Depois da chegada ao BII 17

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Depois da chegada, procedeu-se à minha instalação e apresentação aos futuros “camaradas” Cabos Mil. Com aquelas idades o relacionamento era praticamente imediato. Donde vens, és donde, e pronto, até parecia que já nos conhecíamos há muito. Do pessoal das outras duas companhias, irmãs da nossa, recordo-me do Ribeiro (falecido na Guiné), Pescadinha, Gini Coutinho, Coelho, Rivelino e do resto, lembro-me das suas caras mas os nomes, foram-se… Da nossa malta, tenho-os todos bem presentes. Foi portanto facílima a integração com esta malta. Já com os soldados a conversa foi outra. Não pelas pessoas em si, mas pelo sotaque açoriano, que nalguns casos, oriundos de certas freguesias, principalmente de S. Miguel, era puro “japonês”. Confesso que alguns eu não percebia mesmo nada do que diziam. Um deles, o Fernandes do meu pelotão, que era dos que tinham a pronúncia mais acentuada, certo dia, num período de descanso, vem ter comigo e disse-me mais ou menos isto:” Nosso C. Mil. Dá-me licença que vá dar de coto?” O quê? E ele repetiu. E eu na mesma. Depois de várias tentativas e respostas sem eu perceber nada, acabei por lhe perguntar, fosse lá o que fosse se era longe e se ia demorar muito. Ao que ele, aí percebi bem, me respondeu de pronto “Nã Senhô”… Então vai lá e não te demores. Mal ele abalou, perguntei aos outros o que é que ele queria. Os outros a rir lá me explicaram que estava com dor de barriga e tinha ido ” c….”.

Instrução, saídas até à cidade, uns mergulhos no mar, festas com fartura nas freguesias, onde a rapaziada ia ver as corridas à corda, mas não só, visto que os balcões e as casas eram enfeitados por montes de moçoilas lindas …Não esquecendo os bailaricos, em que tínhamos grande saída, mais não fosse por sermos “contenentais”. O que gerou atritos naturais entre nós e os ilhéus, chegando a sermos proibidos de entrar nessas sociedades, o que provocou enorme descontentamento entre as raparigas, e nós claro. Acabou por dar origem à minha 1ª e até hoje única manifes de protesto, nas escadas da Sé. Lembram-se? Houve uma noite, num baile no Clube Naval, em que, contra o que era normal, tivemos que nos aliar aos especialistas da BA-4 para não ser-mos enxertados…A nossa vingançazinha, era entrarmos por ali adentro quando estávamos de P.U. Nessa noite tinham que nos gramar…Mas para alegria nossa, tudo acabou por se resolver, e lá íamos nós. Não!!!

Como todos sabemos, pelo menos agora, o Cabo Mil. foi uma invenção do nosso exército. E ali em Angra, sentimos bem o que isso era de ridículo. Senão vejamos. Podíamos ir ao bar do Zé Soldado? NÃO! Estávamos a dar-lhes instrução e como tal, não convinha misturas. Ao bar dos Senhores Oficiais? NÃO! Nem pensar…Á messe de Sargentos? NÃO! Simplesmente porque éramos Praças de Pré, embora fizéssemos serviços de – SARGENTO DE DIA, SARGENTO DE RONDA, PU, enfim, coisas…que nós furávamos quando estávamos de serviço…e o barulho que eu fiz numa noite dum Portugal-Espanha em Hóquei! Que dava na rádio, pois a TV ainda estava para chegar!

Cerca de três meses após a minha chegada aos Açores, com a conivência de todos os Cabos Mil “desenfiei-me” para o Continente durante perto dum mês. Claro que a rapaziada me desenrascou os serviços que me cabiam. Mas o mesmo fiz em Setúbal quando chegaram, onde ficámos no velho 11. Alguns já não iam a casa pelo menos há seis meses. Como chegaram a uma quarta ou quinta-feira, os transportes que havia e a distância a que moravam, não lhes dava para irem e virem a tempo. Razão porque lhes disse para desaparecerem dali. Vão-se embora! O 1º Ramalho ainda começou a dizer quem estava de serviço, e já irritado quando se apercebeu da tramóia, prometeu-me uma “porrada”. Estive aqueles dias de serviço, mas com a enorme satisfação de ter desenrascado aquela tropa. Alguns ainda me trouxeram bolos, presunto, agradecimentos da família e serviços, não me deixavam fazer. Eles estavam longe de casa, eu morava perto, e valeu a pena…

Joaquim Alves

4 thoughts on “Depois da chegada ao BII 17

  1. Caro companheiro, belos tempos aqueles que passamos em Angra. E aquele episódio em que estávamos a jogar à lerpa e entra o comandante do quartel. Todos de cabeça baixa sem pronunciar palavra e foi então que o Coelho, da C.Caç. 3412, meu conterrâneo, perguntou ao homem: Quem é o Senhor? Eu sou o comandante e você quem é? Desculpe não o conhecer, mas é que eu cheguei ontem. Foi um pequeno susto, mas nos outros dias já com mais vigilância a jogatana continuou…

  2. Os meus parabens ao Joaquim Alves pela história que narra a sua chegada ao BII17,
    está escrita de tal modo que teve o condão de me prender até ao final.
    Os meus agradecimentos pelo comentário deixado no meu blog e que só agora tive opurtunidade de ler.

  3. Eu sou Cabo-Verdiano e fui militar de profissão no tempo colonial como 1º Cabo Readmitido. Em 1971 frequentei em TAVIRA o 2º ciclo do Curso de Sargentos Milicianos de Infantaria e fiquei alguns meses no CISMI à espera do meu regresso à Cabo Verde. Agradeço a narração de alguns episódios apresentados pelo Senhor JOAQUIM ALVES, porquanto eu também passei por essa discriminação ridícula, após o término do curso!!! Já com as divisas de “cabo miliciano” ficamos à deriva (eu e outros camaradas) sem saber onde ir tomar as refeições ou beber uma cerveja. Disseram-nos que como “cabo miliciano” já não podíamos frequentar nem o refeitório e nem o bar das praças(soldados) . Fomos à messe de Sargentos e logo à primeira não nos queriam receber, porém, fiz um “barulho dos diabos”, entre outras coisas, falei em discriminação e por isso, apareceu o Oficial de Dia ( de origem cabo-verdiana) – o Tenente ROQUE DE PINA – que acabou por autorizar-nos, em concordância com o COMANDANTE, a usar a messe dos Sargentos; uma decisão que não agradou o responsável da messe e comentou sobre verbas para nossa alimentação, etc, etc. Tenho pouca coisa para me recordar dessa época e, por isso, peço por favor, se algum instruendo desse tempo tiver algum documento , nomeadamente, fotografias do nosso batalhão e/ou das companhias , que as publique em site ou blogue para que possamos todos recordar do nosso passado.
    Um abraço fraternal
    Bento Silva Santos
    Telefone (238) 2314956 móvel 99248553

    • Caro amigo. Apreciei o seu comentário mas não fiz mais que relatar só um pouco do que acontecia nesse tempos. Estive também em Tavira mas no 4º curso de 1970. Se se quiser dar ao trabalho de ver alguns rabiscos das minhas memórias, basta ir a : Serviço militar voluntário na c. caç. 3413 – A minha entrada na c. caç. 3413 – Depois da chegada ao BII 17 – e Histórias e memórias da c. caç. 3413 (aqui já optei por adoptar este título para menos confusão)-.
      É uma pequena brincadeira em que tento satirizar momentos engraçados e por vezes caricatos por que todos nós passamos, julgo que o meu amigo também por eles passou, deixando de lado as histórias macabras e do desgraçadinho, pois de desgraças está o mundo cheio, e julgo ser importante pensar positivo e com muita saudade aqueles longínquos tempos. Um abraço.

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