HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DA C. CAÇ. 3413 (I)

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Chegados a Setúbal, ficamos adidos no 11. Um quartel velhinho e pequenino, que ficava junto ao rio Sado e no começo da Luísa Todi. Fizemos o I.A.O. na serra da Arrábida e, com umas idas à Figueirinha pelo meio, o tempo para o embarque passou célere. Ainda por cima, era altura da feira de S. Tiago, que era mesmo ao lado, e para onde a malta desaguava todas as noites. De referir uma noite em que foram presos pela P.U. dois ou três soldados nossos, o que deu origem a uma grande barafunda, em que até o piquete foi chamado, mas tudo acabou por sossegar…Mas as divergências entre os soldados mantiveram-se até ao fim, fato que deu origem a que na última noite ali dormida, os colchões se tenham “auto-destruído”…

O tempo passou tão depressa que quando demos por isso, era dia de embarcar. E lá fomos todos inchados na nossas divisas novíssimas, a brilhar como convinha, para Alcântara onde nos esperava o paquete Vera Cruz. Já tinha tido a amarga experiência do embarque para os Açores, e como tal, pedi á família que não queria nova despedida. Não queria mais do mesmo. E lembro-me de ter ido de propósito com outros, que estavam como eu, beber uma cerveja de despedida num café ali perto. Isto serviu mais para não ser detectado pelos meus, que sabia andarem por ali, do que propriamente por qualquer outro motivo. Mas no meio daquela confusão toda e de milhares de pessoas, lá acabamos por entrar a bordo sem ser detectado.

A história do costume. Milhares de pessoas a despedirem-se num ambiente indescritível. Lenços brancos, muitos…Já íamos perto da ponte, quando vi um barquito pequenininho, com dois indivíduos a bordo, que muito gesticulavam. Era o irmão dum dos felizes contemplados com o circuito turístico, que nos seguiu até poder…e nós a eles…    Para mim a viagem foi óptima. Enquanto da outra vez a viagem foi em pleno inverno, esta foi em Julho e sem tempestades, além do barco ser de muito maior calado. Vi alguns enjoos, naturais, até porque o estado de espírito não ajudava em nada, e as condições em que muita malta ia, ainda pioravam tudo. Os Furriéis iam em 2ª classe e bem, que era o meu caso. Os nossos soldados não eram dos que iam piores. Mas a maior parte da outra malta, coitados. Fui lá abaixo duas ou três vezes, e que nojo. Havia vários bares mesmo lá em baixo. Mas as mesas tinham sido substituídas por camas e havia malta a dormir mesmo encostados ao balcão, e vá de cerveja. Era um cheiro nauseabundo a tudo o que cheira mal, até abafava…

E chegamos a Luanda. Ao atracar, uma data de mirones e um silêncio sepulcral. Só se ouviam os motores do barco e o mar a bater na amurada. Tudo calado. De repente um grito vindo do porto:” QUIM DA BOLA”. Só podia ser para mim. E era, no meio daquele pessoal todo estava a acenar-me o Chucha, que tinha andado a estudar comigo e também era de Montemor. Quando estive com ele, explicou-me que me tinha reconhecido por lhe chamar a atenção, ir ali um tipo no meio com uma camisa armado em “velhinho”. Era eu. As minhas estavam sujas e enfiei aquela que um meu primo me deu, depois de ter feito a sua comissão, e claro, no meio daquela “maçaricada” toda, tinha que me destacar. Mas esta camisa ia ter mais episódios. Passados dois ou três dias, fui com o Leitão a uma esplanada do Zé soldado, onde gostava mais de ir e era mais perto. Umas Nocais e um saquinho de camarão, bom, bonito e barato! Numa mesa ao lado, estavam uns soldados, do tipo já em fim de comissão. Depois de nos cumprimentarem muito bem e duns sorrisos matreiros entre eles, um vira-se para o Leitão, que, muito branquinho, louro, gorducho, não enganava ninguém, era um “Maçarico”puro, e pergunta-lhe:

-Meu Furriel. Eu conheço-o de qualquer lado. Por acaso não esteve a dar recruta no Porto? A sua cara é-me conhecida e é de lá! Foi meu instrutor de certeza!

O Leitão com aquele seu ar muito próprio de comunicar, lá foi dizendo que era engano dele, que tinha estado a dar recruta sim mas em Beja. No Porto, não…

E o soldado lá voltava á carga, que sim, tinha a certeza, o Leitão contrapunha… e isto continuou, até que me apercebi pelos outros, que estavam no gozo e que ali havia marosca. E lá disse:

-Acabem lá com isso. Já chega.

– Furriel, já não se pode brincar?

– Pode, mas agora já chega. Acabem lá com a conversa…

E pouco depois lá abalaram a remoer. E fiquei a interrogar-me, o porquê de tanto respeito para comigo, e o gozo para com o Leitão, se tínhamos acabado os dois de chegar? E fez-se luz. Eu era o contraste perfeito com o Leitão. Magro, moreno por natureza, mais a camisa e as divisas já gastas do meu primo, fizeram o resto! E digam lá que a velhice não é um posto! Como é que o Leitão podia ter dado recruta a um tipo que já ia de regresso e nós acabadinhos de chegar? Para quem como o “Létion”, como lhe chamavam os Açorianos, se intitulava o mais velhinho da RMA, para começar não estava nada mal. A tropa tinha destas coisas…

E chegam os naturais de Angola. De noite e naturalmente muito cansados e sujos da viagem que tinha sido longa. Mas muito aprumados e disciplinados, ficando a Companhia finalmente completa. Antes de entrarmos em acção, nada como ver como estavam os físicos, pensaram uns e outros. E passados pouquíssimos dias, envolveu-se tudo á “batatada”. Açores versus Angola. Eu não estava na altura no Grafanil, mas segundo me contaram correu tudo pelo melhor. Umas lambadas, uns murros, uns pontapés, tudo numa boa. Valia tudo menos armas. Parece que foi um belíssimo exercício. E real!

Depois de cerca de um mês de ambientação, com praias do melhor, muita cerveja, muito marisco (Amazonas, que saudades) com exercícios próprios de quem estava na nossa situação, lá chegou a ordem já esperada. Íamos rumar para Norte.

Agora, e depois de todo este preâmbulo, é que isto vai aquecer!

Joaquim Alves

2 thoughts on “HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DA C. CAÇ. 3413 (I)

  1. Fala “Létion”. Não te deixes ficar perante esta “provocação” do nosso amigo. Mostra que és ribatejano, terra de toiros e toureiros!

  2. pelo numero da companhia já sei que eram maçaricos mas maçaricos todos os que foram eram no começo éramos todos maçaricos mas eu como fui ainda de farda amarela fui maçarico mas logo virei velhinho eu era da companhia 777 65 a 67 mas realmente a partir de 69 já não iam mais militares iam sim maus políticos claro a nível de capitão e foram realmente umas crianças ruins e que destruíram Portugal foram uns caras ruins acabaram com o nosso império verdadeiros pulhas todos estou escrevendo isso um pouco tarde no dia que se foi para sempre o dr. sr. artur agostinho que o vão prender agora esses senhores que hoje ainda estão vivos o sr mário soares otelo vascos gonçaves o outro já foi o cunhal idem que a terra lhe seja muito pesada sr alvaro cunhal.e abraços a todos os ex-combatentes obs eu era soldado condutor meu e-mail a g.necho@hotmail.com ás vezes o ser otelo pode querer falar comigo e aquele que foi governador militar de lisboa.

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