Mbanza Kongo cidade sem coroa

Mbanza Kongo capital do antigo e respeitável Reino do Kongo, cidade apelidada de São Salvador pelo então colonizador português. É uma cidade esquecida no que tange a projectos de desenvolvimento humano.

Tive como meta principal antes de qualquer tarefa, visitar o famoso Kulumbimbi, o cemitério dos Reis do Kongo dya Ntotela. Queria nesta visita rezar junto ao tumulo de um dos primeiros guerrilheiros de libertação nacional, o falecido Presidente da FNLA, Álvaro Holdem Roberto. Aquele que segundo os historiadores foi o homem que liderou o Movimento que deu início a luta armada de libertação do povo de Angola a UPA/FNLA.

Infelizmente, a nossa história tem vários diâmetros de interpretação e relatos confusos de grupos querendo ganhar protagonismo histórico no campo político, social e económico angolano.

Nós jovens da geração pós Independência, gostaríamos de ter uma narração histórica isenta de bandeiras partidárias. O MPLA, verdade se diga, faz da sua história particular como o absoluto do passado político de Angola. Esse movimento tem desde a independência mostrado ser o único libertador do povo angolano. Com os seus heróis particulares transformados em heróis nacionais.

Até as efemérides deste partido são tidas como feriados nacionais. Os seus militantes ou soldados que participaram na luta de libertação nacional mesmo em conflitos com angolanos de diferentes movimentos de libertação como a FNLA ou a UNITA, são heróis e os dos dois movimentos adiante designados são bandidos. Significa isso dizer que ambos os movimentos FNLA e UNITA, não lutaram para libertar, mas sim para destruir. Concluindo e resumindo, os abuses e balas usadas pelo MPLA contra os outros seus adversários ou inimigos caiam pelo mar.

As forças estrangeiras que apoiaram o MPLA na expulsão dos outros Movimentos de libertação em 1975, eram verdadeiros libertadores do povo humanistas e etc. Aqueles que também apoiaram os Movimentos ora expulsos eram imperialistas, inimigos da paz e da humanidade, admira-me ver hoje os filhos dos apoiados pelos humanistas a estudarem nas instituições escolares dos países dos imperialistas, até compram casas em território dos imperialistas, que hipocrisia.

Meu pai em vida, narrou-me alguns percursos da luta de libertação em Angola, segundo meu pai, ele deve a sua formação a Álvaro Holdem Roberto. Meu progenitor foi estudante de enfermagem num dos Institutos de medicina de Jerusalém em Israel nos anos sessenta, eu nem sonhava ver o mundo. Esses contos sempre incutiram em mim a necessidade de poder conhecer de viva alma três homens, Holdem Roberto, Man Nguxi e Man Bimbi.

Desses três respeitáveis senhores e que Deus proteja as suas almas, apenas pode conhecer e ver de perto Man Nguxi e Holdem Roberto. Do primeiro guardo lembranças quando adolescente. Do segundo só tenho a lamentar a humilhação que sofreu antes de partir para o além. Mesmo tendo deixado a ideia de continuar a combater teve que pagar caro a humilhação durante toda vida.

Man Nguxi é somente recordado nos dias 17 de Setembro de cada ano, para além da Universidade mal conservada que leva o seu nome, já não existe nada de referência social com o seu nome, talvez algumas estradas mal conservadas do país levam o seu nome.

O meu primogénito que completou 9 anos e frequenta a 4ª classe, diz nunca ter ouvido falar na escola de alguém com o nome de Agostinho Neto.

Não prolongarei sobre os três homens os quais nutro muito respeito. Penso que numa outra oportunidade falarei daquilo que pode conhecer sobre os libertadores da nação. Devo como prometi falar sobre a capital do antigo Reino do Kongo dya Ntotela: Mbanza Kongo.

No famoso cemitério do Kulumbibi, passei revista a todos os túmulos dos antigos Reis do Kongo e posteriormente dirigi-me ao de Holdem Roberto onde fiz uma reza pedindo ao criador uma protecção a alma de todos que em vida primaram pela nossa liberdade.

O local em que pisava estava mal conservado, não sei se pelo momento chuvoso que a cidade tem vivido ou por desleixo de quem de direito. O capim precisava ser cortado às paredes pintadas e dar uma visão que o espaço merece. Porque afinal de contas aqui, repousam restos mortais de personalidades muito importantes, aqueles que nos deram a matriz para hoje termos a liberdade de sermos angolanos embora, alguns por bajulação forcem-se a pensar diferente.

Tempos houve em que quase nada ouvíamos pela imprensa estatal sobre esta cidade de Mbanza Kongo, mas, de um tempo para cá, logo após a nomeação do actual governador o Sr. Pedro Sebastião, tem se falado algo sobre ela.

Actualmente de 7 a 10 dias de cada mês é possível teres uma informação sobre a Província algo diferente aos tempos longínquos. Esse aspecto informativo animou-me a visitar esta parcela territorial para ver de corpo e alma a realidade dessa vila em especial e da província em geral.

Infelizmente, a nossa informação pública e estatal mente muito. A informação que nos tem sido passada é uma mera publicidade governamental. O governo deveria no meu ponto de vista ser um pouco mais realista sobre a vida que as populações levam.

Não basta reabilitar um simples edifício, a casa do governador, tapar buracos de uma via pública, colocar um cyber café com três computadores, construir uma escola com duas salas seja sinónimo de desenvolvimento de fundo. Até os discursos dos dirigentes angolanos são lamentavelmente entendidos como via de projectos humanitários.

Mbanza Kongo é a capital de uma província gestora e promotora de um capital financeiro em recursos minerais pela produção e exportação de petróleo. Esta cidade histórica, não merecia ter as condições que têm.

A província do Zaire tem uma população estimada em 600.000 (seiscentos mil) habitantes, recebe mensalmente do orçamento geral do estado angolano, um fundo relativo a 10% (dez por cento) das receitas provenientes da venda do crude. Só em 2005 esta província produziu mais de 15.000 (quinze mil) barris dia. Perguntaria qualquer um qual o destino dado a este plafon financeiro superior ao PIB de um pequeno país como a Suiça que tem uma população avaliada em 7.318.000 e uma extensão de 39.770 km2.

As escolas são rudimentares com problemas vários na falta de carteiras. Não vi nenhuma única biblioteca, os estudantes do ensino secundário e pré-universitário têm problemas de pesquisar matérias escolares. Não há jornais a venda, visitei uma papelaria particular e não encontrei a venda nenhum único jornal. Os residentes são na maioria desactualizada da realidade universal. Mas os locais de venda de álcool estão em todos os cantos da vila.

Visitei um restaurante de fronte da ENE, Empresa Nacional de Electricidade e a escassos metros do Banco BAI, a qual me foi confidenciado ser do Governador Provincial, perguntei-me de o porquê que este senhor não primou na construção de uma biblioteca? O motor da sabedoria e viagem pelo Universo!

Existe somente um único cinema que nem funciona por estar em reabilitação a já um bom tempo. Este cinema que foi apelidado com o nome de um dos heróis do MPLA, o falecido Comandante Bula, foi edificado no tempo colonial.

Bem calculada a cidade de Mbanza Kongo tem apenas 5 (cinco) vias com asfalto que são, a via principal que sai do hospital provincial passando pela sede do governo provincial e termina no Supermercado Nosso Super, a via adjacente a Rádio Regional, a via traseira a própria rádio, vias com menos de 200 metros de comprimentos, a via que sai do aeroporto e termina na via a que me referi por de traz da Rádio, essa via dá acesso a Delegação ou Comité provincial do MPLA, e uma outra via que parte da via principal e termina na escola do (Ciclo Preparatório).

Estas vias a que me referi, foram feitas e deixadas pelo colono português. Toda a dita reabilitação propalada de vias novas, nunca existiu. O que houve ou tem havido é o sistema a muito conhecido: Tapa Buracos. Mas nem com isso as vias estão em péssimas condições. Os postos de luz nas vias a muito que não conhecem o sabor da energia, nunca mais acenderam.

Todos os dias úteis às crianças caminham para a escola com bancos, cadeiras e latas de leite Nido pela cabeça, com vista a servir de acento nas salas de aulas.

Numa manhã acompanhei algumas crianças dos 6 aos 9 anos que dirigiam-se a uma escola num dos bairros da cidade, qualquer um perguntaria qual tem sido os efeitos do governo na edificação de uma escola em condições.

Ao chegar ao local notei que se tratava de uma sala de aulas isolada. A mesma sala é construída de adubos, o chão não está pavimentado, não tem porta nem janelas, não há nenhuma só carteira a própria professora senta numa cadeira transportada por uma das alunas, o tecto da escola está completamente cansado com vários furos e quando chove todos saem em debandada.

Nesta sala de aulas estudam alunos com idades muito diferentes. Trata-se de uma classe da iniciação onde estudam adolescente dos 5 aos 9 anos juntos. Em conversa com a professora desta sala de aulas ela confidenciou-me não existir escolas para albergar o número de crianças para este ano lectivo, por isso a delegação municipal de educação de Mbanza Kongo, alugou este estabelecimento, garantiu-me existirem muitos destes estabelecimentos em vários bairros da cidade.

Imagine um governo que desconhece quantos alunos terá num futuro ano lectivo. Um governo que durante o período de férias não teve a mínima preocupação de construir mesmo que de pré-fabricado, salas de aulas em condições. Um governo que está severamente imbuído na preparação de eventos caríssimos como o CAN, despendendo avultadas somas em dinheiro em detrimento da construção de uma escola bem como provimento de carteiras para as escolas existentes.

Actualmente, de boca em boca dos governantes ouvimos hipocritamente a mencionarem os nossos problemas como causas provocadas pela crise financeira internacional. Se sem a dita crise não conseguiram fabricar carteiras qual afinal tem sido as razões em lamentar algo que desconhecem.

Como fizera referência num seminário a que pode participar esta crise esteve prevista em 2006, será que estes carcamanos que dizem dirigir o país estavam cegos e surdos!

A capital da província do Zaire se parece a uma terra de pessoas de pele russa ou amarela se quisermos assim entender. A poeira que te deslizas nesta vila pode provocar-te em menos tempos graves problemas respiratórios. Nos bairros periféricos da baixa desta cidade não há vias asfaltadas. Todas as vias são de terra batida e faz uma poeira de arrepiar o corpo. O governador e seus discípulos andam de carros 4×4 equipados com ar acondicionado e dificilmente são contaminados com esta triste nuvem destruidora do homem.

Em várias ocasiões em que visitei os bairros periféricos senti-me completamente chocado com o aspecto físico das pessoas. Entrando pela primeira vez num táxi local, não consegues identificar a cor do cobrador ou do motorista do automóvel. A elevada poeira que faz nos bairros da vila cambia de imediato a cor das pessoas, elas passam da cor original para a cor amarela ou russa o cabelo também se torna russo. Nunca o governo local, preocupou-se a impedir solucionando uma situação crítica da saúde do ser humano. Sempre que chove, essas áreas tornam-se mais complicadas devido à agilidade do areal.

No mercado principal onde estive por vários momentos, o ambiente é amarelo. Tudo que lá se venda está sempre com varias manchas amarelas até a comida vendida no local tem areia amarela.

Fui numa tarde ao mercado para deliciar um prato típico com base em fumbwa com peixe seco e funji e aproveitar conversar com algumas vendedoras sobre a vida delas. Não estranhei nem esperei que me contassem algo de bom sobre a saúde, educação e emprego nesta parcela territorial. Sobre a energia e água é um Deus te acuda. Vivem da água das cacimbas feitas pelos próprios populares, alguns caminham longas distâncias para junto dos rios adjacentes obterem água e ou lavar as roupas. Não existe energia nesses bairros, as crianças estudam a luz de velas. Quanto ao desemprego nem vale a pena comentar. 95% dos habitantes de Mbanza Kongo estão no desemprego, nem há perspectivas que no futuro possa haver uma decrescente alteração percentual.

O movimento na baixa da cidade é monótono, vês as mesmas coisas, as mesmas pessoas, os locais públicos são os mesmos e esses locais podem ser comparados aos existentes nas aldeias.

Nesta vila há apenas um hotel o conhecido Estrela do Kongo. Foi reabilitado e está sob tutela de um empreendedor privado. Nos bairros periféricos pode ver duas pensões, uma próxima do centro da cidade e outra dentro do próprio mercado municipal. A primeira tem um aspecto acolhedor embora empoeirado às paredes. A segunda localizada dentro do mercado não tem aspecto de hospedaria, se parece mais a um centro de acolhimento para refugiados.

O hospital provincial sofreu pequenos arranjos físicos, mas, o atendimento não se difere aos vários hospitais públicos sobre controlo do estado angolano. Há falta de todo tipo de medicamentos, até o mercúrio e adesivos faltam neste hospital. Os pacientes chegam a ser alojados em número superior por cama. A parte exterior do hospital também não se difere aos vividos em qualquer parte de Angola. Os familiares dos pacientes dormem ao relento para poderem a partir do exterior assistir em medicamentos e alimentação os seus familiares acamados.

Esse hospital está situado a poucos metros da residência do Governador provincial, que me parece conhecer e acompanhar de viva alma o estado lastimável das pessoas, embora alguém me confidenciou que o governador tem mais ausências que presenças na província. Os governadores províncias são na sua maioria turistas, residem oficialmente em Luanda, tem aviões privados, o do Zaire, por exemplo, tem uma companhia aeronáutica pessoal.

10% (dez por cento) mês das receitas de venda do petróleo angolano é muito dinheiro para uma parcela territorial com cerca de 600.000 (seiscentos mil) habitantes. Para onde vai o montante que a Província do Zaire tem direito?

Não consigo acreditar que a cidade de Mbanza Kongo não tenha uma biblioteca, não tenha um aeroporto em condições, não tenha uma universidade, ou núcleo universitário, não tenha um cinema, não tenha uma escola em condições e com falta de carteiras, por exemplo. São meios que não necessitam de serem aprovados como é de hábito por um dito conselho de ministros.

Como é possível que jovens residentes desta parcela territorial não tenham oportunidade de adquirirem livros onde haja a narração da história do recinto onde nasceram e vivem? Em conversa que tive com jovens estudantes nenhum conseguiu falar sobre a vida e obra de Nkimpa Mvita, Nzinga Nkuvu e outros grandes antigos Reis do Kongo.

Por razões familiares, tive que Interromper a minha viagem ao Zaire. Gostaria imenso de visitar os outros municípios, Soyo, Tomboco, Kuimba Noqui e Nzeto e posteriormente seguir para Malanje via Uíge por terra.

Num dos meus últimos textos sobre a cidade de Luanda, marcou-me a mensagem de um dos comentaristas a solicitar que visitasse também o Leste de Angola. De facto tenho isso como prioridade. Quando retomar as minhas caminhadas por Angola irei primeiro a Malanje e posteriormente seguirei por terra pelas Lundas, Moxico e por último nas terras do fim do mundo, Kuando Kubango.

Li também no texto em referência comentários de um auto intitulado Dr. Xis, que lamentavelmente há mediocridade analítica na interpretação da escrita corrente. Um comentário deve ter como princípio crítico o conteúdo e não os erros ortográficos. Ninguém está isento a erros até porque eu não sou português nem conheço Portugal, nunca estudei em nenhum outro país de expressão portuguesa com excepção de Angola onde fiz os estudos primários. A minha frequência secundária, pré-universitária, universitária e de técnica profissional foram feitas em diferentes países do globo onde tive como línguas veiculares de estudo dos referidos países que são: espanhol, alemão, francês, inglês, eslava e russa.

Aconselho ao caro Dr. Xis, a dar mais atenção a questões gramaticais o básico na interpretação de qualquer frase, se é que teve um doutoramento em Língua portuguesa e é um comentarista corretor.

Atenção: se lhe incomodam as minhas narrações, saiba que tudo que descrevo é a realidade dos locais onde passo. Os próximos relatos serão acompanhados de imagens fotográficas e vídeos.

David Ginga/Umpata, Huíla

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1 pensamento em “Mbanza Kongo cidade sem coroa

  1. sim em são salvador do congo foi a onde nasceu o sr.dr.holden roberto e ele teria o direito de ser o primeiro presidente de angola porque foi ele que começou a luta armada com catanas e foi a 4 de fevereiro de 1961 foi a partir dai que veio o 15 de Março do mesmo ano e eu conheci muito bem são salvador do congo hoje com outro nome mas foi o sr.dr.holdem roberto que tudo começou a história de angola a essa e não outra e bom dia a todos

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