Colónia de férias do Luvo

6 comentários

Quando em Abril de 1972, depois de 8 meses de comissão, sempre com a “casa às costas”, chegámos ao aquartelamento da Mamarrosa, província do Zaire, norte de Angola, ficamos bem agradados com as instalações, mas logo soubemos que ali perto, no Luvo, existia uma “colónia de férias”onde um grupo de combate de cada vez descansava, tendo como única tarefa a ocupação e guarda do espaço.

No entanto a “colónia de férias”, estava ocupada por um grupo de combate da companhia de caçadores 3372 sediada na Canga, um aquartelamento muito mais distante do Luvo do que a Mamarrosa, e sendo assim reivindicamos que quem teria direito a usufruir da dita colónia seria a companhia de caçadores 3413, porque o Luvo estava ali mesmo à “mão de semear” e nós estávamos bem necessitados de férias.

Efectivamente, durante alguns anos os aquartelamentos junto à fronteira não tiveram muitas situações de recontros com o inimigo (FNLA) porque eram zonas de passagem para o interior de Angola, onde o movimento realizava acções de combate, mas onde nunca conseguiu estabelecer bases logísticas.

Longe da fronteira, quando efectuavam acções contra as nossas tropas, logo os comandos ou páras os perseguiam e infringiam grandes perdas.

Em Junho de 1972, as campainhas de alarme tocaram, depois de uma emboscada que um grupo de combate de uma companhia de caçadores sofreu entre a picada de S.Salvador e Buela, provocando 16 vítimas (9 mortos e 7 feridos).

Foi o momento em que ficamos a saber que o inimigo tinha mudado de táctica e passou a atacar os aquartelamentos junto à fronteira da RDCongo e assim para nós a colónia de férias do Luvo durou muito pouco tempo, depressa nos apercebemos que a partir daquela data aquela zona se transformaria num Inferno e por isso, a tempo reforçamos o Luvo com mais um grupo de combate.

A foto que se segue mostra 3 construções situadas do lado direito quando se entrava no aquartelamento. A da esquerda era um telheiro que servia de oficina, a do meio, uma casa comercial onde se vendiam algumas “bugigangas”, a da direita albergava o bar/cantina/aprovisionamento. As montanhas atrás são já território do Congo que ficava a cerca de 300 metros, com o rio Luvo a servir de divisão.


O dia 22 de Outubro de 1972 foi o escolhido por Holden Roberto, para conquistar o Luvo, a táctica foi bem pensada, flagelando também a Mamarrosa para que os nossos companheiros não pudessem prestar socorro, mas o “tiro saiu-lhes pela culatra”.

Veja o relato AQUI.

Mário Mendes

6 thoughts on “Colónia de férias do Luvo

  1. Bom Domingo,

    Cruzei-me há pouco com o v/ site, que venho lendo com muito interesse.
    Fui alferes miliciano da C.ART 3447 na Luvaca, do B.ART. 3859, que esteve sediado em Cuimba desde DEZ1971 a FEV1974.
    A minha intervenção visa tão só “precisar” uma passagem do que é relatado quando à fatídica emboscada que teve lugar em 21JUN1972, na Picada Comandante Seabra com um G.Cc da C.ART. 3449, da Calambata.
    Para tal, se acharem de interesse, transcrevo o que vem descrito na “História do B.ART. 3859, depositada Arq. Histórico Militar:

    Em 21JUN
    – Um grupo IN não estimado com elementos fardados de camuflado, de verde e à paisana emboscou 1 GC/CART 3449 que se deslocava em 21090 na Picada CMDT SEABRA de regresso ao estacionamento. o GC/CART 3449 tinha terminado uma acção de 4 dias (Emboscadas e Nomadizações) a Norte da Picada CMDT SEABRA na região do MUTEMO e havia sido rendido pelo GC/TE nº 151 que pouco antes passara pelo local da emboscada. A emboscada efectuou-se na região (142540.055930).
    A acção provocou às NT 5 mortos, 9 feridos graves dos quais 4 faleceram posteriormente no local, e 7 feridos ligeiros, e a perda de 3 Esp.Aut. G 3, 1 E/R TR/28-B, e 1 E/R ONKYO .
    Dos 5 mortos faz parte o Alferes, Cmdt do GC, que foi abatido logo aos primeiros tiros.
    O IN iniciou a emboscada com grande potencial do fogo não fazendo restrições ao consumo de munições. A emboscada durou meia hora e o IN retirou em direcção à R.Z.
    As NT provocaram ao IN um morto (foi visto cair o depois ser arrastado por 2 turras) e vários feridos. As NT capturaram o seguinte material: 1 GMD; 5 carregadores para PMetr.;3 carregadores para . Aut.FN; 1.Fotómetro “LUNASIX 5”.
    -Tem início a OP.VENDAVAL com a finalidade do efectuar o reconhecimento da antiga picada que ligava a MADIMBA ao QUIENDE, o efectuar a sua abertura. Nesta operação tomam parte 1 GC/CART 3449 e 1 GC/ CCAÇ 3513.

    RESERVADO

    Ao dispor para o que tiverem por conveniente,
    Humberto Fernandes

    • Caro companheiro, muito obrigado pelo relato detalhado deste triste acontecimento. Durante a nossa comissão foi talvez o mais devastador para o nosso lado e foi muito comentado em toda a região norte. A nossa solidariedade para a C.CART. 3449.

    • Complementarmente ao que transcrevi em 08MAI2011, lê-se a pags.101 na referida “História do B.ART.3859”: “O IN, na aproximação do local da emboscada furou o capim junto ao solo, abrindo galerias de aproximação.
      O IN escolheu um local de emboscada em que as viaturas tinham de abrandar a marcha ao efectuarem um ligeira subida. As posições das metralhadoras encontravam-se em pontos dominantes, e tanto estas como os atiradores IN se encontravam mesmo junto à picada dissimulados pelo capim que furaram em galerias.
      O IN havia montado um acampamento a cerca de 2 km do local da emboscada e para Norte da Picada. Do local da emboscada até à fronteira distam cerca de 12 km que o IN percorre em 2 ou 3 horas.”
      Do malogrado António Vieira Alves, estava agora mesmo a recordar os passeios que demos por Luanda no período 27NOV71-06DEZ71, antes de partirmos para o Sub-Sector “CUI”, sempre acompanhados de fotos, aparecendo ele numa delas.

    • Embora o relato seja feito graças ao que está descrito no Arq, Histórico Militar, não deixa de ser um relato o mais fiel possível, eu como soldado de trans. do 2º GC da CART 3449, Santos, recordo todos os meus camaradas que faleceram nesse dia, que, o que não conta o relato oficial, foi as sevícias a que os corpos foram sujeitos o que nos obrigou a um trabalho muito sofrido, na preparação dos mesmo para sua entrega nas urnas, toda a companhia ficou em choque com a chegada dos corpos dos nossos amigos e camaradas de armas, para mim em especial o sol. trans. Chorinha, meu grande amigo e camarada de especialidade, passados todos estes anos é com enorme mágoa que escrevo sobre este acontecimento.
      Foram 27 meses no norte de Angola, onde a amizade foi cimentada com muito sofrimento, mas que hoje faz parte de uma família que venera os seus mortos e cultiva a união com os ainda vivos, um grande abraço a todos os combatentes e em especial aos do BART 3859 ( CCS, CARTs. 3447, 3448 e 3449 ).

  2. A emboscada ao 3.º GC da CArt 3449 está documentado (e ficcionado) no livro do escritor João de Melo, “Autópsia de um Mar em Ruínas” (Dom Quixote, 6.ª edição, 1997, pp.109-145), que era furriel enf. desta Companhia. Recomendo a sua leitura, sobretudo por que se trata, porventura, do mais famoso livro sobre a GC, o que é comprovado pelas suas várias edições.
    Nas pp. 23 e 274 refere os ataques que sofremos na Mamarrosa e no Luvo.
    Parece-me que o GC que participou na operação “Vendaval” terá sido da nossa CCaç. 3413, e não da CCaç. 3513, que esteve estacionada em Quiende.
    Um abraço a todos
    José Sampaio

  3. É sempre bom saber que alguém nos vai lendo e que vivem como nós aqueles tempos que em todos deixou marcas bem profundas. Fazia parte da c. caç. 3413 e fiz várias operações conjuntas com a companhia 3449, onde esse dia terrível foi relembrado várias vezes por alguns protagonistas nessa emboscada fatídica. Um abraço solidário, não só ao Humberto Fernandes mas para todos os que lá tivemos. Não esquecendo os que lá tombaram para sempre, que deixaram um vazio não preenchível principalmente para os seus familiares, e que os nossos governantes teimam em fazer de conta que nada se passou…Eles é que deviam ir para lá.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s