes rabiscos, alguns dos episódios que ainda me lembro. Não serão grandes acontecimentos, mas são episódios que fazem parte da nossa história, engraçados e reais, que fizeram parte do nosso quotidiano, e que o passar dos anos vai adoçando cada vez mais.

A companhia 1311, era composta, tal como nós, por muitos naturais de Angola, inclusive os graduados. Eram comandados pelo então capitão Videira, figura afável e conciliadora, que tal como nós nada tinha a ver com aquilo, e tinha sido enviado compulsivamente para ali, uma vez que não era oficial de carreira. Lembro-me do ex-Alf. Cotrim e melhor ainda dos ex-Furriéis com quem mais privava: Moura, Gégè, Pedrosa, Quintino, Monteiro, Barbosa, Livramento, e dos outros lembro-me deles mas os nomes, apagaram-se. De todos estes, só voltei a estar com o Luís Livramento em Faro, quando aí me desloquei para jogar com o Farense. Na altura era jornalista desportivo e fui surpreendido com a notícia de que tinha um jornalista á minha espera para uma entrevista. Era ele, que nunca mais vi, mas fui sempre acompanhando através dos relatos e das notícias dos jogos no Algarve.

Além da maior parte deles ser originária de lá, a instrução, especialidade e tudo o mais, havia sido lá feita, o que lhes conferia um conhecimento geral sobre o terreno, que nós não tínhamos. Certo dia íamos em coluna e esta de repente parou, e vejo surpreendido toda a malta da 1311, a saltar das viaturas e a correr como loucos direitos a umas árvores, sem armas, e vá de pedrada! Incrédulos e surpreendidos, ficámos em cima das viaturas a observá-los naquele desvario. Mas que raio! Seriam macacos? Nesse dia descobrimos as “MANGAS” que um deles me ofereceu.
Que delícia! Já comi muitas mangas depois de ter vindo, mas sabor como aquelas, nunca mais! Que doces! E os fios que ficavam presos nos dentes…

As refeições eram confeccionadas num enorme caldeirão aquecido a lenha, e havia sempre um pelotão encarregue do reabastecimento quer de lenha quer de água. Nesse dia coube-nos a nós, e lá fomos munidos com os respectivos machados e motosserras arranjar lenha. Chegados ao local por nós idealizado, e depois de montada a segurança, começaram os trabalhos. Ao fim de pouco tempo, devido ao trabalho e ao calor sufocante, a maior parte ficou em tronco nu. A dada altura dirigiram-se a determinada árvore que tinha agarrado a si uns arbustos, o que era normal, mas que serviu para um dos velhinhos de engenharia me piscar o olho e sorrir maliciosamente. Apercebendo-se de que eu não estava a perceber nada do que estava para acontecer, só me disse:” Aguarde”. Mal tinham começado a cortar a referida árvore, só o que via era gente a fugir por tudo o que era sítio e coçando-se aflitivamente. Julguei tratar-se de algum ninho de abelhas. Mas não. “TÍNHAMOS DESCOBERTO O FEIJÃO MALUCO”. Como ficámos a saber, o dito feijão tem uma vagem cheia de picos, tipo alfinetes microscópicos, quase imperceptíveis a olho nu, e basta uma simples brisa para fazer saltar das vagens uma boa quantidade de picos que voam em todas as direcções, penetrando na roupa e na pele provocando uma irritação cutânea de grandes proporções, fazendo-nos coçar até mais não. E quanto mais um indivíduo se coça, mais os picos se espetam na carne e mais comichão dá. E a comichão que aquilo dava! Agora imaginem o que não foi com o trepidar duma motosserra.

Em Outubro de 71, uns dias após o nosso “baptismo”, deu-me uma diarreia que me atirou completamente abaixo, e já era mais água e algum sangue do que qualquer outra coisa. Graças a uma boa higiene alimentar e á boa qualidade da água, era coisa vulgar entre nós…E fiquei num tal estado de fraqueza, que não saí como era hábito, ficando no acampamento um ou dois dias. Médico era luxo que não nos era permitido, e para qualquer caso lá estava um enfermeiro especializado á pressa e fornecido com os inseparáveis comprimidos LM. Dor de cabeça-LM. Dor de barriga-LM. Constipação-LM. Dor de dentes-LM. Embora cada um tivesse a sua função, nós parodiávamos o assunto, até pensando que a composição do comprimido era todo igual, mas parece que não. Deitado no chão, aqui as camas ainda eram e continuariam a ser puro chão africano, debaixo dum calor abrasador, e ardendo em febre, dou de caras com um livro pertença dum dos que comigo partilhavam aquela triste vida, que se encontrava na frente. Comecei a ler e só parei no Fim! Era o “LOVE STORY”. Que história. Que coisa tão bonita, e eu no meio do nada. E senti-me tão só. Tão triste, desprotegido, desiludido, desorientado, revoltado, e perguntava-me o que fazia eu ali, longe de tudo e todos, naquele buraco infecto onde “UNS” tentavam acabar comigo e os “OUTROS” me tinham enterrado vivo… E deu-me um pranto de horas, em que as lágrimas corriam cara abaixo qual cascata em dia de tempestade… E soube-me tão bem…Que alívio…Quando a comissão terminou e pouco depois de ter chegado, foi noticiado a estreia do filme “LOVE STORY” em Lisboa. È claro que fui logo a correr ver e recordar o livro que tinha lido em circunstâncias nada agradáveis. E embora o livro permita sempre ao leitor dar asas á sua imaginação e sonhar, ao contrário dum filme, valeu a pena.

Numa certa noite inesquecível, “suponho” que a noite de Natal de 1971, organizou-se uma festa, onde todos os que soubessem e quisessem podiam mostrar os seus dotes artísticos. Uns declamaram, outros contaram umas anedotas, outros tocaram e outros ainda cantaram. Tudo num silêncio e respeito comovedor. Gostámos de tudo e de todos, só não compartilhando desta opinião os pobres coitados que estavam de sentinela a garantir a segurança de todos nós. Mas é a vida. Garanto-lhes que foi espectacular. E recordo a balada “Livre”, do Manuel Freire que o Ex-alf. Fernandes do meu pelotão cantou. È aquela que diz “Não há machado que corte, a raiz ao pensamento…”Além de bem cantada e com sentimento, pegou de estaca no “MACHADO”. O Machado era cabo enfermeiro da 1311. Alto, meio mulato, com cerca de trinta e poucos anos, para nós já velho, casado e pai de vários filhos, coitado, só via a família de muito em muito tempo. Era uma figura típica este Machado. Normalmente já com um copo a mais, passou o resto dos dias cantarolando a dita balada… africanizada. Pelo menos o “machado”decorou ele, que era o que lhe dizia respeito. O resto não lhe importava…Em África os dias terminam cedo e de repente. E logo após o jantar, ou por outra, após a hora da refeição, recolhia tudo aos seus aposentos. O gerador já se fazia ouvir, havia luzes “só nas tendas” por motivos óbvios e barulhos era coisa proibida. De repente ouviu-se uma rajada, e pelo som percebemos perfeitamente que não era duma G3. A confusão habitual, o que foi, donde veio, o que se passou…Tinha sido na tenda do Machado. Lembro-me do Capitão Videira ter encarregue um alferes, talvez do pelotão dele e por ter a sua confiança, se o convencia a entregar a arma e fazer o ponto da situação, até porque álcool e armas não combinam nada bem. E o que se tinha passado na tenda do Machado, que era um pobre diabo e o que queria era passar o tempo e beber uns copos, foi um desentendimento com um outro soldado que dormia na mesma tenda, conhecido por “CAGALHOÇA”. Este nosso amigo, outro pobre diabo, passava o tempo a picar o Machado. Porque tu assim, porque tu assado, blá, blá, coisas que aconteciam a quem vivia naquelas miseráveis condições, e quase nada mais tinha para fazer senão implicar com o parceiro do lado. Mas segundo o próprio Machado naquele dia foi de mais. “Então não é que CAGALHOÇA diz que “Mariquinhas” é de brincadeira e não faz fogo? Atão. Vomita ou não vomita bala? Olha ali”. E apontava para a tenda toda furada. O bom do Machado, que estava com uma bezana de todo o tamanho e mal se segurava de pé, lá entregou a arma que tinha sido o tema da discussão e a tensão passou. Todos tínhamos G3 menos ele que tinha uma UZI, a que carinhosamente tratava por Mariquinhas. E por ser uma arma própria para guerrilha urbana e bem mais pequena, o Cagalhoça passava o tempo a chateá-lo com isso. Penso que a partir deste episódio, isso acabou. Claro que nessa noite ninguém queria ficar na tenda com o Machado, muito menos o Cagalhoça. Mas a coisa lá se resolveu e tirando os primeiros momentos, até trouxe vantagens. Como toda a minha gente fumava, até servia para expelir o fumo do tabaco e arejar a tenda. O pior era quando chovia…

Certo dia ao fim da tarde, estava eu com o ex-Fur. Teixeira a beber uma Nocal na “esplanada do Pub” dos soldados, quando aparece o “CHICHA”. Já não me lembro a que companhia pertencia, mas da nossa sei que não era. O Chicha era um transmontano, gordo e baixinho, grande fala-barato que tinha por hábito não falar mas sim gritar. E como ele berrava naquele dia. Lá de longe gesticulava e gritava se lhe pagávamos uma cerveja e vinha andando ao nosso encontro, embora cambaleando um pouco. Fomo-nos apercebendo que algo de estranho se passava com ele, e, já a escassos metros, vimos que o bom do Chicha vinha todo sujo, e o cheiro que dele vinha, não enganava ninguém. Era merda pura. Já lhe tínhamos dito que pagávamos a cerveja, mas á vista de tão escabroso espectáculo, dissemos-lhe que se fosse lavar que depois pagaríamos quantas quisesse. E o que se tinha passado era simples. Ele bebeu uns copos, e ao ir evacuar, caiu da prancha para dentro da “Piscina” (a “tal” piscina, como já tinha aqui sido referido na descrição da Cecília, era um buraco que a engenharia havia aberto para aí fazermos as nossas necessidades). Agora imaginem como o artista ficou, ao mergulhar onde cerca de 400 homens iam diariamente depositar o que ele trazia agarrado ao corpo. Claro que foi gargalhada geral, e pelo menos naquele dia houve assunto e matéria nova para conversa, e sempre serviu para desanuviar o ambiente.

E a saga vai continuar…

Joaquim Alves

NR: Nas fotos que se seguem podem ver o relator deste post a bordo do navio Vera Cruz, algures no meio do Atlântico, em Agosto de 1971 a caminho de Luanda. A segunda, julgo ser no Grafanil, para onde fomos levados depois do desembarque e lembro-me que para tomar banho era preciso percorrer alguns metros fora da caserna a caminho dos chuveiros. Vá lá que em Luanda o clima é sempre “quentinho” não havendo preocupação com correntes de ar.

A última foto representa a nossa primeira “casa” no teatro da guerra, uma tenda cónica para 8 pessoas, que albergava os graduados do 1º e 2º pelotão da C.Caç. 3413 (2 alferes e 6 furriéis), no planalto do Luaia, província do Uíge, norte de Angola, em Setembro de 1971. Era uma “assoalhada” ampla onde cada um esticava o colchão de ar para dormir …

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3 thoughts on “HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DA C. CAÇ. 3413 (IV)

  1. Aqui vai uma achega, para o excelente texto do companheiro Joaquim Alves:

    Estive pouco tempo na Cecília, pois o 3.ª GC, do alferes Igrejas, onde eu como op. de transmissões geralmente alinhava, demorou-se pelo Vale do Loge e depois por Quimaria. No entanto, conheci o Machado, que era cabo RD e tinha sido despromovido de sargento.
    Era, diziam, um excelente enfermeiro, apesar do problema dos copos e da frase que tinha sempre na boca: “O senhor está a usufruir!”.

    O susto que pregou na malta valeu-lhe apanhar com um morteiro 60 na cabeça, castigo aplicado por um alferes da CCaç.1311, e a perda das divisas o que o faz passar a soldado.

    Foram muitas as peripécias da CCaç. 1311, que era de rendição individual e do R.I.20 de Luanda, como as cenas ligadas ao consumo de liamba, sem esquecer aquela de um seu elemento que se ausentou do acampamento e foi recebido, já ao cair da noite, por uma recepção de tiros e rajadas, que por grande sorte não lhe acertaram.

    Na tenda da enfermaria, que ficava ao lado do comando e em frente do posto de transmissões, assistia-se, por vezes, ao espectáculo de autêntico galope, tipo rodeio americano, dos que recebiam tratamento do flagelo da “flor do Congo”, que chegavam a tropeçar nas calças.

    Um abraço e até Sábado, para aqueles que se apresentarem em Algés, no encontro do Proença.
    José Sampaio

  2. Amigo Joaquim Alves

    Tive o prazer de te reencontrar no almoço da CCaç 1311 em 2011 onde pudemos recordar alguns episódios passados nesse tempo. Agora, ao deparar-me com este texto, quero enviar os meus parabéns pelo pormenor leveza e fidelidade com que recordas as peripécias passadas. Na altura era eu o alferes do 3º Pelotão da CCaç1311 (Fernando) de que faziam parte os furriéis Moura e Monteiro.

    Só para dar uma pitada de pormenor sobre o 1ºcabo enfermeiro Machado, a letra da musica que ele cantava quando estava “inspirado” era a seguinte:
    “seu Timari toma conta/ seu filho vigarista/botou a mão na cintura/na cintura da Titia/Oh mama,Oh mama/ ino umbundo iama ié. (não sei traduzir). Curioso que me lembro perfeitamente da cara do Machado e da sua canção bem como toda a sua coreografia.

    Falamos na altura,nesse almoço, da eventualidade de nos podermos reunir todos nós que passamos por essas peripécias.Felizmente que existe este blog que é um ponto de contacto a utilizar para que isso seja possível.

    Um Abraço

    António Nunes Fernando

    • Caríssimo Fernando. Foi com uma enorme alegria e muita emoção que fui ter convosco á Lourinhã. Quando nos reencontramos associei-te de imediato á imagem do alferes que falou com o Machado nessa noite da rajada…A mesma pessoa tal e qual…com uns anitos mais, mas a essência está lá toda. Tenho uma vaguíssima ideia do Machado a cantar uma canção e certamente é esta que referes. Lembro-me da “Oh mama, Oh mama/iama ié” Grande abraço, e até sempre ou até breve.

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