A minha entrada na CCaç.3413

1 Comentário

Depois da recruta em Santarém e da especialidade de “Atiroense”, ou “Cacenhos” como o Azevedo adorava dizer, em Tavira, sou enviado para Beja, onde adorei  estar, diga-se. Depois de várias peripécias engraçadíssimas e algumas semanas passadas, dizem-me para me dirigir à secretaria onde havia novidades para mim. Lá fui, e sem mais, dizem-me que tinha acabado de ser “convidado” a ingressar numa Companhia Açoriana com destino a Angola!  “Açores e Angola”! Podia lá eu recusar um convite tão “Honroso”, ainda por cima com viagens, comida, cama, tudo pago para este magnífico “circuito turístico”…E no dia e hora combinados lá estava eu no Cais de Alcântara de mala aviadas. Mal sabia eu que ia ser a minha primeira grande provação,  e foi quando comecei a ter plena consciência de que o “passeio ia ter os seus custos”… Foi muito duro…O barco Funchal era civil o que me permitiu estar com os meus, bem perto do barco e até mesmo há hora de partida. E vi familiares meus, que eu imaginava duros como uma rocha, a deixarem escapar lágrimas cara abaixo…palavras de circunstância… conselhos só para dizer qualquer coisa… toma lá um maço de tabaco… um sufoco! Eu bem tentei e lá consegui não me desmanchar no meu papel de homem forte… Mas como aquilo doeu…Chegada a hora de partir, lá subi e “Adeus e até ao meu regresso”. Chaminés a fumegar, um ronco ensurdecedor do barco, e, o que ainda hoje não esqueci, o estremeção que o barco deu quando soltaram as amarras…Foi aí que senti  que era “agora”, mas… até quando? Por quanto tampo? O que fazia eu ali? Mas lá zarpamos rumo ao mar! Assim que passamos a barra, o mar começou a bater e pouco depois fomos almoçar. E era engraçado ver os empregados de mesa a andarem todos torcidos para manterem o equilíbrio. Menos piada achei sempre que metia a colher na sopa e ela, a sopa, ia andando dum lado para o outro conforme a ondulação, e não havia meio de acertar. Mas lá me desenrasquei! Que remédio…Quanto mais tempo passava pior este estava, até que rebentou uma tempestade como nunca imaginei. Foi quando tomei consciência plena de que “as forças da natureza nunca ninguém as venceu”. Foi terrível e nunca imaginei que o mar brincasse daquela maneira com um navio daquele porte. Eu que até estava batido a navegar (Cacilhas -Lisboa)  e nunca tinha enjoado,  nunca pensei conseguir vomitar tanto. Que horror, que medo daquele mar alteroso, negro, bravo e desejoso de engolir o barquito. Se é que se pode chamar barquito ao Funchal…Até ao Faial, foi sempre a partir. Nessa madrugada arrancámos manhãzinha cedo, olhando pela escotilha, vi uma mancha difusa ao longe. Era S. Jorge. Subi ao convés e passado um bocado achei estranho não ver ninguém. Dirigindo-me para o meio do navio, por entre as chaminés enormes do navio, fiquei siderado com o pico do Pico!!!

Encontrava-me no meio do Canal. Continuámos e já noite cerrada chegamos finalmente à Terceira! O navio atracou ao largo, e cá de longe víamos umas luzinhas da cidade e fogo de artifício a saudar os militares açorianos que tinham cumprido a sua comissão e vinham de chegada. O nosso transporte para terra foi feito numas barcaças, que eram muito mais baixas que o Funchal, e o transbordo, com mar alteroso, de noite, sacos e malas na mão ainda por cima, não era fácil. Tinha que ser feito no preciso momento em que a barcaça empurrada pelo mar atingia a altura da escada do navio. Eu desenrasquei-me bem. Mas vi muito boa gente hesitar e quando davam o passo em frente, ou ainda a barcaça não tinha chegado lá acima, ou vinha na descida. Resultado: grandes trambulhões. Mas chegado a terra era festa geral. E fardado como os demais militares, fui recebido e saudado como um deles e levei beijos e abraços daquela boa gente. Livre daquele burburinho todo, meti-me num táxi e de depois de quatro dias de barco, lá fui parar ao B.I.I. 17.

Ia começar a minha odisseia na C.Caç. 3413.

Joaquim Alves

One thought on “A minha entrada na CCaç.3413

  1. Caro companheiro, eu não fui na mesma viagem de barco para a Terceira. Fizemos escala também na cidade do Funchal, mas senti o mesmo que tu ao largar o mar da Palha. Foram muitos a ir ao varandim para ver se o barco “tinha rodas”. Na viagem de regresso, 4 meses depois, já foi uma maravilha, nada de enjoo.
    Mário Mendes

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